sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Porque as vezes não consigo escrever poesia

Poesias vem e vão
Sem mais nem menos
Como dias bons
Como alegres momentos
Não duram para todo o sempre
Mas ficam de recordação
Num dia sou poesia
Noutro não
Hoje fiz um poema
Amanhã quem sabe
Ele vira canção
Voz e violão
Enquanto isso
Vamos em frente
Com poesia ou não
Em dias de inverno ou verão
Pois os melhores poemas
Escrevem-se com os pés
E declamam-se com o coração
Nunca se sabe
Que belas liras virão
Quão belos os versos serão
No próximo dia bom

Felicidade (II)

Era feliz
Não porque tivesse muito
Porque nada faltasse
Mas porque bastava-lhe
O pouco que tinha
O pouco é suficiente
Quando é tudo de que se necessita
Era feliz
Não porque não tivesse medo
Culpas e angústias
Mas porque sabia
Que sua fé, sua força
Sua vontade de ser uma melhor pessoa
Era maior que todas as pedras
Juntas
A vida é sofrida
Caminho feito de curvas
Mas não é uma via-cruzes
Nem viemos cá pagar penitência
Era feliz
Porque mesmo a vida machucando
Tinha certeza que uma vida que não machuca
Que não se arrisca
Não vale a pena ser vivida
Por isso tudo
Por ser grato
Com a cota que recebera
E despojado com a parte que ia deixando
Era feliz sem ser
Era feliz estando
E feliz ia passando
Até o dia em que essa palavra
Não fará mais sentido
Nesse dia de serenidade
Felicidade será quase uma matéria
Qualidade do mundo
Natureza pulsante
E não um consolo
Sonho distante
Tristemente
Humano

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

O que significa que os homens devem se manter fora da luta feminista?

Advertência: essa breve reflexão não tem por objetivo falar pelas mulheres; trata-se apenas de uma tentativa de racionalizar logicamente um argumento defendido por elas, o qual eu aceito, buscando determinar, assim, seus pressupostos e implicações. Mas, acima de tudo, é uma tentativa de racionalização que visa refutar as críticas advindas do campo masculino a esse argumento. Essa advertência não teria qualquer valor se ficasse apenas na declaração formal, afinal as palavras de não pretensão podem esconder uma pretensão de fato. Deve-se então partir do suposto de que essa racionalização não revela nenhuma verdade, senão é apenas uma forma possível de fundamentar logicamente um argumento. Alguma mulher pode ou não incorporar essa racionalização ao seu argumento. Feita essa ressalva, avancemos. Acho que agora eu entendo melhor o argumento das feministas, com o qual já estava de acordo, de que o homem deve se manter fora da luta feminista. O argumento se baseia em duas ideias: 1) a mulher deve ter autonomia sobre si mesma, já que esta é exatamente a finalidade da luta (e autonomia em relação quem? Ora, em relação exatamente ao homem); 2) como essa autonomia implica que reflitam sobre suas experiências e ajam por conta própria, a presença do homem distorce na melhor das hipóteses e impossibilita na pior essa autonomia. Isso, no entanto, não significa que as feministas não queiram criar homens feministas. Do contrário a luta não faria sentido, a não ser que fosse concebida como uma guerra entre inimigos mortais cuja vitória de um implica a destruição do outro. Não se trata, portanto, de essencializar as posições – ora, desconstruir ideias essencialistas, seja sobre a natureza da mulher ou da do homem, é precisamente uma das condições de sucesso da luta feminista. O homem não pode tomar parte diretamente dessa luta não pelo simples fato de ser homem; se fosse isso, a luta cairia novamente em ideias essencialistas segundo as quais o homem é homem porque tem pênis, e a mulher porque tem vagina, sendo que seu comportamento – machismo e feminismo – seria deduzido dessa condição imutável. Porque ela é imutável, determinada biologicamente, a luta não faria sentido, já que toda luta social pressupõe a possibilidade e a capacidade de transformar uma condição que é, na verdade, uma situação social. Se se parte de um pressuposto essencialista, conclui-se então que o homem e a mulher são machista e feminista por natureza, e a luta entre ambos se reduz a um cabo de guerra onde a vitória de um pressupõe a derrota do outro e vice-versa; e já que homens e mulheres existem e não podem ser simplesmente destruídos, seria forçoso concluir que essa luta é natural e eterna. Esse tipo de raciocínio nos leva, portanto, a um beco sem saída. Portanto, não se trata de essencializar essas posições. Disso não se conclui que elas não existam. Elas existem, e importam porque têm implicações para a luta feminista. É precisamente este o ponto do argumento das feministas. O feminismo, pensado como um projeto de sociedade onde as relações de poder entre os gêneros estão ausentes, implica a participação do homem, porquanto só com a criação de homens feministas pode uma tal sociedade vir à luz, e para que tais homens surjam é preciso que eles tomem parte da luta, ou seja, que eles se criem pois, como seres humanos que são, é impossível que simplesmente sejam criados por uma força exterior. Por outro lado, o feminismo enquanto modo e espaço de organização e luta política de uma categoria social específica, a mulher, implica a ideia contrária, isto é, que as mulheres tenham autonomia e completa liberdade para refletir sobre suas próprias experiências, necessidades e objetivos. Daí que, embora o feminismo tenha o mesmo sentido tanto para a mulher quanto para o homem (feminista), seu significado para uma e para o outro são em tudo distintos. E como na disposição de poder entre os gêneros o homem ocupa o polo dominante e a mulher o dominado (independentemente se esse homem se vale ou não conscientemente dessa posição de poder), cabe a ela tomar a posição ativa e insubordinada, e o homem a posição passiva e subordinada, e isso pressupõe que o feminismo enquanto luta política (no sentido que dei acima) seja, em princípio, exclusivo da mulher. Dessas novas posições políticas, que subvertem as posições sociais tradicionais, é que deriva o papel e o lugar de cada um dos gêneros nessa luta. Portanto, a defesa de que os homens mantenham-se fora da luta feminista é um princípio político, do qual alguns movimentos feministas se aproximam mais e outros menos, desde os que negam veementemente qualquer participação masculina até aqueles que a aceitam em pé de “igualdade” (as aspas são minhas). Esse princípio político não quer dizer que os homens não tenham algo a dizer sobre o feminismo/machismo, ou que as mulheres não querem ouvir. Entretanto, o fato é que o feminismo quer nos colocar justamente na situação oposta: agora são as mulheres que falam e os homens escutam (pelo amor de jah, homens, não confundir isso com a ideia infantil de que as oprimidas querem, assim, se transformam em opressoras; o que elas querem que escutemos é o seu ponto de vista).

Da série: entendendo o próprio machismo

Há alguns meses, publiquei aqui uma pequena anedota que sucedeu comigo e da qual afirmei estar orgulhoso: tinha sido chamada de mulher por uma garota. No auge da minha alegria vim a público declarar-me como mulher. Recebi críticas de um lado, e elogios de outro. Uma grande amiga me disse que eu estava sendo ofensivo. Na ocasião não entendi exatamente onde estava a ofensa. Ocorre que, orgulhoso com os resultados positivos da minha própria jornada pessoal de desconstrução de meu habitus machista, provavelmente não quis entender. Ao ser chamado de mulher eu estava sendo elogiado, mas quando eu mesmo me declarei mulher não estava elogiando as mulheres. Refletindo sobre o episódio agora, percebo que a mulher que me chamou de mulher estava querendo dizer que eu era o HOMEM mais mulher que ela conhecia, mas obviamente não uma mulher. E isso muda tudo. Com efeito, uma terceira mulher (nessa história toda) me fez ver depois que eu não apenas sou um homem, mas me identifico como tal e, no fundo, gosto de ser um. Percebi que eu não preciso me identificar com o modelo social machista e sexista de homem para ser um. Não me identificar com esse modelo de homem não faz de mim mulher. Como essa outra amiga me disse, se estou com calor tiro a camisa e ponto; se estou apertado, abro a braguilha e faço xixi na rua sem medo algum, eu simplesmente faço e não penso sobre os significados desses atos privilegiados. Mas há, ainda, comportamentos muito mais sérios, como pressionar a parceira a fazer sexo sem camisinha, quando esse ato têm consequências muito mais negativas a ela do que a mim exatamente pelo fato de ela ser mulher e eu ser homem. Quando faço isso não apenas estou sendo egoísta, estou sendo machista. E sem dúvida poderia multiplicar os exemplos de pequenos comportamentos e atitudes, aparentemente inofensivos, mas que são opressivos do ponto de vista da mulher, tais como gestos físicos, inconscientes e implícitos, de intimidação masculina. Daí porque me declarar uma é extremamente ofensivo. É ignorar todas essas diferenças e, pior ainda, é ignorar a minha própria condição de homem e meu papel, não obstante crítico e reflexivo, na reprodução cotidiana do machismo. Tudo isso me fez compreender melhor algo que eu já aceitei mas que talvez não tenha percebido todas as suas implicações e consequências: que a minha condição de homem é determinante, e eu nunca vou saber – porque nunca vou experimentar – como pensam e sentem-se as mulheres. Disso decorre um corolário essencial: elas têm de pensar e falar por si mesmas, e isso supõe que os homens estejam em princípio fora da luta contra o machismo. Em princípio, porque essa participação, para além da sua própria desconstrução pessoal, se faz limitada pela sua condição de homem e pelo que esperam dela as mulheres. E tudo isso reforçou em mim também a certeza de que a luta contra o machismo, ao menos de uma perspectiva individual, é diária e se faz em minúsculos campos de batalhas da vida cotidiana. Os homens que se consideram realmente feministas devem entender que, muito mais do que levantar bandeiras, gritar palavras de ordens, apreender princípios abstratos e argumentos teóricos ou decorar dados estatísticos, somente irão começar a compreender profundamente o patriarcado e o seu próprio papel na sua reprodução ouvindo atentamente as mulheres com quem dividem a vida cotidiana – colega, amiga, namorada, irmã, mãe, etc. –, e com elas se colocando numa relação de alteridade e empatia. E isso já é um papel bastante ativo, uma vez que essas mulheres não precisam ser feministas e ter consciência crítica do machismo para que o homem que se coloque do seu ponto de vista entenda como suas crenças e atitudes são machistas. Empatia e alteridade, embora seja uma postura de quem ouve e não de quem fala, depende da iniciativa do homem, ou seja, depende de uma vontade pessoal do eu de se refletir n@ outr@. Mas quando se trata de mobilização, organização, discussão das suas próprias experiências entre si, troca de ideias e valores, definição de objetivos, nisso o homem tem um papel quando muito exterior, passivo e subordinado. Chegamos, assim, a três premissas básicas que devem nortear a ação do homem feminista: 1) sua condição de homem é determinante para a sua percepção e entendimento tanto do machismo quanto do feminismo; 2) dessa condição (que, vale lembrar, não é inerente, mas trata-se de uma escolha; eu, por exemplo, escolhi ser homem) decorre um papel específico e subordinado na luta pró-feminismo; 3) o melhor lugar para o homem compreender e atuar contra o machismo é a nível cotidiano, nas relações próximas e nas atividades do dia-a-dia.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Felicidade

Tantas vezes
Eu já quis
Desistir
De ser feliz
Levar a vida
Sem nenhuma expectativa
Achando que só aceitando
A amargura
Poderia eu seguir
Senão em paz
Que seja não em guerra

Mas nunca consegui
Essa necessidade
De ser feliz
Me persegue
Como uma flor frágil
Que teima renascer
Mais e mais exuberante
No solo pobre e infértil
Do deserto

Ela há de me perseguir
Até o fim dos dias
Até que nada reste
Senão a semente
Esperando outra vida
Outra oportunidade
Pra teimar novamente
Porque ser feliz
É pura teimosia nossa
Relicário
Chama de breviário caseiro
Que nem a morte apaga

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Juventude

Tenho um nó na garganta
O gosto amargo
De quem quis beber a vida
Pura, num só trago
E queimou a boca
E de gole em gole
Ficou bêbado
E a desperdiçou toda
Numa noite
Alegre de porre
Da qual mal me lembro
Acho que toda juventude
É assim mesmo
Um exuberante desperdício
Que se aproveita ao máximo
Justamente desperdiçando-a
Até a última gota
A juventude urge, é pressurosa
Tem sede, e é pródiga
Vive o hoje, o agora
O amanhã lhe parece tão distante, abstrato
O corpo é forte
O coração impetuoso
As pernas infatigáveis
A juventude nunca satisfaz-se
Com coisa pouca
Porque há sempre mais
Por fazer
O mundo é a sua concha
E nem nos damos conta
Que ela um dia acaba
E cá estamos nós
Assombrados por erros
Sentados sobre um amontoado de lembranças amareladas
Do que poderia ter sido
E não foi
Foi-se
Para sempre
E só nos resta perguntar
Estupefatos
Como diabos vim parar aqui?
O engraçado da vida
É que se a vive sem saber vivê-la
E quando se aprende
O tempo da vida já passou
A juventude
Que era primavera
Cheia de promessas
Esfriou, anuviou e fez-se inverno
Então somos velhos
Atulhados em culpas
Ranzinzas e rancorosos
Talvez arrependidos
Talvez satisfeitos
Mas quase sempre muito machucados
Cultivando mágoas
Como fantasmas saudosos do passado
Certos de que é isso mesmo
O fim das ilusões
Que significa tornar-se adulto
Abjurar de sonhos vãos
O fato é que ninguém irá lhe ensinar
Como viver uma boa vida
Como crescer e evoluir
Com sabedoria
É saber que não se encontra
Em livros ou nos ditos da avó
Em pitos de mãe
Ou conselhos de amigos
É preciso descobrir por si mesmo
Não há outro modo
Senão aprender do pior jeito
Com os próprios erros
Haverá tempo ainda?
Sempre há
O que falta
É coragem
A coragem da juventude

Ciência e fé

Não faz mal acreditar em magia
Quero dizer
Acreditar que o mundo
É um lugar mágico, encantado
E que o universo conspira
Lhe diz o que fazer
Se você souber ouvir
E prestar bastante atenção
Pequenas coincidências
Não são meros acasos
Quando se trata dos caminhos da vida
Dos mistérios do coração
Neste caso, a ciência não é uma boa guia
Entre partir e ficar
Desistir ou tentar
Continuar ou mudar
E projetar uma máquina
Arquitetar uma casa
Planejar um sistema
Não há afinidade alguma
Não há cálculo, lei ou fórmula racionais
Capaz de justificar uma escolha na vida
E isso também vale pra opções políticas
No sentido da sociedade
Com a qual sonhamos
E que queremos deixar de herança
Cada escolha na vida
É um salto de fé sobre um abismo
E como a fé é domínio
Dos deuses e deusas
A ciência
Que é arte das pessoas
Esse ser prometeico
Não apita
E se fiar nela é equívoco
Então, quando alguém lhe perguntar
Porque escolheu isso e não aquilo
Diga que você deixou-se levar
Por um pássaro que pousou na sua janela
E grasnou um nome familiar
Por uma nuvem que lembrou-lhe a face de alguém
Por uma árvore que balançou enquanto passava sob ela
A caminho de uma grande aventura
Por aquela estranha sensação no ar
Que sentimos, mas não sabemos definir nem explicar
E que soa exatamente como uma voz lhe dizendo:
Vá em frente, vai dar tudo certo

Tarefas da revolução

Na próxima semana
Tenho que apresentar
Um seminário
E revisar
Três projetos
Pouca coisa
É verdade
Não vim aqui reclamar
Mas acontece que hoje
Tem uma criança em casa
Desesperada por brincadeira
E na ordem de importância
Das tarefas imediatas
Da revolução
É muito mais imprescindível
Para a humanidade toda
Eu diria
Que pilhemos como piratas a praia
Que giremos no galho da árvore
Como ginastas
Como pássaros ou macacos
Que ensaiemos nossos primeiros passos
Na lua
Como astronautas
Que descubramos quem imita melhor
O som dos animais
Isso tudo importa mais
Que qualquer teoria
Que qualquer trabalho
Se queremos um mundo novo
Para as nossas crianças
Comecemos agora mesmo

Agradecimento

Certa feita
Vi-me
Na contingência
De não ter
Nem saber
Como agradecer
Embaraçado
Perguntei
Como poderia
Responderam-me
Agradeça
Ajudando
Alguém que precise
Também
Um dia

Fica mais um pouco

Onde vais com essa pressa?

É tarde

É cedo
Faço-lhe café
Com torrada e geleia
Mas antes fique deitada comigo
No meio peito
Só mais uns minutinhos
Que eu gostei de você
E ainda nem me acostumei com teu cheiro
Muito bom, se quer saber
Cheiras a terra molhada
Como eu ia dizendo
Não posso deixar-te ir
E se eu não mais te ver?
Sabe como é
A vida é cheia de surpresas
Boas e ruins
Tantas coisas podem suceder
A partir do momento que saíres
Daqui, de cima de mim

Não vês que lá fora o tempo passa
A vida acontece
E eu tenho trabalho
Tenho lugares onde estar
Pessoas a falar
E coisas a fazer?

Ora, não é por isso que vais embora
Sem uma transa de despedida
Não, não senta na beirada da cama
Ela é como uma ilha
E nós somos como náufragos
Olha que faço birra
Faço manha
Passo os pés pelas suas costas
Faço cosquinha
E dou mordida
Na bunda
Como é teu nome mesmo?
Ah, verdade, tão bonito!
Não tinha reparado nesta marquinha
Perto do seio
Me conta
Um segredo?

Quem sabe outro dia, eu volto
Tenho que ir, sério

Tu não me enganas, fica agora
Isso, larga o celular
Repara no bico
No meu dengo
Vais resistir assim mesmo?
Lá fora faz sol, é primavera
Mas se você se for
Aqui dentro será inverno
Com chuva
Vai, esquece o mundo
Esquece o emprego
As outras pessoas
Elas usam roupas
Não andam nuas
Como nós dois
Vem, te aconchegas
Que ainda é cedo
E já é muito tarde
Tarde em demasia
Pra não amar
Depois de procurar
Em tantas camas frias
Por um amor como este
Que havemos de ter
Um dia

O querer

Não, não sei
O que quero dessa vida
Se é exatamente esta
A brincadeira
Acaso soubesse
Ela perderia
Toda a graça
E eu não sou estraga-prazeres
Nem me agrada azedar
Surpresas

Quem comeu meu pedaço?

A princípio
Não sabia
Só sentia
Que havia
Nascido
Em falta
Faltando um pedaço
Vim ao mundo
Comido
Arrancarem-me um naco
Tentei preenche-lo
Com tudo quanto é ainda mais vazio
Álcool, amores
E objetos que se compram
De tudo quanto é tipo
Para todos os gostos
Até que ao invés
De cavar
Profundos abismos
Para enxertar
Num buraco estreito
Resolvi entrar
Naquela cova rasa
E me senti confortável lá
Dentro
Vi que ela era menos
Ameaçadora
Se eu a aceitasse
Recolhido
Em seu seio
Deitado
Mas não derrotado
Ainda vivo

Pelas horas

A essa hora
Tem pessoas
Trabalhando
Estudando
Voltando para casa
Cansadas
Pessoas sofrendo
Doentes
Na cama
Pessoas festejando
A vida
As amizades
A essa hora
Tem pessoas
Se amando
E se odiando
Pessoas tentando realizar
Seus sonhos
Tem pessoas sós
E acompanhadas
Pessoas terminando historias
E começando outras
Pessoas se encontrando
E se separando
Pessoas sem nada pra fazer
E outras com tantas
Tem tantas
Pessoas
Que minhas dores
Meus amores
Minhas dúvidas
E angústias
Parecem coisa pouca
Pouca demais
Pra uma só pessoa

Um passeio

A vida é um passeio
Se perca
Se demore
E se for pra se apressar
Que seja só
Pra sentir a brisa
Do vento
Nos cabelos
Estar vivo
É um milagre
Que acontece
Todos os dias
Com bilhões de nós

Revolução

Eu cheguei a acreditar
Um dia
Que só o fuzil
Fazia uma revolução
Que era preciso lavar o chão
Com sangue
Para redimir a humanidade
Depois passei a acreditar
Que só a verdade
É revolucionária
Que é tudo uma questão
De conhecer as coisas
Como elas de fato são
Mas nada disso nos leva muito longe
Porque a verdade
Sustenta-se em última instância
Na ponta de uma arma
E quem puxa-lhe
O gatilho
Fá-lo em nome de uma verdade
Foi assim que descobri
Que só o amor é revolucionário
Sem amor
Não há revolução
Com um fuzil
E uma boa argumentação
Ou vice-versa
Pode-se mudar a cabeça de uma pessoa
Mas se você não toca e muda
Seu coração
É tudo em inútil
É tudo em vão
E aí não tem jeito
Não há multidão
Não há bandeira
Estratégia
Ou instituição
Que resolva nosso problema
Mudar o mundo
Começa dentro
Pelo avesso
Na forma que o vemos
E parte dele fazemos
Se você não aceita a tua família
Teus amigos
Teu vizinho que seja
Com e pelos seus próprios defeitos
Como espera aceitar o mundo inteiro?

Epifania

Conheço poesias
Que se limitam
A um mero arranjo
Bonito
Atraente
De palavras
Como um buquê de plástico
Embora aparentemente
Vistoso e inteligente
Não despertam nenhum sentimento
Nem sequer uma emoção
São como pessoas lindas
Porém vazias
Podem ser sedutoras por fora
Mas estão mortas
Por dentro
Podem despertar tesão
À primeira vista
Mas a foda
É péssima
O gemido
É monótono
E o gozo
É fingido
Assim como as fodas
As boas poesias
São epifânicas

Um pouco de Clarice e de Chico

Sou um pouco
Como Clarice
Nada conheço
Ou quase nada
Das grandes obras
Dos imortais
Da pena
Dos ilustres
Beletristas
Do passado
E suas obras imortais
Quanto mais
Poderia eu
Declamar-lhes
Um poema
Uma estrofe
Sequer um verso
De memória
Escrevo poesias
Porque saídas do fundo
Do mais íntimo
Como um grito
Passado dois dias
Mal lembro que havia-as escrito
Será que tenho algo
De Francisco
Assim como Xavier tinha algo
De poeta?
Alguma coisa me diz
O que escrever
Embora não diga o porquê
Escrevo não com a cabeça
Tampouco com a mão
Não tenho métrica
Nem regras
Escrevo com a alma
O que lhe comunica o coração
Escrevo por instinto
Como faz o salmão
Subindo o rio
Pelejando contra a correnteza
Para ter seus filhos
No mesmo exato lugar
Onde nascera

A morte

Se eu morrer amanhã
Tudo terá valido a pena
Isso quer dizer que a vida
Não tem um sentido
Um ponto de chegada
Um objetivo
Senão um único princípio
O objetivo da vida
É vivê-la
Somente isso
Ela simplesmente é e está
E o que foi, é como deveria
Ter sido
Daí que não há tempo
Para arrependimento
Ou para desperdiçar
Com pudores
Amores comedidos
Medo ou rancores mal resolvidos
A vida é como um relacionamento
Amoroso ou fraterno
Ela não dá “certo” ou “errado”
Aliás, com que critério
Medimos da vida o sucesso?
Ela não é uma corrida de cavalos
Não se está à frente ou atrás
Não há páreo
Tampouco pódio
“Que desperdício
Foi tão jovem
Tinha tanto potencial
Faltou-lhe pouco”
Para quê? Eu pergunto
Se eu morro amanhã
Vou tranquilo
Deixo de mim um pouquinho
Em cada rosto querido
Em cada ombro amigo
Em cada desconhecido
Que cruzou comigo
E de alguma maneira
Para ele
Fez sentido
Esse encontro fortuito
Se eu morro amanhã
Parto em corpo
Mas fico em espírito
Nalgum conselho
Que acaso tenha dito
Nalgum gesto bonito
Que fica de exemplo
Claro, nos muitos malfeitos
Que não se deve tornar a fazê-los
Fico na memória
De um carinho
De um riso
De bons momentos
Fico nesta poesia
No brilho dos olhos
Marejados
De quem a lê
Fico nalgum arranjo de flores
Colhidas pela estrada
Que a uma pessoa amada
Dei de presente
Se eu morrer amanhã
Nada de chororô
Enterrem-me debaixo
De uma árvore
De copa larga e frondosa
Daquelas que farfalham
Suavemente
Ao balanço do vento
Deem meu nome
A um bebê risonho
De cabelos encaracolados
E eu viverei de novo
Pois todo o mundo
Merece uma nova chance
Se eu morrer amanhã
Tenham certeza que a morte
É só o recomeço
De um ciclo que fazemos
Da lagarta à borboleta
De tempos em tempos

Compreensão

Não desejo que não julgues
Que te cales
Juízo
E boca
Nos todos temos
E somos livres
Para exercitá-los
Ao contrário
Quero que digas
Que fales
Aquilo que veio ao mundo
Dizer-nos
Mas para isto
Antes é preciso saber que
A partir do momento
Em que você começa a julgar menos
E a ouvir mais
É quando você aprende a abrir o espírito
Ao invés de fechar o corpo
Em preconceitos
A descentrar teu ego
Rodopiá-lo para fora do centro
Longe de seu umbigo
E a perceber o certo e o errado
Sob uma pluralidade de ângulos
Quanto o teu tão legítimos
Que fazem do teu certo
E do meu errado
Intercambiáveis
Em princípio
É neste exato momento
Em que nasce o entendimento
Mútuo
Como saber compreensivo
Como empreendimento
Coletivo
Como esperas ser entendido
Se não consegues compreender outros sentidos?
Meu mundo é pobre e exíguo
Se não partilhas o teu comigo
Meu espírito é triste e vazio
Se num único indivíduo
Amuado
Ele habita sozinho

Vacilos

Eu já fiz muita coisa
Errada
Mesmo sabendo
Qual era a certa
A se fazer
Senti vergonha
Martirizei-me
De culpa
Humildemente
Peço desculpa
E tal como eu pude
Aprender
Com tanto vacilo
Espero que possam
Perdoar-me
Um dia
Aqueles que tenho ofendido
A morte
É certa
E a vida é muitíssimo
Pouca
Para gastá-la
Toda
Com rancor
Afinal
Que atire a primeira pedra
Quem nunca cometeu
Um só vacilo

Consulta com Dr. Chico

Acuda, Chico!
Venho sentindo
Uma pontada
Aguda
De dor
No órgão
Do amor
Atacou-me febre alta
Tive sonhos
Molhados
Palpitação
E até alucinações
É grave doutor?
Perguntei-lhe
Recomendou-me
Longos passeios
Cantar a plenos pulmões
Junto ao violão
Contemplar a lua
Sair à rua
E beber a tempestade
Pois é inútil dormir
Que a dor não passa

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Deus é criança

Dizem que deus
Escreve certo
Em linhas tortas
Que o universo
É misterioso
E conspira
Nós que não compreendemos
Seus desígnios
Suas maquinações
Eu prefiro pensar
Que deus
O universo
Como quisermos chamar
É uma criança
Que se ri
E se diverte
Às custas
Da nossa condição
Humana
Mas ela não faz por mau
Apenas é criança

A medida da troca

Entre o que tu
Queres me dar
E o que eu
Posso tomar-lhe
E vice-versa
É, precisamente
Onde reside
O ponto arquimedi-
humano
A medida
Exata
Da troca
Da dádiva
Entre duas pessoas
Como sujeitos
Livres e iguais
Em desejos
E sonhos

Amor inventado

Eu e o Cazuza
Adoramos um amor inventado
E não é, precisamente
O amor uma invenção
Uma invencionice
Da cabeça
E do coração?
Não é o amor
A mentira mais honesta
E a verdade menos sincera
Que existe?
Porque o amor não é coisa dada
Um fato que acontece
Que nasce e cresce
Independentemente
Da vontade
É coisa criada
Imaginada
É a autopoeise
Da alma
Que acha
Que finge
Que gosta
Doutra
A tal da cara-metade
E haja metades
Pra tanta metade
Em falta
É casa construída na areia
Tão bela e tão frágil
É traquinice
De criança travessa
Que se perdoa fácil
Com um puxão de orelha, não
Com um beijo na bochecha
De condescendência
E “vá brincar novamente, sua pentelha”
É a mentira mais verdadeira
E a verdade mais mentirosa
Que a gente pode inventar
Ao longo duma vida inteira
Gostosa de mentir
E boa de acreditar
A gente se engana
E se ilude por querer
Querendo
De boa fé
E não há motivo
Por mais que doa de dor
Pra se arrepender
Quem nos dera
Todas as mentiras do mundo
Fossem tão verdadeiras
Quanto mentiras de amor

A estrada

Poucas coisas são mais tristes
Do que a estrada
Vista pela janela do ônibus
No silêncio da madrugada
As luzes miseráveis no horizonte
Contra o negrume lúgubre da noite
São como fogos fátuos
Que atestam a nossa pequenez
A nossa brevidade
As casas de fazenda
Solitárias
Pontilhando como vagalumes
Parecem saídas de um filme de terror
As luzes mortiças das cidades
Como um grande cabaré decadente
Frágeis contra as trevas
Que as ameaçam engolir
As ruas desertas, mortas
Como vielas de cemitérios
Feitos de concreto e aço
Que ninguém traz flores
Os postos e máquinas
As fábricas e armazéns
Os motéis e bares
As igrejas e bordéis
Tudo me lembra abandono e solidão
Que nem o estrelado do céu
Faz mais alegre
As rodoviárias melancólicas
Com tantos caminhos
Não nos dizem pra onde ir
São entrepostos de almas
Perdidas e magoadas
Vendendo-se e trocando-se por aí
O cadência monótona do ônibus
Me embala na poltrona
Mas eu não consigo dormir
A mente vaga e fica
Em cada árvore
Em cada vaca
Em cada pobre casa de beira de estrada
Tristes e solitárias
Que passam rápidas
Fugindo como presas acuadas
Do tempo e da morte
Do desgosto e do esquecimento
Essa noite não tem fim
Porque a viagem
Jornada longa e demorada
É dentro de mim
Não se apresse motorista
Eu não tenho parada
Aonde ir
Descansar a alma
Calejada
Nessa beira de estrada
Sem fim

Réquiem para Manoel de Barros

A margarida
Cortada
Jazia
Derribada
Sobre a grama
Quando a criança
Que passava
Cutucou-a
Cuidando-a
Morta
A flor então
Despertou
Olhou à criança
Através da janela
D'alma
E disse:

Ponha-me
Num copo
D'água
E eu flores
Serei
Nova
Mente

Careta

Eu me divirto
Fazendo caretas
Gosto de me comunicar
Com a cara

Uma careta diz muito
As vezes mais do que palavras
Espécie de telepatia
Como troca de olhares
Passa a ideia de cumplicidade
De “tamo junto”
“Entendeste?”

Para cada pessoa
Uma careta diferente
Pra adultos
Levanto a sobrancelha
Faço cara de sufoco
De “tá duro”
Pra crianças
Mostro a língua
Envesgo os olhos
A careta clássica
Pra quem gosto
Faço bico
Mando beijo
Escancelo a boca
Num sorriso
Mas para desconhecidos
Na rua
Faço cara de paisagem
A mais sem graça
Das caretas

Será que entendem
Que isso é cacoete?
Eu pisco
Mordo os dentes
Lambo o beiço
Faço careta
A torto e direito

O burro (ou Nas asas de Mário Quintana)

Pode gritar
Pode açoitar
Não ando
Além do meu ritmo
Você se irrita
Briga
Ganha uma úlcera
E menos anos de vida
Eu empaco
E quando quero
Caminho
Lépido
Sorrindo
Pra qualquer lado
Que me der na telha
Viverei um século
Nessa leve toada
A vida passa
Todos vocês que acima estão
Sufocando nosso espírito
Vocês passarão
E nós passarinho
Como andorinha
Em algazarra
Sob a chuva de verão

Não somos maus

Não somos maus
Fazemos maldades
Mesmo incontáveis
Não é igual
Somos condenáveis
Mas nem sempre culpados
Dirão os Juízes
Em seu veredito final

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

(A)Flor(a) vagina

A-
Flor-
A
Vagina
Vulva
Em flor
Lábios
E clitóris
De-
Flora

A natureza (da mulher)

A natureza
Não é mãe
Não é virgem
Não é santa
A natureza é puta
É selvagem
É despudorada

A natureza dá
A vulva
Para quem quiser
A natureza gosta de chupar
E de meter
A natureza quer gozar
E sentir prazer
Quer gritar
E gemer
Quer se libertar
E ser
Apenas mulher
Natureza
Livre
Que trepa
Faz sexo
E até amor
Que goza
Sangra e sente dor
Como os bichos
Seus filhos
Nascidos da terra e do mar

A natureza tem
Uma buceta
Úmida
E quente
Caverna que arde
Intensamente
Numa densa mata de pentelhos
Aos que buscam conhecer
Seus prazeres e mistérios
Esteja ciente
Ao entrar
Seus lábios
Ela abre
Se quiser
E fecha
Quando não quer

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Da palavra lavrada à mão e percorrida a pé

Colocada diante
Das misérias
E injustiças
Do mundo
A palavra
Parece tão pobre
A minha poesia
De repente
Parece tão vazia
Minha diatribe intelectual
Tão inútil
Minha dor sentimental
Tão fútil
Afinal
Só entende
Quem caminha
E só exprime
Quem manuseia

Dê comigo um rolê?
A cabeça pensa
Onde os pés estão
E quem não anda
Não sente o grilhão
Que lhe prende

Ensina-me, vida
A pensar com a mão
Como eu vejo com o pé
Mas não se apresse
Ainda há muito chão
Pra calcar com fé

Sinta a vida

Respire fundo
Encha-se de mundo
Divida comigo
O ar que dá a vida
No peito cabe tudo
Mais que imaginas
Sinta teu corpo
Nossos sexos
Teu gozo
Estás viva
Em carne
Sangue e lágrimas
Feitas de sonhos
Loucos

O nada

O nada
O que é?
O humano desconhece
Essa entidade
É-nos talvez a única
Experiência vedada
Estamos sempre cercados
De algo
Que projetamos
Infinitamente
No tudo
Se somos pura consciência
Da vida
O nada é a morte
Cuja melhor definição
É o sono profundo
Eternamente

Tudo acaba bem

Podes saber
Sem porquê
Incrivelmente
Tudo acaba bem
Pois há de ser
Recomeço
Novamente

Igualmente especiais

Não há pessoas especiais
Somos todos iguais
Em princípio
Assim mesmo
Nós todos somos responsáveis
Por fazer as pessoas ao lado
Se sentirem especiais
Como são, de fato

Tribunal do preconceito

Julgar e acusar
As pessoas
É como cuspir
Contra o vento
Tenha certeza
Que volta
Como balas
Bem no meio
Da cara

Estereótipo
E prejuízo
Que diz mais
Não menos
De quem fala
Do que do outro
Feito réu
Sem defesa
No tribunal
Do preconceito

Onde está a justiça
Em julgar o diferente
À luz da tua própria
Ignorância
E verdade?

Hipócrita
Cínico
Cheio de raiva
Eu já cuspi muito
A torto e direito
Mas cansei de lavar
De cuspe a minha cara
Hoje prefiro trocar
Saliva
Num beijo

Não têm explicação

As vezes eu penso
Que só quando pararmos
De pensar
É que vamos começar
A saber
Quando pararmos de desejar
É que vamos ter
Quando simplesmente estarmos
É que vamos ser

Sobre o sovaco da Grazi e a bebedeira da Letícia

Por que tanto barulho em torno do sovaco não depilado da Grazi ou da bebedeira sem culpa da Letícia? É por que adoramos perseguir celebridades, a quem atribuíamos um status de semideuses que devem se comportar sublimemente? Ou seria por que os moralistas de plantão estão sempre prontos a policiar todo comportamento alheio que fuja aos padrões da “moral e dos bons costumes” (e isso seria ainda mais verdadeiro no caso de celebridades, as quais supostamente deveriam dar o exemplo)? Pode ser, também, por causa do simples prazer de fofocar e falar mal da vida alheia, como que para satisfazer o nosso ego e o nosso orgulho? Ou poderia ser por causa da heterofobia que nutrimos em relação a tudo o que é diferente, que destoa da “normalidade”, de tal modo que nos normalizamos através da “anormalidade” do outro? Todas essas perguntas são em alguma medida pertinentes. Mas não esqueçamos do óbvio: Grazi e Letícia são mulheres. E o que se espera de uma mulher é que mantenha seu corpo liso, cheiroso e magro para servir aos homens, e que não beba “como um homem” (sic) ao ponto de rolar pelo chão, pois isso não é coisa que “mulher direita” faça. Afinal, uma mulher que fica bêbada e deita na rua não pode se queixar se for estuprada, porque foi ela que não se deu o devido respeito. E uma mulher que não se depila não deve culpar o marido pela traição sexual, afinal foi ela quem não se esforçou para ser sexualmente atraente para ele. Grazi e Letícia talvez não saibam, mas o que elas fizeram, mais do que ignorar as exigências éticas de uma sociedade moralista a fim de fazer algo com que se sentem bem, foi reivindicar seus corpos, reapropriá-los e reintegrá-los a si próprias como mulheres. Foi um ato de rebeldia contra a dominação masculina que se exerce através da domesticação do corpo feminino. E cada manifestação negativa, que chamou a Grazi de “nojenta” (os homens são nojentos por ter pelos, por acaso?) ou a Letícia de “sem-vergonha”, é uma reação a esse ato de rebeldia, uma tentativa de recolocar a ordem no lugar ao mostrar que atos como esse não serão tolerados. Que Grazi e Letícia permaneçam firmes em seus libelos corporais. Que a solidariedade entre as mulheres prevaleça. Que vença o amor, bêbado e sem-vergonha, de punho cerrado em riste e sovaco cabeludo.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Teoria do discurso e democracia: sobre separatismo e impeachment

Essas pessoas que estão falando em separatismo e impeachment provam que democracia não é um valor universal, mas antes um discurso cujo sentido está sempre em disputa: democracia desde que seja do jeito que eu quero, desde que represente os meus interesses, desde que vença o meu candidato/partido. Dito em bom português, para essas pessoas democracia é um adereço bonito, mas prescindível: serve para legitimar discursivamente a vitória dos vitoriosos, ou, quando são essas pessoas os perdedores, democracia não serve para nada ou, na melhor das hipóteses, serve como um cavalo de batalha contra a falsa democracia dos vencedores. Se Aécio tivesse vencido, essas mesmas pessoas que agora pedem impeachment, lançam dúvidas pouco fundamentadas sobre o sistema eleitoral ou desmerecem o voto dos cidadãos do norte/nordeste como se fossem de segunda categoria, estariam dizendo precisamente o contrário: estariam afirmando como a democracia é maravilhosa porque permite ao povo punir representantes corruptos, ineficientes ou impopulares e substituí-los pacificamente por outros, sem ruptura institucional. Aliás, essa concepção ao mesmo tempo absoluta e relativa de democracia, consoante as circunstâncias nas quais estão situadas as falas dos atores, fica muito clara no argumento que certos grupos, entre os quais sem dúvida estão muitos eleitores do Aécio, usam para justificar o golpe militar de 64 (e isso não de hoje, mas desde 64): o golpe contra a democracia foi para salvar a própria democracia; uma ditatura foi instaurada em nome da democracia. A democracia é, então, uma palavra vazia, sem conteúdo ou significado algum? Em princípio sim. Basta pensar nas incontáveis intervenções militares antidemocráticas (mais do que antidemocráticas, criminosas, genocidas) dos EUA e como elas foram justificadas e são vistas por muitos como uma cruzada democrática. Do ponto de vista da esquerda, essa visão pode parecer cinismo, e para alguns agentes privilegiados inseridos nesses eventos, detentores de saberes e poderes não ordinários, provavelmente o é. Mas seria um equívoco supor que todos os indivíduos de direita são cínicos e oportunistas e se valem conscientemente do discurso democrático como retórica para manipular em favor de seus próprios interesses. De modo geral, essas pessoas são tão “manipuladas” quanto. Em termos concretos e em relação ao nosso objeto aqui, seria equivocado supor que todos os Aecistas que pedem impeachment e secessão neste momento não são pessoas que, de uma forma ou de outra, acreditam estar com isso agindo democraticamente em prol da defesa da democracia. Aqui entra a democracia como conceito, porque para além de um discurso vazio que pode tomar virtualmente qualquer forma, a democracia exprime uma ideia, um conceito. Ou seja, existe um ponto de referência onde o discurso se ancora, embora esse ponto seja tão impreciso e flexível que permite ser adaptado e ressignificado dentro de qualquer contexto discursivo. Afinal, o que queremos designar ou simbolizar por meio dessa palavra. Fazemos uma vaga ideia de que se trata de um governo do povo para o povo, porém feito pelo povo? E quem é o povo? O povo é o sul e os nordestinos são outro povo? O povo é a classe média e os pobres são um sub-povo? E o que é governo do povo? Para os nazistas – e quando digo nazistas pense-se: durante o nazismo, isto é, grande parte da população alemã como um todo (porque é um absurdo comum imaginar os nazistas como uma pequena trupe de chefes sádicos e monstruosos e não como pessoas comuns nos seus trabalhos e atividades) –, o nazismo era o verdadeiro governo do povo. Nós, do bloco democrático antifascista (liberais, socialistas, etc.), podemos dizer que jamais um regime político como o nazismo poderia ser identificado com a democracia, que esta é uma falsificação grotesca, mas para a nação alemã, naquele contexto dado de uma hegemonia política, o nazismo era a democracia. E a não ser que essencializemos ontologicamente o conceito, como se ele tivesse uma existência fora das práticas e dos discursos onde ele histórica e socialmente existe, isto é, como se tivesse uma existência metafísica (e, paradoxalmente, objetiva) de tipo platônico, temos que admitir que o sentido da democracia é um arranjo precário de significados em eterna disputa. Vivemos numa democracia mas, para muita gente, ela é um entrave ou um engodo. Passariam por cima dela se pudessem em nome da sua própria concepção de democracia e de povo. E isso é terrível. Essas pessoas ainda são vistas com desconfiança, como uma minoria fanática e irresponsável, mas como mostra a história o sentido do discurso que elas impõem pode ser tornar hegemônico. Cabe a nós preservar o sentido atual e, mais do que, aprofundá-lo e melhorá-lo.

A crise hídrica em São Paulo em três explicações

Eu tomava banho e, enquanto a água caía, pensava na crítica situação dos paulistanos e cidades vizinhas; pensava em como não é nada impossível que estejamos à beira de uma das maiores tragédias sociais pela qual esse país já passou (se bem que o semiárido sofre a décadas, séculos com a seca e ninguém daqui do sul se preocupa. Dito isso contudo, a súbita escassez de água numa megalópole que abriga mais de 20 milhões de pessoas teria consequências catastróficas inimagináveis). Eu não quero parecer catastrofista, mas talvez ainda não tenhamos atinado para a criticidade da situação.

Mas além de me condoer pelos paulistas, pensava também no meu lugar em tudo isso. Quer dizer, com que direito eu continuo gastando irresponsavelmente a água que utilizo? O resto do país vai assistir à tragédia como se não tivesse nada a ver com isso? Será que seremos capazes de aprender com ela?

Se vamos continuar elegendo políticos corruptos e defensores de seus próprios interesses e dos seus amigos ricos, políticos que vão gerir mal nossos mais preciosos recursos, que vão fazer dele uma mercadoria e uma fonte de lucro, então que ao menos reflitamos sobre o nosso papel individual no problema: nosso nível alto, irresponsável e leviano de consumo. De 2002 para cá o Brasil cresceu enormemente em termos de população e capacidade/nível de consumo. Mas a mentalidade não mudou. Com efeito, em linhas gerais ela é a mesma ainda do século XIX. Imagina o impacto disso sobre os nossos recursos. Uma revolução nos hábitos e nas atitudes é mais do que urgente.

Eu vejo muita gente culpando o governador do estado de São Paulo e a dinastia tucana pela situação, e com toda razão (ainda que por motivos insuficientes, a saber, partidários apenas: com efeito, se estivesse o PT no poder a situação seria muito diferente? A questão é antes de tudo questionar a lógica da política aplicada e não somente quem a aplica). Mas isso não explica tudo.

Até agora vi apenas duas explicações para crise. Uma culpa a natureza e a outra o governo. Cada uma dessas explicações se articula com um campo político e seus interesses partidários. No entanto, ambas são parcialmente corretas, mas apenas parcialmente, e ainda falta um terceiro elemento.

A natureza é um fator exógeno, que nós não controlamos e cuja capacidade de previsão é limitada (mas isso também é um pressuposto questionável: nós exercemos impacto sobre a natureza e deve-se considerar a hipótese de a estiagem dos últimos três anos ser consequência desse impacto, para além das variações cíclicas normais do clima). Prevê-la e se precaver é tarefa dos governantes e dos órgãos e empresas responsáveis por gerir esse recurso. A população brasileira aumentou muito em tamanho e em capacidade de consumo na última década. Que isso significa impactos tremendos sobre o sistema hídrico é óbvio. E já é de conhecimento corrente que os técnicos e agentes públicos sabiam e alertavam para os gargalos nesse sistema e se não se tomou medidas foi por decisões políticas, entre equivocadas e basicamente criminosas.

Aqui entre a segunda explicação para crise: o papel das autoridades públicas. Por mais que se sabia da pressão sobre o sistema hídrico, sobre a possibilidade de um esgotamento e de uma crise iminente no caso de estiagem, os agentes públicos diretamente responsáveis por tomar medidas que corrigissem esses problemas não o fizeram. Não apenas por negligência, mas por dar preferência aos interesses de investidores e executivos. A água é um recurso primário e estratégico com uma óbvia função social, mas ao invés de ser tratada como um bem e serviço públicos foi tratada como uma mercadoria no sentido estrito do termo, isto é, como meio de obter lucros. Os enormes lucros que a Sabesp percebeu na última década ou mais foram usados para enriquecer investidores e não para investimentos no setor.

Tudo isso é verdade. E é odioso. Não se pode por um segundo sequer se esquecer ou minimizar a responsabilidade dos políticos e burocratas diretamente responsáveis pela crise. E isso implica dar nome aos bois: a conta da crise hídrica em SP, que pode se transformar a curtíssimo prazo numa tragédia de proporções épicas, é o PSDB, o Geraldo Alckmin, o José Serra e demais figurões do tucanato ligados à gestão de 20 anos do executivo do estado. Além de sucatear a Sabesp, não fazer os investimentos necessários no setor, negligenciar os riscos e preterir o interesse público em favor de interesses privados, esses senhores ainda administram a atual crise da forma mais criminosa e cínica possível. Ao invés de reconhecer publicamente a gravidade da situação e de tomar medidas contundentes, os tucanos estão mais preocupados com os reflexos eleitorais negativos que tais medidas e reconhecimento podem fazer surtir. Pensando nas eleições, o governo do estado omitiu e maquiou a situação, fez manobras populistas, e com isso colaborou para piorar a situação, pouco importa a que custo social e humano, já que seu cálculo é político, eleitoral e partidário. Um crime grotesco.

Não obstante, em que pese tudo isso, não podemos nos resignar a uma visão autocomplacente em relação ao papel individual e comportamental das pessoas. Aqui entra a terceira explicação para a crise: ela é cultural e muito mais difícil de ser tratada. Sua causa é toda uma complexa concepção equivocada da nossa relação – isto é, da sociedade – com a natureza; as ideias de que a sociedade é exterior à natureza e não parte constitutiva dela, de que a natureza constitui um estoque de recursos que pode ser explorado e consumido infinitamente, de que o modelo sobre como produzir e consumir esses recursos deve ser dado pela lógica do mercado e não pelo interesse coletivo, de que viver bem é consumir o máximo possível, etc. Nossa forma de consumir a água, por exemplo, esse bem tão essencial, é absurdamente irracional, ineficiente, leviana. E não digo isso apenas pensando em pessoas que lavam calçadas com mangueira ou que lavam a louça com a torneira aberta, mas a falta de estruturas básicas que aproveitem de modo mais eficiente a água, como reutilização de água do banho, por exemplo, para limpeza da casa.

Não sou técnico nem engenheiro, de modo que não sei o que poderia ser feito neste sentido. Mas é óbvio que muita coisa pode ser feita e é absolutamente urgente que a façamos. Não é possível que vamos atravessar essa crise sem repensar o essencial: a nossa forma de se relacionar com a natureza e de conceber essa relação. É preciso pensar a sociedade e a natureza como uma totalidade viva e dinâmica que dependem uma da outra e nós como fazendo parte dela e responsáveis pela sua preservação. É preciso entender que o ato individual de cada um afetada esse sistema. E é preciso que sejamos responsáveis. Claro que devemos punir governantes que tratem a coisa pública com fins privados e particulares. Mas não basta substitui-los por outros, menos corruptos e privatistas, e continuar a sustentar níveis irreais de consumo. Não basta resolver os gargalos do sistema. É preciso também diminuir a pressão sobre ele. E isso cabe a cada um de nós também.

Lembrete para não lembrar

Será que se eu morro
Num dia inédito
Numa esquina sem placa
Entulhada de pessoas emburradas
Que não esquecem os problemas
A caminho de casa
Vão chorar por mim?
E se choram
Como eu posso partir?
Se é na lembrança
Life-support mechanism
Que plugado eu vivo
Materializado meu espírito qual cicatriz
No peito magoado
De quem dá pela minha falta?
Não quero parecer ingrato
Justamente o contrário, eu me importo
E isso torna a retirada, negociada, mais difícil
Eu queria apenas me deixar ir
Sem adeus, obrigado por tudo, um abraço
Aproveito e deixo aqui registrado:
Adeus, obrigado por tudo, um abraço
Foi bom enquanto durou,
Nem sempre, mas
Estou indo, serenamente
E agradeceria se ninguém percebesse
Muito menos viesse junto
Para uns a festa acaba primeiro
Quero dormir
Fiquei bêbado demais
Bebi muito rápido
E a verdade é que eu nunca soube beber
Saio de fininho
E, do quarto, me divirto ouvindo as risadas
A cantoria alta
Amanhã é um dia normal
Para quem é normal
Não pensem em mim
Pensem na desculpa esfarrapada a dar no trabalho
Nas crianças esperando um futuro
Na mãe que a gente tão pouco vê
Depois que cresce
Ou pensem apenas em ficar em casa sem pensar
Vendo tevê
Largados no sofá
A limpeza da casa por fazer
Naquela preguiça boa
De viver
Com tantos bons porquês
Que existem para se viver
Fiquem com eles
Eu só não estaria mais aqui
Não carregaria esse peso do vazio
Que arrasto feito rés
Que tristeza que nada
Mágoa não levo
Enquanto ninguém estava olhando
Cavei um buraco e me plantei
Olhem, um disco voador!
Entrei no mar
E ele deu cabo de mim
Me levou pra navegar
Sem corpo, por aí

Pertencimento

O mundo anda tão cheio
Mas nós nem sempre vazios
Estamos cada vez mais sós
Mas não necessariamente sozinhos
Vivemos tão juntos
Mas em companhia?
Antes eu me sentia
Tão vazio
Tão sozinho
Porque procurava o preenchimento
Nos outros
Foi preciso voltar-me para dentro
Para perceber que o que eu buscava
Não está nem fora
Nem dentro
Mas na relação entre ambos
No vínculo entre eu e o mundo
Se o vínculo é de amor
E pertencimento
Pode-se estar completamente só
E ter o mundo todo
Ao mesmo tempo

Nota para uma investigação do cenário político atual

Essa eleição está parecendo uma montanha-russa; é surpresa atrás de surpresa. E não me refiro à morte de Eduardo Campos, à meteórica ascensão e queda de Marina, à virada do Aécio ou à virada da virada de Dilma. Claro que tudo isso contribuiu para fazer desta eleição uma das mais incertas e encarniçadamente disputadas da nossa breve história democrática. Mas para além de constatar a imprevisibilidade desses movimentos fenomênicos, temos que formular questões que os expliquem. Parece que o marco fundamental de análise é junho de 2013. O clima ideológico, as preferências políticas, e os alinhamentos partidários no país se modificaram muito desde então. Não se trata de um raio em céu azul, naturalmente. Havia, sem dúvida, energia cinética para tanto, que vinha acumulando-se há anos. Gestando-se abaixo da superfície, nós não a percebíamos. No entanto, essa concepção processual dos fenômenos não pode perder de vista o fato de que ele só é quando acontece, e que a análise dos elementos que o formaram ajuda explicá-lo a posteriori, mas não é suficiente nem determinante. Um fenômeno social não é uma coisa ou um corpo que se desenvolve organicamente. Nesse sentido, embora o marco inicial da análise seja junho de 2013, apenas durante a campanha eleitoral se configurou o fenômeno que estamos vendo.

Uma das questões mais interessantes a ser explicada é: como um povo tradicionalmente apático e desinteressado em relação ao mundo da política, de repente sai dessa apatia e se torna significativamente interessado e engajado? A segunda questão é: como explicar o realinhamento dos eleitores em torno dos dois polos político-partidários principais que organizam o sistema de partidos desde 1994, os quais até então haviam perdido em muito a sua capacidade de mobilizar sentimentos, identidades e preferências políticas? Ou seja, dois projetos político-partidários e dois atores que vinham sofrendo com descrédito crescente, expressado pela procura de uma terceira via por uma parcela significativa do eleitorado e pela alienação de outra parte, de repente se mostram novamente capazes de mobilizar os eleitores de forma até mesmo passional.

Até a morte de Eduardo Campos, essa parecia mais uma eleição muxoxa, cujo resultado provável (a vitória do PT), já garantido de antemão, apenas havido sido abalado pelas manifestações de massa de junho de 2013, porém não negado. É certo que havia certa expectativa no ar, mas virtualmente nada autorizava supor que seria uma eleição distinta da série de outras que conferiram o Palácio do Planalto ao Partido dos Trabalhadores. Depois da queda do avião em que viajava o candidato “socialista”, essa eleição não seria mais a mesma. A primeira coisa a explicar aqui é a comoção que tomou conta do país e que alçou a ex-senadora Marina Silva ao favoritismo do certame. Foi a grande imprensa que fabricou, com provável fito eleitoral, uma nova versão, burlesca, de Tancredo? Se foi, eu não consigo explicar como ela conseguiu fazê-lo – uma vez que Eduardo Campos era praticamente desconhecimento fora de Pernambuco e não havia sido eleito primeiro presidente civil pós-ditadura –, apenas constato que foi muito bem sucedida. O fato é que, a partir de então e com intensidade crescente, a eleição nacional deste ano começou a atrair muita atenção e a despertar reações cada vez mais fortes. Quem canalizou essa energia potencial liberada foi a candidatura de Marina Silva. Mas, diante dos duros ataques tanto do lado da situação quanto da oposição tucana, e das dificuldades em que a candidata mesma se colou, essa candidatura se mostrou frágil e insustentável. A questão, entretanto, é que PT e PSDB ainda não despertavam os sentimentos que passaram a despertar às vésperas do primeiro turno e, sobretudo, após. Chegamos ao segundo turno num clima de “tudo ou nada”, de “oito ou oitenta”, de “fla x flu”.

Como explicar que pessoas que nunca haviam se interessado pela política, pessoas que tinham asco de tudo que cheirasse a política, com a qual não queriam ter nada a ver, de repente estivessem tão engajadas, de forma voluntária e independente das respectivas máquinas partidárias dos seus candidatos, na defesa dessas duas candidaturas? Ao ponto mesmo de motivarem agressões morais e físicas e rompimentos afetivos. Pessoas que não militam em nenhum desses partidos de repente passaram a militar em favor deles de forma independente e voluntária. Isso é mais visível no campo petista, que serviu de polo de atração de eleitores de esquerda os quais, como tal, são mais engajados politicamente, mas também no campo tucano, que, identificado com a direita, atrai pessoas mais truculentas, intolerantes e autoritárias. , Pode-se tentar explicar esse fenômeno do seguinte modo: dependendo dos valores que uma pessoa esposa, por mais que ela compactue com uma perspectiva antipolítica e portanto tenha aversão aos partidos, ela está mais propensa, num cenário de polarização e de exacerbação dos ânimos políticos concomitantemente a um clima de desejo de mudança e de esgotamento de velhos paradigmas, a abraçar um dos dois campos em disputa, e isso a leva a adotar a identidade partidária que, em outra situação, ela não adotaria, ao contrário, rechaçaria. Ou seja, essas pessoas, apolíticas, detestavam ambos os partidos apenas por falta de oportunidade, e quando o clima de politização e polarização se instalou suas identidades políticas brotaram naturalmente do solo dos seus valores e opiniões e fizeram com que elas alinham-se com um dos respectivos campos.

Entretanto, essa parece ser uma explicação circular. Afinal, se as pessoas despertaram e se engajaram partidariamente em função do clima político polarizado e exacerbado, como explicar essa polarização/exacerbação já que ela pressupõe pessoas despertas e engajadas? Uma saída seria supor que se trata de processos que se realimentam mutuamente e que não há, portanto, sentido cronológico determinado: primeiro as pessoas se engajam e depois o clima polariza ou vice-versa. O engajamento partidário nessas eleições por parte do eleitorado é tanto resultado como pressuposto do cenário político propício ao engajamento. No entanto, há uma dimensão que segue um sentido lógico nesse processo: se, primeiro, as pessoas estavam mais conscientes politicamente e mais propensas a se engajar em torno de um projeto e um ator político, apenas num segundo momento essa propensão se consolida num ator e num projeto político específico a ponto de gerar uma identidade partidária. O próximo passo é, portanto, explicar as condições dessa propensão. Há várias questões a ser analisadas aqui: os sinais de esgotamento de um projeto político há 12 anos no poder que já não exibe a mesma vitalidade de poucos anos atrás; o papel de uma nova geração de jovens que se tornaram adultos nesse interim e que não tem a mesma ligação sentimental com o PT das lutas populares e das disputas eleitorais da década de 1990, uma vez que não passaram por essa experiência; o inconformismo de uma classe média e alta diante do que consideram perda de privilégios e de posições sociais face à ascensão de um contingente enorme de pessoas que os setores governistas passaram a chamar, impropriamente, de nova classe média.

Amor útil?

O amor deve
Servir
Pra fazer rir
Se não faz
Não serve
Amor que não ri
Não é amor
É tédio

Contra a pressa

Quem tem pressa
Passa, rápido
E nem vê as coisas
Passarem, devagar;
Anda correndo
E tem medo de tropeçar
Só olha à diante
E não se permite, voltar,
Rodar sobre os calcanhares;
Não olha pra baixo
Pisa em cima
E nem percebe
No que pisou
Não olha para o lado
Nem vê o que desperdiçou

A pressa é inimiga
Da vitória
Ou da perfeição
Mas quem não se apressa
Pouco se interessa
Por competição
Deixa a pressa
Pra quem quer ganhar
Pra quem quer chegar
A algum lugar
Mas que não vê que onde está
É o lugar para se estar
E se demorar
Porque no segundo seguinte
Já não mais se está

Quem tem pressa
Não deixa marcas
Não cria raízes
Não estreita laços
É um solitário
Correndo contra si
E de si mesmo
Numa peleja sem fim
Não se engane
Com o que dizem
O mundo é lento
E a vida de nós só exige
Serenidade e calma

Se você corre
E se apressa
E tem medo de ser atropelado
Por suas próprias pernas
Não culpe o tempo
É você quem põem-nas
Em movimento
Quanto a mim
Que vim a passeio
Apenas abro minhas asas
E voo, ao sabor do vento

Quem tem pressa
Se apressa em ganhar
Ganha tempo pra desperdiçar
E desperdiça o tempo de amar

O anúncio da cigarra

Era plena primavera
Eis que de repente
Ainda tímida
A primeira cigarra
Da iluminada temporada
Inicia sua cantoria
Festejando o verão
Que ainda longe
Mal se anuncia

Enternecido de paixão
Parei com o trabalho
E fui ouvi-la
Deitada numa rede
Tocar seu violão

Sequer durou uma música
Mas foi o suficiente
Me fez ciente
Que mais belos dias
De alegria, virão

Seja bem vinda
Cigarra!
Faz tua folgança
Tua algazarra
Eu, que sou formiga
E só trabalho
Me rio e me divirto
Com a tua farra

Onda conservadora: primeira aproximação

Depois das manifestações de massa de junho de 2013 a conjuntura político-social do país parece ter se alterado substancialmente. Mesmo que alguns não falem no evento como um marco histórico, de uma forma ou de outra todos referenciam-se nele para explicar os novos (e velhos) fenômenos políticos e sociais no brasil, da renhida, passional e polarizada eleição nacional deste ano e das surpresas que ela guardou ao longo dos três meses de campanha ao avanço de grupos e setores conservadores no que alguns têm chamado de “onda conservadora”.

Embora deva-se assinalar que se trata ainda de uma “marola”, eu tendo a concordar com essa hipótese – mas, vale reforçar, trata-se ainda e apenas de uma hipótese. De pseudojornalistas boçais sentindo-se livres para despejar ignorância e falácia em colunas de tradicionais veículos de comunicação à direita (alguns deles meros panfletos partidários), à poderosa e barulhenta bancada parlamentar que confunde dogmas religiosos e discriminação com interesse público; de manifestações de rua iniciadas por movimentos de esquerda e virtualmente invadidas por bandeiras pequeno-burguesas, à enxurrada de opiniões discriminatórias, coléricas e execráveis que inundam as redes sociais, os indícios de uma reconfiguração na mentalidade e no comportamento das pessoas começaram a pulular de algum tempo pra cá.

Paranoia e delírios a propósito de um fantasioso espectro comunista a rondar a nação; oposição ferrenha à defesa de direitos humanos básicos negados a grupos desprivilegiados e oprimidos; moralização dos problemas sociais e políticos e, paradoxalmente, defesa de soluções imorais, autoritárias e retrógradas para tais problemas compõem tais indícios. Não sabemos exatamente o que ou como, mas alguma coisa aconteceu, não há dúvida. Nem que se esse algo, esse acontecimento, apenas revela outro, o conservadorismo que já existia e que, em razão de determinadas condições, permanecia latente. Se essa onda conservadora ainda não tem cabeça, forma ou conteúdo definido, disso não se conclui que ela não seja real – ou melhor, potencialmente real. Por onde começar a desvelar essa complexa problemática? A destrinchar esse fenômeno? Onde está o seu início e fim, e sobretudo o seu nó-górdio? A seguir eu avanço uma breve análise preliminar.

Como se trata apenas de um fenômeno recente e cuja manifestação se dá ainda por indícios vagos e desconexos, as primeiras respostas só podem ser tentativas. Precisamos limpar e organizar o campo de análise e ter cuidado para não contaminá-lo com nossas próprias preferências políticas, filiações partidárias, visões de mundo, etc. Um exemplo dessas armadilhas está em como muitas pessoas de esquerda, especialmente as identificadas com o PT, tem usado São Paulo como tipo-ideal e bode-expiatório da tal onda conservadora.

Eu evitaria passar a minha resposta pela hipótese correntemente aventada, porém bastante questionável, que atribui ao paulistano uma personalidade conservadora. Acho difícil supor que um paulistano é mais conservador do que um pernambucano ou um baiano, por exemplo, só porque aquele vota há décadas no PSDB. Do ponto de vista lógico, essa é uma suposição contraditória, porque tem na sua origem justamente uma noção que ela procura denunciar, isto é, parte de um preconceito. Ademais, conservador, dito assim tout court, sem qualificativos, passa uma ideia vaga e confusa. É preciso que nos entendamos em relação a que opiniões, comportamentos, valores nos referimos com o termo. Por exemplo, o preconceito em relação aos habitantes do norte e nordeste é negativo e tende a gerar atitudes e comportamentos xenófobos. Trata-se de um preconceito real, que gera descriminação e se impõe como explicação fácil e falsa num momento de forte antagonismo político. Mas preconceito e discriminação não é necessariamente conservadorismo, embora sejam comumente associados ao campo da direita. No que tange a outras questões, como a liberdade sexual e o direito reprodutivo por exemplo, deve-se se supor que os nordestinos são mais ou menos conservadores do que os sulistas? O ponto aqui é que operamos no terreno de uma suposição impressionista, do “achismo” de cada um, que, como tal, é inferido menos de evidências concretas da vida real do que das próprias opiniões de quem faz tais suposições. Isto é, afirmar que um paulistano é mais conservador do que um outro cidadão qualquer do Brasil diz mais sobre quem afirma do que sobre os paulistanos.

É claro que os paulistanos, assim como todo habitante de qualquer outra cidade, participam de certas experiências próprias à cidade de São Paulo que ajudam a informar um imaginário social coletivo do qual eles tomam parte em alguma medida. São Paulo gira em torno do dinheiro e do consumo, convive com contradições inconciliáveis e desigualdades gritantes, e isso pode se tornar estímulo a uma cultural individualista, competitiva e rancorosa. Contudo, por mais que em São Paulo encontramos exacerbados esses traços, que cidade grande ou média não convive com esses mesmos estímulos?

Mas porque estou falando em São Paulo e paulistanos? Porque se evitarmos as armadilhas do pensamento essencialista, que isola arbitrariamente alguns traços – tidos como importantes não pela coisa em si mas pelo olhar de quem a vê – e os generaliza na forma de estereótipos, São Paulo e os paulistanos nos dão pistas interessantes sobre o que está acontecendo.

Nesse sentido, particularmente interessante tem sido a reação de parte dos paulistanos à política de mobilidade implementada pelo prefeito Haddad, especialmente as faixas exclusivas de ônibus e as ciclovias. Duas medidas que não resolvem por si o gravíssimo problema da mobilidade urbana na cidade, mas que, no entanto, rompem com a lógica individualista e privatista que domina a cultura brasileira desde que o nosso moderno parque industrial foi constituído em torno da indústria automobilística, além de afrontar poderosos interesses econômicos constituídos. Duas medidas primárias, autoevidentes, inquestionáveis, urgentes e extremamente atrasadas em relação a boa parte do mundo, mas que a despeito disso enfrenta a resistência de cidadãos comuns, não necessariamente apenas das camadas mais abastadas, mas também das anchas camadas médias e trabalhadoras, as quais, em tese, teriam muito a ganhar com elas. Como explicar isso?

Às pessoas foi dito desde sempre que ter um carro é sinal de boa situação de vida, de cobiçada posição social, e agora que muitas delas, que até então estavam excluídas deste mercado, podem adquirir um, dois carros, as ruas estão apinhadas e intransitáveis deles. É natural que, pra essas pessoas, medidas que beneficiem o transporte coletivo ou individual não automobilístico e que necessariamente vão afetá-las no já “insuficiente” espaço de que dispõem (pode parecer absurdo um grupo composto por 30% dos citadinos que ocupa 80% das vias queixar-se de espaço, mas por mais ridículo que soe é assim que essas pessoas vivenciam esse fato) sejam recebidas como uma declaração de guerra. Haddad teria indícios altos de aprovação, ao invés de vê-los despencar, se tivesse adotado a política tradicional de ampliar vias, erguer viadutos e construir túneis. Essa é uma posição conservadora? É. Mas ela é fruto de condições sociais, culturais, de experiências e vivências. E, não apenas condená-la, é preciso que compreendamos essas posições em sua própria racionalidade. Rotulá-las de conservadoras no mais das vezes fecha qualquer possibilidade de diálogo e transforma uma posição adversária, que pode ser convencida do contrário, num inimigo, que só pode ser derrotado pela destruição física.

No entanto, para além disso, eu gostaria de chamar a atenção para o fato de que tais posições foram, por assim dizer, “despertadas”, ou seja, aguerriram-se e exaltaram-se em função de avanços no outro campo, o campo adversário. A tal onda conservadora, assim, ao invés de ser um fenômeno abiogênico (surgido por geração espontânea) ou já dado previamente mas não percebido, a onda conservadora é gerada numa relação dialética com outros processos sociais que lhe são antagônicos. Ou seja, toda reação – neste caso, uma contrarreação – implica outra ação oposta. Os grupos oprimidos, equivocadamente chamados “minorias”, através da sua organização e luta vem conquistando espaços, direitos e oportunidades significativos na sociedade e no Estado, e isso leva à contrarreação não necessariamente de grupos opressores, que de alguma maneira beneficiam-se da situação daqueles, mas das pessoas que, independente das posições sociais que ocupam, veem tais conquistas sob uma ótica moral e cultural – mas não funcionalista, como seria de se esperar se as posições se resumissem apenas à relação instrumentalista entre opressores e oprimidos.

Em outras palavras, as pessoas não são, via de regra, conscientes das relações de opressão em que estão inseridas, seja como opressoras ou oprimidas, ao contrário dos valores, crenças, práticas e costumes que sustentam tais relações. Uma vez que tais ideias e ações são hegemônicas, essas pessoas tendem a se colocar contra quaisquer outras ideias que aparentemente representem uma ameaça às suas certezas tradicionais. Essa resistência tem que ser quebrada, para usar um conceito de Chantal Mouffe, na luta política agonista.

Igualmente especiais

Não há pessoas especiais
Somos todos iguais
Em princípio
Assim mesmo
Nós todos somos responsáveis
Por fazer as pessoas ao lado
Se sentirem especiais
Como são, de fato

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Comunicação

Quando eu falo
Não sei o que ouvem
Quando respondem
Não sei o que falaram
Mal sei o que ouvi
Quando falam
Não sei o que ouço

E o que eu faço?
Mantenho o ouvido apurado
E o espírito, este bem aberto

Pacifismo

Comunistas e não comunistas
Deixemos esses esquemas,
Mesquinhos, de ver a vida
De conceber a realidade
Como campo de batalha
Quem faz guerra
São Estados
E não pessoas
É já hora de recursamos
Essas expressões militares
Quem tem lado é exército
Que divide o mundo em metades
Onde cabem apenas duas
Tristes e solitárias
Possibilidades:
Ou bem está conosco
Ou bem está contra nós
Mas onde eu finco os pés
Não cavo trincheira
Entre eu e você
Se estende mais do que uma Terra de Ninguém
Podemos ser outra cousa além de amigos ou inimigos
Companheiro-em-armas?
Isso é patente?
Não sou, desculpe-me
Sou pacifista
Guerra, só se for de travesseiros
Entenda, não recuso a ideia
De que só a luta muda a vida
Recuso o que você entende por luta
E sobretudo por vida
Pra mim ela se parece mais com um carnaval
E eu quero todo o mundo no meu funeral
Você não concorda?
Contigo é preto no branco?
É durão?
Senta aí, vamos conversar
Traz mais um copo, garçom!

Vastidão

O mar é muito vasto
Nem cabe no meu pensamento
Quantos baldes dele tenho que tirar
Até o mar esvaziar
Imagina quanta coisa não acontece
Lá embaixo
Naquelas profundezas abissais
E se você olhar
Entre as pedras
Na água rasa onde a terra o mar vem beijar
Verá um universo tão vasto
Fervilhando
Quanto o próprio mar
O mar é muito vasto
Mas mais vasto mesmo
É o nosso olhar

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Um gesto

Nesse vasto vasto mundo
Há tantos gestos bonitos
E um dos mais
É encostar
Testa com testa
E se demorar
Fixando o olhar
Ou mantendo-os fechados
Tanto faz
A beleza está na união
Que ele simboliza
"Te amo"
"Estamos juntos"
"Vai ficar tudo bem"
O sentido é universal
Testa com testa
Entre duas pessoas
Entre um humano e um animal
Entre um adulto e uma criança
Entre um casal
Mas repare bem
É pra encostar
E não pra bater
Cabeça

Pra começo de conversa

Ser crítico
Não é ser chato
Achar que os outros
Estão errados
Não é concluir que é você
Quem está certo
E desejar mudar o mundo
Não é querer um só pra você

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Radical

Eu acho linda a palavra radical
Poderia repeti-la todos os dias
Radical, radical, radical, radical

Só não estrague-a com ismos
Não me venha com radicalismo
Não confunda-a com os extremos

O radical não está fora
Antes está dentro
Ser radical é descer às raízes
Múltiplas e plurais
Do que somos
E do que seremos

Um conto machista

A mulher passa pela rua
Um homem cruza
Ela de cabeça baixa
Desvia o olhar para o chão
Suspende a respiração
E continua
Ele não tira a vista
A estupra com os olhos
Torce o pescoço
Torce a cara
A carranca medonha
De um monstro
Grunhe como animal
Palavras obscenas
Não há revide
Ela é presa fácil
Não pode defender-se
Ele sabe disso
Ela também
Ela quer correr
Quer gritar
Mandá-lo à merda
Castrá-lo com uma faca cega
Como se castra um porco
Ele quer possui-la
Quer exercer seu domínio
Sobre o corpo feminino
Se não com o pau ou com a mão
Que seja com as palavras
Que violenta simbólica
Psicológica e moralmente
Reproduzindo papeis
Afirmando posições
De poder e dominação
Findado o abuso
Cada um segue o seu caminho
Ela, com medo
Temendo o próximo desconhecido
Que irá reclamar seu direito
Sobre o corpo feminino
Ele, satisfeito
Sentindo-se másculo
Forte e corajoso
Cheio de si
É o pior dos covardes

Depois da chuva

Foi-se a chuva embora
Abriu-se o azul do céu
Em sol poente
Acima do mar suave
Folgazavam gaivotas
O dia despedia-se em tarde
E a mata reverdejada
Me convidava à arte
Da fotografia
Trago a câmera
E os pés descalços
Na praia de areias molhadas
Vindo ao longe
De bote a remos
Um senhor de idade
Na mais bucólica das cenas
Para a composição perfeita
Só faltava mesmo
A sua senhora de sombrinha
E longo vestido de chita
Ele para de repente
Procura algo nos bolsos
Um pequeno objeto
Aproxima-o do ouvido
“Alõ?”, diz ele
“Não, tô remando”
E desligou
O romantismo acabou
E eu voltei a 2014

Ode à vida

Sentei-me à beira do desconhecido
E contemplei
O que não podia conhecer
E, de repente
Fez-se precipício
E pude perceber as almas
Lá embaixo
Às milhares
Atarefadas, atabalhoadas
Colidindo-se
Extraviadas entre carros e concreto
Outrora desconexo
Da perspectiva das nuvens
O cheiro de morte
Ressudando do asfalto
A cerveja barata
A pressa
A comida requentada
Os pequenos acasos
Que pululavam
Vistos do alto
E os sorrisos
As brigas
O amor e ódio
Pareciam fazer mais sentido
E como tudo era belo
Do silêncio pacífico do céu
A descortinar dádivas diárias
Desperdiçadas sem perdão
Uma espécie de milagre
Aquele carnaval
Misturando suor e saliva
Lágrimas e ressaca
E eu fiz menção de descer
Juntar-me ao cortejo
À procissão dos condenados a viver
Misturar-me ao desfile
Transar na rua
Levar socos e pontapés
Abandonar e ser abandonado
Correr o risco
De acabar sozinho
Velho sem ter vivido
Num dia nublado qualquer
Enquanto duas pessoas
Fugindo da chuva
Se guardam mudas
Debaixo de um toldo furado
Na esperança da banda passar
Se guardando
Para quando o carnaval chegar

Holismo

Pessoas várias
Especiais em si mesmas
Passarão e passarinho
Voando
Pela tua vida
Como numa longa migração
São caminhos
Que se cruzam
Seguem juntos
E depois se apartam
Para continuar
Cada qual a sua sina
Mas aí nada será mais o mesmo
Se você souber ensinar
E aprender
Não use as pessoas
Não espere ganhar
Dar é receber
Ofereça algo
Ainda que em troca de nada
Deixe uma marca
No ser de alguém
Algo para se lembrar
Algo que pode mudar a sua vida
Para sempre
Sua forma de ver e sentir
E você fará enternamente parte
Dessa pessoa
O mapa da vida não tem um sentido
Na verdade
É uma rede intrincada de possibilidades infinitas
Que não se constrói sozinho
Cada um de nós tem papel e importância
Ao criar as possibilidades que outros irão explorar
Vivemos várias vidas
Somos várias pessoas
Nem sempre eu consigo
Nem sempre eu tento
Mas eu desejo
Sempre
Fazer a diferença na vida de todo o mundo
Que por azar ou sorte
Me encontrarem por aí
Perdido, zanzando
Em busca de algo que não tem nome
Nem se pode nomear
Que não admite posse
Mas se pode encontrar
Se se souber onde procurar

Mãe

Mãe,

Eu tenho ciência
De todo o investimento
Que você fez nos últimos 29 anos
Sei também que ele está demorando acima da média
Que já era para ter-lhe rendido bons frutos

Mas, veja
Este é um investimento de longa maturação
E seu valor não se traduz em bens e imóveis

Agora eu entendo essa ideia simples
Que você tentou me ensinar a vida toda
E eu era egoísta demais para ouvir
Que o conhecimento
É a maior riqueza que uma mãe pode deixar de herança

Como todo filho
Eu carrego remorso e culpa
E como todo filho
Eu quero lhe pagar tim-tim por tim-tim
Mas não em dinheiro
Porque sei que não foi isto que você investiu em mim
Foi amor, carinho, compreensão
Abnegação, dedicação
E eu poderia arrolar palavras ad infinitum
Que só você, afinal, sabe pelo que passou

E agora eu compreendo
E sou grato
Vou pagar-lhe não em dinheiro
Mas com orgulho
E com a sensação de que tudo valeu a pena
O mundo não lhe deu a oportunidade de estudar
Mas mesmo assim você me deu
Vou ser então tudo o que você sempre quis ser
Uma intelectual, uma estudiosa, uma escritora
Porque é isso que você é, afinal
E é isso o que eu sou
Porque eu sou você

Com amor,
Seu filho

Primavera

Eu acordei com um pressentimento
A manhã estava quente e abafada
A terra transpirava
E a montanha respirava, serena
Olhei a mata ao meu redor
Majestosa, ancestral, arcana
Ela me olhou de volta
Com seus olhos ferinos
E no entanto maternalmente meigos
E eu não senti medo
Senti a paz absoluta
Por um instante eterno
Parou o inexorável tempo
E foi como se toda aquela beleza
Me esmagasse em seu seio
Mas eu não senti dor
Nem me senti só
Antes me senti um só, com tudo
Me senti em casa, de volta ao útero
Do universo
E vi que as flores balouçavam
As árvores farfalhavam
Os pássaros chilreavam
Os insetos formiguejavam por toda a parte
E tudo estava vivo
E falava
Comigo
Eu apurei os ouvidos
E o que me disseram foi como um desígnio:
É a primavera que eu anúncio
Vá espalhar a boa nova

Calçadão

No calcadão
Tem tudo quanto é gente
Tem gente comprando ouro
E gente vendendo sonho
Tem gente de talento
E gente que nem tanto
Tem gente explorando o sexo
Gente vendendo o corpo
Tem gente se drogando
Gente pedindo um trocado
E gente correndo atrás do pão
Tem gente namorando
Gente se conhecendo
E gente se despedindo
Tem gente anunciando o fim do mundo
E gente oferecendo a salvação
No calcadão tem gente de todo tipo
Tem gente pilantra
E gente honesta
Gente preocupada
E gente em festa
Tem gente boba
E gente esperta
Gente perdida
E gente achada
Tem gente normal
E gente esquisita
Tem tanta gente
E a gente sendo só mais um
Até some
No meio de toda essa gente comum

A graça

Engraçada
A vida
Um dia
De graça
Ela se engraça
Conosco
E nos dá graças
De novo
E nos enlaça
A todos
O choro passa
A fé recobra a alma
Eu me rio
D'água
No oceano
E acho graça
Porque a vida
Vivida
Sempre nos acha

A vida é engraçada
A vida é uma graça
A vida é de graça
Vai, se engraça
Que a vida passa
Eis aí a graça

Muito dentro da gente

É feminista
Mas quando xinga
Xinga uma mulher
A puta é a sua preferida
Ou seja, a mulher não submissa
E mesmo quando tenta ser equitativo
Inicia sempre pelo gênero masculino
A mulher vai entre parênteses
Caro(a); prezado(a)
E adora usar o falo metafórico
Para domar os discursos
E consequentemente os corpos
É pró-homossexualidade
Mas tem vergonha de ser visto
Só, com um gay
Com medo do que irão pensar
E se desarma diante de um
“Hummm...ui”
Carregado de ironia homofóbica
Daí recobra
Ainda que a contragosto
A postura de macho
Não faz piada
Mas abre um sorriso desconfortável
Ante uma
Quando deveria fechar a cara
Ser honesto, se opor, argumentar
E machismo e homofobia entre amigos e familiares
Daí pode?
Como se a atitude a mudar fosse alheia
Estivesse em outro lugar que não na nossa realidade
Como se o mal estivesse numa tal “sociedade”
Que existe sabe-se lá onde
E não aqui e agora
Na vida, no cotidiano
Dentro de nós mesmos
A “sociedade” é patriarcal
Eu não
Mais do que princípios
Mais do que teorias
Lindas frases feitas e vazias
Precisamos de atitudes
Comportamentos coerentes
Exemplos e práticas
Tomar ciência acrítica do problema
É a parte mais fácil
Agora vem a parte difícil
Empenhar-se honesta e corajosamente na luta
E ela começa com você, comigo, conosco
No dia-a-dia
Nos pequenos espaços
Nas relações próximas
Para só depois chegar neles, nos outros
Na sociedade como um todo

Criança interior

Tem vezes
Quando eu sonho acordado
Sinto como se fosse um balão
E penso que se abrir os braços
Posso sair voando
Na minha imaginação
Saio num pique
E me dá uma coisa doida
De vontade
De parar o que estou fazendo
Para girar cambota
Porque não caibo mais em mim
E se me chamam à realidade
Eu digo assim:
Dá licença?
Vou ali dar uma pirueta
Volto já
E sobre a mesa
De trabalho
Deixo avisado:
Hoje é dia da criança
Interior
Feriado mundial
Fui plantar bananeira
Na grama do quintal

Pós-pós

É tanto
Pós-
Pós-isso
Pós-aquilo
Que eu me perco
Entre os ismos
Nem sei mais onde
Me pós-

Da cela

Põe em parênteses a vida
Suspende a pouca alegria
Trabalha mudo noite e dia
E esquece tuas promessas
Que a necessidade aperta
As contas não te esperam
Chora a criança na miséria
A menina pobre na favela
O homem de raiva na cela
Ah, como a vista é bela!
É tão linda a cidade da janela

domingo, 31 de agosto de 2014

Sobre racismo e racistas (ou: de te fabula narratur)

O episódio de racismo envolvendo a torcida do Grêmio e o goleiro do Santos gerou uma onda de revolta e indignação que tomou as redes sociais. Mas é duvidoso se essa é uma resposta correta.

A minha timeline foi inundada por fotos e vídeos de uma garota xingando de “macaco” o jogador santista. A título de explicação, acompanhando essas fotos e vídeos não vi nenhuma ideia ou argumento profundos, além de mais xingamentos, ameaçadas e desejos de “punição”. 

Linchamentos e caças a bruxas são respostas emocionais que se orientam por preconceitos e que buscam expurgar o mal através da violência ao personificá-lo em determinadas pessoas claramente identificáveis e responsabilizáveis. Nisso, não se distinguem do próprio mau ao qual se opõem: os linchamentos públicos racistas de jovens negros e pobres acusados de crimes seguem precisamente a mesma lógica. E o exemplo perfeito disso é que de anti-racistas muitas das declarações na rede mostraram-se machistas e, em casos extremos, misóginas e violentas. 

Se houvesse coerência nisso tudo, deveríamos caçar e linchar também quem chamou a garota de “vadia” e “vagabunda” que merecia “ser estuprada” – e não foram poucos. Nada no comportamento dessas pessoas, aparentemente comprometidas com a justiça, se distancia do comportamento daquela que tomam por réu: foram preconceituosas, discriminatórias, odiosas, e se protegeram covardemente atrás da massa e do anonimato virtual. 

Uma vez que a impunidade e o anonimato incentivam comportamentos ofensivos e racistas como o da torcedora gremista, é necessário identificar e punir seus responsáveis onde e quando ele ocorrer. Mas isso de modo algum deve ser feito como uma turba ensandecida exigindo que alguma cabeça seja cortada como reparação. Por mais difícil que seja, deve ser feito racionalmente e com dignidade. 

É como se de repente o racismo se personificasse numa única pessoa. A turba confortavelmente esquece, assim, que, tal como 99% do crime de estupro é cometida não por homens desconhecidos em algum beco escuro mas por homens próximos da vítima (maridos, pais, tios, amigos), 99% do racismo não é praticado ostensivamente mas por atitudes veladas e sutis. Assim, o racismo deixa de ser um problema social para se tornar um problema individual, moral, de caráter. 

Aparece aqui claramente o mecanismo de expurgo e expiação dos próprios pecados através de sua atribuição ao Outro: uma vez transferido todo o mau e todo a culpa a uma pessoa claramente identificada, pode-se, de um lado, eximir-se de toda responsabilidade por ele, assim como, de outro, destruí-lo ao destruir a sua personificação. 

Com isso, os justiceiros podem ir dormir o sono dos justos, imaginando que nada têm a ver com o racismo, e que o mundo agora é um lugar melhor porque uma racista foi destruída. Mas quantos deles podem honestamente dizer que nunca tiveram um pensamento ou uma atitude racistas?

sábado, 30 de agosto de 2014

Eleições 2014 (II)

O tempo pode passar duas idéias distintas: por um lado, sugere experiência e, portanto, capacidade; por outro, sugere caducidade e, assim, morte. O PT tem sido ameaçado por essa segunda idéia.

O partido não pode evitar ser responsabilizado pelo que fez e pelo que não fez. Como está no poder há 12 anos, enfrenta os ataques da oposição de direita, muito bem armada através da mídia e da influência ideológica das “elites”; mas enfrenta também investidas vindas à sua esquerda, desde grupos e movimentos que lhe fazem oposição até aqueles que consideram o partido um aliado. Fora desse eixo, existe o campo dos não-alinhados, que cresce cada vez mais, especialmente com os jovens adultos que ingressaram no mercado de trabalho já em tempos de PT.

Tudo o que o PT pode fazer é exagerar as diferenças entre ele e a oposição, além de superestimar os feitos da sua própria administração, assim opondo dois projetos tidos como os únicos possíveis: a continuidade entre o que supostamente está dando certo, ou o retorno àquilo que deu errado. O partido construiu para si mesmo o mito de um consenso, uma “pax social”, em torno de um modelo desenvolvimentista autônomo, sustentável e estável. Mas à medida que os sinais de que um terremoto se aproxima ficam evidentes, torna-se-lhe cada vez mais difícil esconder as rachaduras nesta construção mítica.

Em suma, como é o partido há mais tempo no governo, exibe a cara de cansaço, tem dificuldades em se recriar e leva porrada de todos os lados, ao mesmo tempo em que é chamado para prestar contas do que fez e não fez durante esse tempo.

O PSDB, visto como aquele que já teve a sua chance mas falhou, não conseguiu até o momento emplacar o nome do seu candidato à presidência, e com a ascensão da Marina essa possibilidade torna-se mais e mais distante. Os tucanos tinham interesse em incentivar a candidatura da ex-ministra do meio ambiente como meio de desorganizar o campo petista, já que os votos dela saem principalmente da base governista descontente, além dos independentes e novos eleitores. O problema é que o feitiço virou-se contra o feiticeiro, e a criatura mostra-se muito mais forte do que imaginava o criador. Como resultado, o PSDB pode amargar seu pior resultado a nível nacional em 20 anos, ainda que tenha força suficiente para barganhar e influenciar as pautas políticas.

No momento, seria temerário prever a vitória de Marina num provável segundo turno. É preciso esperar para ver se o fenômeno da sua ascensão meteórica não passará de fogo de palha assim que os ânimos se acalmarem, ou se o PT será capaz de reverter essa tendência. Um eventual governo Marina romperia com toda a sua retórica de “nova política” e escancararia a falsidade da tese da "terceira via". Seria obrigada a fazer alianças espúrias e de ocasião – o que ela já demonstrou não ter pudor de fazer –, e a questão da governabilidade seria o seu pé de barro, ainda mais do que foi para o PT. Lotada por razões pragmáticas e de conveniência numa sigla pequena como o PSB e coligada com outros partidos nanicos, depois da morte de Eduardo Campos, seu protetor dentro dela, Marina encontra-se isolada. Na hora de barganhar, seu apelo pessoal junto ao eleitorado de nada servirá.

Quanto ao seu programa econômico, nada há nele de novo, antes o contrário. Retoma a via neoliberal algo mais crua de FHC, que havia sido temperada com alguns poucos ingredientes socialdemocratas pelos petistas. A população, grosso modo, nada entende de política econômica. Mal informada e leiga em relação a problemas complexos, ela é presa das falsificações retóricas dos grupos dirigentes e do modo como a grande mídia (especialmente televisiva), autointeressada, filtra os embates entre eles. A população entende é do seu bolso. Por mais que a economia patine e arrisque descambar, enquanto isso não se fizer sentir no nível de vida do trabalhador médio (e o PT, sabendo disso, tem feitos esforços homéricos para maquiar a situação), ele se manterá fiel ao governo que, segundo entende, foi o responsável pela sua melhoria de vida na última década. Eis aí a frágil e única pilastra que mantém a Dilma, para todos os efeitos, ainda na liderança.