quarta-feira, 31 de julho de 2013

Porque poetizar

Pare um minuto de seu dia
Para ler uma linda poesia
Quebre esta insana rotina
E faça as pazes com a vida

As palavras, ditas e escritas
São encantadas com magia
E sua mágica é trazer alegria
Para quem vive de desditas

As poesias fazem companhia
São amigas nas horas infindas
Preenchem as vastidões vazias

Alegram com passos de bailarina
Tornam fatos chatos alegorias
Distraem a carrancuda monotonia

Fazem da realidade fantasia
Bordam o sonho com maestria
Unem os extremos de uma linha

Aquietam um coração em disritmia
Põem sentimentos em sintonia
Revivem momentos de nostalgia

Ajudam a suportar a travessia
Alumiam quando já não é de dia
Abrigam durante e após a ventania

Reconstroem uma história em ruínas
Elevam os chãos pontos de vista
Retificam as nossas vãs filosofias

Curam os golpes que a pele não cicatriza
Punem a maldade que nos sevicia
Forram de comida a barriga em carestia

Poesias são como mães enternecidas
Sempre prontas a nos fazer carícias
A nos aconchegar nas noites frias

Noite, a amante

Eu gosto mesmo é de me perder
De sair por aí sem ter aonde voltar
De procurar sem mais nem porquê
E em teu corpo nu me encontrar

Eu gosto é de beber o sexo da noite
De vertê-la toda na boca até enjoar

De uivar doido à lua feito um coiote
E com teu gozo lúbrico me embriagar

Em meus braços ver a lua deitar ensonada
Já cansada de uma longa noite de farra
Após vagar nua pela rua de madrugada

A noite é a melhor amante de todas
Não nos ferimos com mágoas bobas
E divertimo-nos juntos nas horas boas

terça-feira, 30 de julho de 2013

Sobre santas e vadias

Quando nos posicionamos diante da quebra de santas acabamos apelando para argumentos moralistas abstratos que desconsideram as condições sociais e históricas do fato em questão. Argumentos do tipo “desrespeitar qualquer crença religiosa é errado, não importa qual seja” são corretos apenas formalmente (o problema é justamente a abstração implicada na palavra “qualquer”).

Ora, quando saímos do âmbito do raciocínio formal, e passamos a considerar os conteúdos concretos, compreende-se claramente que entre quebrar estatuetas de santas e quebrar estatuetas, por exemplo, de xangô existe enorme diferença. As primeiras correspondem a uma religião que oprime há séculos, enquanto a segunda corresponde a uma religião oprimida há séculos (e por aquela). Estatuetas de santas são símbolos da opressão à qual a mulher está submetida, e quando se quebram tais estatuetas é o símbolo da opressão que se procura atacar e não a fé em si. No entanto, sendo a fé em questão misógina por natureza, fica difícil não ataca-la concomitantemente. Ninguém quer ofender pessoas, no caso, pessoas da religião cristã, mas é impossível não fazê-lo quando se está em luta contra o que essas pessoas e sua religião pensam. É preciso olhar também, para além do fato em questão; é preciso olhar para o sujeito que age. Existe muita diferença entre, por exemplo, homens protestantes quebrando imagens da Virgem Santa e mulheres fazendo a mesma coisa. São elas as vítimas diretas desse símbolo religioso. Portanto, temos: a profanação, por um sujeito oprimido (a mulher), de um símbolo que lhe oprime (a santa), símbolo este pertencente a uma religião majoritária e historicamente dominante (o cristianismo). Não se pode culpa-las por isso. Isso não é intolerância religiosa, primeiro porque os oprimidos têm o direito de se defender, e segundo porque a motivação da ação não é religiosa, mas política; o problema é que simplesmente não se pode atacar a relação de opressão sem atacar as instituições junto, e, ao ataca-las, se ataca as pessoas também, já que as instituições não tem existência própria senão através das pessoas. 

Isso é um problema quando se trata de dialogar com elas, e, sobretudo, quando se trata de mostrar para as mulheres cristãs que elas também são oprimidas pela religião em que acreditam? É sim, mas que se pode fazer? Não existe um caminho pré-definido pelo qual uma pessoa toma consciência de si e de seu lugar no mundo. Ela pode “acordar”, por assim dizer, tanto com um beijo quanto com um soco. O problema da crítica dos comunistas é que eles, estranhamente, evitam melindrar opositores que não sejam a burguesia para com eles estabelecer uma espécie de diálogo a partir do qual poder-se-ia romper com a unidade deles (dos opositores) e, assim, atrair a parte desgarrada para a luta (dos comunistas). Ora, subjacente a esse argumento pragmático está a ideia de que a sociedade se divide apenas ou primariamente segundo um único fator (a classe) e que, superado os fatores superficiais de divisão (por exemplo, a religião), todos os trabalhadores unir-se-iam em torno da classe. Esse pressuposto é equivocado. Um trabalhador, além de trabalhador, pode ser cristão, mulher, gay, liberal, e assim por diante, e é impossível desconsiderar todas essas clivagens para focar apenas no pertencimento de classe. É por isso que os comunistas procuram atacar apenas a burguesia e mais ninguém. Mas quem é a burguesia? Burguesia é apenas um conceito abstrato. Um burguês é uma pessoa, que, como tal, pode ser homem ou mulher, pode ter vindo da roça ou ser nascido na cidade, pode ser estrangeiro ou nacional, pode ser hetero ou homo ou bi, pode ser católico ou protestante, nacionalista ou internacionalista, etc. Como subsumir todas essas diferenças apenas sob duas rubricas (burguês ou proletário) e sob uma única oposição (burguesia versus proletariado)? 

Deixando de lado a crítica aos comunistas, é preciso optar por um caminho, entre vários. Aqueles que defendem o diálogo estão corretos; aqueles que defendem o enfrentamento também. Cada caminho tem suas próprias armadilhas, potencialidades e limites. Dialogar não ajuda à mulher cristã compreender as amarras que lhe prendem nem mais nem menos do que profanar um símbolo em que ela acredita: ajuda tanto quanto, sob outra perspectiva. Lembrando que há diferenças também entre ação individual e ação coletiva. Ou seja, a organização da Marcha se pronunciou contra a profanação de símbolos religiosos, assim como o Movimento Passe Livre se manifestou contra atos de vandalismo, uma atitude inteligente já que evita municiar o inimigo contra ela. Contudo, ao mesmo tempo, quebrar santas, assim como quebrar bancos, tem seu lado bom, não é? E reparem que a quebra de bancos e lojas no Leblon suscitou a mesma comoção e condenação que a quebra das santas. Ambas são símbolos de uma mesma ordem. Nós podemos ficar tentando justificar racionalmente o porquê dessa comoção e condenação (ou o porquê de nos opormos a esta ou aquela ação), mas a verdade mais profunda é que estamos tão enraizados nessa ordem, tão imbuídos de seus valores, que ataques diretos aos seus símbolos ainda agridem a todos nós, em menor ou maior medida, mesmo os que são contra a ordem que tais símbolos representam. Sentimo-nos mal diante da destruição de santas, mesmo quem não é católico, mesmo os ateus. Seja como for, ações extremas fazem parte da luta, doam a quem doer. Isso não significa que, de uma ação individual e isolada, devemos generaliza-la e sair por aí saqueando as igrejas e quebrando todas as santas que tivermos em mão. Uma ação foi feita. Seu significado é profundo e amplo. Estamos digerindo-a ainda.

Contra a ideologia da perfeição: pelo direito ao corpo imperfeito

Somos todos nós, sem exceção, feitos de um amontoado de pequenas imperfeições. O curioso é que, paradoxalmente, o produto final, em alguns casos, pode ser muito bem confundido com a perfeição. Mas se você reparar bem, uma Gisele Bündchem da vida, terá não uma, nem duas, mas talvez várias imperfeições. Quem sabe tenha estrias na bunda, chulé, seborreia ou, quiçá, hemorroida. E isso para ficar apenas nas imperfeições físicas, sem mencionar aquelas que dizem respeito ao caráter, à personalidade, aos valores, etc. O fato é que ninguém é perfeito, nem física nem espiritualmente.

Por isso mesmo é estranho que chamemos as nossas imperfeições justamente de imperfeições, como se o padrão fosse ser perfeito e que o desvio da norma é que é imperfeito. Muito pelo contrário, somos seres imperfeitos cujo desvio é precisamente o aparecimento de algum eventual detalhe perfeito – se bem que, aqui ainda, a palavra perfeito é muito forte para ser aplicada à realidade humana. Isso não é um simples vício de linguagem para o qual não nos atentamos; antes, é uma expressão, bastante matizada, da nossa concepção sobre o mundo e sobre nós mesmos.

A busca pela perfeição, e a crença que tal busca é factível, remonta ao menos ao movimento iluminista, com sua fé na razão e na ciência, e com a sua refutação da ideia de que os homens são inferiores ao seu criador e que, portanto, não teriam como atributo a perfectibilidade divina. Ainda hoje continuamos crentes na oposição a essa ideia, e, baseados nos avanços da ciência e da tecnologia, acreditamos, ainda que tacitamente, que alcançar a perfeição humana é questão de tempo.

No que se refere à perfeição física, e não necessariamente em seu aspecto saudável mas, sobretudo, estético, a grande mídia, a indústria cultural, Hollywood, exercem fundamental influência na manutenção da ideologia da perfeição e, especificamente, no culto ao corpo perfeito. Seus modelos humanos tornam-se fetiches, embora não existam na realidade mas tão-somente nas telas e, especialmente, nas nossas cabeças, idealizados. Um modo de aferir esse fenômeno é observar o boom nos mercados de cosméticos, de produtos para emagrecimento, de academias e de cirurgias plásticas. Uma vez que a disjunção entre corpo ideal e corpo real não pode ser superada objetivamente porque o ideal simplesmente não existe, as consequências nefastas dessa ideologia e desse culto são óbvias e se expressam na obsessão patológica com o corpo e com a beleza, e em problemas psicológicos tais como transtornos de todo tipo.

Eu já passei por isso, e ainda passo. Como praticamente todos nós, eu também sou obsessivamente apegado à minha imagem e ao meu corpo. A diferença em relação à maioria é que eu simplesmente tenho consciência dessa obsessão, primeiro passo para a libertação. Contudo, na medida em que a libertação total é social e não individual, provavelmente eu, assim como a maioria de nós, morrerei sem ter superado totalmente essa ideologia. Mas espero que nossos filhos e netos não tenham que passar pelos traumas e sofrimentos desnecessários pelos quais passamos.

Eu conheço bem os dois lados da moeda – o de ser feio e o de ser belo; o de ser indesejado e o de ser desejado sensualmente –, e nenhum deles me parece bom. Até os 18 anos eu era magro de dar pena. Para se ter uma ideia, a primeira vez que botei os pés numa academia tinha 14 anos, porque eu não podia suportar a visão do meu corpo desde essa época – um menino! Tomei anabolizante também, e não foi com finalidades desportivas. Por sorte, ou por falta de dinheiro, tomei pouco, apenas algumas vezes, e isso me salvou do destino cada vez mais comum entre muitos jovens de hoje, isto é, destruir a saúde para ter um corpo belo. Não me arrependo, na verdade. Mas as coisas poderiam ter saído errado... A pergunta que eu coloco em relação a essa minha experiência, e que vale para muitas outras pessoas, é: até que ponto eu era feio fisicamente, e até que ponto eu me achava feio fisicamente, tornando-me, com isto, de fato feio? Se eu não tivesse sido traumatizado em relação ao meu corpo teria sido mais bonito? Creio que a resposta é sim.

Então, para nos ajudar a romper com essa ideologia da perfeição e com os traumas que ela suscita, proponho uma brincadeira. Que tal ironizarmos as nossas próprias imperfeições físicas? A ironia consiste na forma mais perspicaz que a linguagem possui para se fazer autocrítica. Trata-se, pois, de um bom remédio contra fetiches e preconceitos. Eu começo: por ter começado a fazer musculação cedo (ou assim eu suponho), meu corpo é torto de tal sorte que meu braço esquerdo é menor do que o direito; tenho aquilo que se chama de “estômago alto” e provavelmente vá ficar barrigudo quando mais velho; detesto a minhas mãos por serem demasiado pequenas, e meus pés por serem finos e ossudos; minhas costas têm tantas e tão fundas estrias que parece que eu fui seviciado num calabouço da Inquisição; meu nariz é estranho e tem uma bolota na ponta; peido fedido o dia todo, e meu ouvido produz cera em demasia. Que tal? Não dói, não. Tenta aí.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

A universidade é injusta, antidemocrática e excludente

A universidade é uma instituição fundamentalmente injusta, antidemocrática e excludente. E digo fundamentalmente – ao invés de dizer eventualmente – porque, por um estranho paradoxo, embora se pretenda o último bastião da civilização e do pensamento racional, seus espaços estão estruturados de forma desigual e excludente. Pode ser que isto não faça dela uma instituição fundamentalmente desigual e excludente; ou seja: pode ser que baste engajamento político e mobilização de toda a comunidade universitária para alterar essa situação. Conduto, passa ano, entra ano, nada muda.

Para se ter uma ideia de como a universidade é antidemocrática, basta considerar a distribuição desigual de participação eleitoral das diversas categorias de sua comunidade, onde o poder esmagador encontra-se nas mãos dos professores em detrimento dos discentes e funcionários. Outro exemplo: a eleição para reitor ainda está submetida à interferência externa do governador do Estado, que pode escolher livremente entre os três candidatos mais votados. Uma herança da ditadura. E isto não decorre apenas de um Estado centralizador que invade e não respeita o princípio de autonomia da universidade. A comunidade universitária tem parte na culpa, e ela não muda a situação porque não quer, porque não vê motivos.

Como e porque a comunidade acadêmica ainda não se libertou de amarras tão ditatoriais? Ora, simplesmente porque a comunidade acadêmica é conservadora por natureza. E isto se relaciona com a composição social desta comunidade. Aqui entra outro paradoxo: embora a camada mais instruída da população seja estatisticamente mais aberta a novas ideias, e a pautas progressistas como legalização do aborto e do casamento gay, por exemplo, a comunidade universitária, habitada justamente pela camada mais instruída da população, é extremamente conservadora, à exceção de alguns minoritários setores de esquerda, quando se trata de seus próprios interesses particulares.

Socialmente, quem pertence a essa comunidade acadêmica? A classe média (a classe média de verdade, tanto em termos de renda quanto de lugar ocupado na produção social), que cultiva valores que – hoje, vistos à luz de uma sociedade estruturalmente desigual e cuja estrutura, sabemos, reproduz ad eternum a si própria – podemos classificar como conservadores: meritocracia, individualismo, Estado mínimo, etc. Em partes, é por isso que essa comunidade, que se crê guardiã dos valores mais caros da humanidade (ciência, ética, racionalismo, etc.), se opõe a políticas mais efetivas que visem a redução da desigualdade que vige em seu próprio meio. 

Tal desigualdade não pode, todavia, ser eliminada completamente no interior de uma sociedade desigual; daí que é impossível igualar as a composição social da universidade em relação à composição social da sociedade: ou seja, não é possível, dentro de uma sociedade desigual e injusta, colocar tantos pobres na universidade quantos existam na sociedade, proporcionalmente. Assim, não sendo a universidade uma ilha de justiça rodeada por um oceano de misérias, a composição social do meio acadêmico espelha fielmente a estrutura desigual da sociedade na qual se inscreve, só que ao contrário. Se você não acredita em mim, vá até uma para comprovar com seus próprios olhos. Você não vai ver negros, índios, pobres, migrantes, senão uma pequena minoria que contrasta gritantemente com a grande maioria, composta – e isto é evidente – pelos filhos da classe média branca. Repare nos funcionários: eles sim são, explicitamente de classes mais baixas, e a diferença de tom de pele é, igualmente, manifesta. Quem nega essa verdade evidente é cego, hipócrita ou ignorante, ou todas as alternativas ao mesmo tempo.

Daí a necessidade das cotas, das políticas de afirmação inclusiva; mas não apenas: sem incentivo à permanência com moradia, alimentação, bolsas, e sem verbas, a fim de financiar tudo isso, o padrão de desigualdade e exclusão continua se reproduzindo. Apenas facilitando-se o acesso (e note-se que tal facilitação está ainda longe do ideal) sem dar condições para que o aluno pobre, negro, migrante, etc., permaneça na universidade após ingressar nela, ainda continuamos presos à lógica da responsabilização individual: ou seja, cabe ao estudante, tanto pobre quanto rico, manter-se na universidade. Ora, a injustiça de semelhante lógica é evidente, mas a maioria da comunidade acadêmica, composta pela classe média, impregnada como está de meritocracia, não a compreende, e tem dificuldade de engolir tais políticas. 

As medidas de ampliação (dizer universalização seria muita bondade) do acesso à universidade, postas em prática na era petista, impactaram positivamente em alguma medida nesse quadro. Entretanto, não apenas tais medidas são tímidas e superficiais, na medida em que não tocam em problemas essenciais – tais como a garantia da permanência e a privatização do ensino –, como também, e por força disto, já mostram claramente sinais de esgotamento. Ou seja, seus limites são enormes, e dificilmente resultariam numa mudança substancial a médio prazo, quem dirá a longo prazo.

Em resumo, o argumento aqui é que a universidade não pode ser uma instituição justa e democrática no interior de uma sociedade injusta e antidemocrática. Uma das causas disso é que quem justamente compõe a maioria da comunidade acadêmica pertence a classes que, senão diretamente interessadas em manter a sociedade tal como está, ao menos estão imbuídas de valores e ideias que são fundamentais para a manutenção dessa sociedade tal qual está. E isso fica grotescamente evidente na arrogância com que os acadêmicos se arrogam guardiães da razão, ao passo que não são capazes de perceber a exclusão, injustiça e desigualdade que lhes esfrega a cara em seu próprio meio. De resto, todo mundo na academia busca sucesso e realização pessoal, e ninguém quer dar coisa alguma à sociedade – devolver então, para eles, seria um escândalo (devolver o que se tudo o que eu conquistei, inclusive a vaga na universidade, foi por mérito pessoal?), esquecendo-se como são desiguais as oportunidades e o ponto de partida entre ricos e pobres, brancos e negros, etc.

Ode à desordem

Por que continuamos por aí?
Não vemos que assim não há caminho?
Esta estrada não nos leva para longe daqui
Ao contrário, ela só nos faz caminhar em círculos
É preciso aventurar-se fora desses limites pré-definidos
Encompridar o olhar em direção ao infinito
Ao jamais concebido – por medo ou por escrúpulos tolos
É preciso dar a mão a quem vem em sentido oposto
Corajosos visionários que chamamos de loucos
Só porque suas bússolas não apontam ao mesmo norte de todos
Só porque suas vidas expõe a falsidade de nossas pobres certezas
É preciso pôr de cabeça a baixo este mundo de rudezas
A libertação de tudo exige sacrifício e redenção, e não perdão
Exige escolhas impensáveis sustentadas com firmeza
A destruição, à marretadas, destes muros que apartam
A pretexto de nos proteger sabe-se lá de que borrasca
Nosso pior inimigo é interior, é espiritual, somos nós mesmos
São nossos medos os demônios que é preciso arrostar
Só há salvação na recusa absoluta, sem condicionamentos
Nem uma exigência qualquer aceitaremos!
Nenhuma injunção que vier acataremos!
Nem um centímetro sequer recuaremos!
Equilibrar-nos-emos nos temíveis polos e extremos,
E do meio, das ponderações razoáveis, fugiremos
E pouco nos importa o perigo da queda
Não buscaremos acordos, diálogos ou coisa que o valha
É agora ou nunca, é tudo ou nada
Quem mata não morre: ode, ode à desordem!

Sobre acasos e destinos

É curioso como as coisas acontecem, como se não houvesse coincidências mas sim um plano traçado previamente. Um plano pressupõe uma consciência a planejá-lo. Só se pode especular a respeito dessa consciência. Quem seria ela? Um deus recôndito que escreve a história do mundo enquanto ela acontece? Um velhinho solitário encimado nalguma montanha a escrever poesias que se transformam em realidade? Porque vez ou outra se passam certas coincidências que, de tão coincidentes, fica difícil acreditar que sejam simplesmente coincidências, fazendo-nos crer na, ou suspeitar a, existência de um destino.

Talvez coincidências ocorram a todo o momento, e só não as percebamos por falta de treino ou por negligência ou, ainda, por automatismo. Bastaria aguçar os sentidos para percebê-las. Só que, para isso, é preciso querer; é preciso estar aberto a elas, e não desdenhá-las como fazem os céticos, homens de ciência para os quais não é lícito aceitar senão o que se pode provar empiricamente. Já pensei nisso inúmeras vezes por azo de minhas viagens de cogumelo. Quando se está chapado de cogumelo, ou de uma substância alucinógena semelhante, como o LSD, acontece cada coisa estranha, cada coincidência, que se fica a se questionar se aquilo realmente aconteceu. Mas aconteceu, e como as coisas não se projetam das nossas cabeças e se materializam no mundo, nem mesmo quando se está alucinando, esses acontecimentos que tendemos a julgar como coincidências devem existir de fato; só podem ter uma existência real, e já estavam lá antes de você tomar o chá. Isso significa que coincidências e/ou fatos estranhos/curiosos existem de fato, estão acontecendo ao nosso redor a todo o momento, e só não os percebemos porque estamos ocupados demais pra isso, ou simplesmente não queremos percebê-los.

Por que estou dizendo isto tudo? Porque coincidentemente, justamente num momento de rebeldia espiritual, quando fortes desejos de ruptura com esse mundo banal e mesquinho brotam do fundo da minha alma, me cai nas mãos, de forma gratuita, o poema O Uivo, de Allen Ginsberg. Não é para achar isso curioso? É como se alguém me dissesse: este é o caminho, é a resposta para as suas inquietações. Se o destino não me quisesse vivendo a vida como um vagabundo sem eira nem beira, a vagar pela face do mundo, em guerra com toda a sociedade, porque ele me daria justamente esse livro? Neste caso, deveria ter-me dado algo mais ajustado socialmente, menos rebelde. Está certo que eu procuro os rebeldes, os desajustados. Mas, ainda assim, o mistério da coincidência subsiste. Este não é o primeiro chamado que eu ouço do destino. Ouvi-lo ou não ouvi-lo, eis a questão.

“Eu vi os expoentes da minha geração, destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus...”

No fundo, a questão toda parece se resumir num problema de percepção. O que eu chamo aqui de destino outros chamam de acaso. Ambos se referem a um mesmo fenômeno, embora um perceba-o como produto de forças transcendentais autoconscientes enquanto o outro como produto de forças mundanas sem consciência de si. Para um, a questão é conhecer os desígnios divinos; para o outro, tais desígnios não existem, sendo que o que existe é tão-somente probabilidade e sorte. Acaso ou destino, não importa como chamamos esses fatos especiais; o que importa é o que fazemos deles. Afinal, tanto o acaso quanto o destino não são processos objetivos, conscientes ou inconscientes, e sim resultado de uma percepção humana: somos nós que identificamos e percebemos a existência do acaso e/ou do destino. Essa percepção, como toda percepção, varia de pessoa para pessoa, de sociedade para sociedade, de tempo histórico para tempo histórico. Portanto, precisamos apenas aprender a identificar o acaso e/ou destino com potencial para transformar nossas vidas para além da mesquinharia cotidiana.

sábado, 27 de julho de 2013

A cirurgia

“O que é mais ridículo: um corpo feio ou a busca obsessiva por um corpo ideal?”, perguntou-se Carolina, num assomo de lucidez que raramente lhe ocorria. Pode-se ignorar a consciência, mas não é possível suprimi-la. E a lucidez é uma arma que o instinto lança mão quando ameaçado por algum perigo iminente.

Instintivamente, o corpo de Carolina buscava preservar-se da agressão que ela, voluntariamente, lhe faria. Afinal, não havia fundamento racional naquilo. Não havia necessidade médica para submeter-se a uma operação de risco daquele tipo; ao contrário, o risco estava precisamente em submeter-se a ela, sem mencionar o lento e penoso processo pós-operatório de recuperação. Seu médico não lhe desaprovara a decisão; como parte de seu papel de médico, contudo, havia-a colocado a par de todas as consequências possíveis implicadas nessa decisão. Naquele momento, Carolina fizera ouvidos moucos às suas palavras, obsedada como estava em emagrecer. Agora, encolhida ali naquela cama de hospital, à uma hora da cirurgia, ela sentia muito medo, e se perguntava se fizera a escolha certa.

Postado no alto, à sua frente, o relógio se arrastava lenta porém inexoravelmente. Ao seu lado, jaziam flores num vaso; votos de boa-sorte. No entorno, um silêncio de morte e aquele odor característico de hospital ressudando por toda parte. Alguém passou em prantos pelo corredor, enquanto, inconsolável, consolava-lhe um ombro amigo. Carolina sentiu a espinha gelar. O que diabos fazia ela naquele lugar?

Tentou resgatar na memória seus motivos, a fim de justificar a si mesma que não era a toa que submetia-se àquele sacrifício voluntário. Ora, que melhor motivo teria do que o fato de ser gorda? E, além de gorda, era baixinha, atarracada, cujos membros roliços pareciam saídos daqueles espelhos fanfarrões dos parques de diversão. Não era como os de algumas de suas amigas, delgadas e esbeltas, cujos braços pendiam suavemente dos ombros elegantes. Detestava sua bunda, seios e coxas. Da barriga, então, é melhor nem falar.

Desde quando, ainda criança, começou a dar atenção às suas formas, e a compará-las com as de outras mulheres, sobretudo às daquelas que a tevê exibe radiantes, Carolina sentia-se horrivelmente feia, desajeita, nada atraente. Conforme crescia, crescia também essa sensação, ao ponto de não poder sair de casa senão com roupas que disfarçassem os quilos em excesso. Comprar roupas lhe pareceu sempre um pesadelo, não uma diversão. Ficar de biquíni em público, então, nem pensar. Apenas a ideia lhe causava vertigem. A adolescência, fase da insegurança por excelência, fora particularmente angustiante. Carolina precisou de psicólogos e remédios para conseguir levar uma vida minimamente normal. Em partes, conseguiu superar o trauma, mas a obsessão com o próprio corpo calou fundo em sua alma.

E o diabo é que Carolina possuía um lindo rosto. Só que, assentado sobre seu volumoso corpo, como se fosse uma cereja apetitosa sobre um bolo disforme, ninguém parecia notar. Ou melhor, antes perscrutavam seu corpo para somente depois reparar-lhe o rosto. Superada as crises da adolescência e conquistada certa segurança e autoestima, Carolina mostrava-se uma pessoa extrovertida, carismática, traço herdado da infância e nunca completamente abafado. Agora, aos quase trinta anos, quem a conhecia logo se encantava com aquele seu sorriso largo. Mas a impressão inicial, baseada em seu corpo, ficava sempre pairando no ar, inscrita nas expressões faciais traídas dos interlocutores, ou assim Carolina imaginava. Embora se considerasse uma pessoa feliz, sentia como se faltasse alguma coisa para o quadro completar-se, algo de indefinido. E era esse vazio que ela pretendia preencher com a operação de redução de estômago.

Agora restava apenas meia hora. Logo a enfermeira adentraria pela porta para levá-la à sala de cirurgia. Enquanto isso a tensão aumentava, fazendo Carolina transpirar pelas mãos e seu coração palpitar desordenadamente. Virou o rosto de lado, procurando com os olhos os olhos da amiga. Deu com eles ternos e apiedados. Esta imaginava o que se passava pela cabeça de Carolina, e sentia pena dela por isto. Mas uma amiga é uma amiga, e por mais que discordasse da decisão de sua decisão, respeitava-a e, como não havia meios de demove-la, apoia-la era o que lhe restara. Ademais, como ela, que estava casada e feliz, poderia condenar a amiga, que nunca havia namorado na vida, por tomar tal decisão drástica? Uma amiga não substitui um companheiro, e jamais substituiria. Se Carolina achava que este era o meio para alcançar a felicidade, tornando-se mais atrativa aos olhos das pessoas, então que assim seja.

Às dez horas em ponto a enfermeira apareceu, acompanhada pelo médico, um sujeito grisalho de meia idade. Ministrada as últimas informações à paciente, com eles lá se foi Carolina. Sua amiga permaneceu alguns minutos a mais no quarto, arrumando seus pertences e deixando-o à espera de Carolina para quando esta regressasse com o estômago reduzido a um copo de café. Dali em diante, adeus aos prazeres gastronômicos da vida. Sua alimentação teria de ser rigidamente controlada, tanto em termos de quantidade, quanto de qualidade e de horário também. Carolina ficaria refém dele para o resto de seus dias, sendo que, ainda por cima, não havia garantia de que ela não voltaria a engordar. Em tese, este tipo de operação deve ser feito como última opção, e jamais com fitos puramente estéticos. Quando se têm dinheiro para pagar, entretanto, as prioridades se invertem, e não é difícil obter o serviço de médicos renomados. Carolina não era rica, mas também não era pobre, e com alguns sacrifícios financeiros foi-lhe possível juntar o dinheiro necessário.

Em três horas apenas Carolina estava de volta ao quarto. Dera tudo certo. Em três dias sairia do hospital, caso tudo corresse bem. E logo poderia voltar à sua vida normal. Mas nada seria como antes. Não apenas porque fisicamente fora alterada. Nem porque seus hábitos alimentares tivessem de ser drasticamente disciplinados. Antes porque sentia que as mudanças externas refletir-se-iam internamente. Com um corpo esbelto, aquele vazio desapareceria, aquela sensação de falta sumiria. Sentir-se-ia mais confiante e desenvolta. Olhar-se-ia no espelho sem raiva ou medo, mas com satisfação e prazer. Usaria as roupas que quisesse. Acima de tudo, as pessoas a olhariam de outra forma, com outros olhos. Não como antes, quando, ao entrar num ambiente público qualquer, podia sentir os olhares de repulsa a pesar sobre ela como chumbo, fazendo-a inevitavelmente evitar encará-los de frente, restringindo-lhe os movimentos por medo de dar qualquer motivo àqueles olhares inquisidores que pareciam dizer: “gorda asquerosa”, “para de comer, sua gorda”, “deve ser virgem, essa jamanta”. Quem sabe agora tivesse coragem até mesmo para abordar um homem solitário nalguma mesa de bar. Ou quem sabe algum homem solitário a abordasse num bar qualquer. Quem sabe? Carolina, satisfeita, sonhava com a vida feliz que o futuro lhe reservava, agora que entraria no mundo maravilhoso das pessoas magras.

O mundo é um livro

O mundo é um livro de crônicas
Recheado de lindas histórias
Iguais as que a minha avó
Contava-me na cozinha
Enquanto fazia pão de ló
É um livro sem-fim a vida
Que cada um escreve um capítulo
A opus magnum da humanidade
É esta literatura coletiva
Que à vista de todos se abre
Sangue e suor são suas tintas
E o cotidiano as páginas
Peço apenas sabedoria e humildade
Para saber ler-lhe as linhas
E uma epígrafe legar à posteridade

sexta-feira, 26 de julho de 2013

O segredo da vida

Andar em todos os lugares
Sem fincar raiz em nenhum deles

Amar a todos as pessoas
Sem ter de escolher uma apenas

Ser a pessoa que se é
E ser todas elas ao mesmo tempo

Ver com todos os olhos
E não somente com o seu próprio

Ter os pés firmes no solo
Sem tirar a cabeça das nuvens

Ser um ser finito
Enquanto se é um só com o universo

quinta-feira, 25 de julho de 2013

O vício da poesia

Escrever poesia virou um vício.

Tudo é motivo, não consigo pensar em mais nada.

E mesmo quando penso em outras coisas a poesia não deixa de pensar meus pensamentos.

Permanece como pano de fundo, poetificando tudo, e em minha mente a ciência e a política de repente se veem relegadas a um quarto escuro.

Não respeita o momento, nem pede permissão para assomar à ribalta do palco da peça que se desenrola em meu teatro mental.

Então deixo de fazer o que estou fazendo e penso: isto daria uma bela poesia!

E paro tudo para pari-la.

Bem no momento – neste momento exato! – em que o inesperado mais esperado em décadas de repente deixa de se fazer esperar para tornar possível a possibilidade de se ver realizado.

No momento em que, ainda sem jeito, saem as massas às ruas para entrar na história.

Em que a palavra de ordem é política, e é ela que dá o tom da crítica.

Bem neste momento eu largo tudo, deixo o concreto mundo, para me refugiar nas searas líricas da poesia.

Bem neste momento, sou só sentimento, sem tempo para racionalizar, quem dirá participar.

Agora que se exige a prática, sou só teoria.

Que se impõem a realidade, sou só fantasia.

Sou só abstrato.

E, qual não é o espanto, quando constato que, isto aqui, que era pra ser um desabafo, virou também poesia.

De fato, a continuar assim, eu próprio tornar-me-ei verso em prosa.

Minha ambição

Minha maior ambição
É nada ambicionar
Senão as coisas do coração
As quais não se pode comprar
Meus sonhos não estão à venda
Não se adquirem no mercado
O que eu tenho não foi comprado
E não se expressa em moedas
Antes está em mim, incorporado
Não está em coisas materiais
Objetivado em mercadorias
Não me interessa bens venais
O que me interessa é saber,
Conhecer; é sabedoria
Que fique claro: ter não é ser
O que me interessa é amar
E ser amado
E isto justifica a minha pressa
Que não é a mesma desta corrida de ratos
A vida é uma só, e é esta
Há de se bebê-la num trago
De fazer dela uma festa
E, ao apagar das luzes,
Dela estar inteiramente embriagado
Sabe o que é estar livre da ambição?
Não ambiciono carros
Sejam novos, sejam importados
O meu, velhinho, serve-me mui bem, obrigado
As vitrines não me despertam atenção
Em verdade, acho-as de extremo mal gosto
Teu tênis novo não me cobiça
Cupidez é um pecado sem perdão
Ostentação, então, me causa ojeriza
Tudo o que me interessa são bons amigos
Que com eles divido tristezas e alegrias
Digo de novo: é amar e ser amado
Tudo isso acompanhado, claro,
De bons livros
Livros, de preferência, usados

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Você já ouviu falar em flash mob?

Descobri um conceito novo: flash mob. Para quem não sabe, flash mob – que, numa tradução livre, quer dizer “reunião instantânea”, “multidão instantânea” – é um conceito que designa uma espécie de intervenção artística feita diretamente no tecido social. De forma inusitada, sem aviso, porém previamente combinada, os artistas-interventores surgem ex nihilo para conduzir alguma performance qualquer, que pode ir desde danças coletivas até guerras de travesseiros – intervenção que está, obviamente, em contraste e em desacordo com as circunstâncias e o ambiente em que acontece. O conceito é, pois, genial, subversivo em suas próprias raízes.

Não apenas genial, mas sobretudo revolucionário. Flash mob é a melhor expressão para dizer que a arte é vida, e a vida é arte. Arte não é aquilo que se faz a portas fechadas e aos olhos de quem tem como pagar, espectadores que, curiosamente, não se mete a sujar as mãos com ela, mas tão-somente testemunhá-las. Nesta concepção de arte, é nítida a separação do que não se separa (do que não deveria se separar): separação entre artista e público, entre profissional e leigo; separação entre arte e vida, ambas não se misturando. Durante muito tempo a arte só foi considerada arte quando feita em espaços previamente delimitados, segundo cânones previamente estabelecidos. Quem determinava o que era ou não arte era, portanto, quem detinha tais espaços e quem definia tais cânones – e como toda posse resulta em poder, quem “possuía” a arte, por assim dizer, tendia a reproduzir sua posse. A busca pela ruptura desse academicismo é já antiga. Mas até hoje nos debatemos com ao menos duas valorizações da arte: de um lado, a arte por excelência, que passa pelo crivo dos espaços e cânones oficiais, cada vez mais submetidos à lógica do mercado, e, de outro, a arte marginal, feita à revelia desses espaços e cânones – feita para confrontá-los, na verdade, para romper-lhes os limites. 

A arte “marginal”, ou como quiser chama-la, não espera e não busca a sanção oficial. Ela busca novos espaços, novos conteúdos, novas formas e lógicas. Neste sentido, ela é livre, seja do dinheiro seja da injunção da fama, embora tanto o dinheiro quanto a fama, prêmios que a arte oficial dá para quem se submete a ela (aliás, dois elementos que a arte marginal despreza: ela é anônima, ou coletiva, e ela é pública, gratuita), procurem estender seus tentáculos sobre o terreno livre da arte marginal. Sob uma perspectiva histórica, talvez vivamos hoje no limiar de um dos momentos mais importantes para a arte. E devemos tudo ao grafite e ao teatro de rua, artes que resgataram a pintura das galerias e a dramatização dos teatros, para presenteá-las às pessoas comuns, no âmbito de suas vidas comuns. Devemos também aos inconformados da contracultura que lutaram contra a privatização e a mercantilização da vida. E, lest but not least, devemos ao refugo humano e social da sociedade capitalista, que se, por um lado, impediu a entrada de uma enorme parcela dos seres humanos no seu círculo privilegiado de consumo, entre cujas mercadorias figura a arte, jamais seria capaz de roubar dessas pessoas a humanidade e, portanto, a capacidade de produzir beleza. Quase tudo o que de mais bonito foi feito vem, justamente, das classes mais baixas, e isso não é, de modo algum, coincidência.

Mas voltemos a falar do flash mob. O simples fato de quebrar a monotonia do dia-a-dia, onde nada de extraordinário acontece, já é por si só revolucionário. Eu, por exemplo, não saberia o que pensar se, por um minuto, a minha aborrecedora vida de repente se transformasse num musical da Disney. E refiro-me a mim mesmo justamente porque a melhor palavra para definir esse conceito é o anonimato, tanto do espectador quanto do artista: pessoas anônimas, como você e eu, aparentemente também imersas na miséria de suas vidas, de repente se transformam em mágicos bailarinos. Quando a magia acaba, lá se vão eles embora, anonimamente, tão rapidamente quanto vieram. Terminado o número, vão-se embora e a vida retona ao seu fluxo normal. E fica-se com a impressão de se aquilo tudo realmente aconteceu. Mas alguma coisa aconteceu. Alguma coisa fica para contar a história. É um choque. Se a sorte me desse a oportunidade de presenciar um flash mob, eu ficaria pensando nisto pelo resto do dia. Depois disso, de um minuto de fantasia, como aguentar um dia inteira de obrigações, protocolos, injunções? Acho que eu sairia dançando pelo meu trabalho, entre as máquinas e escrivaninhas, tal como Bjork em Dançando no Escuro.

Flash mob é como um daqueles eventos da natureza que só acontecem de tantos em tantos mil anos, e que é preciso se estar no lugar certo e na hora certa para presenciar. Haja sorte. E o nosso senso do que é ou não importante foi tão pervertido que ficamos a nos perguntar se vale a pena tanto esforço empregado na produção de um espetáculo para que apenas um punhado de transeuntes dispersos presencie-o. Entretanto, quem planeja e executa um flash mob não liga para números. O que importa é o impacto. O que importa é o conceito. Um seu bom resultado se exprime não no número de espectadores diretamente alcançados, mas no modo e na qualidade com que atinge estes espectadores. E, de qualquer modo, se a questão for número, multipliquemos flash mob por aí! Multipliquemos as intervenções artísticas na vida cotidiana!

Este potencial revolucionário não se restringe ao flash mob, evidentemente. Emprego-o aqui como um exemplo, mas toda arte intervencionista, ou seja, que usa os mesmos meios e conceitos do flash mob, é uma arte revolucionária por natureza. A mensagem que ela passa é simples, clara, direta: “pare (com o que você faz mecanicamente todo dia), pense (sobre o que você não pensa todo dia), aja (diferentemente de como você age todo dia)”. A intenção aqui é a mesma que buscava Brecht com seu teatro épico: o estranhamento com o que é normal para, a partir deste estranhamento necessário, romper com a normalidade, uma vez que a normalidade é opressora, exploratória, injusta, e, como tal, inaceitável. Trata-se de técnica de desalienar as pessoas. Hoje em dia não faltam exemplos dessa arte, e arriscaria dizer que ela é o futuro da arte. As mensagens estão por todo lado, mesmo que em pequenos pedaços grosseiros de papel ou em garranchos feitos às pressas no muro. Além disso, todo festival de arte que se prese hoje exibe parte da programação na rua ou, ao menos, em locais públicos. 

E isto nos leva a uma última questão, cuja centralidade é inquestionável, que gêneros artísticos como o flash mob colocam: a cidade. Eles nos fazem repensar o papel e a natureza da cidade, do espaço urbano, das formas de convivência dentro dele. A cidade, tal como a conhecemos hoje em dia, se transformou num lugar feito à imagem e semelhança da economia; ainda mais: se tornou a célula vital da economia. E como hoje a economia dá as cartas como nunca dera anteriormente, a cidade só pode ser pensada como uma grande mercadoria, ou uma grande fábrica. É pensada e organizada para viabilizar produtos, dinheiro, trabalho. As cidades não são das pessoas. O que as artes intervencionistas fazem é por em questão essa lógica. Se a cidade é uma máquina, façamos dela um palco; se é cinza e monocromática, pintemo-la de cores vibrantes; se é barulhenta e cacofônica, façamos dela melodias e canções. Como dizem os pichadores: a cidade é um branco que a gente vai preenchendo com palavras.

Carência

Sou um cara carente
Necessito de gente
Mas digo que não
E me chamam turrão
Só que é tudo mentira
Se encontro companhia
Sou tão-tão grudento
Que nem eu me aguento

E me dizem:
Deixa disso, homem!
Carência é coisa de criança
Teu afetivo é muito infantil
Não tiveste infância?
Onde é que já se viu?
Um varão sentir-se carente
Ainda fosse mulher
Vá lá, entende-se
Agora, um homem padecer
De um coração doente?
Adultos não sentem carência
No máximo, solidão
Muito menos um homem, sinceramente
Ora, tenha decência
Você com sua carência que se aguente!

Não há tempo para comoção
Nem espaço para compaixão
Ternura, piedade ou meiguice
Tudo isto é frescura, é tolice
Não cabe entre gente grande
É preciso ser forte, petulante
Se você uma lágrima derruba
Esmagam-te como a uma uva

Não te esqueças, garoto, o mundo é duro
Sabes quando um adulto torna-se adulto?
Quando deixa de sentir-se carente
Para se crer forte e autossuficiente

E eu respondo:
Não, muito obrigado
Adultos são tristes e solitários
Prefiro ter com as crianças
Que, se não lhe dão atenção
Inventam amigos imaginários
Fantasiam mundos de sonhos
Deixam-se levar pela imaginação
E da vida fazem um conto
Coisas que todo adulto já fez
– como eu era bobo! –
Mas que não fazem mais
E quando olham para trás
É para zombar com ironia
Esquecendo-se que um dia
Foram crianças também
Talvez se deixassem de desdém
E guardassem um pouco
Da alegria de ser criança
Ninguém precisaria morrer
Na arrelia, por falta de esperança

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Eu cago, tu cagas, nós cagamos: um outro olhar sobre a merda

Cagar é a ação vital mais prosaica que conhecemos, talvez até mais do que a ação de comer. Não é correto que o trivial, as coisas prosaicas da vida, devam ser descuidadas, olvidadas, desvalorizadas. Ora, comer é uma banalidade, algo que cumprimos religiosamente (quem tem, ao menos, condições), e nem por isso descuidamos das nossas refeições, ou comemos de mal gosto, tão-somente para matar a fome. Comer é um prazer, e a gastronomia está aí para nos lembrar que se trata, também, de uma arte. Pois bem, cagar também é um prazer e uma arte. Porque então essa desvalorização da merda? Porque essa negligência toda ou ojeriza em relação ao ato de cagar? É claro que no dia-a-dia a necessidade de alimentar-se é feita sem grande pompa. Não obstante, ao menos uma vez por semana queremos comer bem, preparar aquele almoço caprichado, sair para comer fora, de preferência com os amigos ou a família. Porque o ato de cagar não recebe o mesmo tratamento? Porque não temos o costume de, por exemplo, cagar fora? Eu, pessoalmente, adoro cagar fora. Na casa de amigos, no banheiro da faculdade, do consultório médico. Não existe banheiro melhor para dar uma bela cagada do que o de shopping. Aquele mármore reluzente, aquela temperatura amena, tudo muito asséptico e clean, é um convite para me demorar sobre o vazo. Ainda que eu não esteja com vontade, faço uma forcinha para não desperdiçar a oportunidade.

E o contrário é verdadeiro também: nada mais terrível do que, premido pelo chamado da natureza, ter de cagar num banheiro asqueroso, empoçado de mijo, sem papel higiênico, cuja porta não tranca. Nessas horas, quando não tem outro jeito, o jeito é bancar o malabarista: cagar sem relar as coxas no assento, as calças arreadas porém sem encostá-las no chão, com uma das mãos segurando a camisa enquanto a outra mantém encostada a porta do banheiro. A parte difícil mesmo, o último truque do malabarista, acontece na hora de se limpar, quando se tem de fazer tudo isso e ainda manusear o papel higiênico. E olha que, ainda assim, deve-se agradecer, porque pior do que isso é ter de cagar na rua, especialmente numa hora movimentada do centro da cidade. Antes de deixar chegar a esse ponto, meu amigo, não tenha vergonha: bata de porta em porta implorando pela solidariedade alheia. Mais vale uma cagada tímida num banheiro alheio, do que uma cagada desbragada na calçada. Só quem já passou necessidade, carecendo de uma privada, sabe o valor que ela tem, e por isso não recusaria a privada nem ao seu pior inimigo.

O ponto é que cada lugar, ou seja, cada banheiro e cada privada diferente, dá uma sensação especial. Tem lugar que a gente quer cagar o mais rápido possível e sair dali. Tem outros que a gente quer se demorar, deixar o tempo passar, esquecer o mundo que se desenrola para além da porta do banheiro. Por exemplo, cagar também é um ótimo meio de burlar o trabalho. Mesmo aqueles que costumam cagar ligeiro, aproveitam a deixa para relaxar. Cagar no trabalho é tão bom quanto fazer aquele intervalinho para fumar um cigarro. Para quem não fuma, resta o cocô. O ruim é quando não é possível sair para cagar. Aí é melhor cagar antes de sair de casa mesmo, porque ficar se contorcendo para segurar a merda que luta para vir ao mundo é um sofrimento só. Os peidinhos liberados na encolha durante esta batalha, à semelhança de uma válvula de escape, não são o bastante. E, de qualquer maneira, ninguém gosta de ficar brigando com os próprios intestinos. Ainda que em cada lugar e em cada banheiro a sensação da cagada seja diferente, não resta dúvida de que a melhor de todas consegue-se no conforto e segurança do próprio lar. Quando se trata de privada, o adágio popular segundo o qual a grama do vizinho é sempre mais verde não vale. Nada melhor do que a nossa privada, já amaciada e adaptada anatomicamente.

E porque esse medo da palavra “cagar”? Enquanto eu escrevo, o corretor automático do Office incansavelmente fica a me sugerir que eu substitua a palavra cagar pela defecar. Não, é cagar mesmo! Quem é que defeca neste mundo? Todo mundo caga! Alguém por acaso diz: “me dá licença, vou defecar”? Aliás, a maioria das pessoas não diz, de fato, nem um nem outro, e sim: “vou ao banheiro”. Faz-se muita coisa no banheiro, como banho, sexo, punheta, barba, cílios, maquiagem; entre elas, faz-se cocô também. Qual o problema em ser mais específico? E não vale dizer: “vou ao banheiro fazer o número dois”, exceto se você tiver até 12 anos no máximo. Tirando a sinceridade cômica que vige entre amigos íntimos, só os mais audazes e subversivos dizem sem rebuços: “peraí que preciso dar uma cagada”; ou contam desenxabidamente sobre suas histórias fecais para qualquer um. 

Percebe-se que existem mil maneiras de referir-se ao ato. Cagar, defecar, obrar. Podemos referir a ele, também, por metáforas: cortar o rabo do macaco, chapiscar o azulejo, passar um fax, ligar a máquina de churros, etc. E essas várias maneiras não são casuais, tampouco neutras; remetem a ideias construídas socialmente a respeito do significado e da natureza da ação de cagar. Não à toa, associamos essa ação a coisas ruins, desagradáveis, sujas, enquanto a ação de comer, que não existiria sem a ação de cagar e vice-versa, associamos a coisas boas, limpas, saudáveis. Como pode duas ações que só existem em relação entre si, jamais separadas, serem valorizadas de forma antagônica, como se uma fosse a antípoda da outra. Comer remete a saúde, cagar remete a doença. Será que não percebemos a contradição? Cagar é uma condição de saúde tão importante e necessária quanto comer. Quem já ficou semanas sem conseguir cagar (na linguagem popular, “ficou ressacado”) que o diga. Não é o meu caso, que cago muito bem obrigado. Mas parte expressiva da população, submetida a uma dieta rica em gordura e pobre em fibras, sofre diariamente com a dificuldade de cagar. Neste caso a culpa pela saúde ruim é do comer e não do cagar. E é a coitada da merda que leva a fama de ser imunda.

E existem mil maneiras de referir-se não apenas ao ato em si, mas também a algo através dele. Quem diz “tô cagando e andando para isso”, quer dizer que está pouco se importando com determinada coisa. Para transmitir um sentimento de medo podemos dizer: “quase me caguei todo”. Se você quer ofender uma pessoa, chame-a de merda ou bosta. E se você quer que ela se foda, sem, contudo, ser tão agressivo, pode dizer: “vai cagar”. E não esqueçamos que muitos discursos preconceituosos são muitas vezes construídos com base na ação de cagar, por exemplo, associando a cor da pele dos negros ao tom da merda. Quando alguém aludir ao ato de cagar através de expressões tais como “vou botar o Pelé para nadar”, “vou inscrever o Robinho na natação”, repudie-a taxativamente, e esclareça-a respeito do conteúdo racista de sua declaração. Podemos e devemos nos divertir com nossos excrementos sem sermos preconceituosos com isso. No mundo queremos, sem preconceito de qualquer espécie, não há espaço para fezes e ignorância ao mesmo tempo, ademais porque uma merda é precisamente a ignorância.

Ao parolar tão tranquila e naturalmente sobre o ato de cagar, pode parecer que eu mantenha com ele uma relação menos pudica do que a maioria das pessoas, mas não. Eu também tenho meus pudores, claro. Fomos criados para ser assim, para ter nojo, não apenas da merda, mas também de toda excreção corporal. Quando cago em lugares públicos, como no banheiro de um shopping, para retomar este exemplo, eu tento controlar ao máximo meu esfíncter para emitir menos barulho possível. Não me sinto confortável sabendo que as pessoas estão ouvindo a merda que cai do meu cu, especialmente quando a merda vem acompanhada de flatulência trovejante. Às vezes não tem jeito, definitivamente. A bosta vem com tal furor e intempestividade, como um tsunami, que arrasa tudo em seu caminho, fazendo um estrondo característico quando vem à luz. A pestilência espalha-se imediatamente e toma de assalto todo o ambiente. Fico imaginando o que passa pela cabeça das pessoas ao redor que têm a oportunidade de presenciar esse fenômeno da natureza. Já aconteceu de eu rir abertamente numa situação dessas, sem poder, naturalmente, explicar-me a elas. Como não rir de algo tão cômico? Aliás, cagar e peidar são uma espécie de piada fisiológica que o nosso corpo nos conta. Deixemos, portanto, de torcer o nariz, e botemos de parte nosso aversão pela merda, sobretudo em relação a da juventude, uma vez que sua repressão é uma das causas principais da sisudez adulta.

No entanto, se esse tipo de cagada é ruim de fazer em público, ele é talvez o melhor de fazer na privacidade total. Só a cagada-tsunami fornece alívio imediato e dá aquela inigualável sensação de bem-estar. Às vezes chega-se mesmo a emitir involuntariamente um gemido de prazer. Talvez por isso também nos referimos ao ato de cagar como o ato de “se aliviar”. Considere, por exemplo, a raiz etimológica da palavra “enfezado”. Ela vem de fezes, e significa, literalmente, “pessoa cheia de fezes”. Por óbvio, uma pessoa prenhe de fezes é uma pessoa irritada, daí a derivação do verbo “enfezar” como “zangar-se”. Portanto, cagar é um prazer. Mas nem sempre. É irritante e frustrante quando se caga à prestação, bolinha por bolinha, como uma cabrito, ou quando a merda sai maior que a encomenda exigindo demais das pregas do cu. Isso para não mencionar a diarreia, ou outras manifestações anómalas da cagada. De meia em meia hora toca acudir ao banheiro, com aquela terrível sensação de que qualquer peidinho mal liberado pode redundar em tragédia (e quem já não foi vítima de uma?). Por isso, o ideal é que a merda esteja no meio-termo, equilibrada, nem mole nem dura demais, nem grande nem pequena – se bem quem conheço mais de uma pessoa que contam vantagem de cagadas de magnitudes supostamente colossais. Assim como as histórias de pescador, as de bostas épicas também são lendárias. Um ou outro registra a obra em vídeo ou em foto para provar, para o Guinness se preciso for, que não se trata de lorota de pescador, quer dizer, de cagador.

Desculpe-me se lhe parece intimidade demasiada escrever uma crônica sobre o ato de cagar. Mas esse é também um texto político. Faço aqui uma apologia à boa cagada; tento resgatá-lo da infâmia fisiológica à qual foi relegada pelo homem moderno. Se você se ofende com essas palavras é porque é presa, justamente, dessa moral que reprime a merda, que resseca os intestinos e que faz do cu um pecador. Daí a necessidade de um libelo pela liberdade de cagar! De um manifesto contra o recalque fecal! Em todos os sentidos, essa crônica é um laxante em palavras. Chega de se envergonhar ao sentir prazer cagando! Chega de tergiversar sobre o assunto nas conversas de família! Chega de mentir e esconder as trágicas e/ou cômicas memórias de cagadas insólitas! Afinal, todo mundo caga, não caga? Eu, você, minha avó, o Papa, a princesa Kate Middleton. E cagam tão fedido quanto! Cagar é o ato socialista por excelência, a expressão literal do princípio de igualdade que ensejou as duas maiores revoluções que esse mundo já presenciou, e que consta na Carta dos Direitos do Homem e do Cidadão: na hora de cagar, todo mundo é igual, ricos ou pobres, celebridades ou anônimos.

Dito isso, deve-se observar, por outro lado, que, se a cagada é, em si, uma necessidade universal, tal qual a bosta feder, as circunstâncias em que o ato acontece são diversas, e inúmeras são as variáveis que influenciam sobre elas e sobre o resultado final, ou seja, a merda. As variáveis mais importantes são sociais e culturais. Entre as sociais, sabe-se que o rico caga num verdadeiro trono acolchoado, limpa-se com papel mais macio que veludo (não fosse algo embaraçoso, ele pagaria uma doméstica para fazer o serviço por ele), e tem à disposição perfumadores de ambiente para que não venha a ter o desprazer de inalar o odor de sua própria criação. Já o pobre está condenado a cagar em banheiros mal iluminados, com privadas nodoadas e rústicas, cuja caixa-de-descarga muitas vezes não dá conta do serviço, obrigando-o a recorrer ao trabalho extra de buscar água no balde para arrematá-lo. E não esqueçamos do tipo de papel barato, que mais parece uma lixa de parede, com que o pobre é obrigado a limpar a bunda, quando não lhe resta apenas o jornal puro e simples. Para o pobre, essa já é, seja dito de passagem, uma condição razoável, porque há miseráveis que só Deus sabe como cagam (até porque não comem nada para ter o que cagar depois). No sertão nordestino, por exemplo, o banheiro é o arbusto, não tendo o sertanejo uma folha de bananeira sequer à disposição para limpar a bunda. E aqueles banheiros antigos das casas de fazenda, que ficavam separados da sede? Imagina quão aborrecedor não deveria ser acordar no meio da noite para cagar! E isso me faz lembrar as privadas de cadeia, que os detentos chamam de “boi”. Não há separação nenhuma entre elas e as celas. Coitados dos presos recém-chegados que, à mingua de conceito com o resto da bandidagem, tem de dormir no pior canto da cela, ou seja, ao lado do boi.

Cagar dá pano pra manga. Poderia discorrer eternamente sobre o assunto. Faltou falar, por exemplo, dos tipos de cagadores. Tem aqueles que negligenciam o ato, ou têm de cagar várias vezes ao dia, de modo que mantêm com ele uma relação quase protocolar, formal. Tem aqueles tipos intelectuais – categoria na qual eu me enquadro – que não conseguem sentar-se à privada sem um texto em mãos, e, na falta de um, são capazes de ler o rótulo de xampus e pastas de dentes. Tem aqueles que só cagam de manhã, e aqueles que não podem sentir o cheirinho de café sem uma privada por perto porque a vontade bate forte. Tem casais que cagam juntos, outros ainda não chegaram a tal nível de intimidade. Pois é, cagar dá pano pra manga. Tanto, que, ao invés de dizer “cagar dá pano pra manga”, poderíamos dizer – se mantivéssemos uma relação mais natural e menos recalcada com as nossas fezes – “cagar dá bosta pro cu”. E aqui entra em cena o cu, mas aí já é outra história. Fica pra próxima crônica.

Canção do (auto)exílio

Escrevo porque?
Para desaparecer
Desapare-
Ser
Pare
Desapareça
Não seja
E o que mais eu poderia querer?
Escrevo e sumo
Me anulo
Restam as palavras
Sem rumo
Resta um olhar
Imortalizado
Sobre o mundo
Quem escreve
Desaparece
Quem escreve
Se despede
De tudo
Escreve
Sobre-
Tudo
De si

Escrever é transcendência
Para além do concreto
Da vivência
Da vida, do azo cotidiano
É reminiscência
De um outro passado
Não o meu, não vivido
Mas inventado
Que quisera houvesse sido
E que importa?
É sonhar acordado
Pois está além do possível
É aquilo que não fui
Nem hei de ser
E assim me satisfaço mui

É solidão consentida
Que se escolhe, voluntariamente
Consciente, auto-impingida
Sai de cena o homem
Para entrar o artista
É na solidão que se sente
O comungar-se com a vida
É estando ausente
Rasurando linha por linha
Que me sinto presente
Que sinto de vocês a companhia
Sem mediação, interiormente
Como se não existisse espaço
Aqui, ali, embaixo ou em cima
Nem tempo
Passado, futuro ou presente
Só a gente, nós todos
Vagando no vácuo
Descarnados, sem corpo
E, a atravessar-nos, essa energia boa
Religando tudo de novo

sábado, 20 de julho de 2013

A aldeia

A nossa aldeia fica numa região de magnífica beleza natural – que vocês chamariam de região remota do território brasileiro. Cortada por rios que nos abrem caminhos e nos fornecem alimento – que vocês costumam comparar a estradas e/ou geradores de energia. Cercada por rica e preciosa fauna e flora – e que vocês veem como simples ativos econômicos. Alguns de vocês dizem que a civilização ainda não chegou por estas bandas, e que é preciso ou impedir a sua eventual chegada, ou nos integrar harmoniosamente a ela. Outros dizem que ela chegou, fazendo de nós tão capitalistas quanto o resto do Brasil e que, por isso, não podemos ser tratados diferentemente dos demais brasileiros conforme um estatuto especial. Compreendo que o termo “civilização”, o qual vocês usam para referirem-se a si mesmos, é bastante etnocêntrico. Ora, também somos uma civilização. O problema é que a vossa civilização não consegue conviver com a nossa. Diferentemente do que dizem muitos de vocês, a (sua) civilização chegou sim até estas bandas, assim como chegou a cada rincão deste mundo, mas, tal como Jano, ela tem duas faces, e a nós mostrou apenas a face mais perversa. Sua chegada, entretanto, não anulou a nossa civilização, embora tenha corrompido-a completamente. Os mais velhos quase não se reconhecem mais nos mais novos. A tradição foi, hora pra outra, destruída. Eu pertenço a essa nova geração, e discordo em muita coisa do que pensam os antigos. Queremos ser tratados como todo brasileiro da cidade grande, e ter garantidos os mesmos direitos; queremos ter assistência médica, acesso à educação, condições de vida descentes para sustentar nossos filhos; não queremos nada mais do que a lei garante e a cidade oferece. Eu, pessoalmente, sonho em fazer faculdade, quero me formar em medicina. Contudo – e neste sentido faço coro com os mais velhos –, apenas não queremos ter de abrir mão da nossa cultura; não queremos que isso signifique o fim das nossas tradições, dos nossos ritos, costumes e crenças. Vocês estão errados quando dizem que somos atrasados, quando afirmam que, para nos integrar, para nos tornarmos um de vocês, temos de abrir mão de tudo aquilo que faz sermos o que somos.

Nossa aldeia já passou por muita coisa, já teve muitos inimigos e já enfrentou muitas guerras. Mas vocês são de longe o inimigo mais temível. E temo que não podemos ganhar. Já nem é possível mais recordar o tempo em que tínhamos por inimigo apenas a tribo do litoral. Isso foi há muitas e muitas luas atrás, antes de vocês de chegarem. Quando vocês apareceram, vieram doenças, guerras, fome, escravidão; sem mencionar o genocídio cultural empunhado na ponta da cruz. Mas isso também foi há muito tempo; antes mesmo de nascerem os anciãos da nossa aldeia. Relativamente, tivemos sorte. Enquanto milhões dos nossos irmãos desapareceram da face da Terra, mortos ou absorvidos por vocês, permanecemos aqui, preservando na medida do possível o nosso modo de vida. Agora chegou a nossa vez. É hoje que enfrentamos a maior ameaça, que travamos nossa maior guerra. Primeiro foi a colonização, nos anos 70, que trouxe grileiros e latifundiárias para cá. Junto com eles vieram o gado e as madeireiras. Depois foi a soja. À medida que roubavam nossas terras, nossa terra sagrada, ancestral, íamos sendo cada vez mais empurrados para pequenos espaços que vocês chamam de reservas – reservas, como se fôssemos animais em extinção (aliás, a palavra “animal” não tem para vocês o mesmo significado que tem para nós). Pois bem, essas “reservas” não são suficientes para sustentar nosso modo de vida. Quase não caçamos mais, e nossas roças mal dão para a subsistência. Vivíamos muito bem até isso tudo acontecer; vivíamos na fartura, mas agora vocês olham para nós e dizem que somos indolentes, que nosso modo de vida é pobre e precário. Não costumava ser assim. Agora dependemos da ajuda do governo para sobreviver. E nem preciso dizer-lhes que o vosso governo pouco ou nada olha por nós.

Infelizmente, isso não é tudo. A mais nova ameaça vem de construtoras, empreiteiras, grupos de investidores, que lograram um bom negócio levantando hidroelétricas no meio da floresta amazônica, entupindo suas veias e derramando seu sangue na forma de lagos tão grandes quanto pequenos oceanos. Vão levantar uma próxima daqui, e nossa terra será inundada, restando apenas um exíguo espaço para onde transladaríamos a aldeia, que, segundo o consórcio construtor, seria de alvenaria, teria água encanada e luz instalada. No começo, todos ficamos empolgados com a boa-nova. Achávamos que a tal da civilização de vocês havia chegado trazendo, enfim, outra cousa que não a humilhação, a dor e o sofrimento. Disseram-nos que construiriam escolas para nossos filhos, hospitais para nossas famílias. Prometeram mundos e fundos, e a maioria do meu povo, exceto os mais velhos, que sabiamente permaneceram céticos, foi arrastada pela mesma doença da qual sofrem vocês: a ganância. E não me refiro ao sonho de uma vida melhor, mais digna. Não preciso lembrar-lhes a situação precária em que vocês nos deixaram. Refiro-me à ganância pura e crua pelo dinheiro e por luxo. Porque se a água, a luz, as escolas e hospitais só ficaram no papel, o consórcio nem pestaneja quando se trata de nos comprar com bugigangas que vão desde pick-ups a celulares e notebooks. Como o governo não fiscaliza o consórcio para que ele cumpra as contrapartidas sociais em compensação aos impactos decorrentes da obra, ele negocia diretamente conosco porque é muito mais barato nos dar bens de consumo do que construir e manter uma infraestrutura para que nos sustentemos sozinhos. Mas como todo bem de consumo acaba, uma hora tudo isso acabará e nos veremos sem nada novamente, numa condição ainda pior do que nos encontrávamos. Seria esta uma versão contemporânea da burla com que os vossos antepassados lograram os nossos?

De qualquer forma, ela tem funcionado. As mercadorias e o dinheiro que invadiram a aldeia têm divido as famílias, ensejado querelas e disputas, fomentado a discórdia. Nem em meus piores pesadelos imaginaria um modo tão fácil de nos corromper. Ninguém trabalha mais, vivemos dos presentes. Nosso único trabalho é ir à cidade cobrar do consórcio mais e mais presentes. O cacique, responsável por esse trabalho, está enriquecendo, e todos estão desconfiados. Circulo pela aldeia e vejo tevês sintonizadas em programas que exibem, como uma vitrine virtual, imagens da opulência em que vocês vivem, da alegria e festa que é a vida de vocês. Na cidade grande tem bares, restaurantes, cinemas, shoppings, condomínios, clubes. Fico imaginando se todos vocês vivem assim mesmo. Não importa, isso tudo seduz o meu povo. A nossa aldeia está, de fato, diminuindo, e ninguém sabe se se extinguirá um dia. Os jovens estão todos a abandonando e indo para a cidade para fazer a vida, como vocês dizem; sonhando com glamour e conforto. Assistem à tevê, vêem a caminhonete 4X4 turbo que nosso cacique dirige, os computadores, etc., e cuidam que, se isto é só um pequeno gostinho do que a civilização de vocês pode oferecer, seria burrice continuar ali, naquele fim de mundo, vivendo uma vida atrasada. Quando chega notícia de algum jovem índio lá na capital, elas não são muito animadoras. Mas como está a maioria empregada, ganhando um salário mínimo, dizem que não querem voltar, que é melhor assim, e o ciclo de ilusão recomeça. Ironicamente, muitos dos que saíram da aldeia por causa da barragem agora trabalham nela, ajudando a construí-la. Os que ficam se entregam à bebida ou à vagabundagem. Quase ninguém mais liga para os rituais, para os costumes e práticas, como se eles tivessem se tornado, dum dia para o outro, bobagem, tolice de índio. Os mais velhos estão desolados.

Olho para esses jovens que agora escutam músicas estranhas, pintam o cabelo e o cortam a la Neymar; que usam roupas diferentes, coloridas e com palavras estranhas, e me pergunto como tudo isso aconteceu. Foi tudo tão rápido, nós nem vimos acontecer. Existe esperança, no entanto. Ficamos sabendo que existem outras aldeias na mesma situação, e elas estão se organizando para lutar contra isso tudo. Pessoas do mundo de vocês também estão conosco, organizando-se e ajudando-nos a se organizar em coletivos e movimentos sociais. Um dia até paramos as obras da usina, e vamos parar novamente. Quantas vezes for necessário. Já até declaramos guerra ao governo federal, fizemos documentários, realizamos congressos, fomos ao exterior denunciar o que acontece aqui. Agora sabemos que é possível fazer diferente, é possível mudar o sentido das coisas. Não desistiremos; resistiremos. Ou nos tratam com dignidade e respeito, ou podem enterrar-nos aqui mesmo.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Família sem lar

Ela passa por esta rua sempre
Traz uma criança a tira colo e outra no ventre
A terceira, já caminha, vai à sua frente
Batendo palmas, pedindo trocados
Aos cidadãos que por elas passam apressados
Alheios, totalmente indiferentes
Àquela gente de andrajos
Vistas, quando não são-lhes invisíveis, como um estorvo
Circulando entre os carros no semáforo
O clássico gesto, inconfundível
Solicitando o que solicitam os miseráveis
Nem é preciso que o motorista se dê ao trabalho
Este responde através do vidro fechado mesmo
E ela continua mendigando a esmo-
Lá, por onde passam engravatados em automóveis importados
Às vezes alguém os toca de lá
Mas, tal como cachorros sem lar
A família invariavelmente retorna àquele lugar
De homens airosos e abastados
Os bolsos cheios, os filhos gordos e rosados
Uma moeda não lhes falta em troca de consciência aliviada
Aquela mulher lhes presta um serviço, de fato
Limpadora de consciência, assim devia ser chamada
Ter profissão reconhecida e carteira assinada
Alguns fazem-lhe festa, dão-lhe tapinha nas costas
Fingem-se amigos e logo vão se embora
Esses são clientes preferenciais
E ganham serviço extra
Saem com a vaidade satisfeita
A consciência reluzindo como cristais
Dormem o sono dos justos
Sentem o peito leve e puro
E rezam tranquilos as missas dominicais
Seguros de serem bons cristãos
Já os mais duros de coração
Justificam não fazer mais do que a obrigação
Um prato de comida aqui, um agasalho ali
Está feita a contribuição por um mundo melhor
Mas passa-se o tempo, e ó
Olha ali as coisas do mesmo jeito
Daqui eu ainda vejo aquela família
Os rebentos crescendo em meio a sirenes e buzinas
Fugindo das autoridades e apanhando da polícia
Quando não conseguem esmola
Furtam para manter o estômago em dia
Ou a mente vazia dentro dum saco de cola
E assim vão vivendo a vida
Quando morrerem, serão substituídos
E ninguém notará ou saberá dizer a diferença

Da poesia

Seu Poeta, não complica
Poesias devem ser simples e casuais
Ou ela é feia ou é bonita
E isto basta, sem mais
As mais belas poesias
Pouca importância dão à teoria
Ignoram a métrica e os manuais
Embora alegorias, rimas e ritmos
E técnicas estilísticas tais quais
Sejam-lhes elementos essenciais
Prestando-se a fins lúdicos
Não passam, pois, de brincadeira
(Não confundir com coisa fútil)
Que a poesia sincera e verdadeira
Transforma em prazer absoluto
Não tendo outro fim que a si mesma
É diversão num mundo sério e sisudo
É coisa de quem ama a beleza
Ou de um espírito vagabundo
Flanando e zombeteando de tudo
Não passa, pois, de farra, de folgança
Que, com leveza e graça
Alimenta-se a fantasia e a alma
O vate pinta quadros e paisagens
Compõem retratos e imagens
Com palavras e figuras de linguagem
Do cotidiano, da vida, da rotina
Quebrando a monotonia da viagem
Contrariando nossas pobres verdades
Desvirtuando solenes regras e normas
O poeta jamais se apega à forma
Pois vate que é vate não utiliza fórmula
E se você o desgosta
Se prefere tudo certo e em ordem
Ele, só de pirraça, escreve em linhas tortas
Dá-lhe de ombros e vira as costas
Pessoas vão e voltam
Ficam as poesias a contar a história

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Da esperança

O que é a esperança? Como defini-la? São tantos os que já se colocaram essa questão, e tantas são as vezes em que ela quedou sem resposta. Questão tão velha quanto a humanidade, e tão duradoura quanto o próprio tempo. Para começo de conversa, esperança é aquela palavra que ninguém explica, mas que não há ninguém que não entenda. Como toda palavra, designa algo. Só que não se trata de um objeto, nem de um sujeito, e tampouco de uma ação; em termos abstratos, trata-se de uma emoção, de um sentimento ou de uma paixão, como queira.

Por sua própria natureza, a esperança é algo muito concreto e particular. Toda esperança é, conquanto universal, um sentimento muito particular, eminentemente pessoal e subjetivo. Só se pode compreendê-la mediante a sensação, e apenas escassamente mediante o entendimento. Daí porque ela é inexplicável. Quem não sente esperança, quem nunca a sentiu, jamais a compreenderá. Não obstante, ela é um sentimento comunicável. A esperança do outro pode ser compreendida por mim desde que eu me ponha em seu lugar, sentimentalmente; ou seja, desde que eu sinta como ele sente. Neste sentido, um vínculo de empatia é indispensável, do contrário, a esperança alheia nos afigura ou como ilusão, ou como veleidade.

Esperança é uma palavra que criamos para designar um dos sentimentos mais próprios e particulares do ser humano, algo que não existe senão através da natureza humana – aliás, semelhante definição não é nada mais do que um truísmo, do tipo daqueles que dizem respeito à natureza humana: basicamente tudo o que não encontramos na natureza é uma particularidade humana. Trata-se de um sentimento tão profundo e inexplicável que a palavra em si diz muito pouca coisa. Esperança é o sentimento de quem espera. É preciso, pois, colocar a pergunta: espera o quê? Note que, durante essa espera, paciência é indispensável.

Outras duas noções estão umbilicalmente articuladas com o sentimento de esperança: a probabilidade e a fé. Esta implicando positivamente na determinação da esperança, e aquela implicando negativamente. Ou seja, a esperança é a fé que, como tal, é insensível à probabilidade de que aquilo que ela deseja venha ou não acontecer. Uma em cem, em mil, em um milhão, pouco importa à esperança.

Considere um casal infértil, porém desejoso de dar à luz uma criança, a ouvir a seguinte reserva do médico especialista:

– A probabilidade de que você engravide com este procedimento é mínina. Você deseja continuar?

Ora, é lógico que sim! Ou melhor, continuar seria ilógico, mas, não obstante, continuaremos. E por que? Porque temos esperança, porque temos fé, porque acreditamos que o improvável pode acontecer. Para quem tem esperança, o absurdo está precisamente em não tentar, em não esperar. A probabilidade é lógica, e a esperança não tem consideração pela lógica. Em nome da esperança arriscamos tudo, por mais impossível e ilógico que isso seja.

Pessoalmente, nunca entendi porque as pessoas jogam na loteria. Meu pai, um grande fã de jogos de azar – o fato de se chamar “jogo de azar” já diz muito coisa: trata-se de um jogo onde o azar impera, sendo o azar, na verdade, nada mais do que a simples e prosaica probabilidade, porque é muito mais provável “dar azar” do que “dar sorte” –, chegou até mesmo a estudar a “ciência” por trás daqueles números aparentemente aleatórios. Ciência ou mística, pouca importa, o fato é que as pessoas tecem racionalizações acerca da loteria, tudo para maximizar a chance de êxito.

– Mas ainda assim a sua chance de ganhar é de uma em cem milhões! Como você espera ganhar?

– Ora, e o que garante que hoje não seja eu este um entre cem milhões?

De fato, nada garante que não – assim como nada garante que sim. A esperança é justamente esse “nada garante”. Nada garante que não seja justamente eu, neste exato momento, naquela lotérica específica, com aquele bilhete especial, o ganhador. Para os lógicos, isso não passa de um simples problema de probabilidade, mas, para os esperançosos, trata-se de um problema de fé. A probabilidade é número, mas a esperança não tem consideração pelos números. Que fique claro que a fé, aqui, não equivale àquela sustentada pela religião, embora mantenham entre si pontos de contato, uma vez que tanto a fé religiosa quanto a fé na vida ignoram a lógica e apegam-se ao verbo esperar e ao verbo acreditar.

Essa mesma lógica (ou não-lógica) se reproduz em vários lugares, sob diferentes condições, e em qualquer tempo. É ela que faz uma sofrida mãe solteira acordar com as galinhas – como se diz na roça – para mais um dia de labuta extenuante. Se não fosse a esperança em dias melhores, não para si, mas para seus filhos, qual a razão de se entregar a uma rotina aparentemente absurda? É a esperança que traz levas de imigrantes para as capitais do mundo capitalista, vindos das tantas periferias que esse mesmo mundo cria para o seu próprio benefício. É ela que faz com que não nos demos por vencido nem mesmo nas mais adversas condições. Que faz com que arrisquemos até o último tratamento possível na luta contra uma doença fatal. De fato, a esperança está presente em tudo o que diz respeito ao mundo dos homens e mulheres. Talvez não existisse sociedade, civilização, história se não fosse a esperança; talvez a esperança corresponda à causa primeira, à determinação ontológica, à força motriz da humanidade. 

Uma última observação a propósito da esperança. Desconfio que eu não seja socialista. Entretanto, tal como os socialistas, acredito na possibilidade de um mundo melhor. E, também como os socialistas, acredito que para esse mundo nascer é preciso que este em que vivemos morra; é preciso que o capitalismo desapareça. Mas, à diferença dos socialistas, essa minha crença não está baseada em uma conclusão verdadeira inferida de premissas verdadeiras; não está baseada em uma dedução científica feita a partir da observação e análise objetivas da realidade. Ao contrário, trata-se de pura fé. Acredito e espero um mundo melhor porque acredito e tenho esperança nos seres humanos. O que vier depois daqui não necessariamente é uma conclusão lógica de uma situação anterior. Se eu assumo uma posição política socialista, não o faço por razões científicas, e sim por uma tomada de posição voluntária. Faço simplesmente uma escolha, que, como toda escolha, é incerta. A parte da incerteza, que é enorme diga-se de passagem, eu sustento com a esperança.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Aprendendo a viver

Vivo sem saber o que tenho
E tenho mais do que mereço
Devolvo a parte em excesso
Mas ainda fico-lhes devendo

Das migalhas, eu sou o resto
Este pouco, na verdade sendo
Muito, é bem mais que sobejo
Basta-me para que viva pleno

E se da vida um dia eu tive medo
Se um dia escondi-me por receio
Hoje a ela entrego-me por inteiro

Hoje sou amante de seus beijos
Penetro pelo greto de seu sexo
E durmo tranquilo num amplexo

Tempo

Sinto que meu tempo é pouco
Mas faço pouco do meu tempo
No entanto, faria tudo de novo
Tudo de novo do mesmo jeito

Destino

Não se afobe, criança
Que nada é pra já
Ainda resta esperança
O que tiver de ser será
Guarde fé e oração
Que o que há de vir virá
Aquiete o seu coração
Dê tempo ao tempo
Enquanto isso
Transforme esse lamento
Em versos de mais uma canção
Deixe o rio correr mansinho
Em um passar suave e sereno
Não queira apressar seu caminho
Nem desviá-lo do curso
Deixe o destino fazer seu trabalho
Porque o acaso é nosso demiurgo
E se tudo às vezes parece absurdo
Lembre-se do velho ditado:
A vida não é jogo de baralho marcado

Sentimentos

Trago todos juntos
A sós comigo mesmo
Quero tudo do mundo
Mais eu ao mesmo tempo
Me sinto cheio, imenso
Porque, sem ter, te tenho
Porque eu amo, sem medo
Porque se vive vivendo
E amar não tem cabimento
Que será isso que anseio?
Busco o que não tem preço
Quero o que não tem jeito
Está num abraço, num beijo
Está num toque, num cheiro
Que sejamos felizes, eis o que desejo
Não pela metade, mas por inteiro
O que nos guarda o próximo momento?
Não há espaço para ressentimento
Nem temos tempo para arrependimento
Mas se às vezes canto tristes lamentos
Saiba que são lamentos de agradecimento
A vocês todos, meus mais puros sentimentos

terça-feira, 9 de julho de 2013

Nacionalismo

Instalem câmeras
Contratem vigias
Botem trancas
Escondam as famílias
É a horda de bárbaros
Que se avizinha
Preservem as tradições
Metam cadeados
Entre as pernas das gurias
Protejam as instituições
Cuidem de seus filhas
Nossos valores mais caros
Estão sendo ameaçados
Pela selvageria
De pretos, amarelos e pardos
Resguardem nosso estilo de vida
Ponham-nos encarcerados
Tragam a artilharia
Deportem-nos em barcos
Impeçam a travessia
Desses povos incivilizados
Vindos da periferia
Vindos de todos os lados
Avante, pátria querida
De punhos cerrados
De braços dados
Nós somos maioria
Eles minoria
Deus está do nosso lado
Louvada seja a nação
Cumpramos, então, a profecia
Em nome dos antepassados
Somos nós os escolhidos!

'Tamo junto

Quanto mais sozinho
Mais acompanhado
Meu copo não está vazio
Está cheio, abarrotado
Transborda por todos os lados
Quem bebe comigo, sabe
Só porque você não vê
O horizonte infindo
Que aos meus olhos se abre
Não significa que, sozinho
Falte-me a sua amizade
Você segue comigo
Na forma da humanidade
Então, eu faço um brinde
Ao tortuoso descaminho
Que trilham os coraçãos nascidos
No berço da saudade

Médicos estrangeiros ou médicos nacionais? Eis a questão

E o nosso governo "pós-neoliberal", acovardado diante das críticas da oposição e das manifestações massivas de médicos por todo o país, recuou da contratação de médicos cubanos para a implementação do programa social Mais Médicos. A oposição chiou, a classe média, que exige meritocracia – ops, democracia – integral, protestou, a mídia engrossou o coro, e os petistas, como já fizeram antes inúmeras vezes, à exemplo do kit anti-homofobia, resolveram não apostar mais fichas eleitorais no certame. Nada mais emblemático do que uma disputa entre médicos praticamente voluntários, cuja formação devolvem ao coletivo na forma de serviços públicos, e médicos formados por uma lógica mercadológica e voltados estritamente para os seus interesses pessoais. Ora, eu conquistei a vaga na universidade; eu estudei como um louco para estar aqui; é natural que eu trabalhe onde quiser e que procure ganhar (muito) dinheiro! Não é assim? O programa inicial já era tímido, mas o governo federal conseguiu ser, de novo, mais pusilânime do que de costume. Trata-se de um comportamento esperado para um governo que cavou a sua própria cova através de alianças sem-fim em nome da governabilidade. Que diferença entre esse programa e os médicos de pés descalços chineses! Ou entre ele e a experiência revolucionária cubana! Quando Fulgência Batista foi deposto, havia na ilha aproximadamente seis mil médicos para toda a população, e metade deles resolveu se autoexilar nos EUA (qualquer semelhança com o egoísmo da nossa classe médica não é mera coincidência). Hoje, todo mundo sabe, Cuba é referência mundial na área da medicina, ostentando indicadores sociais de primeiro mundo, ao ponto de (sim!) poder se dar ao luxo de exportar médicos. Mas, é claro, tratam-se de experiências distantes, no tempo sobretudo, feitas sob circunstâncias muito diversas, sendo impossível compará-las com o Brasil de hoje. Sem dúvida. Mas não precisamos ir tão longe para avaliar a tentativa fracassada do governo federal de ampliar o acesso à saúde pública. Basta pensarmos nas Missões Bolivarianas, responsáveis por construir milhares de clínicas em Barrios Adentro e da contratação de milhares e milhares de médicos (sempre eles) cubanos para atuar diretamente entre os mais pobres. Foram 15 mil médicos mobilizados, para uma população de 30 milhões de pessoas. No Brasil, seriam 10 mil, para uma população de 200 milhões. Quanta diferença, não? E não venha me dizer que a Venezuela é um país mais carente, com maior déficit de saúde, o que, portanto, justifica um investimento maior. Quem diz isso desconhece completamente a situação dos hospitais públicos deste país. Ademais, vá ao nordeste; lá existe uma Venezuela inteira tão ou mais miserável quanto os venezuelanos. Enfim, se o chavismo está longe de ser uma experiência socialista, o petismo está tão longe do chavismo quanto de um hipotético "pós-neoliberalismo".

A questão não é médicos estrangeiros ou nacionais. A verdade é que esse debate foi ensejado por se tratar da vinda de médicos cubanos ao Brasil. A classe média, a mídia, os partidos burgueses, ficaram escandalizados. Onde já se viu, trazer médicos comunistas para o país! Contra essa ideia, argumentaram que médicos nós temos, e de boa qualidade, falta apenas investimento, condições para trabalhar. Não sei se existe um quadro nacional suficiente para uma força-tarefa de grandes proporções na área da saúde pública (o que não corresponde, de fato, às pretensões do governo, o qual não faz nada além de procurar mostrar alguma iniciativa em áreas sociais), mas que não existem condições de trabalho no sistema público, isso está obviamente correto. Neste sentido, temos de dar certa razão ao médico brasileiro, que não vê porquê diabos deveria se sujeitar a trabalhar no fim do mundo por um salário indigno e sem estabilidade, quando pode encontrar coisa melhor noutras searas. Entretanto, não vejo em que esse argumento, correto em si, implicaria a derrogação da vinda de médicos estrangeiros. Tragam os médicos comunistas de qualquer jeito! Por outro lado, tão-somente aumentar o quadro de médicos no sistema público de saúde teria parcos ou nulos resultados, na medida em que o profissional não encontra à sua disposição os exames clínicos mais básicos. A querela sobre a vinda de médicos cubanos (agora estrangeiros) revela duas coisas: primeiro que o médico brasileiro, de modo geral, não está disposto a aceitar salários menores do que os praticados pelo mercado, isto é, ele até aceita fazer trabalho “voluntário”, desde que recebendo um bom salário por isso; segundo que o governo federal, com o programa Mais Médicos, está apenas tapando o sol com a peneira, deixando que o foco da questão recaia sobre os profissionais quando, na verdade, o problema é de política pública, mormente de investimento público. Portanto, desconfio das boas intensões dos dois lados, das associações de médicos e do governo federal. Os médicos brasileiros são elitistas, estão acostumados a identificar sua profissão com um estatuto superior, como um meio de garantir uma alta posição na sociedade, seja em termos de renda, seja em termos de prestígio, diferentemente dos médicos cubanos, que aprenderam a ver na profissão uma função social coletiva, como um pilar essencial na manutenção de uma sociedade mais justa e igualitária. Como se vê, a consciência social dos indivíduos que pertencem a um dado lugar na estrutura social está diretamente determinada pela forma de organização dessa estrutura social como um todo. O egoísmo não é uma condição humana natural; é antes de tudo resultado de uma construção social do meio em que vive. Dito isso, não venha o governo jogar a culpa nas costas dos médicos (algo que ele não faria abertamente devido à má repercussão que essa jogada lhe traria, mas que, na prática, o faz na medida em que se vale da polêmica para ignorar, solenemente, sua culpa na história toda, ou seja, os anos e anos de descaso com a saúde pública, em particular, e com os serviços públicos, de modo geral, devido à sua submissão total ao paradigma neoliberal), enquanto desvia (esse é o verbo: desviar) quase metade do orçamento da União para alimentar o capital financeiro na forma de serviços da dívida pública. Diante de tudo isso, acho ótima a medida tomada no calor do momento – e que as associações da categoria questionam (surpresos?) –, conforme a qual a graduação de medicina fica ampliada de 6 para 8 anos, sendo esses dois anos a mais referentes à prestação de serviço preparatório na rede pública (espero apenas que não seja esta uma forma de reduzir custos, tal como acontece com o emprego de estagiários no lugar de funcionários efetivos). Poderíamos estender essa medida a todos os cursos universitários, desde que dignamente remunerados e com todas as garantias trabalhistas asseguradas. Mas, mais uma vez, não esqueçamos a parte do Estado e dos governos nisso tudo; não esqueçamos a situação precária dos postos, clínicas e hospitais públicos; não esqueçamos os trilhões de dólares desviados para a conta do capital financeiro nos últimos anos.

domingo, 7 de julho de 2013

Domingo

Domingo é dia de ressaca
De ficar em casa
De bobeira
Sem fazer nada
Numa total pasmaceira
Com a boca cerrada
Sem emitir palavra
A mente embotada
Ouvindo besteira
Que vem da tevê ligada
O dia todo, a tarde inteira
Na estante da sala

Domingo é dia de descanso do gado
Que trabalha a semana toda qual condenado
Em troca dum mísero salário
Domingo é o dia do proletário
Onde patrão não mete os dentes
É dia que se tem pra gente
Mas que, necessário for
Se troca, se aluga ou se vende
Afinal, para o trabalhador
Sábado, domingo ou segunda
O dia é indiferente
Todo dia é dia de luta
E a semana sempre recomeça novamente

Se você viajou
O Domingo é a volta
Se você ficou
É o crepúsculo da bossa
E a véspera da fossa
Não existe domingo
Se você é da roça
Lá todo dia é de ofício
Sábado ou segunda
Pouco importa
É dia de sacrifício
Na lavra da terra bruta

Domingo é dia de ficar só
Pra quem é sozinho na vida
Pra quem vive no xilindró
É dia de aguardar visita
Se você é livre e tem família
É dia de almoço na casa da vó
Dê valor se você ainda tem uma
Se você já perdeu a sua
O domingo fica triste de dar dó

Um domingo qualquer

É domingo
Faço macarrão
Tomo vinho
Veja só, na taça!
Escuto Beatles
No vinil da sala
Tudo muito bom
Tudo muito massa
Só que não
Tô sozinho
E sozinho não tem graça

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Sobre trem-balas e petistas

Estamos putos com o custo dos estádios, com o crime ambiental e social de Belo Monte, e com uma porção de outras coisas. Entre elas, estamos esquecendo uma: o trem-bala que vão construir para que bacanas endinheirados de São Paulo e Rio de Janeiro não precisem pegar voos lotados junto com a “classe C”.

As obras nem começaram e o custo inicial já sofreu reajuste, podendo chegar a 50 bilhões senão mais. Isso é uma dinheirama ainda maior do que a desperdiçada com Belo Monte, a obra mais cara e carro-chefe do PAC. Obra inútil, injustificável, desnecessária, estúpida, absurda, num país onde quase metade dos domicílios não tem esgoto. Precisamos de tantas coisas neste país, mas a percepção de prioridades aparece de cabeça para baixo ao governo federal. Para satisfazer um punhado de empreiteiras e investidores o governo petista resgata a megalomania faraônica dos militares-ditadores. É isso o que ele chama de “neodesenvolvimentismo”. Isso é desenvolvimentismo puro e simples, não tem nada de “neo” como prefixo.

O fato de que os petistas trabalham para potencializar a acumulação do capital monopolista é tão claro, tão límpido, tão gritante, que me espanta ainda existirem pessoas que defendem seu governo como se se tratasse efetivamente de um governo feito para os trabalhadores. A verdade – simples e libertadora verdade – é que o PT, ao menos desde que assomou ao poder federal, atende única e exclusivamente os interesses do grande capital. As migalhas que caem desse banquete é tudo aquilo que os petistas chamam de “distribuição de renda”, “diminuição da desigualdade social”. E há também aqueles intelectuais, inocentes como crianças, que alegam ser isso o “possível”, o “factível”. Não, não é. Dinheiro existe, falta é vontade política. Vontade para construir um inútil trem-bala existe, mas para equipar os hospitais do SUS, para revalorizar o salário dos professores, para combater a seca no nordeste, não? E o mais trágico de tudo isso é que apenas uma parte das centenas de bilhões com que os nossos políticos fanfarrões gastam farreando com empreiteiras e bancos já seria suficiente para melhorar consideravelmente o quadro dos serviços públicos.

A verdade é que o governo federal está cagando e andando para a classe trabalhadora; está cagando e andando para você que pega cólera por morar em fundo de vale; está cagando e andando para você que morre por falta de vaga na UTI; está cagando e andando para você que não tem acesso a estudo de qualidade e vai passar a vida toda de trabalho em trabalho para se aposentar com um salário mínimo; está cagando e andando para você que tem que se espremer boa parte do seu dia em ônibus caindo aos pedaços. E se você ainda confia e acredita nas boas intenções dos petistas, você é burro de dar dó ou simplesmente mal informado.