quinta-feira, 8 de outubro de 2015

A mãe abandona(da)

Por medo de ser dispensada
Do emprego tão necessitada
A mãe abandona a cria
Recém-nascida
Ao relento da calçada
Desesperada
A mulher grávida
Pariu
Solitária
No quartinho de empregada
Mais uma herdeira da senzala
Mas a patroa
Diz que não viu nada
Pudera
Nove meses e a mulher
Ainda trabalhava
O pai onde estava?
Abortou
Nem bem o óvulo fecundara
Mas só a mulher será culpada
Pela justiça dos homens
Condenada
A criança, coitada
Pelas injustiças do mundo
É quem paga

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Balanço dos 30

A 26 dias de completar 30 anos,
Achei oportuno fazer um balanço deste tempo vivido
Tão único, tão singular
Às vésperas do trigésimo aniversário,
Como me sinto?
Primeiro, mais jovem do que nunca
Os anos têm-me rejuvenescido
Tenho fome de vida
E quanto mais eu como
Menos ela me sacia
A dureza da sociedade
Não apagou meus olhos maravilhados de menino
Com tanta beleza e novidade
Que há pra se ver no mundo
Não queixo-me dos anos perdidos
Das besteiras ditas
E dos amores desperdiçados
Se em troca ganhei sabedoria
Aprendi que o objetivo, ilusório
É desimportante
Mais vale o próprio caminho
O ato de caminhar
Compreendi que não se avalia a viagem
Pelo peso da bagagem
A experiência ensina a levar somente o necessário
E com as costas leves
Se vai mais longe
Com o passado fiz a pazes
E do futuro não mais receio
Claro, nem tudo é alegria aos trinta
Mas aprendi a ser eu mesmo
Embora tenha falhado em praticamente tudo
E o resto ainda reste pela metade
Sinto orgulho daquilo que fiz de mim mesmo
Se você pensar nos 30 como o meio
Ele se parece com um fio de navalha
Sobre o qual a gente se equilibra
Entre passado e futuro
Alguns vivem no passado
Outros preferem o futuro
Eu escolho viver o presente

terça-feira, 2 de junho de 2015

Resumo

Acorda
Levanta
Passa café
Esquenta pão
Come pão
Bebe café
Serve outra xícara
Abre Facebook
Confere e-mail
Fecha tudo
Abre texto
Fecha texto
Abre texto
Fecha texto
Anota
Levanta
Outra xícara
Recomeça
Coloca música
Navega
Vê bobagens
Levanta
Alonga
Faz barra
Faz flexões
Abdominais
Põe água no fogo
Lava louça
Faz almoço
Come
Assistindo seriado
Toma banho
Passa mais café
Senta

Estuda
Escreve
Na rua, alguma coisa pra fazer?
Não
Então toca guitarra
Mais barras
Leva a cachorra pra passear
Outro banho
Agora chá
Facebook
E-mail
Passaram-se meia hora
Fecha
Concentra

Estuda
Escreve
Janta
Mais um pouquinho da mesma coisa
Deita
Confere celular
Dorme

Quando foi que eu passei a ter a vida tão controlada quanto um rato de laboratório?

Ps: as aberturas de Facebook e a navegação em busca de bobagens estão grosseiramente subestimadas.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Multicolor

Uns querem vermelho
Outros, azul
Mas que chato seria
Acaso existisse, da cor
Apenas um
Tom ou outro
Sem variação
Sem diversidade
Vira tudo cinza
Pois a coloração é relativa
Ela só faz sentido
Pra quem vê
Arco-íris
Azul é belo
Porque existe vermelho
O contrário sendo igualmente verdadeiro
O que há de mais bonito
No diverso
É que se pode escolher
Entre tantas possibilidades
Aquilo que eu quero
E sobra todo um espectro
Pra ser novamente escolhido
Afinal, quem tem medo
Da diversidade
Se o mundo é todo colorido?
Entre tantas bandeiras monocromáticas
A única que representa toda a humanidade
É a da luta LGBT

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Acontecimentos

Todo acontecimento
Bem ou mal
É uma dádiva
Que sem aviso
Nos pega
Quando a guarda baixa
E do jeito que veio
Ele passa
Levando consigo
Misto de saudade
E amargura
Doçura e mágoa
Que numa noite
Fria e solitária
De vinho tinto
A boca amarga
E se chora
Por tê-lo perdido
Queria eu poder festejar
De peito aberto
Cada novo acontecimento
Toda vez que ele entrasse por aquela porta
Sem ser convidado
Trazendo outra oportunidade
E quando fosse embora
De minha parte
Não levasse
Mais que tão-só e unicamente
Agradecimento

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Memórias de um esquerdo-macho

Quando me confrontaram
Com as minhas atitudes machistas
Dizendo que eu silenciava as companheiras
E que amiúde as assediava
Lembrei a todas que eu era comunista
Que a minha filha tinha nome de comunista famosa
Que eu era apenas engraçado e piadista
Que afinal eu era de esquerda
(E isso já não valia como um atestado de pessoa honesta e íntegra?)
Minhas credenciais pouco valeram
Então ataquei minhas acusadoras
Chamei-as de moralistas
De pequeno-burguesas
Disse que estavam dividindo e enfraquecendo o movimento
Pensei em chama-las de “mal-comidas”
Mas talvez soasse por demais reaça
E eu irmanar-me-ia com os machos lá do outro lado
Com os quais eu jurava nada ter em comum
Então exortei com fanfarronice a classe a se unir
Em torno de pautas mais centrais e importantes
Disse que a classe não tem gênero
Que o inimigo é a burguesia
Que a revolução se encarregará de acabar com o que restar de relações opressoras
(Isso não será uma alegria, companheiras?)
Minha fala foi ovacionada
E plenamente aceita pelos meus camaradas
Curiosamente, com especial entusiasmo do gênero masculino
Enquanto muitas companheiras quedavam visivelmente contrariadas
Céticas, com a impressão de já terem ouvido tais promessas
Antes, em outras assembleias
Em outras revoluções
Em meu íntimo, completei o discurso, triunfante:
E até lá deixem de histeria
Fiquem caladas
Que quem define as pautas
Que quem no movimento dá as cartas
Que quem diz o que é ser de esquerda
E até quem dá aval às feministas
Somos nós, os machistas
Os machistas de esquerda

quarta-feira, 25 de março de 2015

Encontrei o que não procurava

As pernas são curtas
Para tanta loucura na cabeça
Posso correr o mundo
Num único abraço
Posso revolucionar tudo
Quando giro a minha cintura
Junto a tua

A gente só acha
Quando não procura
Praticamente tropeça
No que não via
E agora está tão na cara
Não percebia
Porque procurava
Só achei
Porque parei de procurar

Angústia

Dentes apertados
Olhos semicerrados
Sob o semblante que pesa
Acima da face crispada
O rosto emoldurado
Da amargura
A garganta arranha
A boca seca
Amarga
Com a fumaça
Do cigarro barato
Desce um trago de cachaça
Rasgando ao meio
A alma
Mata o mal
Junto com o espírito
Dói o estômago
E o fígado
Sintetizando a angústia
Com álcool
Coquetel fatal
Frêmito
Espasmo
Suor frio
O corpo sofre
A doença da mente
Já foi meia garrafa
Vou até o fundo
Desse poço
A torneira pinga
Sobre a louça suja
A banalidade do dia-a-dia
O nó começa na tripa
E termina no peito
Vazio
Oprimindo a respiração
A cabeça ecoa
Um único pensamento
Estado de obsessão
Dedos rijos
Pernas irrequietas
Mas lânguidas
Batucada nervosa
Pra fingir mansidão
Não tenho controle
A janela aberta
Para o abismo iluminado
Da furna urbana
O que é um grito
Contra o alarde
De toda a cidade?

Cotidiano

A fachada iluminada
Pouco ilumina a alma
De quem passa pela calçada
Indo e vindo
Ou vindo e indo?
Preciso pensar
Preciso parar de pensar
A garganta apertada
Seca
Pede um trago
Meu templo é o bar
Parada pra rezar
Desce uma cachaça
Não queima
Leva a enxurrada
Pra dentro
A brasa estanca
O sangramento
De novo à rotina
Amortecido
Onde estava mesmo?
A caminho do trabalho
Ou voltando pra casa?
Preciso me lembrar
Preciso parar de lembrar
Desse avesso
Em tumulto
Em revolteio
Chocando-se contra o esqueleto
Virado
Todo dia logo cedo
Mal dormido
Mal alimentado
Mas aprumado
Com desodorante disfarço
O cheiro de medo
Caminho reto
Rumo certo
Acho que vejo tudo
Mas estou cego
Quero conquistar o mundo
Mas nem a fila do ônibus consigo
Nunca sou o primeiro
Meu cotovelo é demasiado curto
Pra abrir caminho
Nesse destino estreito
Doutor, tenho documento
E endereço
Nesse cotidiano
Não me perco

Apenas me esqueço
Porque tenho esse eterno vezo
De esconder o que sinto
E penso
De mim mesmo
De me afogar a noite
Pra nadar pela manhã
De ir dormir só hoje
Pra não gastar a companhia de amanhã
De ser infeliz agora
Esperando pra ver no que dá

Sobre ser homem

Meu pai jamais me disse
Um eu te amo
Se bem me lembro
Apenas uma única vez
Ele estava bêbado
Momento de fraqueza talvez
Quiçá meu pai pensasse
Que isso faria de mim
Viado, bicha
Ele dizia
Meu pai não me ensinou muita coisa
Mas se concentrou em criar
Um homem
Tal como seu pai havia feito dele um
Homem não chora
Homem bebe
Homem manda
Não obedece
Foi o que ele me deixou de ensinamento
Hoje conseguimos dizer um ao outro
Essa palavra tão embaraçosa
Meio sem jeito, é verdade
Tentamos transmitir esse sentimento
Inconfessável entre dois homens
E ainda – veja só você!
Conseguimos até dar beijo
Pelo telefone
Com a segurança psicológica
Que só a distância física dá

Meus amigos
Não costumavam se abraçar
O certo era só pegar na mão
Munheca firme
Conhece-se o caráter de um homem
Pelo aperto de mão
Coisa que meu pai havia me dito já
Se tivesse abraço
Tinha de vir acompanhado
De um palavrão
“E aí arrombado”
Pra não deixar no ar
De que se tratava
De abraço de macho
Hoje em dia tem abraço
Tem beijo na bochecha
E o bom e velho
Tapinha nas costas
Só não tem colo
Isso não
Demonstrações de carinho
Ainda têm limites
Mas convenhamos
É uma grande evolução

sexta-feira, 13 de março de 2015

Final de semana

Hoje é sexta
Tem pra quem
A semana acaba
Pausa no trabalho
Amanhã é sábado
Olha aí a balada
Até podia
Jurar que me divertia
Som alto
Risada
Festa no carro
Deitei na cama
Nem lembro como
Dormi calçado
Domingo na ressaca
Tristeza solitária
Serotonina em baixa
A realidade nua e crua
Ameaça
Domingo dá medo
Eu comigo mesmo
Já penso em problema
Vem logo segunda
Apartamento pequeno
Alugado
Ecoa o eco
Da minha cabeça
Na alma aperto
Na geladeira
Comida congelada
Um baseado
Tevê a cabo
A pia sempre cheia
De louça suja
Empilhada
Desta semana
Ou da passada?
Começa outra
Até a próxima sexta
Eu lavo

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Um pouco mais sobre liberdade de expressão

O debate público voltou-se recentemente para a questão da liberdade de expressão. Este é um tema liberal por excelência – liberal no sentido clássico da palavra. Trata-se de uma das grandes conquistas da modernidade, do Ocidente, do capitalismo e da democracia liberal. Mas liberdade de expressão hoje ganhou status de “sagrado”, e todo sagrado é absoluto. O ponto é que, de um princípio político-filosófico, tornou-se um dogma. Como todo dogma, é assumido como eterno, universal e autoevidente (revelado) e, por isso, não se discute seus limites ou aplicações concretas. Mas para discutir limites e aplicações de alguma coisa é preciso saber de que coisa estamos falando.


Não está claro para ninguém – ou não deveria estar – o significado de liberdade de expressão. É individual ou coletiva? É autoexpressão ou heteroexpressão? Por exemplo, para os donos das Organizações Globo e o punhado de outros barões midiáticos que controlam os meios de comunicação no mundo todo, liberdade de expressão é a liberdade para defender sua linha política e seus interesses econômicos particulares sem consideração com a função pública que deveriam desempenhar; liberdade de expressão, para eles, é portanto monopólio da capacidade de expressar-se. 

E, para o público em geral, isso é liberdade de expressão? Liberdade de expressão é o que fazem, por exemplo, Danilo Gentili e Jair Bolsonoro, ofendendo e fomentando o preconceito e a violência contra grupos historicamente marginalizados e oprimidos? Isso é liberdade de expressão, mas o povo manifestando-se na rua exigindo direitos como transporte público de qualidade não é? Bolsonaro está solto, mas ativistas estão presos, ambos por exerceram uma suposta liberdade de expressão que valeria para todos numa sociedade democrática. Afinal, na prática, Gentilis e Bolsonaros têm seu direito à expressão garantido, mas os milhares de manifestação sofrendo agressão policial e prisões arbitrárias não têm. Curioso como a liberdade para expressar-se é sempre a “nossa” liberdade e a “nossa” expressão. Quando é a do outro, a expressão com a qual não concordamos, simplesmente a liberdade não é um direito. 

A vida é cheia de ironias e elas ensinam para quem tem sensibilidade. E uma dessas ironias poder ser apreciada justamente no caso do atentado ao Charlie Hebdo na França. Não vou entrar no mérito do valor da arte que esse semanário fazia. Sou simpático a tudo o que é iconoclasta, especialmente quando se trata de tradições religiosas, não importa quais, que, na minha opinião, são em geral retrógradas. Mas também sei como essas tradições são importantes e sagradas para a maioria das pessoas. Eis aí um equilíbrio impossível de ser alcançado. Depende de cada situação, por tanto. Talvez o que faltava para os iconoclastas cartunistas do Charlie Hedbo era uma sensibilidade maior em relação às condições em que vivem milhões de muçulmanos hoje na França e o preconceito e discriminação endêmicas dos franceses. Para destruir uma religião, vale a pena destruir um povo? Porque ao atacar Maomé eles estavam na verdade atacando os muçulmanos. 

A questão não é se eu sou ou não Charlie, nem se doze mortos franceses valem ou não mais que mil mortos palestinos. Se a gente simplesmente responde sim ou não para cada uma dessas questões caímos no erro unilateral. Eu iria até o fim para garantir o direito desses cartunistas de zombar de uma religião, mas, nas circunstâncias atuais, a piada perdeu a graça, e o que era iconoclasta talvez acabe reforçando outras tradições, majoritárias, e alimentando preconceito e intolerância. Seria como seu eu, ateu e branco, me desse o direito de zombar do candomblé simplesmente por se tratar de uma religião, ignorando totalmente que é uma religião ligada a etnias raciais historicamente oprimidas. Algo diferente, aliás, de penetrar símbolos cristãos pela vagina e pelo anus em público em face do status que essa religião tem no país. Iconoclastia e ateísmo não devem ser confundidos com intolerância e preconceito. E isso é ainda mais verdadeiro no caso da França, onde o islamismo não pode ser tratado como uma questão isolada ou puramente teológica porque ela se insere num quadro mais amplo de tensões interétnicas, xenofobia e antiimigração.

Eu falava de ironia, e ironia é justamente Charlie Hedbo ser transformado em mártir da liberdade de expressão justamente por aqueles que negam a liberdade de expressão aos ofendidos por suas charges: em meados do ano passado, manifestações de solidariedade aos palestinos por mais uma agressão genocida do Estado israelense foram proibidas pelo governo. Cadê a liberdade de expressão? Hollande e Netanyahu estavam lá na rua, defendendo a liberdade de expressão que eles cerceiam a outros, não porque ela lhes seja importante em termos éticos e filosóficos, mas simplesmente porque ela lhes é instrumental no uso do poder político. Como havia dito, a nossa liberdade pode, a deles não; a nossa expressão é libertária, a deles é fanática. 

Eu acho que, por mais que a liberdade de expressão seja uma conquista importante da modernidade, o significado e o uso que ela adquiriu no discurso dominante tem-na encaminhado cada vez mais para a direita do espectro político. Não é à toa o fato de ela estar sempre tão presente na boca de figuras-chave do conservadorismo e do reacionarismo a fim de defender seu direito a pregar o ódio e a intolerância. E a extrema direita francesa agradece o uso que se tem feito da liberdade de expressão por ocasião do atentado em Paris. A verdade é que o Ocidente, preso ainda à modernidade, não percebe as consequências últimas desse princípio. Liberdade de expressão implica, atualmente, tolerância num mundo cada vez mais multiétnico e pluralista. É com base neste pressuposto que devemos aplica-lo em nossas vidas.