terça-feira, 22 de julho de 2014

Esse não é um texto feminista: é um texto feminista de um homem machista para outros homens machistas

Como a maioria dos homens, eu nunca me considerei machista. Aliás, considerar-se machista é como considerar-se fascista, homofóbico, de direita: não sou, mas... Talvez eu nunca houvesse pensado seriamente sobre o assunto. Sabia, obviamente, que acontecem estupros, assédio, violência doméstica (um eufemismo que hoje eu sei esconder as palavras mais terríveis e mais honestas de “violência contra a mulher e feminicídio”). Mas não ligava nada disso a mim. Assim, eu dividia confortavelmente os homens do mundo em duas categorias: os que estupram, violentam, assediam, ofendem, e os que não, onde eu, naturalmente, me encaixava. Inconscientemente, reduzia o problema do machismo a um problema de caráter, moral, individual.

Sem dúvida eu desconhecia a real dimensão do problema, uma vez que isso é algo do qual não se deve falar, do qual não se quer falar. Vivemos numa democracia, num Estado de direito, e tudo isso significa igualdade e ponto, assunto encerrado. Mas o ponto é que eu, uma pessoa instruída, progressista, crítica, jamais me consideraria um machista, assim como muitos/a maioria/todos os homens que eu conheço. Eles também não se consideram machista, e sem dúvida eles se indignariam honestamente diante do fato de um estupro, por exemplo, ou de uma agressão contra mulher. Mas até que ponto não poderiam ser eles mesmos um estuprador? Um agressor? Até que ponto não poderia eu ter sido? Sabemos que a maioria dos agressores são parentes, amigos, namorados, maridos, conhecidos.O que me autoriza a pensar que eu sou essencialmente distinto deles? Indignar-me com uma situação de violência contra a mulher não me fazia menos machista e um futuro agressor em potencial, assim como não faz você, homem, que se julga muito esclarecido e justo, e quiçá até feminista.

Provavelmente, eu ainda desconheço a real dimensão do machismo, mas aquela visão simplista, moralista, maniqueísta – que no final das contas blindava confortavelmente a minha consciência diante dos males de um mundo com o qual eu não teria parte ou responsabilidade alguma – eu não tenho mais. Antes eu era, de um lado, cético e reticente diante da terrível condição na qual nós colocamos as mulheres, e, de outro, superestimava demais meu próprio valor enquanto homem que não pertencia à categoria dos machistas. Olhando daqui eu percebo o quanto era inocente e autoiludido a respeito do problema, e o quanto ajudava a reproduzi-lo e perpetuá-lo. E eu sinto muita vergonha ao perceber isso. E isso é bom. Autoperceber-se como um machista é um processo doloroso; é como mergulhar nos abismos mais obscuros e sórdidos do seu ser e encarar os demônios que existem lá. Você sente nojo, ira, vergonha.

Você, homem, que se diz machista mas nunca passou por isso, lamento lhe informar, mas você ainda é machista. Nunca deixou de ser, afinal. Quanto a mim, não sei exatamente quando e como começou a mudança. Só pode ter partido de dentro de mim mesmo, porque eu percebi o quanto tudo é tão óbvio, como a realidade grita e esfrega a verdade na nossa cara e nós nos recusamos a vê-la. É como um gênero musical que você sempre detestou e um belo dia você começa a gostar: a música sempre esteve lá, do mesmo jeito, e é você que não tinha ouvidos para ouvi-la. Eu só sei que nos últimos três ou quatro anos comecei a me perceber como machista. De quebra, comecei a perceber o mundo como machista. A ordem de compreensão é exatamente esta: primeiro você, depois o mundo; primeiro o “eu”, depois os “outros”, e nunca o oposto.

O machismo é um problema radical e exige por isso soluções radicais. Antes de tudo, para compreendê-lo é necessário colocar-se numa perspectiva radical, e essa perspectiva é a da mulher, mesmo sabendo que, por ser homem, nunca conseguirei compreender a dor e a humilhação pelas quais elas passam diariamente, nem o que elas desejam. Mas posso tentar verdadeiramente através da empatia e de algum bom-senso. Primeiro, sendo sempre cético comigo mesmo, ou seja, partindo sempre do princípio de que eu sou machista, a mesma coisa valendo em relação ao mundo. Segundo, ouvindo o que as mulheres têm a dizer, e não falando a elas o que eu quero ouvir delas. Terceiro, mantendo sempre ao nível consciente o absurdo quase inimaginável que é a cultura do machismo. Quarto, dando o crédito e o benefício da dúvida a quem sofre com essa situação e não a quem se beneficia dela, mesmo que indiretamente. Quinto, leitura: existem teorias feministas e muitos dados e fatos disponíveis. Mas, acima de tudo, partir do princípio de que o machismo está em si e em volta nas coisas mais aparentemente banais.

Eis aí um bom programa inicial de desconstrução do machismo, uma tarefa que deve durar a vida inteira, muitas vidas inteiras talvez. Esse não é um texto feminista. É um texto feminista de um homem machista para outros homens machistas. É um pouco da minha experiência, um desabafo e um apelo.

domingo, 20 de julho de 2014

Mensagem na garrafa

Esta é uma mensagem do passado
Para as pessoas do futuro
É um pedido, para que não façam como nós
Que desperdiçamos nossa juventude
Com coisas fúteis
Sonhando com coisas grandes
Nós, que gastamos nossa beleza
E ficamos velhos e amargos antes da hora
Nós, que deixamos a felicidade para depois
E esquecemos de viver a grande aventura
Que é a vida
Essa é uma mensagem de nós que tivemos quase tudo
Mas que hoje só gostaríamos de outra chance
Nós, que voltaríamos no tempo
Pelas coisas mais simples
Por aquele abraço que não demos
Pelas palavras que nunca dissemos
Pelo amor que não vivemos
Essa é uma mensagem do futuro
Escuta com atenção
Se você a ouve
Ainda há tempo
Essa é uma mensagem do futuro
Para o passado que não tivemos

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Da poesia, só sei da minha

Se me entristeço
Ou se só me sinto
Eu digo
Sem rodeios
Se me indigno
Se sinto ódio
Eu grito
Me revolto
Levanto o punho
Rijo, para cima
É assim minha poesia
Falo de sentimento
Falo do humano
Alegorizo minha vivência
Represento o mundo
Pleno de beleza e violência
Canto a vida
Eis aí minha poesia
Nela não encontrarás
Verdades absolutas
O hino do futuro
O sentido do caminho
Não ofereço respostas
Nem perguntas
Isso é irracionalismo?
Recuso rótulos
Apenas abro o peito
Ofereço minha alma
Traduzo o que vejo
Escrevo o que crio
E fantasio
Sem fé nas certezas
Sem temor das dúvidas
Sem aspiração
Sem premissas
Não é poesia revolucionária
Não perfila um lado
Não busca o essencial
A ideia universal
É efêmera
Contingencial
É apenas um olhar
De uma alma
Entre sete bilhões de outras
Que verte em palavras
Sai do corpo
E encontra o papel
Virtual
E se tu a lês
É porque a tecnologia de hoje
Possibilita
Não fosse isso
Estaria mofando numa gaveta
Esquecida
Na areia do tempo soterrada
Do jeito que tem de ser
Se tu não entendes
Não há nada para entender
Mas se algum valor há nela
Então, me diz você

Olha a hora

Apita o apito
Desperta
Olha a hora
Engole o grito
Olha o relógio
Olha a ciranda
Olha a gira
Gira-gira do ponteiro
Rápido, se apressa
Não embroma
Corre não anda
Atrás do tempo
Todo ano o ano inteiro
Da hora
Eu quero ver quem é que ganha
Ocupa-te, vai
Que o dia avança
E de minuto em minuto
Num segundo
Outra hora se esvai
Olha o tempo
Olha o relógio
Olha a vida da janela
Olha o mundo do escritório
Consulta agenda
Cumpre tarefa
Bate meta
Bate cartão
De tanta pressa
Bate as botas
De infarto do coração
Enfim descansas
Na cabeceira
Do caixão
Já vais tarde
Das férias que não gozaste
Goza agora pra toda eternidade

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Palestina

Numa tripa de terra
Seca e árida, conflagrada
Quase do mapa apagada
Homens e mulheres
Acossadas e humilhadas
Se apinham
A mercê de Golias
Neste sitiado rincão
Ninguém entra ou sai
Por terra, mar ou ar
Dos nazistas
Lembra os guetos
Campos de concentração
Rafah é Varsóvia
Quem diria, os israelitas
Ontem vítimas
Hoje verdugos
A história e sua trágica ironia
Falam de terroristas
Mas só vejo famílias
Pessoas normais
Crianças mutiladas
Pais sem suas filhas
E filhas sem seus pais
É um holocausto
Que fingimos não ver
E nada saber
Dizem que nessa terra antiga
Sempre houve conflito
E sempre vai haver
Mas não vejo guerra
Vejo só genocídio
E covardia
Com a cumplicidade habitual
Das potências imperialistas
E de nossa omissão moral
Eu queria que essa poesia
Atravessasse os mares
E chegasse à Palestina
Que fosse como um grito
Ecoando mais alto
Que as bombas sionistas

Pequeno-burguês ou pequena-burguesia?

Por favor, alguém me responda: a expressão “pequeno-burguês” é um conceito ou apenas uma imprecação que lançamos à cara de quem não compartilha dos nossos valores supostamente progressistas e revolucionários? Essa expressão assumiu uma infinidade de significados e intensões distintas ao longo da história, e, a despeito disso, a tomamos como dada, sem resgatar sua origem, ou, ainda pior, a utilizamos sem explicitar exatamente o que entendemos por pequeno-burguês. Ao que me parece, assim como outras expressões apropriadas politicamente, como fascismo ou democracia, ela foi também totalmente esvaziada de conteúdo, tornou-se uma casca vazia cujo interior preenchemos com qualquer noção preconceituosa. Mas, sejamos honestos, dentre tantos significados, apenas um pode ser seriamente considerado um conceito analítico e operacionalizado como tal: o conceito de pequena-burguesia, tal definido por Marx, isto é, como uma classe social determinada pela sua posição no interior da estrutura de relações sociais capitalistas. Neste sentido, trata-se de um conceito eminentemente sociológico, que difere da expressão “pequeno-burguês”, a qual já não remete ao campo social, estritamente falando, como a pequena-burguesia, mas ao campo político e ideológico. É certo que Marx não concordaria com esse entendimento, porque a ideia que ele fazia do comportamento ideológico e político da pequena-burguesia era deduzida de seus pressupostos teóricos, isto é, a pequena-burguesia é reacionária e mesquinha – filisteia Marx diria – porque se encontra em permanente tensão, esmagada entre o proletariado e a burguesia, o que a leva a sonhar com um capitalismo romantizado de livre-iniciativa incompatível com a própria evolução do capitalismo, necessariamente monopolista. Pode ser o caso de que esse conceito tivesse mais valor empírico na época de Marx – o que eu duvido, porque a estrutura de classe provavelmente era se não tão complexa quanto a nossa, não muito diferente –, mas o ponto aqui é que o comportamento da pequena-burguesia, deduzido da posição de classe, é uma hipótese que toda a água que já rolou de Marx para cá mostra ser inválida empiricamente. Assim, um comportamento “tipicamente” pequeno-burguês pode ser “encontrado” em todas as classes, estratos e grupos sociais que se quiser, e nas mais variadas formas concretas. Trata-se de uma hipótese inválida porque todos os valores e ideias que constituem uma identidade social não têm na classe seu fundamento último, nem são explicados por ela. Isso que era pra ser uma hipótese refutada (embora, talvez, continue sugestiva se utilizada com sabedoria), tornou-se uma noção aparentemente unívoca e sólida, mas que por detrás desta fachada esconde ideias equívocas, preconceituosas e, não raro, intensões demagógicas. Assim, podemos alcunhar pejorativamente de pequeno-burguês, imaginando estarmos amparados em um sólido conceito, a artista que supostamente compartilha de ideais “decadentes” burgueses, o militante político que busca uma “terceira via”, e, basicamente, todos aqueles que se desviam do programa “marxista-leninista”.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

(In)Definição

O conceito
É um traço
Circunscrevendo
Um espaço;
Uma linha
Contendo
Um conteúdo;
Um conjunto
Delimitando
Pertença
E não-pertença;
Tanto faz se
Circunferência
Ou se quadrado;
Sem traço
Sem laço
Desfaz a forma
Liberta o espaço
Mistura o conteúdo
E eu vazo
E me espalho
Em movimento
Pelo vazio
Do mundo

Vômito

Como ser feliz neste mundo?
Se para buscar a felicidade
Deve-se marchar
Marche soldado,
Marche sem olhar para baixo!
Para ser um feliz solitário
É preciso dizer:
Foda-se todo o resto!
Pisar em cabeças, atolar-se em sangue
Comer merda e agradecer
Pela oportunidade
Para todo lado que eu olho
Vejo injustiça, covardia, crime
Quando virá o castigo?
Para o tédio, a pobreza de espírito
As preocupações mesquinhas do filisteu
Confortável em sua ignorância
Eu sinto náusea
Que me fermenta as entranhas
Náusea o suficiente para vomitar
Para vomitar por anos a fio
Vomitar até afogar esse mundo
Lavá-lo em vômito
Como Deus no dilúvio
A lágrima
Só se for de ódio
O grito
Será de revolta
E não haverá volta
Nem perdão

Como antigamente

Eu queria poder chorar
Como eu chorava
Antigamente
Ter a fé que costumava
Inocentemente, sustentar
Quando tudo era novo
E podia errar-se à vontade
Porque era a primeira vez
E porque haveria outras
Agora o que resta são lembranças
Arrependimentos e não esperanças
Que me vergam os ombros
E secam-me as lágrimas
Chega sempre o ponto
Onde se abre mão da felicidade
E se deixa arrastar pelos acontecimentos
Porque se está muito velho e machucado
Pra tentar novamente
E porque se está ainda muito moço
Pra desistir definitivamente
Tudo o que eu queria era chorar
Como eu chorava
Antigamente

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Sobre a derrota da seleção brasileira

O legal de tudo isso é ver a reação das pessoas. Tem gente que chora copiosa e honestamente. Tem gente que faz troça, só pelo prazer de tripudiar ou pra não perder a esportiva mesmo. Uns sofrem de verdade, outros dão de ombros, com ou sem pesar, mas todos, afinal, têm de voltar ao ramerrão da vida.

A Copa mobiliza muitas pessoas diferentes, desde os fanáticos membros de torcidas organizadas, até aqueles que só torcem para a seleção de quatro em quatro anos. E como todo esporte, gera respostas emocionais e irracionais. A histeria é compreensiva, e muita gente dirá muita bobagem pra explicar ou justificar alguma coisa. Vão tentar encontrar culpados, de preferência um específico a quem possam pregar na cruz, com o alívio de consciência que só explicações simplistas podem oferecer.

O torcedor vai parecer desleal e incoerente, e eu quero acreditar que não por corrupção de caráter, mas por causa da comoção. E comoção passa. Sim, havia muita expectativa pelo fato de o Brasil sediar novamente uma Copa depois de 64 anos. Botaram chucrute na nossa pilsen. Eu não entendo nada de futebol, e deixo aos que entendem a análise crítica das causas e fatores da derrota.

Foi humilhante? Foi. Mas há outras coisas muito mais humilhantes pelas quais não nos envergonhamos tanto assim, como o nosso nível educacional, as taxas de homicídio que afetam a juventude negra e pobre, a índice de violência contra a mulher, a situação calamitosa nos hospitais públicos, e por aí vai. Nisso tudo o Brasil é hexa.

Mas também não entro na onda do "se você torce você é um idiota, porque enquanto te exploram você grita gol". A gente faz muita coisa enquanto somos explorados (e enquanto exploramos), e muita exploração, crimes e injustiças acontecem diariamente sem necessidade de haver Copa e de você gritar gol (e talvez se não fosse a Copa muita gente nem ia pensar nisso).

Deixa a comoção, a raiva e o espanto, passar. Pode falar bobagem. Só não vale cair no cinismo e no mesquinharia. Esperneou? Chorou? Praguejou? Então podemos voltar à razão e pensar nos problemas do país e da nossa gente, dxs pobres, dxs trabalhadores, das mulheres, dxs negrxs, dxs homossexuais, da juventude, dxs índígenas, dxs sem-terra e sem-teto; pensar no que a Copa deixou de legado, político e social; pensar no projeto de sociedade que estamos construindo e qual queremos.

Tem eleição esse ano. Eu, particularmente, não acredito que esse sistema político e uma democracia formal vão mudar alguma coisa (porque é precisamente isso que tem que mudar), mas é preciso começar de algum lugar e eis aí um bom momento pra discutir política e buscar se organizar de alguma forma. Quando a mesma atenção e engajamento espiritual for dado à política, então poderemos esperar um futuro melhor.

Ser meio surdo

De início, deixemos as coisas bem claras: ser meio surdo não é igual a ser inteiramente surdo, de modo que eu agradeço pela minha meia surdez. Ser meio surdo é mais ou menos como, guardada as devidas diferenças, ser míope (o que eu também sou, diga-se de passagem): tem consequências ruins, mas que também não são tão ruins assim. É preciso saber conviver com a meia surdez.

Escutar uma piada por exemplo é um problema. Enquanto todos estão rindo às gargalhadas, você faz aquela cara de quem chegou no meio da conversa, embora esteja desde o primeiro “então, tinha um...”, porque não escutou justamente o trecho chave para a compreensão da piada.

Falar com uma atendente de telemarketing de call center é outra grande dificuldade. Você nunca entende exatamente o nome da pessoa, se é Josileine ou Josicreide, Cristiane ou Gislaine, Vanderson ou Vanildo, obrigando você a escolher um nome à revelia e se despedir do Joilson chamando-o de Jair. 

Dar aula pode ser uma das piores experiências para um meio surdo. Se fosse o caso de que todos os alunos perguntassem de uma vez, você poderia até ficar feliz. Mas na maioria das vezes o problema da meia surdez em sala é que é impossível ouvir a pergunta de uma ou duas meninas estudiosas enquanto o resto dos trinta e oito demônios fazem a terceira guerra mundial na sala.

Mas nada é mais embaraçoso do que tentar flertar numa casa noturna badalada ao som de um DJ ou banda de rock. Você não vai entender nada e vai ficar com aquela cara de bobo variando os meneios de cabeça entre sim e não junto com um indecifrável “ahan” de tempos em tempos. Essa é a maior causa de insegurança entre os meio surdos, situação que exige deles habilidades de leitura labial, filologia e um pouco de vidência.

Por isso, quando você, que tem a audição perfeita, se deparar com um meio surdo na balada e achar que vale a pena dar uns amassos, faça um favor para vocês dois, corta a papo e vai direto ao beijo.

domingo, 6 de julho de 2014

O bom-mocismo hipócrita do torcedor brasileiro

De repente, não mais do que de repente, todo torcedor brasileiro virou adapto romântico e quase religioso do futebol-arte. Arrisco o palpite de que isso só porque foi colocado na posição de vítima. Algo me diz que, se fosse o contrário, estariam defendendo o golpe covarde do Zuniga ou, ao menos, fingindo joão-sem-braço. Agora é esse espetáculo piedosamente comovido de pureza e santidade no futebol: o futebol arte brasileiro, futebol moleque, contra o futebol ardiloso e velhaco do resto do mundo, o bem contra o mau. Como se lances do tipo que tirou o Neymar da Copa, premeditadamente mal intencionado, não fossem parte intrínseca do futebol. Diz o provérbio que no amor e na guerra vale tudo. É perfeitamente este o caso, uma vez que futebol é justamente uma história sobre amor e guerra. Tal como no amor e na guerra, nós tendemos a idealizá-lo como heroico e lírico, quando na verdade tem muito também de sordidez, de mesquinharia e de desonestidade. Isso não significa justificar o que o Zuniga fez. Ele tem que ser punido e pronto, fim da história. Mas também não justifica esse surto hipócrita do Brasil injustiçado e vitimizado. O partidarismo fla-flu do futebol – e a maior prova disso é que até ontem os que estavam prestando solidariedade ao Tinga vítima de racismo agora fazem a mesma coisa contra o Zuniga –, uma espécie de ultranacionalismo ufanista sublimado pelo esporte, cega para uma verdade simples como essa, e leva a um comportamento tão irracional quanto a própria ação que o motivou. Entre o golpe do Zuniga e o linchamento moral dos brasileiros não há diferença alguma: ambos são irracionais, injustos e covardes. Não se trata de fascismo, como alguns caracterizaram a reação do torcedor brasileiro. Fora o fato de que esse termo não tem mais qualquer conteúdo histórico e social definido, chamar alguém de fascista é um recurso retórico bastante utilizado para apartar um “nós”, os bons, idealizado de um “eles”, os maus, também idealizado, e serve como um analgésico para aliviar a nossa responsabilidade. Assim, de repente o torcedor ao lado se torna um fascista com o qual eu não tenho nada a ver. Mas tem. Afinal, ameaçar e ofender o Zuniga nas redes sociais é tão diferente assim de xingar a mãe do juiz? Futebol é isso. É bonito e feito, digno e vil, tudo ao mesmo tempo. Parem com esse bom-mocismo ridículo e hipócrita que vocês não estão enganando ninguém.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Moto, espaço urbano, juventude e favela

A moto, enquanto representação do ideal de liberdade, é mais do que um valor de alguns grupos que constroem sua identidade com base em um "estilo de vida sobre duas rodas", como é bem mais do que uma ficção hollywoodiana. Outrossim, significa bem mais do que a liberdade de ir e vir per se, porque a liberdade de ir e vir é uma variável dependente do espaço urbano. Não é à toa, portanto, que a moto exerce um fascínio tão forte sobre os jovens de periferia e de baixa renda. Não se trata apenas de possuir um símbolo de status, já que muitas vezes esses jovens nunca terão mais do que uma 125cc, quando tiverem (e muitas vezes como meio de trabalho), embora do ponto de vista de seu próprio meio social a moto representa decerto status. Trata-se, sobretudo, de poder, poder sobre o espaço urbano que lhes é negado. Não ter carro, depender de transporte público cuja finalidade é transportar trabalhadores e não cidadãos, viver nos guetos e periferias afastadas, tudo isso são formas de apartar determinados grupos urbanos do próprio espaço urbano onde vivem. A moto lhes restitui esse direito, o direito ao usufruto da cidade. Além disso, esses jovens nutrem de certa forma uma animosidade em relação aos privilegiados que dispõem de carro, e a moto lhes permite sobressair-se em relação a eles. Ela é ágil, rápida, e costura facilmente o trânsito. Ela zomba, por assim dizer, daqueles que sempre zombaram deles.

Razão e destino

Não é à toa que a ideia de destino exerce tão forte apelo no ser humano – de hoje tanto quanto o de ontem –, por mais que a (ir)racionalidade do mundo tenha sido desencantada pela (pós-)modernidade. E como destino é uma ideia que pressupõe uma razão, transcendente e absoluta, permanecemos também ligados à ideia de Deus, que por mais que nós o matemos sempre revive, independentemente da face que lhe atribuamos, se mais ajustadas aos tempos modernos ou se anacrônicas. E isso tudo porque o ser humano é menos um ser racional do que um ser que atribui sentido, ou seja, não é a racionalidade aquela característica fundamental que nos distingue, mas o impulso de atribuir sentido ao mundo e a si mesmo. O ser humano precisa atribuir sentido a tudo, até mesmo àquilo que não tem sentido algum, ao menos não um inteligível ou observável e demonstrável. Os (des)caminhos, as (des)venturas da vida individual, por definição, singular e irrepetível; aquela linha de eventos, acasos, escolhas que costura os anos que passam; essa infinidade de momentos que constroem uma pessoa, não têm sentido algum, afinal. São apenas combinações aleatórias dentro de possibilidades infinitas que vão se constituindo à medida que se vive. Na maior parte da nossa vida consciente, agimos e existimos sem refletir sobre isso. A vida não é reflexiva. Ela é de certa forma mecânica, autoimpulsionada, e aqui entra as estruturas que fornecem o quadro e os limites dentro dos quais o imponderável acontece. Mas mesmo que refletíssemos, isso não mudaria em nada a questão central, que é a falta de controle sobre os rumos que a vida toma, porque simplesmente é impossível ter controle sobre isso. Pense em quantos acasos e decisões insensatas (no sentido de tomadas sem reflexão) foram fundamentais para que você fosse o que é hoje, para ter chegado aonde chegou. São tantas e tão essenciais que mal dá pra acreditar que cheguei a ser o que sou hoje sem um plano definido. Qualquer interferência de pormenor neste caminho, qualquer escolha diferente aparentemente banal tomada num dia qualquer, teria mudado tudo, absolutamente tudo. Eu não seria mais eu. E como no geral as pessoas não se arrependem, sentem orgulho do que são e pelo que passaram para ser o que são, elas tendem a agradecer pelo que foi dado, pela ajuda que obtiveram ao longo da caminhada. E aí entra o destino, e entra Deus. Parece-me que esse sentimento é tão crucial e intrínseco à experiência humana que filosofia racionalista ou cientificista alguma pode destruí-la, simplesmente porque a pedra angular dessa experiência é a incontrolabilidade e a imprevisibilidade da maravilha que é estar vivo.