quarta-feira, 18 de junho de 2008

Relatório da ONU revela aumento de populações refugiadas

Conforme relatório divulgado ontem (17/06) em Genebra pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) o aumento das populações refugiadas em todo o mundo cresceu pelo segundo ano consecutivo, interrompendo cinco anos de queda. O relatório, intitulado “Tendências Globais 2007”, revela que pelo menos 37,4 mi de pessoas são refugiadas. Desse total, “o número de refugiados fora dos seus países de origem subiu, entre 2006 e 2007, de 9,9 milhões para 11,4 milhões. Em relação às pessoas forçadas a se deslocar e que se encontram dentro de seus próprios países, os chamados deslocados internos, o crescimento foi de 24,4 milhões para 26 milhões - no mesmo período. O relatório tem como base informações de mais de 150 países”.

A maior população de refugiados são afegãos (3 milhões) e iraquianos (2milhões) – justamente os dois países invadidos pelas tropas da OTAN e lideradas pelos EUA. Na AL os colombianos figuram em terceiro lugar, cerca de 552 mil, seguidos pelo Sudão (523 mil) e pela Somália (457 mil). Entre os deslocados internos, a maioria se encontra na Colômbia (cerca de 3 milhões de pessoas, de acordo com dados da Corte Constitucional). Em seguida estão 2,4 milhões de deslocados internos no Iraque, 1,3 milhão na República Democrática do Congo, 1,2 milhão em Uganda e 1 milhão na Somália.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Cotidiano

Com um forte solavanco ele abre a porta da casa. Está bêbado, exalando o forte odor de álcool adocicado característico da popular cachaça brasileira. Ele põe-se para dentro. Ao entrar, bate a porta contra a batente com tamanha força que a faz pular da cama num espasmo de terror.

Ela já dormia há algumas horas. A brutalidade com que o cônjuge adentrara na casa arrancara-lhe de um sonho. Sonho não, pesadelo. Agora, o pesadelo mais uma vez era real. Não suportava mais o sofrimento calcado no terrorismo imprevisível do marido possuído pelo tal do encosto – como lhe havia explicado o pastor da Igreja Pentecostal. Aliás, marido não. Não mais. Haviam separado-se a dois anos. Precisamente o tempo pelo qual ele estivera “amarrado” pelo demônio. Há dois anos a situação era a mesma, mas o sofrimento, esse começara bem antes, desde o casamento.


Porque houvera de ter se casado com esse traste? A labuta na vida de Maria começara muito cedo. Nunca fora bonita. Sempre tímida, tinha enorme dificuldade em se relacionar socialmente. Por esse ponto de vista parecia-lhe razoável casar com esse homem. Fazer o que? De maneira ou de outra sonhava em ser feliz. E quem não sonha?

Agora lá estava ela. Acordara de um pesadelo onírico para se apreender num pesadelo real. E lá estava ele, revirando as panelas em busca da janta requentada do almoço. A separação não teve efeito nenhum. Ele tinha a chave. E ai de Maria se ela tivesse a audácia de trocar o segredo da fechadura. Toda noite, após muitas dozes de cachaça, ele vinha até sua antiga residência saciar as necessidades libidinosas do seu corpo. Era sempre a mesma coisa: comia o resto da janta, fumava um cigarro, entrava no quarto de Maria e a estuprava.


Maria era forte, calejada, e agüentava estoicamente o sofrimento da vida. Ele era fraco, covarde, acostumado desde pequeno à covardia do mais forte. Mas Maria, caso tivesse outra oportunidade, não sonharia novamente. Já sucumbira à desesperança. E esse era o cotidiano de uma maria qualquer no Brasil.

Quem paga este preço?

Palavras tronchas insufladas de vergonha
Profetizam ainda mais insensatez por vir
Ainda que para nós, distintos de quem sonha,
Haverá de reservar-se um caminho a seguir.

Não profetizarás tal desmedida desavergonhice
Mesmo que benfazeja seja sua sandice!
“Verás sempre o mesmo caminho” eu te disse,
Pois quem sonha, sonha tristes maluquices.

Mas posso sonhar, posso mudar!
Não vê aonde quer chegar?
Sozinho ficará se esta atitude não mudar
Sonhar é para quem ainda não tem lugar pra ficar...

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Volto para casa sozinho

Pois volto sozinho,
Sem casa e sem ninho.
Sou andança sem caminho,
Vivência e medo do delírio.


Para todo sempre tímido,
Com receio de viver desinibido
Sem saber dos gestos mínimos,
Que fazem da vida os mímicos.


Deu-se criança feita de trejeitos
Com todos os caprichos dos soberbos,
Mas são apenas poemas lidos sem jeito.


Difícil ultrapassar, as cantigas de ultramar,
Que fizeram dos trovadores seu pesar,
Os sonhos modernos de se relacionar,
Tornaram-me ilha que a tempestade há de castigar.


Castiga-me fulgurante ira,
Mata-me a vontade de ida,
Porque a volta é mera fictícia.
E a entrega é espiritualmente mais rica...


Não tenho lugar, pois, em tal mar,
Não posso nem pescar, nem nadar,
Talvez seja sede de me afogar...

Viúva de um amor

Ser pessoa da rua,
Só enseja meu ser,
A sair e ver a lua,
Que um dia quiseras ter.

Foste minha, foste pura,
Mas tivera que morrer
Da fome que não cura,
Ao me ver e não me ter.

Tu morreste viúva,
Pois minha boca mais úmida,
Havia tempos virara pública.

E levaste toda a memória
Qualquer perda e glória,
Que nem sequer será mencionada
Na história, virou versos e prosa.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Que posso mais esperar?

Minha vastidão de vida
É dum tédio sem fim,
Pretendo caminho só de ida,
Pra, enfim, dar cabo de mim.

Visto o véu insondável da noite, durmo,
E pela manhã levanto-me num sacode
Acode! Acode! Dia, dê-me rumo!
Mas assim, como quem nada pode,
Não tomo prumo, e logo caem as estrelas,
Recolho-me vezeiro taciturno.
Ao travesseiro, entre tantos pesadelos,
Canto meus mais tristes devaneios.

Maldita vida desdita
Que não sabe se vai ou fica
Destarte, como pode ser-me amiga?
És como a brasa e a pele que nela pica!

Acaso pudesse,
Fecharia os olhos
E gritaria voz que quisesse.
Seria mudo meus poros
Mas saboroso a quem viesse
Ouvir.

Deveria ser diferente!

Deveria ser diferente
Supostamente...
Mas o destino mente
Sinceramente...

Passa a passos falsos,
E aquilo que já não é mais
Vira apenas poeira nos calços...

Queria ainda vestir
Tais belos sapatos
Ou pelo menos sentir
Pouco do passado...

Pra mim? É claro...
Levantar-se!
Me calo.

Caminho então descalço
Faço feridas no duro chão de calos
Machuco-me mas não paro
Assim eu vou e de ti não falo...

A linha 106

Peguei a linha 106. Tudo nela era deprimentemente melancólico. As cadeiras, os passageiros, as fotografias citadinas que se sucediam, apressadamente, uma após a outra pela janela. O ônibus todo estava abarrotado de toda sorte de sentimentos, os quais, quando misturados, consubstanciavam numa única expressão: desamparo.

Sempre tomava a linha 106. Também fazia parte daquele mundo, no entanto, ao invés de pensar em minha própria tristeza, procurava reparar nas alheias, que, para mim, eram sempre mais interessantes que minha própria. Sentava-me na última cadeira do fundo do ônibus, quando esta estava desocupada, e postava-me a fazer daquele cotidiano insuportável um filme, belo e triste.


Conforme as pessoas iam entrando, acomodavam-se sem lógica aparente. Eram frios. Seus rostos lânguidos. Inexpressivos. Fitavam a imensidão de seus pensamentos derrotados postos as suas frentes como capítulos de um filme, cujo termo seria sempre o mesmo. Mesmo assim, eram esperançosos, pois do contrário não estariam ali se sujeitando as agruras da vida cotidiana. Ou talvez sim. As motivações de viver das pessoas comuns são por demais complexas, e eu, em meu lugar, nunca conseguiria compreender semelhante fé no futuro. Gostava de observá-las.


Aquela linha de transporte representava uma ligação entre órgãos corpóreos. Era parte de um sistema sangüíneo que ora fazia papel de artéria, quando bombeava o rico sangue humano das partes periféricas do corpo, levando-o para trabalhar e sustentar a parte central, mais vital e de funções mais “nobres”; ora fazia papel de veia, cuspindo o sangue usado e pobre novamente às regiões da periferia, afim de que estes pudessem se restabelecer com o pouco arroz e feijão de que dispunham. No outro dia, recomeçava o ciclo novamente.


E assim era. Eu, um simples escritor vagabundo, trazia comigo apenas lente e material fotográfico, buscando registrar cada flash de luz que emanava daquela vida. Não tinha que trabalhar – pelo menos não no sentido mercadológico da palavra - o que me dava a possibilidade de analisar de cima os fenômenos sociais que irradiavam daquele pequeno recorte urbano. Anotava cada detalhe em meu pensamento para depois os transcrever em palavras.

O ônibus rasgava veloz as ruas da cidade, recortando as quadras e redesenhando o mesmo polígono infinitas vezes ao dia.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Sobre o silêncio

É bom ficar ouvindo o silêncio. Poder perceber cada decibéis de absolutamente nada. Tudo que não se escuta usualmente gritando dentro de uma bolha, torna-se mensagem clara e límpida ao toque do silêncio. Harmonia leve como pluma ao vento. Vácuo. Vez ou outra se escuta um estampido. Logo percebe-se ser nada mais do que ilusão sonora, efeito devida à abstinência da balburdia do som vulgarizado da vida cotidiana. Buzinas sobressaem aos motores, que abafam conversas de botequim, que se misturam à revoada das pombas, que se confundem aos gritos do mercado, que embaralham os noticiários das rádios e que, por fim, esconde a face lamuriosa do menino da rua.

Pernas atravessam o ar sentido à bola. Cortam-na como faca sentido ao gol. Braços voam rumo a bola e abraçam o ar. É gol! Silêncio... Não se poderia presenciar essa cena com o sentido dos ouvidos? Ouvir o som do ar sendo fatiado a cada golpe dos jogadores? Do impacto entre os cortes?


Cães ladram. Um carro passa a milhão por hora, inconseqüente, queimando pneus e neurônios por hora. Enquanto a senhora de preto na esquina não emite sinal algum, tampouco esboça reação. Ela ouve apenas seus passos. Nada mais que passos, e seus pensamentos confusos já silenciaram diante da vida rumorosa. O Estrondoso ruído da sua juventude agora não passa de um tênue murmúrio ao vento. Ela, pois, não fala, permanece em silêncio.


Sem ver, posso perceber. Um bar, esquina a fora. Muita conversa, discussões, presunção e altivez camuflada sob camadas e mais camadas de fetichismo libidinoso. Aqui os silêncios são gritantes e estridentes, mas inaudíveis para além dos ouvidos embriagados. O silêncio não diz nada quando escutado, e sua beleza só é tocada por aqueles maníaco-depressivos encharcados de medos, nos quais a veia pulsa solidão. Esses não falam, escutam, e o silêncio lhes prestigia com mentiras, mitigando-lhes auto-complacência enquanto desmaiam alcoolizados no balcão. Tapa na cara. Estampido. Beijo na boca. Grito na orelha. Estrondo. Sussurro ao pé do ouvido.O samba. Toca de fundo a minha morada. Posso ouvi-lo seco, insosso, como que mergulhado num mar de pensamentos: os meus. Rítmico cenário para pensamentos grosseiros. Me absorto em devaneios dos mais depravados, os quais o samba só me fazem embevecer. Estou em transe, em êxtase.

Eu sou a angústia do tempo que passa

Eu sou a angústia do tempo que passa...
Que põe estrelas em movimento
E que colide enormes massas.
Mesmo tão leves como o sopro do vento...

Tempo inexistente quando ancorado
Em cada coração persistente
Que só conhece ilusão e passado
Sem saber de tantos mundos diferentes...

Eu abro meu peito no gume da faca
E tantos outros, assim, iguais ao nada
Nas mãos, só retenho o presente
Passado, futuro é o espaço que me mata...

Regurgita esperança no viver
Quando devorávamos nossos seres
Desfiando belos futuros prazeres
Os quais acreditávamos querer

Sou, serei, talvez te faças ver
Não sei, se fui, há de ser
Distância borrada como sonho
Leva-me num riso tristonho...

Comida do mundo

De tão insensato,
Nem digo.
Porém sinto-me tentado,
Pois digo!
Para além do meu umbigo,
Cabe um mundo inteiro.

Minha infância,
Fora sempre na distância,
Do olfato, do tato, do beijo.
Só me ia, nunca me veio.
E de desforra, sem receio,
Numa bocada comi o mundo inteiro.

Cresci assim, sem o fim, só com o meio.
Afinal, que importa se perto de mim
Existe o começo do mundo inteiro?

Tenho fome de tudo.
Mas quero a comida
Dentro do meu bucho,
E lá encerro minha vida contida.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Do samba ao futebol, da caipirinha ao etanol

Nós, brasileiros, temos orgulho de sermos brasileiros. Do samba ao futebol, da caipirinha ao etanol. Sim, do etanol, porque não? Somos os maiores produtores de álcool-combustível no mundo, e, ademais, o tema está mais na boca do povo do que a última rodada do brasileirão. Tanto é que até o treinador Bush deu uma passada por aqui, trazendo a delegação e tudo, e ofereceu ao Lula uma vaga no seu mega-time do comércio mundial. Sarcasmos à parte, é fato o alarde da mídia comercial acerca dos chamados “biocombustíveis”, saudando-os como novos messias da humanidade. Impulsionado pelo aterrador quadro climático pintado pelas últimas declarações do IPCC, o tema tem ganhado destaque e, especialmente no Brasil e EUA (os dois maiores produtores de etanol do mundo), suscitou debates acalorados em defesa duma progressiva substituição dos combustíveis fósseis por combustíveis renováveis – entre eles o etanol e o biodiesel. Surpreendentemente, até o cowboy Bush prometeu substituir em 20% o uso de gasolina por álcool até 2017.

A QUESTÃO

No Brasil, a questão dos biocombustíveis, juntamente com o PAC, constitui dois pilares basilares do programa político de desenvolvimento energético e econômico do governo Lula. E não era pra menos. O setor sucroalcooleiro, apesar de pouco exportar, produz quase 1000% a mais que o produto agrícola de maior exportação, a soja. Para comparar, segundo o Ministério da Agricultura, a produção de cana-de-açúcar em 2006 foi de 457,98 milhões de toneladas, e da soja, em 2005, foi de 51,1 milhões de toneladas. De 1975, com a implantação do próalcool, até 2006, a área de plantio saltou de 1,9 mi para 7,04 mi de hectares. Atualmente, são 364 usinas produzindo quase 19 bilhões de litros de álcool-combustível por ano. Isso representa 38% da produção mundial, sendo que nosso concorrente direto, os yanques, a despeito dos subsídios agrícolas, não conseguem equiparar-se com a nossa eficiência produtiva: o custo de produção do etanol brasileiro é cerca de 50% menor que do estadunidense; US$ 0,16 contra US$ 0,30, em média.


Entretanto, essas questões de modo algum estão atreladas somente ao seu aspecto mais visível, isto é, à relação de meio e fim que as cercam, qual seja, o crescimento comercial e a maior utilização de combustíveis não-fósseis, mas envolvem também questões de natureza social e ambiental. Limitarmo-nos ao aspecto meramente econômico é incorrer nos debates ideológicos dos interesses empresariais, ou no entusiasmo incauto de um pseudo-progresso com o qual a história supostamente estaria nos presenteando.

DESENVOLVIMENTO X SUBDESENVOLVIMENTO

De fato, a despeito dos lucros astronômicos conferidos ao setor sucroalcooleiro, o desenvolvimento da indústria de álcool-combustível é relevante à economia brasileira e à esfera energética – o etanol é tido como parte da matriz energética, e a sua mistura à gasolina (em torno de 24%) é determinada pelo Estado. Portanto, a questão não pode ser analisada sob a ótica exclusiva do conceito de luta de classes, pois o progresso de tal setor da economia, contextualizado através duma visão materialista da história, é sim salutar ao corpo social, na medida em que gera empregos, arrecada impostos à união, incrementa as exportações nacionais, torna o país menos dependente de recursos energéticos não-renováveis e fortalece sua influência no âmbito das relações internacionais. Assim, do ponto de vista dos interesses da nação, do mesmo modo que a Venezuela, por exemplo, defende à ferro e fogo seus interesses nacionais do petróleo, o Brasil, como nação soberana, pode e deve salvaguardar seus interesses na produção de etanol.


Essas conclusões, no entanto, estão circunscritas a um pensamento idealizado sobre a questão. Sabemos que, ao focar a análise no campo do real, dificilmente encontraremos as mesmas equações do plano metafísico, e, fatidicamente, deparar-nos-íamos com os efeitos sombrios de uma superprodução agroenergética no Brasil. Devemos, portanto, partir para uma análise mais concreta das relações socioeconômicas e culturais, no caso do Brasil, que entravam o desenvolvimento potencial dos combustíveis não-poluentes e renováveis.


Com efeito, não é o setor agroenergético em si mesmo danoso ao tecido social. As causas de tais problemas residem nos vícios contraídos por um país terceiro-mundista subserviente ao grande Capital. Aqui, enfim, afloram as verdadeiras causas do problema: agroindústria latifundiária, monocultura, dependência de capital estrangeiro, leis trabalhistas neoliberais, legislação e fiscalização ambiental inócua, e todas as demais dificuldades, efeito das políticas alinhadas com o FMI e com BM impostas aos países ditos “emergentes”, como a alta concentração de renda e a improbidade pública e privada (essa última caracterizada pela sonegação). Portanto, o desenvolvimento agroenergético, à primeira vista, parece estrategicamente benéfico e necessário, mas, quando essa perspectiva é sobreposta à realidade política, cultural e econômica brasileira, fica evidente a distância entre o que “é” e o que “deveria ser”. A superprodução de etanol não fará mais do que acentuar os problemas decorrentes duma condição neocolonial na qual o Brasil se encontra, em especial, a substituição do plantio de grãos por cana-de-açúcar, a concentração de terras em latifúndios canavieiros, a exploração do trabalhador rural no corte da cana, e o aumento do desmatamento e das queimadas nas florestas e lavouras.


O tiro ao alvo do desenvolvimento e preservação ambiental, portanto, sairia pela culatra. A prova disto está nas estatísticas: segundo o Ministério Público do Trabalho (MPT), 80% da colheita de cana-de-açúcar é feita à mão por trabalhadores rurais, os quais vivem em condições subumanas de exploração da mão-de-obra; um estudo realizado pelo professor e pesquisador Pedro Ramos da UNICAMP revelou que 75% da matéria-prima utilizada nas usinas são produzidas por elas mesmas, sendo que apenas os 25% restantes são provenientes de produtores independentes; quase 70% das emissões de gases nocivos, no Brasil, é proveniente das queimadas canavieiras e pecuárias; a área de plantio da cana-de-açúcar é 1000% maior que da segunda maior cultura brasileira.

SAÍDA DE EMERGÊNCIA

Não há possibilidade de mudança no curso da situação. O Governo Federal está decidido a ampliar cada vez mais a produção dos biocombustíveis no Brasil (principalmente o etanol), e também no exterior através de parcerias políticas, de modo que isso já se reflete concretamente na realidade econômica brasileira. De fato, todas as 364 usinas possuem, ou estão em vias de implantação, projetos de ampliação da capacidade produtiva. Financiamentos e incentivos estão sendo outorgados pelo Governo às usinas. A meta é aumentar em 50% a produção de etanol em seis anos.A luta dos movimentos trabalhistas, estudantis e sociais devem, portanto, concentrarem-se nas questões de regulamentação ambiental e trabalhista do setor de biocombustíveis, bem como também em políticas alternativas para retirar das indústrias o monopólio na produção social do Etanol. Uma alternativa seria integrar a reforma agrária aos biocombustíveis. Assentar famílias rurais em pequenas propriedades comunitárias para produzir cana-de-açúcar através da agricultura familiar seria, ao mesmo tempo, viável no processo de desconcentração de terras produtivas e na transferência da renda gerada pela economia em expansão. Outra possibilidade, haja vista que o setor de álcool-combustível e tido pelo próprio governo como chave na economia brasileira e na estrutura energética do país, seria a criação de uma companhia estatal de etanol que monopolizasse o setor e conferisse os lucros decorrentes ao Estado. Obviamente, não devemos perder de vista os interesses nacionais, o que torna imperativo, na condução da questão, pulso forte nas relações políticas exteriores conduzidas pelo Itamaraty face os interesses imperialistas dos EUA e da UE.

Razões da escrita

Não sei se escrevo ou sumo,
Corro para além do mundo
Se risco o chão duro,
É com pontapés e murros.

Faz-se tão-somente premente
Livrar os males da mente,
Não vejo nada mais a minha frente,
O mundo perde importância de repente.

Ah! Mundo doente! Ensina-me a ser sorridente!
Ademais, teria outro ensejo a escrever,
Porquanto tudo que vejo me faz sofrer?

As palavras não são compartilhadas,
Jamais ensaiadas e propagadas.
São minhas e delas tiro solitárias gargalhadas.
Porque haja sido da vida comum degredadas?

Longe do costumeiro, ora, vida minha não tem eixo
Caminho de defeitos, palmilhados sem jeito
Deu-se então a escrita sem razão,
Livrai-me, pois, dos males do coração!
Concluo: escrevo e sumo, pois tal é a sina
Em que se vê imiscuída a finalidade da escrita,
Pra então reorganizar o mundo a minha medida.