domingo, 30 de maio de 2010

British Petroleum faz piadas e a mídia empresarial cai na gargalhada

Impressiona a estupidez brutal com que a grande mídia comercial assiste (e aplaude) os ditos "esforços" da British Petroleum para conter o vazamento no Golfo do México. Uma companhia com capital de U$ 246,1 bilhões de dólares espantosamente não consegue ofecerer mais do que bolas de golfe e pneus velhos para tapar o poço de petróleo. Menos de uma semana depois da plataforma Deepwater Horizon explodir, matando onze trabalhadores, a BP anunciou lucros de U$ 6 bilhões no primeiro trimestre do ano. E isto é tudo o que ela pode oferecer para sanar minimamente (porque o fim do desastre não significa simplesmente conter o vazamento: imagine o quanto o fato vem prejudicando e vai prejudicar a população local e a natureza de modo geral) o crime que cometeu: pneus e bolas de golfe velhas. Não bastasse as piadas de extremo mal-gosto, como o nome com o qual batizaram a operação tapa-buraco anterior: "top kill". Soa como um eletrizante filme hollywoodiano. Transformam o desastre num espetáculo cinematográfico, como se isto fosse um grande desafio, uma aventura para seus heróis. A mídia empresarial se diverte com a piada e sorri cúmplice.


O fato é que a BP (antiga Anglo-Iranian Oil Co., isso mesmo, aquela mesmo que monopolizou e expropriou o petróleo iraniano durante quase um século e que, para manter seu reinado, patrocinou o golpe contra Mossadegh e a brutal ditadura do Xá Pahlevi) não tem nunhum comprimisso com a segurança de seus trabalhadores, muito menos com as condições socioeconômicas e ambientais das regiões nas quais extrai seu lucro. A prova é um extenso currículo de desastres acumulado em pouquíssimo tempo. Na verdade, a companhia esteve no centro dos piores desastres petroquímicos dos últimos cinco anos.


A "Beyound Pteroleum" (ou "Para além do petróleo". A empresa vem, desde 2000, tentando associar seu nome à sustentabilidade energética, mas, entretanto, da receita de U$ 73 bilhões obtida no primeiro quadrimestre deste ano, apenas U$ 300 milhões, ou 0,41% foi proveniente de fontes renováveis de energia) já acumula um histórico de crimes sociais e ambientais. Em 2005, uma refinaria da companhia explodiu no Texas matando quinze trabalhadores e deixando 170 feridos. Aparentemente, o sistema de segurança do complexo estava desligado e, portanto, as normas de segurança foram ignoradas. No ano seguinte, um pequeno furo em um duto de transporte localizado no Alaska vazou 4.800 barris de oléo cru na natureza. O companhia, que havia sido alertada já em 2002 para checar os encamentos, descobriu o vazamento somente cinco dias depois. Os dois desastres renderam à BP uma multa de U$ 60 milhões de dólares; valor insignificante para a terceira maior companhia de petróleo do mundo.


Mas a BP não tem pudores moralistas se a questão for dinheiro. Na tentativa de minimizar os problemas jurídicos com o recente desastre, a companhia ofereceu U$ 5.000 dólares de indenização aos morades locais se estes abrissem mão do direito de processá-la futuramente. Não bastasse o vazamento de petróleo, vazou também documentos internos em que fica explícito que, desde junho do ano passado, a companhia conhecia os riscos e sabia da possibilidade do desastre ocorrer.


Seja como for, o fato é bem conhecido: todos nós temos ciência da maneira como o capital atua no seu afã de acumular riquezas. Neste exato momento, quantas companhias e empresas não estão fazendo vista grossa às normas de segurança, aviltando salários e exurpando direitos dos seus trabalhadores? Ocorre que, não obstante, é necessário desastres desse tipo para alertar a opinião pública. A grande mídia trata sempre os casos como excepcionais, mas a verdade é que esta é a normalidade do sistema, é esta exatemente a lógica com a qual o capitalismo opera.


Pelo jeito, o burado do qual jorra petróleo é bem mais em baixo.


Consulte:


http://www.esquerda.net/opiniao/bp-bilion%C3%A1rio-poluidor


http://www.huffingtonpost.com/2010/05/05/7-secrets-bp-doesnt-want_n_563102.html


http://www.propublica.org/article/bp-had-other-problems-in-years-leading-to-gulf-spill

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Politicagens

Inacreditável é o fato de que até 13 de maio de 2010 nenhum político havia, desde a promulgação da Constituição de 1988, sido condenado pelo Supremo Tribunal Federal. Note-se, ainda, que a pena foi minimizada, de dois anos e meio de prisão em regime aberto para o mesmo tempo em prestação de serviço comunitário, mais multa de 25,5 mil reais. Segundo Congresso em Foco, “A assessoria do STF diz que Zé Gerardo [PMDB-CE] foi o primeiro parlamentar condenado desde a promulgação da Constituição de 1988. Porém, não soube informar quantas condenações ocorreram antes, quais políticos atingidos e quando ocorreram”. Passada uma semana desde o fato histórico, o STF volta a condenar outro parlamentar por crime de responsabilidade, Cassio Taniguchi (DEM-PR), porém sem que essa condenação, novamente, se traduzisse em cadeia. Importa ainda destacar que, no julgamento de Zé Gerardo, Gilmar Mendes e dois outros ministros foram os que votaram contra a condenação. No caso de Taniguchi, Mendes não compareceu à sessão. Atitude previsível de um ministro pró-corrupção.


Enquanto isso, os 300 índios do Acampamento Revolucionário Indígena que permanecem acampados em frente ao Congresso Nacional, revoltados com o decreto que reestrutura a Funai e, na prática, dificulta o acesso dos povos indígenas à instituição, ameaçaram o governo com sangue se suas demandas não forem atendidas. “Estamos cansados do silêncio, nos ajudem ou vai ter sangue”, disseram dia 19 último. No dia seguinte os líderes do acampamento bateram à porta do presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), para questionar a emenda apresentada por Romero Jucá ([PMDB-RR] o mesmo do PL 1.610/96, que versa sobre a exploração mineral em terras indígenas) à MP 472/09 e que criaria o Conselho Nacional de Política Indigenista. Segundo os índios, este conselho fere a Convenção 169 da OIT.


Praticamente ao mesmo tempo, o projeto de iniciativa popular Ficha Limpa foi enfim aprovado no Congresso e vai agora para a apreciação do presidente Lula, não sem antes ter passado por modificações do texto original, apresentado na Câmara em setembro do ano passado. Embora os critérios de inelegibilidade (o essência do projeto) tenham sido em muito endurecidos, ainda assim, com as modificações, passaram brechas que as raposas velhas não vão se envergonhar em usar. Em primeiro lugar, só se tornará inelegível o político condenado por decisão de um órgão colegiado. Em segundo, o relator do projeto na Câmara, José Eduardo Cardozo (PT-SP), acrescentou uma emenda que permite recurso a outro órgão superior para recorrer da decisão. No Senado o projeto foi aprovado em tempo recorde, mas sofreu alteração pelo senador Francisco Dornelles (PP-RJ), que alterou o tempo verbal do artigo para o futuro (dos que tenham sido condenados, para os que forem condenados). Cabe agora ao Tribunal Superior Eleitoral a decisão se o projeto valerá já para as eleição deste ano. E já tem político procurando a assesoria do Congresso para se informar a respeito do projeto...

sexta-feira, 14 de maio de 2010

A solidão e a rua


Uma pessoa caminha solitária pela rua. Presumi-se que a noite esteja iluminada. Ela não saberia dizer em que fase a lua está.

Com passos mecânicos, caminha em direção ao ponto de ônibus. Por um momento detêm-se defronte a uma vitrine onde, por poucos instantes, sonha com um conjunto de blusa e saia. “Apenas 59,90”, observa. Segue em frente.

Uma viatura policial passa apressada e quebra o silêncio. A prostituta parada à esquina assusta-se. Logo atrás alguns jovens mexem com ela.

Seus pensamentos caminham ao lado. Pari passu. Não consegue livrar-se deles. Ela acelera o passo, mas eles lhe acompanham paralelamente. É inútil.

O relógio eletrônico prostrado no meio da rotatória aponta uma e meia da manhã. É hora de partir. Sempre é hora de partir.

Automaticamente ela prognostica o dia de amanhã em sua mente. Será basicamente igual ao de hoje. Não muda nada. Nunca muda nada.

Num relampejar a mãe vem-lhe à cabeça. Como estará? Ela andava se queixando de dores no peito. Queria vê-la. Queria deitar a cabeça em seu colo protetor.

Seus pensamentos são interrompidos por uma dolorosa visão: uma família inteira deitada ao relento, dividindo trapos e fazendo-os de cobertor; tentavam se unir para debelar o frio da noite.

Ela para por alguns instantes. Seus pensamentos enfim somem à esquina.

Anda em direção à família. Todos a olham perplexos. Nunca ninguém havia se dirigido a eles. Ela não diz nada. Observa-os detidamente, como quem aprecia a tristeza da solidão. Sem dizer nada, a moça senta ao lado da mãe, puxa parte do cobertor sobre si, aninha seu corpo contra o dela, a cabeça põe aconchegada contra o peito da mulher, e dorme.

Amanhã tudo será diferente.