sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Razão, fé e história

Todo mundo é um pouco esquizofrênico,
eu sou completamente.
Contraditório, hipócrita, covarde!
Dêem o nome que quiserem...
Desde que entendi o mundo,
meu coração cingiu-se em duas metades,
personagens de uma encarniçada luta,
cujo desfecho...


Acreditar nos homens ou sucumbir ao ceticismo?
Trago em mim o humanismo por princípio,
e o pessimismo por costume, por hábito.
Em qual devo me apoiar?
Confiar no futuro ou voltar-lhe as costas?
A razão me ensinou a ter fé,
mas a vida ensinou-me a descrença.
Há alguma contradição nisso?
A vida sufoca, cotidianamente, a fé.
Mas que importa?
Para a fé não há argumento que baste.
Se se retira do homem a bondade e a maldade,
o que sobra?
A história, em seu tenaz e tempestuoso fluir,
que a tudo subsume.
Nem razão, nem fé.
Nem otimismo, nem pessimismo.
Apenas a vida e a morte,
o sangue, o suor e as lágrimas!


Somos filhos da história.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Nota sobre metafísica, idealismo e materialismo

Discutir método, isto é, a definição teórica de um objeto, implica uma dupla caracterização: epistemológica e ontológica. Ao mesmo tempo, a relação entre elas deve estar fundada na necessidade e preeminência da esfera ontológica. Não se pode conceber uma teoria do conhecimento sem ter, antes, concebido a natureza do ser ao qual o conhecimento se refere. Por outro lado, como conhecer o ser sem ter, antes, uma gnosiologia própria, capaz de apreender a verdade do objeto, do ser? Essa caracterização da relação sujeito-objeto é tão velha quanto a filosofia. Só atualmente chegamos a uma posição tal capaz de nos fazer ver que, na verdade, ela constitui um falso problema.


Henri Lefebvre define o pensamento filosófico que separa sujeito e objeto como metafísico. Nesse sentido, a metafísica pode ser tanto idealista quanto materialista. Trata-se de uma concepção falso do “problema do conhecimento”. Antes de tudo, deve-se considerar o conhecimento como um dado, como um fato em si mesmo. O conhecimento, em si mesmo, não pode ser negado, não pode ser colocado em dúvida, porque é uma atividade prática. Sujeito e objeto não estão dados separadamente, mas estão efetivamente numa relação interativa, dialética. Isto não significa que o sujeito (o conhecimento) seja uma realidade idêntica ao objeto (o ser, o mundo); significa apenas que eles não se definem senão numa relação unitária, na qual cada pólo é negação e determinação do outro ao mesmo tempo.


Os idealistas e os metafísicos, ainda que queiram, não podem negar que existe um mundo real, no qual o seu “Eu” abstrato se relaciona com coisas, pessoas, com os mais diversos tipos de seres. A metafísica consiste em procurar separar abstratamente o que está dado efetivamente numa unidade concreta. A unidade é garantida (ou mediada) pela prática. Diante do conhecimento como fato, como verdade imediatamente dada pela vida concreta do sujeito, a questão “o conhecimento é possível?” revela-se metafísica e falsa. Disso não decorre que a verdade do conhecimento (sua relação verdadeira com o objeto) seja imediatamente um fato. Ora, o conhecimento em si é um fato. Mas o conhecimento em relação ao seu conteúdo é relativo. Isto porque o conhecimento não é algo dado e acabado, mas é um movimento, um processo, uma eterna aquisição. A verdade do conhecimento humano será sempre aproximativa, relativa. Contudo, isto não põe e não pode pôr em dúvida a realidade ou a possibilidade do conhecimento. Conhecimento é um ato, uma ação, portanto, é uma prática, uma prática teórica. Além do fato de ser uma eterna aquisição, um movimento processual eterno, existem muitas formas de conhecimento, muitos pontos de vistas a partir dos quais se apreende o objeto. Portanto, embora o conhecimento sobre a realidade objetiva seja um fato inquestionável, a verdade do conteúdo que esse conhecimento revela é relativa, aproximativa.


O idealismo é uma espécie de metafísica. Até a revolução filosófica marxiana, o materialismo também era metafísico. Ambos travaram, nas trincheiras da história do pensamento, a guerra para resolver o problema filosófico do conhecimento. O problema deste problema, como afirmamos, era precisamente a separação metafísica entre sujeito e objeto. O idealismo assume como primordial a consciência face à matéria. Ao passo que o materialismo afirma a matéria como o elemento primordial da realidade. Como o idealismo atribui uma realidade primordial à consciência, é obrigado a recorrer a uma dimensão transcendental, absoluta, como esfera dessa consciência. Ele põe, no movimento da realidade, a ideia, a consciência, anteriormente à natureza, ao mundo. No limite, quer queria quer não, o filósofo idealista é obrigado a conceber a essência dessa consciência como própria de Deus, uma vez que o homem é, também, em parte matéria. A consciência propriamente humana, portanto, não passa de um vislumbre da consciência divina que pensa e produz o mundo concreto. O idealismo, no limite, não passa de uma teologia disfarçada em filosofia, como Feuerbach já denunciara na primeira metade do século XIX.


Os empiristas idealistas (metafísicos), como Kant, não foram capazes de sair da armadilha em que a concepção idealista lhes impôs. Embora Kant aceite a origem do conhecimento como provinda da experiência, a noção de categorias a priori inviabiliza a realidade objetiva do ser existente fora da consciência. Segundo ele, nunca poderemos apreender a essência da coisa em si, porque a nossa experiência (do sujeito) está determinada a priori pelas categorias da intuição (espaço, tempo) e do entendimento (quantidade, qualidade, relação etc.). Não conhecemos a coisa em si porque só podemos conhecer a forma dela, não dela mesma, mas a forma que a nossa consciência projeto sobre a coisa em si. No fundo isso é anular a realidade da coisa em si, assim como é a-historicizar o conhecimento humano. Ora, de onde vêm as categorias a priori? Da esfera transcendental; estão dadas, eternamente, transcendentalmente à realidade objetiva, isto é, à experiência do sujeito enquanto sujeito material, enquanto parte da natureza.


O materialismo metafísico (ou mecanicista), por outro lado, é incapaz de apreender a relação consciência-ser como uma relação prática, concreta. A consciência, para essa corrente, não passa de um reflexo passivo (e, portanto, unilateralmente determinado) da realidade material. O conhecimento perde, assim, sua característica intrínseca de atividade, de ação. A teoria do reflexo leniniana acaba caindo de novo no materialismo mecanicista, muito embora conceba a relação sujeito-objeto como mediada pela práxis. A noção de reflexo é própria do materialismo mecanicista, uma vez que anula o caráter ativo do conhecimento.


A verdade dessas duas concepções filosóficas foi salva pelo materialismo histórico-dialético. Isto é, a dicotomia idealismo-materialismo foi superada e elevada a um nível superior onde a verdade parcial e relativa de cada tese e antítese foi preservada e sintetizada numa verdade superior. Marx resolveu essa questão brilhantemente nas Teses sobre Feuerbach. O conhecimento é a atividade prático-sensível do sujeito sobre o objeto. Sujeito e objeto estão numa relação unitária e contraditória – portanto, dialética –, onde um se torna imediatamente o outro e vice-versa.