segunda-feira, 24 de novembro de 2014

A morte

Se eu morrer amanhã
Tudo terá valido a pena
Isso quer dizer que a vida
Não tem um sentido
Um ponto de chegada
Um objetivo
Senão um único princípio
O objetivo da vida
É vivê-la
Somente isso
Ela simplesmente é e está
E o que foi, é como deveria
Ter sido
Daí que não há tempo
Para arrependimento
Ou para desperdiçar
Com pudores
Amores comedidos
Medo ou rancores mal resolvidos
A vida é como um relacionamento
Amoroso ou fraterno
Ela não dá “certo” ou “errado”
Aliás, com que critério
Medimos da vida o sucesso?
Ela não é uma corrida de cavalos
Não se está à frente ou atrás
Não há páreo
Tampouco pódio
“Que desperdício
Foi tão jovem
Tinha tanto potencial
Faltou-lhe pouco”
Para quê? Eu pergunto
Se eu morro amanhã
Vou tranquilo
Deixo de mim um pouquinho
Em cada rosto querido
Em cada ombro amigo
Em cada desconhecido
Que cruzou comigo
E de alguma maneira
Para ele
Fez sentido
Esse encontro fortuito
Se eu morro amanhã
Parto em corpo
Mas fico em espírito
Nalgum conselho
Que acaso tenha dito
Nalgum gesto bonito
Que fica de exemplo
Claro, nos muitos malfeitos
Que não se deve tornar a fazê-los
Fico na memória
De um carinho
De um riso
De bons momentos
Fico nesta poesia
No brilho dos olhos
Marejados
De quem a lê
Fico nalgum arranjo de flores
Colhidas pela estrada
Que a uma pessoa amada
Dei de presente
Se eu morrer amanhã
Nada de chororô
Enterrem-me debaixo
De uma árvore
De copa larga e frondosa
Daquelas que farfalham
Suavemente
Ao balanço do vento
Deem meu nome
A um bebê risonho
De cabelos encaracolados
E eu viverei de novo
Pois todo o mundo
Merece uma nova chance
Se eu morrer amanhã
Tenham certeza que a morte
É só o recomeço
De um ciclo que fazemos
Da lagarta à borboleta
De tempos em tempos
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