quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Poesia das trabalhadoras que fabricaram o meu celular

Então eu me posiciono à linha de produção
Como se fosse à cabeceira do leito de morte de minha mãe
Sem alento, com profundo pesar
Antes da sirene dar o sinal da partida da máquina
Um suspiro fundo prepara a mente ao que virá pelas próximas horas
Quase todo o meu dia, esvai-se junto ao movimento inexorável da esteira
A uma taxa de n peças por minuto
E o que é um dia senão um grão de areia na ampulheta?
Que aos poucos eu preenchê-la-ei por inteira
Das promessas e sonhos de menina, já quase nada resta
Soterradas pela areia que desce aparentemente sem pressa
E então eu me lembro que ainda sou uma menina
Mas uma menina sem sonhos e promessas é uma velha
Miserável, morta, estúpida, como uma máquina
Uma máquina não possui sonhos nem faz promessas
Se ela se move é porque lhe dão energia elétrica
Já eu me movo porque me dão dinheiro
Eis aí a única diferença
A esteira inicia seu trajeto circular
Começando por mim, dá uma volta toda pela fábrica
Até que retorna a mim de novo
Ou começa na trabalhadora ao meu lado?
Isso não importa nem muda em nada as coisas
Eu não sei o que há para além desta breve seção que ocupo
Meu corpo físico inicia seu movimento sozinho
Como se obedecesse ao mesmo comando da máquina
Como se eu tivesse uma espécie de botão também
Meus olhos agitados seguem o balé das mercadorias
Minhas mãos acompanham-nas com agilidade e destreza
Por fora, a aparência de harmonia, força e beleza
Que arranca tantos e orgulhosos suspiros da gerência
Esconde a cenário sombrio, frio e morto que se passa cá dentro
Eu estou longe, viajo em pensamento
Mas não sei para onde ir
Então me espírito paira sobre a linha de produção
É quase como se eu me visse a partir de fora
Olho aquelas mãos que apertam pequenos e delicados parafusos
E é como se não fossem minhas
É como se tudo ao meu redor estivesse acontecendo noutro lugar e tempo
E então eu volto os olhos da alma por sobre as paredes da fábrica sem janela
Por sobre a minúscula cela onde vivo com outras nove companheiras
Por sobre os prédios, e para além da agitação frenética da cidade poluída
Voo sobre os vales, as padrarias, as montanhas
E vou dar de novo na infância de pé descalço
Ajudando meus pais no roçado
Correndo atrás das galinhas quando a vida me permitia ser criança
A fábrica à minha frente torna-se um pesadelo distante
Eu repouso minha cabeça sobre o colo da minha mãe
Enfim, fechos os olhos e descanso
Como há muito tempo não descansava
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