quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Fascismo e metodologia de estudo

Tal como De Felice, acredito que o problema mais grave na extensa bibliografia acerca do fascismo é sua unilateralidade, sua parcialidade. Ao mesmo tempo que essa é a sua fraqueza, porquanto limita-se a determinas aspectos do fenômeno e, destarte, não consegue ter dele uma visão de conjunto, é também sua força. É sua força porque permite que compreendamos a magnitude da complexidade do fascismo. Com efeito, pode-se analisa-lo segundo variegadas óticas e com variados objetivos, desde psicossociais, passando por históricos e culturais, até econômicos e políticos. A princípio, nenhum deles é verdadeiro em si, embora cada um deles forneça uma chave específica e necessária ao desvelo do todo. É preciso, então, fazer a síntese dessa vasta bibliografia. Creio que tal empresa ainda está por ser feita. Por ora, apontemos apenas uma questão: o conceito de luta de classes é importantíssimo e, sem o qual, não se compreende a gênese nem a natureza do fascismo. Mas, por si só, ele não basta. Para que surgisse o fascismo foi necessária a confluência de uma ampla gama de fatores variegados. Até mesmo a questão do conflito social não se reduz às categorias totalizantes de classe, porque envolve também, além do conflito entre burguesia e proletariado, uma série de fraturas, tensões e conflitos sociais entre categorias menos amplas mas nem por isso menos importantes, como é o caso do ressentimento contra os intervencionistas que respingava sobre os ex-combatentes. Havia, portanto, tensões e conflitos mais ou menos abertos entre vários e diversos grupos sociais, e não somente entre classes. De resto, na esteira do que se propõe metodologicamente aqui, não somente interesses econômicos estavam colocados como condição da ascensão do movimento fascista. Fatores de ordem política (e.g., a fragilidade das instituições republicanas e o crescente desapreço pelos liberais), psicossocial (como ressentimentos de toda espécie decorrentes de uma grave crise moral), etc.; tudo isso influenciou e concorreu para o resultado final. A Primeira Guerra foi o cadinho onde fundiram-se esses vários ingredientes, o que equivale a dizer que antes dela, e antes da crise que ela desencadeou, já se apresentavam algumas das mais fundamentais condições para o surgimento e empoderamento do fascismo. É difícil dizer, mas sem a guerra provavelmente não teria havido fascismo.

Solidão intelectual

Passaram-se exatamente um mês desde a última (e primeira) vez em que escrevi nessas folhas. Já tentei algumas (ou teriam sido várias?) vezes manter uma espécie de diário. Nunca consegui. Os motivos ainda não me estão claros, se bem que talvez tenha alguma coisa a ver com preguiça. Contudo, o principal motivo só pode ser a carga de dor envolvida em todo empreendimento de aventurar-se dentro de si mesmo, de temor e angustia ao enfrentar os próprios demônios. É doloroso. Afora isso, a vida é tão corrida, acossa-nos com tantas dificuldades e responsabilidades, que queda pouco tempo para pensarmos acerca dela. Mais vivemos o momento do que pensamos sobre o ato de viver. Isso é, evidentemente, um problema porque, tal como navegantes em alto-mar, não é possível navegar às cegas, ou, na melhor das hipóteses, não é possível chegar ao destino assim. Compreende-se imediatamente a importância de pesar os próprios atos, de aquilatar o próprio comportamento à luz dos fins que se põe, de criticar minhas/suas/nossas próprias crenças e posturas. Devo tentar, portanto, novamente. Prometo resgatar os acontecimentos do último mês. Mas, por ora, quero falar de outra coisa.

Sempre me senti solitário. Lido melhor com ela desde algum tempo – e ou eu só me apercebi disso recentemente ou de fato apenas recentemente desenvolvi essa capacidade. Falo aqui da solidão enquanto sentimento, enquanto uma sensação vaga e difusa de não pertencimento, de não ser amado e querido, de não ter ninguém com quem contar, de não ser compreendido. Não é exatamente dessa solidão que quero falar em especial aqui, embora, como toda forma de solidão, esta também seja um não pertencimento, um caminhar solitário. Solidão intelectual – existiria algo do tipo? Na maioria das vezes não me reconheço na opinião, nas elucubrações, nas teorias, de ninguém. Entre tantas ideias diferentes, que, vistas de longe, compõem um mosaico complexo do qual não se vê ordem, começo ou fim, eu tento abrir uma senda própria, definir um espaço único e só meu. Alguém me chamaria de “do contra”, outros veriam nisso um pensamento crítico, que não toma como verdade um dado senão antes avalia-lo conforme seus próprios critérios racionais; outros, ainda, chamariam essa postura de personalidade forte, destemida (que, quem a tem, compreende como é alto o risco de cair com ela na temeridade), que não segue senão aquilo em que acredita, ainda que ninguém mais acredite, podendo ser isto tão ruim quanto bom.

Diante do exposto, podem ser várias as causas dessa solidão intelectual. Pode ser causa de um simples temperamento patológico propenso ao egocentrismo, ao individualismo, à recusa de toda ideia coletiva, de tudo o que posso se confundir com “o outro”; uma busca incansável pela singularidade, por destacar-se diante da multidão. Espero sinceramente que não seja isso, conquanto é preciso aduzir a semelhante causa como meio de proteger-se a outra mesquinhez presente em todo ego: a autoindulgência. Não quero ser indulgente comigo mesmo, então preciso considerar a possibilidade de ser um maníaco egocêntrico idiota. Por outro lado, essa causa pode ser também uma necessidade interior e sincera de buscar e conhecer a verdade. A verdade é algo muito caro para mim, inobstante nem sempre, ou talvez mesmo poucas vezes, eu consiga sustenta-la, agir consoante a ela. Mas quando se trata dos fatos do mundo, da história e dos seres humanos, considerados sob uma ótica intelectual, a verdade é tudo para mim, e ela nunca deixa de estar presente como finalidade posta. Ou seja, acima de tudo, quero a verdade, doa a quem doer. Quando eu sou “do contra”, quando procura uma posição singular, equilibrada entre tantas outras posições não tão singulares assim, o que eu almejo é a verdade. É claro que nada pode ser absolutamente singular, tanto mais porque a singularidade pressupõe categorias universais e particulares. O singular não repousa no vácuo. A questão é que eu não adoto nenhuma ideia, nenhum postulado, nenhuma posição de terceiros, sem antes analisa-la segundo meus próprios critérios racionais, sempre tendo por norte a busca pela verdade. Posso equivocar-me amiúde com esses critérios e essa postura? Evidentemente que sim.

A solidão é consequência disso. Quase sempre me vejo em desacordo com todo o mundo, embora em certa medida e de certa forma eu esteja-lhes de acordo, isto é, em partes. É de cada um e de todos ao mesmo tempo que eu tiro minha própria síntese. Cada um tem algo pertinente a dizer, e todos juntos se aproximam mais da verdade do que cada um em separado jamais poderá. É por isso que é preciso considerar todas as vozes. Se de um lado isso me coloca em acordo com cada uma delas em particular, por outro me põe em rota de colisão com todas elas em geral. Donde não ser nem de esquerda, nem de direita, nem revolucionário nem liberal, nem marxista nem pós-modernista. Ninguém está comigo, se bem que eu esteja (ou queria estar) com todos. Não há outro jeito a não ser lidar com isso, com as consequências dessa postura, especialmente no que toca à solidão intelectual. Não ser bem-vindo, nem completamente malquisto; ser maldito, eis o anátema que tem de carregar pessoas como eu.

Mais sobre o Mais Médicos

A gente precisa parar de confundir os problemas, além de misturá-los a determinadas posições ideológicas e/ou interesses políticos que só nos fazem ver parte deles e não o todo.

Quando a esquerda socialista faz sua contumaz denúncia do governo, neste caso ensejada pelo programa Mais Médico, joga luz sobre quais seriam as reais motivações desse governo com tal programa, uma vez que se trata do mesmo governo que não questiona os alicerces fundamentais que sustentam a precária situação da saúde pública tal qual está (a falta de investimento material e humano e a política privatista), mas que, milagrosamente, depois das jornadas de junho, resolveu sanar os déficits em saúde pública com panaceias miraculosas, como se alguns milhares de médicos cubanos pudessem salvar todo o mundo.

Quanto aos setores que apoiam o governo e acusam a mídia e as organizações médicas de travar uma campanha corporativista e difamatória, joga luz, por sua vez, sobre os atavismos culturais de uma classe média virulentamente elitista, preconceituosa e apegada aos seus privilégios sociais.

Vejo méritos em ambos argumentos, os quais têm, de resto, em mira alvos diferentes, e nem por isso eu me coloco contra ou a favor do governo. Neste momento, me indigna mais a atitude dos setores contrários à medida, e sua cruzada inescrupulosa e imoral, do que a esperteza política do governo petista. É preciso denuncia-la, assim como é preciso mostrar a verdadeira face protofascista das pequenas e médias elites.

Quanto ao programa Mais Médico, considerando-o em si, isto é, à parte das demais questões pertinentes à saúde pública e dos interesses políticos governistas, eu acho-o muito válido, sobretudo porque de pronto, e com poucos gastos, provavelmente dará excelentes resultados. Isso quer dizer que eu acredite na jogada do governo? Não. Mas também não significa que eu descarte ela.

A gente devia parar um pouco de discutir entre nós para ouvir os camaradas recém-chegados. Enquanto a direita chama-os de escravos, e a esquerda acusa o governo brasileiro e cubano de lucrar – o primeiro politicamente e o segundo economicamente – com seu trabalho precário, os médicos dizem que não vieram aqui para ganhar dinheiro, mas por solidariedade, por amor à medicina e aos pobres.

Enquanto todos nós ficamos especulando o que é essencial ou não para o funcionamento satisfatório do sistema público de saúde – se é ter máquinas ou médicos –, os médicos cubanos nos dão uma pista: segundo eles, o trabalho que vieram realizar aqui não depende de grandes investimentos e equipamentos sofisticados. Isso nos exime de investir em infraestrutura e recursos? Obviamente não, mas também não impede a vinda dos médicos cubanos, muito pelo contrário.

Que fiquem para sempre! Talvez com eles a gente aprenda um pouco do que importa realmente ou acima de tudo: não é política, e muito menos é dinheiro; é agir solidária e abnegadamente em prol de um coletivo a partir de valores humanistas que nascem de dentro e não se impõem de fora.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Rugas

O rosto de couro vincado
Diz muito d’alguém
É como mapa do tesouro
Indicando os passos vacilantes
Sentido ao “x” da vida
Que todo viandante
Necessariamente trilha

O semblante de pele sulcada
É como um pergaminho
Onde a pena do tempo vinca
As tortas linhas de seus descaminhos

Podem ser efeitos de muitos sorrisos
Porque nem toda ruga é de preocupação
Ou podem ser da lida no sol a pino
As marcas da humana servidão

Podem ser simples sinais da idade
Que não avisa nem pede permissão
E que muita gente por fútil vaidade
Tenta esconder como a um borrão

Não se deve ter vergonha
Dessas cicatrizes que o viver imprime
Ao contrário, deve-se ter-lhes honra
Pois são como assinaturas únicas
Escritas na face e na carne
Assinaturas que dão o som
O timbre, o ritmo e a harmonia
Da música pessoal de cada um
Como um vinil a tocar a nossa vida

domingo, 25 de agosto de 2013

Bem-vindos médicos cubanos!

Esse país me envergonha. Somente no Brasil uma força tarefa praticamente humanitária seria escrachada, vilipendiada e posta sob suspeitas como tem sido com os médicos cubanos. São embaraçosas as declarações absurdas das entidades da classe médica, algumas delas, na melhor das hipóteses, antiéticas e, na pior, criminosas, como a que pede que os médicos nacionais não atendam eventuais casos de erro cometidos pelos estrangeiros. 

Nossos médicos, que pedem a comprovação da qualificação profissional daqueles, estão se achando muita bosta, e parecem esquecer que a medicina em Cuba é uma das mais avançadas do mundo – não tanto porque se apoiam em tecnologias e conhecimento modernos, mas antes de tudo porque se orientam segundo outros princípios. Entre esses princípios está a ideia de que medicina é um direito social e, como tal, um serviço público de inestimável importância a fim de que exista justiça social, de modo que as doenças devem ser combatidas com ações preventivas, comunitárias, e não com remédios, internações e cirurgias. O avanço das ciências médicas talvez esteja entre as maiores revoluções do século XX, mas esta revolução de nada adianta se serve apenas para alimentar uma indústria, uma indústria que necessidade de doenças para lucrar e que, portanto, não se interessa em combater suas causas mas tão-somente seus efeitos. 

No momento em que os médicos nacionais abriram a polêmica com o programa do governo federal – um programa que, diga-se de passagem, é limitado, imediato e pontual –, chamando a atenção para a falta de investimento e condições dignas de trabalho, acrescentaram positivamente à compreensão do problema, embora eu não consiga perceber a relação entre falta de condições de trabalho e a não vinda de médicos estrangeiros – isto é, embora seja fato que o problema não é apenas a falta de médicos, mas também o insuficiente investimento público no setor, não me parece que tal constatação impeça a contratação de médicos estrangeiros enquanto medida provisória para aumentar a oferta de serviços médicos no país, oferta que, como sabemos, é bastante desigual geográfica e socialmente. 

Mas a questão é muito mais profunda e complexa do que simplesmente a vinda ou não de médicos estrangeiros, ou a falta de investimento/prioridade estatal. A questão é também cultural. Tem muito a ver com o modo de fazer medicina por aqui. Tem muito a ver, também, com a imagem da profissão médica no Brasil, seu monopólio pelas classes médias, a posição social que ela garante a um estrato dessas classes médias. Ser médico, no Brasil, nada tem a ver com atuar numa área sensível de sustentação dos direitos sociais; antes, ser médico aqui é: lograr boa renda, e usufruir de um prestígio social alto. 

A questão, portanto, é o significado cultural do qual as profissões médicas se revestem no Brasil, o que é ensinado para esses profissionais ao longo da sua formação, os motivos que levam determinadas pessoas a se formarem em medicina. E isso foi comprovado pela própria categoria médica, que se traiu com as próprias armas que usou a fim de evitar a contratação de médicos estrangeiros. Ela conseguiu com que o governo recuasse e alterasse os critérios do programa, dando prioridade aos médicos nacionais. Quinze mil vagas foram abertas, mas as inscrições atingiram apenas 10% delas, e, se não me falha a memória, das mil e quinhentas inscrições, um terço dos médicos inscritos atuavam no exterior. Diante desse “fracasso”, o governo avançou na contratação de médicos cubanos. 

Isso deveria ter sido o suficiente para calar os detratores do programa, mas ao invés disso fez com que as entidades de classe do setor recrudescessem os ataques, até beiras as raias do absurdo, como pregar a omissão. Resta-nos especular sobre os motivos mais profundos dessa postura. Ora, faltam médicos, deu-se a chance aos brasileiros preencher as vagas demandadas, eles não se interessaram, então que venham os cubanos. Não era para ser simples assim? Porque essa atitude absurdamente corporativista das associações e conselhos médicos então? 

O mais fundo motivo que eu consigo entrever é duplamente econômico e social: a medicina é monopólio das classes médias e uma grande fonte de renda e prestígio social. A vinda de mais médicos não só é uma ameaça porque aumenta a concorrência, mas também contrapõe outra forma de fazer medicina a que se faz tipicamente por aqui. Como mostra o perfil dos recém-chegados, todos eles já participaram de missões humanitárias em outros países (e, sim, todos eles são bastante qualificados). Ora, os profissionais de medicina no Brasil, que sonham com sua própria clínica, branca, asséptica, tranquila, onde não haja pobres agonizando nos corredores, nunca sequer jamais pensariam em atuar no Haiti, por exemplo. Não é para isso que eles se formaram como médicos. Não era esse o motivo: praticar a solidariedade, como disse um dos médicos recém-chegados. No Brasil, quem cursa medicina é quem tem condições para tanto, ou seja, é a classe média, que pode educar seus filhos em escolas particulares, os quais não precisam trabalhar nem antes nem depois da escola. Quando eles se formam, após usufruir de um serviço público, vão ganhar dinheiro, e pronto. 

A coletiva de imprensa com os médicos cubanos recém-chegados é também muito elucidativa no que tange à mentalidade dominante no Brasil. As perguntas giram em torno de práticas e motivações que são tipicamente de mercado, além das acusações gratuitas de uma imprensa que se coloca a favor dos queixumes dos médicos nacionais: se fosse sincera, a pergunta não seria “qual a motivação de vir pra cá?”, e sim “já que vocês não vão ganhar dinheiro, qual o motivo?”. “Solidariedade”, foi a resposta. 

Mas e quanto ao trabalho escravo? Que trabalho escravo, pelo amor de Deus!? Essa acusação ridícula e sem fundamento é a expressão máxima de como Adam Smith reina por aqui: toda atividade pessoal, sobretudo profissional, tem que necessariamente de estar voltada para a satisfação de interesses pessoais, e motivada por egoísmos individualistas. Trabalhar para ganhar pouco ou mesmo ganhar nada, ainda que quem lucre seja a coletividade, é algo completamente incompreensível para as cabeças educadas na religião liberal, e é logo traduzido como “trabalho escravo”. A mesma acusação estúpida foi lançada contra o coletivo Fora do Eixo. Toda vez que os cânones do livre mercado e da livre iniciativa privada forem colocados em xeque a mídia burguesa estará lá para os defender. 

Minha sugestão: mandar os médicos nacionais para o estrangeiro e ficar só com os cubanos. Como não é possível, espero que aqueles parem de falar merda por um minuto e aprendam um pouco com estes.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Não entendo

Eu entendo o que entendo.
Para mim, algumas coisas são entendíveis,
outras não o são.
À você que não entende,
eu explico:
pare de querer me fazer entender o que eu não entendo.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Pelo fim da PM

Vamos refrescar a memória?

Em julho deste ano completou 20 anos da chacina da Candelária, na qual foram assassinados 8 moradores de rua, 6 deles menores de idade.

Neste mês de agosto completará também 20 anos de outro massacre, a chacina de Vigário Geral, a qual contou 21 mortos, todos pessoas inocentes que não cometeram outro crime exceto serem pobres e favelados.

Em outubro, é a vez do massacre do Carandiru completar 21 anos. Total de presos sumariamente executados: 111.

Em abril de 1996, 21 sem-terras foram mortos pela PM durante repressão à passeata que faziam em Eldorado dos Carajás.

Em março de 2005, 29 pessoas foram assassinadas por um grupo de policiais militares que saíram atirando indiscriminadamente pela Baixada Fluminense.

Entre 12 e 20 de maio de 2006, a PM paulistana assassinou 493 pessoas em represália aos ataques encabeçados pelo PCC em todo o Estado.

Ao longo de todo o ano passado, numa situação semelhante à vivida em 2006, a PM de São Paulo perpetrou 24 chacinas, num total de quase uma centena de mortos.

Em junho deste ano, o BOPE invadiu a comunidade Nova Holanda, no RJ, e assassinou 10 pessoas em retaliação à morte de um soldado.

E isso para ficar apenas nos casos mais memoráveis, que tiveram forte apelo midiático e impacto na opinião pública. A verdade é que esses casos representam apenas a pequena ponta de um iceberg incomensurável. Acabam, ademais, escondendo o fato de que a violência homicida da polícia é corriqueira, cotidiana, diária. Essa violência cotidiana não aparece nas manchetes de jornais, e quem a vê e a sente na pele são as comunidades de trabalhadores pobres espalhadas pelas periferias de todo o país. Todo dia o Estado, por meio da polícia, extermina parte de seus cidadãos mais vulneráveis (geralmente pretos/pardos, pobres e jovens), seja em operações e incursões “legais” em favelas, seja através de grupos de extermínio compostos por policiais fora de serviço; seja através de balas perdidas ou endereçadas, seja em consequência de “resistência à prisão seguida de morte”. No que diz respeito a esta última classificação, só no Estado de São Paulo a polícia assassinou 2000 pessoas entre 2005 e 2009.

É preciso ainda argumentar pela necessidade de desmilitarização e reformação total da polícia brasileira?

sábado, 10 de agosto de 2013

Crônica de um crime burocrático

O Estado é impessoal; contudo, é neutro? O Estado é ineficiente; ou não? Discutirei aqui essas questões com base na minha experiência pessoal. Mas fá-lo-ei de uma forma um tanto insólita: misturando crônica – literatura – com ensaio – teoria. A guisa de guia à discussão, adianto duas teses, de resto nada originais: 1) a suposta impessoalidade e neutralidade do Estado, princípios que se travestem em ideias como “bem geral”, “coisa pública”, implica, necessariamente, numa tomada de posição em favor de uma parcela da sociedade com a exclusão do resto. Essa parcela da sociedade não necessariamente corresponde a uma única ou fixa categoria, como a classe, mas a categorias variadas, situadas em campos diversos; e 2) aparentemente o Estado é ineficiente, como todo mundo está cansado de saber, mas ficamos surpresos ao constatar como o Estado pode ser eficiente em relação a pequenas infrações, e absolutamente ineficiente em relação àquilo que realmente importa.

Antes de tudo, uma anedota, narrada na forma de crônica. 

A fim de completar a renda mirrada de professor substituto, e tendo por profissão – aprendida na lida sofrida do primeiro emprego – consertar computadores, resolvi espalhar pela cidade anúncios nos quais oferecia o serviço de assistência técnica de computadores. Dizia o anúncio, em letras garrafais: “preços mais camaradas do que os praticados no mercado; assistência personalizada; garantia de 30 dias”. Como diz o bordão mercadológico: a propaganda é a alma do negócio. 

E lá se foi eu pelas ruas, entusiasmado com o novo empreendimento, colando cartazes nos pontos de ônibus. Estava falante e jubiloso, como sempre acontece em relação a tudo que é novo, e também porque eu vinha de uma fase muito reclusa, passando dias e dias no quarto, apenas estudando, sem ver pessoas, sem sair à rua para flanar e conversar com desconhecidos. Tinha me esquecido como isso é prazeroso. Quando encontrava pessoas num ponto de ônibus, puxava assunto, fazia graça. Dizia: 

– Dá licença pra eu colar um anúncio no meu outdoor particular? Esse aqui é o melhor outdoor que existe, sabia? Porque todo mundo vê e é de graça. 

Mal desconfiava eu que o barato pode sair muito, mas muito, caro. Andei por horas e horas, uma tarde toda, percorrendo os pontos mais movimentos da cidade. Voltei para casa confiante. Agora era só esperar. 

Qual não foi a minha surpresa quando me dei conta de que a primeira ligação não vinha de um possível cliente, mas da secretaria de-alguma-coisa da prefeitura, notificando-me que os “lambes” que eu espalhara pela cidade configurava crime (depredação do patrimônio público), e que eu seria multado em mais de mil reais por folha A4 colada. Quase cai da cadeira. Primeiro tentei argumentar que não sabia, e que jamais me passou pela cabeça que um ato inocente como esse seria considerado crime pelo Estado. Mas como ninguém pode alegar desconhecimento da lei em favor próprio, recorri ao bom-senso: 

– Eu só estou querendo trabalhar, amigo. Não pretendia “depredar” patrimônio público. Você sabe quanto custa um anúncio? Essa foi a única forma que encontrei para divulgar meu trabalho. 

Não teve conversa. A resposta que eu ouvi foi: 

– Eu também tenho um negócio particular, nem por isso eu posso sair por aí colando cartazes onde bem entender. Imagina se todos resolvem fazer o mesmo? Por isso existem leis, para organizar a vida em sociedade. 

Correto, assunto encerrado. Como posso responder a semelhante argumento? Só me restava apelar para o emocional: 

– Cara, você vai me foder desse jeito! 

Para ser justo, o agente público havia me ligado justamente com a intenção de me propor uma saída: 

– Dou-lhe este final de semana de prazo para você recolher todos os cartazes. Se eu encontrar um que seja na segunda-feira você será multado, além de processado por danos ao patrimônio público. Tenha um bom dia. 

E foi assim que o meu negócio, mal tendo começado, já se viu ameaçado de terminar em tragédia. Que eu tivesse espalhado volantes de mão em mão! Que tivesse ido de loja em loja oferecer meus serviços! Que usasse meu próprio corpo como outdoor, à exemplo dos “compradores de ouro” e dos porta-bandeiras de partidos em época de eleição. Afinal, sobre o nosso corpo o Estado ainda não exerce autoridade, ou exerce? Exerce sim, e como! Mas não neste caso. 

O pior mesmo foi ter de ouvir o que ouvi do agente público. Ser tratado como bandido quando na verdade se está tentando justamente fazer tudo direitinho, dentro da lei. E o tom arrogante e autoritário, então? É incrível como a posse de uma caneta e de um papel timbrado com símbolos do poder público investe uma pessoa de arrogância e vaidade. E de sadismo. Esta é uma característica típica de quem possui poder, mesmo um poder insignificante como o de um simples fiscal municipal. Sadismo é o prazer decorrente da possibilidade de infligir sofrimento a outrem. Note-se que o prazer não decorre do ato de infligir sofrimento, mas da simples possibilidade de fazê-lo. Ou seja, o prazer decorre do poder, da posse do poder. E o fato do possuidor de poder não utilizá-lo para causar sofrimento a outrem é visto, por ele, como um ato de bondade magnânima, o que lhe eleva ainda mais a vaidade. 

– Eu não quero multar ninguém, longe de mim! Mas lei é lei, sabe como é... 

Talvez ele estivesse sendo sincero. Talvez seja a minha impressão que não está fazendo-lhe justiça. Talvez eu esteja sendo mal agradecido. Mas, neste caso, porque ele me acusaria de vandalismo? Porque ele falaria comigo como se eu merecesse a punição a mim reservada? Pode ser que eu seja burro o suficiente para não atinar para essa possibilidade, para não perceber que existem leis pra tudo, e que o Estado não faz diferença entre um trabalhador, um pobre, um rico, ou quem quer que seja. Mas eu mereceria mesmo uma multa de milhares de reais e seis meses de trabalho comunitário por colar anúncios de trabalho em pontos de ônibus? 

Aqui chegamos ao fim da crônica, e entramos no plano da discussão teórica. Não me delongarei nela. O nó-górdio do problema é a impessoalidade do Estado enquanto forma sem conteúdo, impessoalidade que se traveste de neutralidade quando, na verdade, o Estado toma partido, necessariamente. O argumento irrefutável do agente público, contra o qual não tive resposta, é irrefutável simplesmente porque se situa no plano do discurso formal. A lei vale para todos, de igual maneira. Ora, se a lei vale para todos, ela é, portanto, impessoal. Logo, vale para mim também. Daí a impossibilidade de individualização, de abrir exceções. Ela também identifica e especifica subcategorias, é verdade. Mas se tratam de categorias particulares. O singular é completamente ignorado. De resto, o que nos interessa aqui é a generalidade da lei, enquanto princípio, e não as categorias particulares que eventualmente são criadas no âmbito desta generalidade. 

Toda essa construção racional, aparentemente autoevidente, cai por terra quando deixamos o campo estritamente jurídico, formal, e nos colocamos sob o ponto de vista da sociedade civil, latu senso, ou seja, dos conteúdos – múltiplos, contraditórios, multifários – aos quais se refere a lei. O problema está justamente no fato de que a lei trata a todos igualitariamente quando, na verdade, a sociedade é desigual, estratificada, não-livre. Por exemplo: tanto ao empresário, possuidor de capital, quanto a mim, despossuído de capital, está vedado o uso do patrimônio público enquanto meio de divulgação de interesses particulares. Mas entre o empresário e eu existe um mundo de diferença, diferença que se expressa em posições desiguais de poder. Aquele tem dinheiro para comprar espaço e tempo como anunciante. Quando o Estado me proíbe de divulgar um negócio particular, impedindo-me de colar anúncios em postes e pontos de ônibus, ele me submete a uma concorrência desleal, pondo-se, assim, automaticamente em favor do empresário. As supostas impessoalidade e neutralidade transformam-se assim no seu contrário: em pessoalidade e em parcialidade. 

Essa lógica se reproduz em outros âmbitos e de outras formas. Estamos cansados de ver casos em que o mesmo crime – roubo, digamos – praticado por pessoas situadas em posições sociais desiguais e desniveladas são tratadas diferentemente pela Justiça. A despeito da generalidade da lei, o Estado utiliza diariamente dois pesos e duas medidas na aplicação da lei. Por exemplo, o desvio de milhões da verba destinada à merenda na rede pública é visto como um crime menos ofensivo do que um assalto a banco, quando na verdade deveria ser caracterizado como um crime hediondo. Quem rouba comida de criança é pessoa influente, rica, com nome bacana, enquanto quem assalta banco é pobre, favelado, provavelmente preto ou pardo. Se um homem branco, de classe média, atropela e mata uma pessoa ao dirigir bêbado, ninguém o chama de monstro, tal como chamaria a um garoto pobre que, assustado, puxa o gatilho durante um assalto. 

É certo que na determinação desses fenômenos entram uma série de outros fatores que não podem ser inferidos diretamente da lei e do Estado em si. Ou seja, se considerássemos apenas a natureza da lei, suas características e princípios, não compreenderíamos porque ela não é aplicada igualitariamente em todos os casos particulares. Fatores como relações de poder, mídia, opinião pública, identidades e comportamentos, influem na aplicação desigual da lei. É uma questão em aberto determinar até que ponto pode-se, por assim dizer, blindar a lei da influência desses fatores, refinando-a para dar conta de todas as particularidades da vida social de modo a tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais; ou até que ponto é possível otimizar e fiscalizar a atuação estatal no cumprimento justo da lei. A questão é que, nas condições vigentes hoje, a noção de que a lei é impessoal e neutra não passa de uma ideologia, no sentido negativo do termo. 

Para fazer justiça, é preciso dizer que existem casos e casos, e que entre o meu caso de injustiça estatal e os passados por outras pessoas existe muita diferença. Eu tenho pais generosos que me ajudam e que, além da generosidade, têm capacidade pecuniária para tanto; não tenho filhos para criar, posso me arriscar a fazer um monte de outras coisas, tenho curso superior, etc. Portanto, as circunstâncias em que me encontro são muito distintas de um arrimo de família sem estudo que não tem outra forma de sustenta-la senão vendendo, por exemplo, lanches em carrinhos na rua. Eu me lembro que, durante a promulgação e cumprimento da Lei Cidade Limpa em Londrina, um jornaleiro, que seria removido do local em que estava, escreveu mais ou menos o seguinte na sua banca: “o Barbosa [prefeito, à época] acaba de condenar uma família à miséria”. Essas pessoas, empregadas informalmente, trabalhadores autônomos que se autoproletarizam, especificamente no caso dos mais pobres, estão constantemente submetidos à violência legal do Estado. Sofrem injustiças diárias porque, não tendo permissão para operar seus negócios, esses trabalhadores são, do ponto de vista estritamente legal, pequenos criminosos. 

Para finalizar, não discutirei a segunda tese – segundo a qual o Estado é muito eficiente em relação a pequenos controles da vida cotidiana, ao passo que é absolutamente ineficiente quando se trata de regular e fiscalizar a sua própria atividade, quando não punir desvios de conduta (expressão que pode ser usada, também, como eufemismo para “crime”) de agentes públicos ou de empresas –, mas ilustrá-la-ei a partir da mesma anedota contada aqui: incrivelmente, enquanto agendar um exame pelo SUS demora meses, senão anos; ou enquanto, de modo geral, uma solicitação qualquer num órgão público típico leva dias, semanas, meses, meus anúncios colados nos pontos de um sistema de transporte público ineficiente, precário e abusivamente caro, foram identificados e autuados imediatamente, antes mesmo que o primeiro cliente conseguisse me ligar. Pensemos nisso. Porque essa eficiência em relação a alguns serviços públicos (bem pouco, diga-se de passagem) e aquela completa ineficiência em relação a outros. Cidade limpa para quem?

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

O silêncio nosso de cada dia

Quebrar o silêncio que nos rodeia é difícil. Experimente chegar a um ponto de ônibus e dizer bom dia aos desconhecidos que nele encontrar. A reação alheia será, no mínimo, de surpresa. Alguns não responderão nada, outros dirão um bom dia mecânico, quando não de má vontade. E isso vale para outros lugares e outras abordagens: tente puxar papo na fila do banco, com transeuntes na rua, etc. Parece que as pessoas se sentem quase agredidas, violentadas, como se a tentativa de comunicação houvesse invadido, inadvertidamente, um espaço privado inviolável. Isso não vale para todo o mundo, nem para todo lugar, evidentemente. Existem espaços previamente definidos como de “socialização” (bares, por exemplo). Além disso, cada pessoa está inserida numa rede mais ou menos ampla de relações interpessoais (por exemplo, colegas de trabalho, vizinhos), em cujo seio a liberdade para romper o silêncio é mais ou menos consentida aos que nela (na rede) estão integrados. Fora desses espaços, existe um abismo entre as pessoas, entre estranhos e conhecidos. É neste abismo onde vige o silêncio. 

Primeiro, o que entendemos por silêncio? Com efeito, é difícil falar em silêncio quando este é um artigo cada vez mais raro nas médias e grandes cidades. A maioria das pessoas hoje desconhece o que vem a ser silêncio, imersas como estão numa barafunda estrepitosa, frenética, de motores, sirenes, buzinas, aviões, trens, helicópteros, etc. Não à toa, ao avanço da urbanização contrapõe-se o desejo, aparentemente bucólico, de buscar a natureza, os espaços não urbanos, como uma forma de, entre outras coisas, fugir da balburdia vertiginosa das cidades. À natureza associa-se o silêncio, a paz. Existe uma ruptura profunda, na cabeça das pessoas, entre cidade e campo. 

Mas não é a esse silêncio que me refiro aqui. Observe-se que a fonte do barulho citadino é mecânica, embora não menos humana uma vez que a máquina é, por óbvio, criação humana e elemento de um mundo humano, transformado pela mão humana. Acontece, entretanto, que as máquinas aparentemente se sobrepuseram sobre seus próprios criadores, ocupando espaços cada vez maiores na vida destes, ditando-lhes um modo exterior de viver, dominando-os com suas próprias necessidades. Aparentemente, parece que a criatura dominou o criador. É impossível imaginar um mundo sem máquinas. Tal como o senhor hegeliano, nós dominamos as máquinas, nossos servos sem alma, empregamo-las em função de nossos fins, mas, ao mesmo tempo, elas nos dominam porque não podemos mais viver sem elas; são elas que moldam nosso mundo e determinam nossas vidas tal como a conhecemos.

Um bom modo de pensar este problema complexo é olhar para as cidades. Em princípio, não existe espaço mais fundamentalmente humano do que a cidade, um agrupamento social altamente complexo, especializado, cooperativo, organizado; a cidade representa o ato especificamente humano de emancipação da natureza. Todavia, as cidades nos foram roubadas pelas máquinas, e não mais nos pertencem. Isso significa que a lógica e os processos que criam e recriam as cidades visam satisfazer necessidades não propriamente humanas, senão de forma mediada; isto é: pensamos as cidades segundo interesses e necessidades mercadológicos, industriais, monetários, etc., para que estas coisas, por sua vez, satisfaçam nossos interesses e necessidades (comer, habitar, vestir, conhecer, criar, festejar, etc.). Quanto a essa questão, o automóvel é emblematicamente ilustrativo. Afinal, o modo como organizamos e expandimos as cidades está profundamente determinado pela lógica automotiva do transporte individual-particular. São os carros os verdadeiros donos da rua, e não os pedestres. A diferença de poder, de prioridade, de espaço ocupado, etc., entre eles é evidente.

Portanto, quando chamo aqui a nossa atenção para o silêncio, ponho em evidência um paradoxo: embora estejamos cercados cada vez mais por uma barulheira infernal, levanta-se entre nós, em proporção idêntica, um muro de silêncio denso e isolante. Tal paradoxo se resolve no seguinte: o barulho que nos cerca não é produto imediatamente humano, e sim das máquinas, das coisas que criamos, ao passo que o silêncio que nos cerca é, ao contrário, um silêncio propriamente humano. Estamos cada vez mais calados, enquanto as máquinas cada vez mais eloquentes.

Para que isso fique mais claro é preciso atentar para outro paradoxo: o fato de vivermos na era da comunicação. Esta era é fruto de uma revolução no campo das tecnologias da informação, entre cujas consequências estão o estreitamento das distâncias, a interligação de todo o globo em tempo real, o barateamento e a consequente popularização das tecnologias de comunicação/informação, a possibilidade de seus usuários tornarem-se produtores de conteúdos e não somente receptores passivos, etc. Contudo, apesar das inúmeras potencialidades revolucionárias inauguradas nesta era, em relação ao que nos interessa aqui coloca-se a questão do isolamento que essas tecnologias também favorecem. Trata-se de um paradoxo: ao mesmo tempo que podemos nos comunicar em tempo real com qualquer pessoa no mundo, na vida cotidiana onde as pessoas agem concretamente entre si a comunicação direta se vê relegada a segundo plano. Ou seja: estamos sempre nos comunicando, cada vez mais rapidamente, cada vez mais volumosamente. Na maioria das vezes, todavia, essa comunicação dá-se por meios virtuais e não reais. Não é difícil perceber isso. Nos metrôs e ônibus, nas salas de espera, nas ruas, todos estão vidrados na tela do celular. Esse é, portanto, um fator poderoso de potencialização e propagação do silêncio.

O problema do silêncio e da incomunicabilidade – problema que assume a forma de um paradoxo, na medida em que o barulho e a comunicabilidade não foram tão potencializados – é extremamente complexo e se relaciona com vários outros problemas da sociedade contemporânea sob um ponto de vista global. O que eu procurei fazer aqui é simplesmente levantar o problema e sublinhar o fato de que o paradoxo sob o qual ele se mascara impede de vê-lo como silêncio e como incomunicabilidade. Termino afirmando a necessidade de nos colocarmos, de alguma maneira, contra esse processo desumanizador e alienante.

Carta de alforria de um cidadão de saco-cheio

Por meio desta carta, faço saber a todos que estou partindo. Deixo esta vida miserável e aborrecedora para trás com o coração alegre e a consciência aliviada. Chega de escrivaninhas, arquivos, formulários, precatórios, protestos, petições, cartórios, protocolos, autos, despachos, embargos, mandados, processos. Chega de barba feita e cabelo impecavelmente alinhado. Chega de palavras de tratamento obsequiosas. Chega desta maldita gravata, deste sapato petulantemente engraxado, deste terno presunçoso, destas maneiras enfatuadas. Chega de jantares solenes, requintados, onde todos estão ocupados demais em pavonear-se para poderem ser sinceros de fato, blasonando um ar afetado de importância, como se fossem pérolas num mundo de porcos. É patético.

Enfim, chega desta vida vazia, de sorrisos falsos, de condutas simuladas, artificiais, de frases hipócritas. Esta carta é de alforria, mas podia ser de suicídio, porque vou tratar de matar minha antiga vida. Vou viver aquela que sempre sonhei, sem norte, indo aonde meu nariz apontar, com um violão debaixo do braço e um cachorro vira-lata ao meu lado. Nunca quis ser advogado, muito menos juiz. Formei-me em direito por razões exteriores a mim mesmo, aquiescendo às instâncias de meu pai, que era magistrado, tal qual o pai dele fora e assim por diante. À época, disseram-me que eu era ainda muito jovem, que não sabia nada da vida, que eles sabiam o que é melhor para mim. Agora, passados todos esses anos, não saberia dizer porque, uma vez satisfeito essa injunção, continuei pelo mesmo caminho, sem olhar para trás. Como foi possível esquecer-me de todos os sonhos de juventude? 

Não sei. Sei apenas que, num belo dia, acordei. Por acaso, enquanto vasculhava algumas caixas guardadas, ou melhor, esquecidas no depósito, deparei-me com um velho caderno dos tempos da faculdade, no qual escrevia crônicas e poesias, além de um diário. Era aí, no mundo das palavras e do papel, onde eu podia ser quem eu sou de verdade. Ler aquelas linhas preciosas foi como ter uma epifania. Me senti atordoado, como se tivesse levado um saco na cara. De repente, vi-me num emprego de merda, vivendo uma vida familiar de fachada, e neste dia compreendi que eu sou infeliz, que eu me tornei o que mais desprezava. Portanto, compreende-se que eu não possa mais continuar deste jeito.

Carla, é preciso que você saiba, agora que eu compreende tudo, que me casei com você por conveniência. Sempre achei que você era a mulher da minha vida, que havíamos nascido um para o outro, mas estava enganado. Casei-me contigo porque você tem sobrenome de alto preço, porque você advém de uma família tradicional, poderosa e influente sobre a vida política da região. Além disso, porque você é gostosa, formosa, o tipo ideal de mulher padrão. Você me vestia como uma roupa. Diziam que formávamos um casal lindo – estavam certos. Lindos por fora, podres por dentro. Sempre achei que os problemas conjugais que enfrentávamos eram normais, coisas pelas quais passa todo casal, e conosco não seria diferente. Enfim compreendi que existia algo além disso. Nunca compartilhamos nada exceto o apego à riqueza, ao prestígio, ao conforto e facilidades de quem vive na cobertura da hierarquia social. Mas não se preocupe. Deixo-lhe tudo o que você realmente ama: casa, apartamento, carros, ações. Para onde irei não preciso de nada disso.

Mãe, peço-lhe que, se possível, compreenda os motivos de seu filho, e se não for possível que ao menos o perdoe. Sei que, no fundo, a minha felicidade é o que mais lhe importa. Pai, sei que jamais ser-lhe-á possível sequer sentir o que eu sinto; não obstante, o que eu faço hoje, o faço por nós dois. Compraz-me cuidar que, se tivesse tido você esta oportunidade, agarrá-la-ia com o mesmo delírio que eu a agarro neste momento. Meus filhos queridos, no meio de toda essa desventura frustrada que é a minha vida, vocês foram a única coisa boa que me aconteceu. Por vocês eu faria tudo de novo; eu seria infeliz sem pesar apenas pelo fato de que essa infelicidade me deu vocês. Sem vocês nada disso teria valido a pena. Agora que já estão crescidos, deixo-os aos cuidados do mundo. Sei que me farão orgulhoso. Quanto ao resto da família, aproveito a oportunidade para manda-los à merda. Não me procurem. Por fim, aos funcionários do escritório peço desculpas por deixa-los desempregados, porém não sem antes agradecê-los na medida do possível: todos vocês terão uma agradável surpresa no próximo pagamento. 

Bom, creio que é isto. Hora de dizer adeus. Embora odiando a minha vida, amo as pessoas que fizeram parte dela. Entretanto, agora uma nova vida me espera. Com novas pessoas, novas histórias, novos amores, novas amizades. Como dizem por aí, o mundo é a minha concha. E dá próxima vez que cruzarem com um sujeito esfarrapado, aparentando fome embora de sorriso aberto e gratuito no rosto, tocando violão em troca de trocados, parem e deem-lhe um pouco de atenção, porque pode ser seu filho, seu pai, seu ex-marido.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

O mar

Vontade de nadar
Pra longe da costa
Pra dentro do teu mar
Nadar livre
Sem receio
De me afogar
Quando faltar o ar
No teu beijo
De mergulhar
Em seu seio
O vasto véu ondulado
Quando me cansar
Vontade de partir
Pra nunca mais voltar
Em ti submergir
Sem tornar a respirar
De sair deste raso
De ter o pé plantado
Neste plano chão
Feito coqueiro, calado
Quero ser barco
Vencer a rebentação
Quero dar braçadas
Feito peixe n’água
Ir e não olhar pra trás
E a essas praias
Não retornar jamais

Dois em um

Será que se eu te liquefazer
Verter teu caldo sobre mim
E bebê-lo até de bêbado cair
Saciar-me-ei do teu querer?

Alentar-me-á o teu corpo líquido
Transfundido ao meu, quase morto
Tal como o sangue novo e viçoso
Revigora um paciente enfermiço?

Será que se eu apertar você
Com toda a força que tenho
Sufocá-la contra o meu peito
Fundir-nos-emos em um só ser?

Tornar-nos-emos dois átomos a ocupar
O mesmo espaço, tal como dois rios
Passam a ocupar o mesmo leito
Quando juntos vão em direção ao mar?

Será que se nós nos explodirmos
Teremos infinitos pedaços nossos
A semear essa terra carente de carinho?

Ou talvez voaremos juntos ao vento
Alto, bem alto, até os limites do espaço
E como estrelas viveremos até o fim dos tempos?

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Epitáfio

Aqui, coube o corpo
    que sobre o mundo nunca coube
Assim, deu-se jeito
    num sujeito sempre sem jeito
Enfim, chega ao fim
    a busca sem-fim que nunca chegou de buscar
Desta jazida, despede-se da vida
    quem fez dela a arte dos encontros e das despedidas
Sem lágrimas nos olhos, ele se recolhe,
    nesta cova, ao colo da nossa Mãe-Terra piedosa
Parte e vai embora, levando consigo
    o canto triste que cantava seu espírito partido
Espera, esperançoso, ter deixado esperança
    nas encruzilhadas por que passou em suas andanças

O circo

Não se fazem mais pessoas como antigamente
Dessa gente, mal educada pelo cinema, tevê
O circo não mais tira sorrisos nem gargalhadas
Do picadeiro, graça alguma ninguém vê
Das crianças, os olhos que faiscavam magia
Não faíscam mais, nem uma chispa de fantasia
Pensam apenas no game inutilizado em casa
E suspiram: circo é chato por demais!
O leão anda magro, de pelo desgrenhado
E seu rugido não mete medo nem num gato
O palhaço nem meia colorida tem, coitado
Com que vestir o sapato de solado remendado
O macaco trapezista perdeu o vestido de chita
Que tiveram que empenhar a um arrivista
E este já mandou dizer que, se não pagar,
Manda um batalhão de advogado o circo fechar
O elefante não toma banho já vai um ano
E para pô-lo no palco dão-lhe desinfetante sanitário
À contorcionista, restou um collant em frangalhos
Que quando ela se contorce deixa ver a cor da calcinha
E o que dizer do trapezista, cujo único seguro
São os braços do Homem Mais Forte do Mundo?
O grande circo Moscou já viu dias melhores
Por ele não circulam mais enamorados jovens
Rapazes e moças não se dão mais os braços
E suas mãos não mais se encontram por acaso
No fundo de um saquinho de pipoca furado

O equilibrista

A vida de um equilibrista
Está sempre por um fio:
Sustentada por uma linha,
Encimada sobre um abismo
Bamba e ao mesmo tempo firme
Ela balança, solitária, no vazio

Ai dele se não segui-la à risca!
Ai dele se lhe falta tino!
Cuidado, equilibrista,
Muito cuidado onde pisa!

Vida de equilibrista é um sufoco
Ela toda depositada num único risco
Prende a respiração quando o rufo soa
Segura-se nas cadeiras o público do circo

Se, num átimo, perde-se o rumo
Se com o prumo põe-se em desalinho
O corpo bamboleando, braços estirados
Os espectadores, sobressaltados
De susto, suspendem o sorriso
Cuidado, equilibrista!
Muito cuidado onde pisa!

Perfazendo sempre o mesmo caminho
Para onde irá o equilibrista?

Ganhando a vida com malabarismos
Por que será que se arrisca?

Apostando a sorte num tênue fio de um só sentido
Chegará ele ao outro lado vivo?

Cuidado, equilibrista!
Muito cuidado onde pisa!

domingo, 4 de agosto de 2013

A brevidade da vida

Se à vida cabe uma única definição,
    esta seria a brevidade, a concisão;
A capacidade de escapar-nos pelos dedos
    no preciso momento em que cremos
    agarrar-lhe por ambas as mãos.

Tal como a areia dos tempos,
    esvai-se inexoravelmente pelos vãos
    de vários e fugazes momentos.
A vida foge de nós em dispersão;
Para longe ela cavalga, alada,
    nas costas dos quatro ventos.

Foge a outras searas,
    aonde não haja sofrimento;
Leva consigo sementes e andorinhas;
Foge a outras pradarias, outros chãos;
Para longe deste inverno cinzento,
    e toca semear um novo verão.

sábado, 3 de agosto de 2013

Ainda que...

Ainda que tivesse mais tempo
Ainda que houvesse outro jeito
Ainda que não tivesse defeito
E que eu não fosse eu mesmo...

Ainda que houvesse recomeço
Ainda que fosse de novo rebento
Ainda que renascesse em outro berço
E que tentasse de novo pelo avesso...

Ainda que eu fosse menos desatento
Ainda que não me vencesse o desalento
Ainda que vivesse a vida a contento
E que o céu fosse menos cinzento...

Ainda que pudesse ser mais sincero
Ainda que o mundo não fosse severo
Ainda que vivesse a vida sem receio
E que tudo deixasse de ser efêmero...

Que tudo fosse belo e nada fosse feio
Que tratássemos uns aos outros com respeito
Que cabimento não tivesse o desespero
Que não houvesse motivo para ter medo
Que o coração transbordasse pleno e cheio
Que o próspero não se medisse em dinheiro
Que a felicidade não se expressasse em número
Que o amor não fosse mísero mas um exagero
E que meus braços fossem vastos e meus beijos intensos
O suficiente para alcançar o mundo inteiro...

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Viandante

Fazer tudo,
não por inteiro,
mas pra dar em nada.

Deixar as coisas
pelo meio,
e não retomá-las.

Ser eterno começo,
eterno recomeçar,
sem chegada.

Apenas caminhar,
pelo prazer de
caminhar.

Estar aqui hoje,
e amanhã
noutro lugar
qualquer.

Fazer isso agora,
aquilo depois,
mas nada completar.

Andar por andar,
sem objetivo,
sem sentido,
sem nada almejar.

Nem ser,
nem estar:
apenas passar.

E, quando morrer,
como não houvesse existido,
por nada serei lembrado.

Serei simplesmente engolido,
cancelado,
suprimido
nas dunas do tempo passado.

Assim me regozijo,
assim me satisfaço.

Essa será a obra
– inacabada,
desnecessária,
irrelevante –
da minha vida,
como outras tantas
histórias esquecidas
foram um dia.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

O nóia da vila

Na minha rua tem um nóia. Tem um nóia na minha rua. Um sujeito tão curioso que merece uma crônica. De fato, não se trata de um nóia convencional. Confesso que até pouco tempo não me condoía um nóia todo estropiado que por ventura encontrasse na rua. Condoía-me um trabalhador pedindo dinheiro, uma mãe portando uma criança à tira colo sem ter o que comer. Simpatizava-me mais com um bêbado esmolando uma dose de cachaça do que com um nóia.

Por falar em bêbado, lembro que, certa feita, necessitando de leda e fósforo, entrei num daqueles botecos fuleiros tipicamente frequentados por bêbados dos mais vagabundos e, antes de sair, fui abordado por um deles solicitando-me que lhe comprasse um corote. Não me fiz de rogado e mandei descer o corote pro tio. Não consigo descrever a alegria que ele sentiu diante de tão generoso auxílio para com um suicida – ou seria simplesmente por ter nas mãos o corote? Seja como for, o bêbado desdobrou-se em elogios à minha pessoa, e assegurou-me que eu era amigo dele de “mili ano”. Mas quando lhe pedi um trago, o sujeito fechou a cara no ato, olhando-me desconfiado enquanto afastava o corote puxando-o para o seu lado. Eu, indignado, retruquei: “porra, acabei de lhe comprar esse corote e você, mal agradecido, não vai me dar um trago?” Ao ouvir tal irreplicável argumento, o tiozinho desarmou-se e abriu um sorriso largo no rosto, passando-me o corote. E eu percebi que bêbados são capazes de compreender argumentos simples.

Mas voltando ao personagem principal desta história – o qual, sendo simplesmente nóia, não entra na categoria “nóia-alcoólatra” –, chamá-lo-emos de Honório, a fim de preservar-lhe a identidade verdadeira.

Como ia dizendo, na minha rua tem um nóia, mas não sou eu que o digo, é ele próprio. Segundo consta, no dia em que meu amigo e companheiro de moradia há sete anos mudou-se para a casa localizada na rua do nóia (antes de eu vir morar com ele), este acercou-se dele apresentando-se da seguinte maneira: “muito prazer, eu sou o nóia da vila”. Quando tomei conhecimento desse fato, meu conceito em relação ao Honório, confesso, subiu alguns bons degraus. Sujeito sincero, sem vergonha, íntegro. Tudo bem, íntegro já foi exagero e bondade da minha parte, mas sincero e sem vergonha ele é, e isso já faz dele um sujeito melhor do que muitos patrões, políticos e magistrados por aí. E isso porque Honório não tem vergonha de ser sincero, e é sincero porque não tem vergonha. Qualidade rara essa. Não lhe peja sua condição de nóia e vagabundo, condição que, aparentemente, foi escolhida livre e conscientemente por ele. Daí porque ele é um sem vergonha (no sentido que se diz às pessoas que não querem trabalhar). Em suma, o nóia da vila está muito bem resolvido com sua opção de vida, e vai muito bem como nóia, obrigado.

Não sendo trabalhador, resta-lhe pouquíssimas atividades com as quais arrecadar fundos a fim de sustentar seu vício. Uma delas é o furto. Mas Honório garante que não o pratica, e, a julgar pelo que eu vejo, sou levado a acreditar nele. Nada indica que o nóia da vila pertença à categoria “nóia-ladrão”. Na verdade, se fosse para enquadrá-lo em uma categoria específica, esta seria “nóia-empreendedor”, por mais estranho e curioso que isso pareça. Com efeito, Honório é praticamente um homem de negócios. Ele investe no setor de “bens descartados e achados na rua”. Seu negócio funciona da seguinte maneira: ele vaga pelas ruas da cidade atrás de itens velhos e/ou indesejados, descartados por seus donos, mas que podem ser reaproveitados por outros. Tal como um bom empreendedor, Honório farejou aí um mercado e deu entrada nos negócios.

Ele já me apareceu aqui em casa vendendo mercadorias das mais variadas espécies, desde revistas e livros, passando por LPs e CDs, até sapatos furados, carrinhos de controle remoto sem controle remoto e – pasmem! – garrafas de whisky sem whisky. Trata-se de um comerciante eclético, à semelhança dos antigos biscateiros, que iam de porta em porta oferecendo a última palavra em artigos para o lar. Eu, que tenho enorme dificuldade em falar não, já adquiri vários produtos desse inusitado comerciante, como dois sapatênis inúteis pela bagatela de dois reais. Mas já saí no lucro também. Por exemplo, a minha primeira aquisição foi uma mesa para computador em ótimo estado. Lembro quando ele me chamou à porta de casa e me perguntou se eu não estaria interessado. Fui com ele ver a tal mesa, meio desconfiado, imaginando que ao chegar lá não encontraria senão uma porcaria em estado deplorável, e qual não foi a minha surpresa quando me deparei com uma bela mesa cor mogno, praticamente nova. Ao apenas relar nela, entretanto, ficou claro que ela desmontaria com um simples sopro. Mas poderia ser consertada. Barganhei. Ele queria dez. Eu regateei e ofereci cinco. Ele meditou uns segundos e fez sua última oferta: seis – um real a mais para o cigarro, já que a pedra custa cinco. Achei justo e fechei negócio. E cá estou eu, escrevendo sobre a minha mesa cor mogno, que com uns preguinhos a mais ficou como nova.

Mas o que eu mais gosto de comprar mesmo do Honório são livros. Ele percebeu meu interesse e, agora, sempre quando acha livros na rua corre até mim para vendê-los. Tornou-se quase um fornecedor particular, um livreiro pessoal. Na maioria das vezes não me traz nada além de livros didáticos sem valor, ou livros referentes a áreas e temas completamente desinteressantes ou inúteis, entre eles, respectivamente, auto-ajuda e física da década de 50. E ele, como um bom vendedor, rapidamente inteirou-se a respeito dos meus interesses: ciências humanas, em geral, e, em particular, sociologia. Quando aparecia aqui com um livro para vender ia logo dizendo: “você que faz socialismo tem que ler este livro”. E, de fato, cheguei a adquirir um belo e conservado exemplar de Parceiros do Rio Bonito, de Antônio Cândido, junto com mais seis outros livros menos importantes por apenas doze reais. Eu ofereci dez. Ele, sabido, percebendo meu indisfarçável interesse, não fez por menos de doze. Bom negociante esse Honório. Teria dado um ótimo vendedor caso não tivesse entrado no mundo das drogas. Mas espere. Não é ele, de fato, um negociante habilidoso? Não é ele, efetivamente, um vendedor? Se você, caro leitor, entabulasse negociação com ele entenderia do que eu estou falando. Por exemplo, quando vai vender um livro, Honório lê o título com a mesma pompa de um intelectual erudito, cita o autor com o mesmo ar grave e solene com que um acadêmico cita um grande nome da sua área de estudo. Não dá para negar que fica-se com a impressão de que ele realmente sabe do que está falando.

Podemos não gostar de reconhecer isso, mas, com drogas ou sem drogas, o nóia da vila desenvolveu suas habilidades. Para ser sincero, já passei por muitos corretores de imóveis, lojistas de roupas, e nunca conheci um vendedor tão habilidoso como ele. Grosso modo, os vendedores não nóias fingem-se amigos íntimos de uma tal maneira que a artificialidade da encenação desagrada e aborrece o potencial comprador. Já o Honório não; é espontâneo, natural. Além disso, ele desempenha outra função social, de fundamental importância, que deve ser sublinhada: reciclador de lixo. O que é lixo para alguns, é mercadoria para outros, e dinheiro para Honório. O que ele faz com esse dinheiro, meros trocados, não interessa: se é comprar comida para uma criança ou se matar de fumar pedra. E não interessa mesmo sabendo que esse dinheiro vai ajudar a sustentar não apenas o vício de Honório mas também o tráfico de drogas. O problema do consumo de drogas e do crime organizado é muito complexo para ser tratado aqui. Digo apenas que não é evitando dar dinheiro a pessoas como Honório que a situação vai mudar. Ademais, quem acha que o burguês não consome drogas do crime organizado é muito burro ou muito inocente. A diferença é que burgueses viciados não enfrentam o estigma que recai sobre viciados pobres.

Não quero, com este texto, erigir em mártir ou modelo o meu vizinho nóia. Creio que, por óbvio, nem precise argumentar aqui que ele é parte de um enorme e complexo problema social para o qual devemos encontrar soluções radicais. Tampouco é preciso lembrar o sofrimento que ele suscitou nas pessoas que o amam. Preferia que, ao invés de nóia, Honório fosse um trabalhador esforçado e responsável. Só que neste mundo nem sempre é possível ser correto e fazer o que todos esperam que a gente faça. Escrevo essa crônica apenas para lembrar que pessoas como Honório são seres humanos como nós, com uma história de sonhos, tristezas, alegrias, e que, por mais fodidas que elas estejam, por maior que seja a cagada que fizeram com suas vidas, nem por isso deixaram de ser humanos. Tendo a acreditar que nada pode extirpar completamente a humanidade de alguém, nem mesmo uma droga como o crack. Honório é exceção, eu sei. Ele sustenta seu vício legalmente com criatividade e espirituosidade. Mas o que a sua história coloca em questão não é a capacidade humana de preservar a todo custo a sua humanidade, e sim o nosso olhar sobre pessoas como Honório, que cometeram erros, que não tiveram oportunidade, que não foram fortes para não se extraviar pelo caminho, e como esse olhar, de indiferença e estigma, ajuda a perpetuar histórias como a do Honório, o nóia da vila.