sexta-feira, 7 de março de 2014

O apartamento

Dia longo, cansativo
Suado, sofrido
Chego em casa e o que encontro?
Tudo exatamente igual
A louça por lavar
A mudez dos móveis
A solidão apertada de um apartamento conjugado no centro de São Paulo
O silêncio sepulcral de um espaço habitado por coisas mortas
Antes o barulho frenético das máquinas que me segue diariamente até a porta
Nada aqui tem vida, terá eu?
Eu também sou um objeto, quiçá menos digno do que uma batedeira ou um sofá
Ligo a tevê
Não, a tevê não dá
Desligo-a
Abro um velho álbum de fotografias
Lembranças alegres são tristes
Fecho-o
Vou até a janela
A cidade não para, não dorme
Lá fora me é mais familiar do que cá dentro
Talvez tome uma no boteco da esquina, ou vá ao puteiro
Não, chega de botecos e puteiros
Me assusta esse lugar que supostamente deveria chamar de lar
Lugar que me é estranho, e que me consome meio mês de trabalho
Dinheiro que o senhorio me pede e que não oferece nem bom dia em troca
Que a rua é serventia da casa ele não me deixa esquecer
Me sinto sujo
Quero apenas um banho
Nem sei se tenho fome
Vontade de comer não tenho
Na geladeira apenas água e lasanha congelada
Essa comida me causa engulho
Quero apenas me deitar
Nessa cama vazia
Desarrumada desde a manhã
Ou seria desde ontem ou anteontem?
E que importa?
Abraço o travesseiro
Confiro o despertador do celular
Fecho os olhos ainda de roupa
O tênis eu tiro quando acordar no meio da noite
Penso na morte
Lembro da vida
Chorar pra quê?
Me ocorre, como um presságio, o amanhã
Igualzinho ao hoje
Me abandono, desisto, desmaio, morro
Literalmente
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