terça-feira, 29 de outubro de 2013

Em tempo

Enquanto o mundo não acabar
Enquanto nós não desistirmos
Enquanto os sonhos não morrerem
Haverá tempo - de sobra -,
E nunca será tarde demais

Anda

Levanta a cabeça
Firma os pés no chão
Inteiriça a espinha
Aquieta o coração
Põe no rosto um sorriso
Crispa a palma das mãos
Mira o horizonte
Respira fundo
E anda
Anda
Anda...

O grito

Parecido com um eco ao contrário,
Vem num crescente, avolumando-se,
Ao invés de estiolar-se no horizonte;
Preenchendo os cânions das entranhas,
Rimbombando pelas paredes da garganta,
Forcejando para sair pela boca cerrada,
Que, quase sempre, lhe fornece resistência.

O grito quer explodir, como um vulcão,
Derramar-se do lado de fora do corpo,
Invadir o mundo como um tsunami,
Arrastando tudo para bem longe.
Quanto mais se represa o grito,
Mais violentamente ele investe contra a barragem,
E mais e mais força acumula para a investida final.

O grito não pode ser contido indefinitivamente,
Ele é como uma dessas forças elementares da natureza;
Podemos tentar prever seus abalos sísmicos,
Minorar suas consequências devastadoras,
Mas jamais assenhorar-se completamente de seu poder.
Ele será sempre a premissa newtoniana do mundo humano;
A garantia de que as coisas permaneçam em movimento,
Mas que mudem de sentido quando necessário,
Mantendo o nosso universo em permanente expansão.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Em pé

Se não der
A gente tenta
De novo
E de novo
E de novo ainda
E quantas vezes
For necessário
Se cair
A gente levanta
Ginga
Samba
Anda
Se se perder
A gente volta
Do começo
E tenta caminhos
Diferentes
E outros
E mais outros
E quantos houver
Só não seremos
Culpados
Por não tentar
Afinal
Quem pode ser
Culpado
Por tentar?

O trabalho do amor

Amor não se ganha,
Antes se conquista
Amor não é de graça,
Porque não é uma dádiva divina
Não desce dos céus
Mas se eleva do chão
É fruto de mui duro trabalho
Como o camponês que se obstina
Na terra que dia-a-dia lavra
Para dela tirar o fruto
A comida, que o alimenta
Tal como o amor
Verdadeiro alimento da alma
O amor pode ser oferecido,
Pode ser dado
(e perdido)
Mas nunca sem esforço
Ele não acontece, assim, ao acaso
Porque o amor é resultado
Muito mais do que começo
É como um diamante bruto
Precisa ser lapidado
Pelas mãos pacientes de um joalheiro,
De um artífice habilidoso
Pelo amor se luta
E vencer não é o mais importante
O importante é tentar
E nunca desanimar
Se você ama
Não desista
Se empenhe
Persista
E, um dia
Há de vir à luz
Uma criança
De nome amor

Em tempos de Esparta

Você é partidário da força como direito
Acha que lá fora vige um estado de natureza
Infunde temor e confunde-o com respeito
Está aqui para ganhar e não para perder
O poder é-lhe a medida da felicidade
Quanto a mim?
Eu sou amante da verdade e da beleza
Interessa-me as artes e a filosofia
A minha parte quero em paz e amor
Sou um cidadão ateniense em tempos de Esparta

domingo, 27 de outubro de 2013

Elogio ao amor romântico

Estão tentando aposentar o amor romântico
O amor é burguês, dizem uns
O amor é improdutivo, dizem outros tantos
“Eu luto, não amo”
“Não há tempo; primeiro a carreira, depois quem sabe”
É o que dizem os jovens de hoje
O amor é fútil, é piegas, é idealista, é opressor, é falso
Amor? Só se for o próprio
Talvez pela humanidade, nunca por um indivíduo
Amor por princípio, não por sentimento
Amor racional, amor interessado
Amor desencantado, pós-moderno...
Mas eu quero acreditar que o amor ainda existe
O amor romântico, sentimental, tolo, puro
Amor digno de pena, trágico e cômico
Amor que rime com dor
Amor à primeira vista
Amor que não pede nada em troca
Amor sem possessividade, sem egoísmo
Amor que não reclama, que aceita
Amor criança, ingênuo
Amor que espera, paciente
Que sofre, sem remorso
Porque para ele não importa o tempo
Tem a eternidade para si
Para o amor dá-se sempre um jeito
Ele basta-se, é fim em si mesmo
Amor solitário, platônico
Amor condenado, mas satisfeito
Amor de bom grado abnegado
Amor que só quer amar
Ainda que não seja amado

Ansiedade

A ansiedade, esse desassossego interior
É como uma luta que se trava consigo mesmo
No mais íntimo do ser
Pela posse do corpo e da mente
Se por fora mostra-se a razão no controle
Por dentro, exércitos de paixões digladiam-se
Dilaceram fragorosamente o espírito
E é possível senti-los, fisicamente
Movimentando-se, batendo-se,
Comendo as entranhas, liquefazendo as tripas
Cá dentro reina o caos, a confusão
Lá fora, a aparente tradução da ordem
Porque o mundo não espera
Espera que a vida siga
E as coisas sejam feitas
Quem ganha a batalha responde pelo estado de saúde mental
Embora a razão esteja em vantagem na maioria das vezes
Há horas que ela nada pode fazer face ao avanço da ansiedade
Ainda que saibamo-la irracional
A ansiedade é uma expectativa que não cessa
Que com nada se satisfaz e a tudo deseja
Mesmo que do quê não tenha exata certeza
É a espera por sabe-se lá o quê
É a angústia do devir
E o atestado da própria impotência
É um não sabe se vai
Ou se fica
Se deixa ir
Ou se luta
É um querer fazer
Aconteça e não acontecer
É o medo do futuro enrijecendo os nervos
Embaçando o pensamento
Esmorecendo a vontade
É parte da triste condição humana
E seu parco poder sobre a ordem do mundo
Sua exígua previdência, sua mísera potência
Sua inconstância e insegurança intrínsecas

sábado, 26 de outubro de 2013

Os olhos

Que segredos antigos, imortais, esotéricos, guardam esses olhos fascinantes e misteriosos, olhos de esfinge?

Que oceanos impenetráveis, selvas luxuriantes e montanhas majestosas escondem, como continentes virgens, intocados pela mão humana, esses olhos felinos?

Olhos de Monalisa, meio animais, meio angelicais, situados além do bem e do mau, acima do céu e do inferno; olhos profanos e divinos.

Olhos que seduzem, que cantam e encantam como o canto da sereia, e fazem os meus facilmente cativos, como navegadores incautos, de sua beleza mítica.

Olhos magnetizantes, hipnóticos, cujo fulgor, belo e mortal como o sol, fascina e enfeitiça os meus como se fossem mariposas presas à lâmpada.

Pobre dos meus olhos, indefesos, totalmente entregues como rês, sem conseguir desviá-los um segundo sequer, como se piscar na presença daqueles olhos fosse um sacrilégio, um pecado mortal.

Esses olhos verdes, entre esmeralda e turquesa, duas preciosidades a procura das quais, como mineradores febris, eu arriscaria tudo, numa cartada de sorte, atrás de sua rara riqueza.

Quem mira esses olhos sabe o perigo que corre, o risco de cair na armadilha de suas águas, claras e plácidas na superfície, porém turbulentas em suas profundezas, e dela nunca mais sair; mas não se pode evitar.

Olhos de Medusa: nem o risco de tornar-se pedra impede o trágico herói, tal qual o gato vitimado por sua inescapável curiosidade, de arriscar-se a olhar esses olhos, porque a morte não é nada se a recompensa é a sua visão.

Agora sei como se sentia o pobre Bentinho, ao mesmo tempo vítima e cúmplice, incapaz de resistir àqueles olhos oblíquos de cigana dissimulada, àqueles olhos de ressaca que parecem prontos a arremeter-se contra a praia numa tarde tempestuosa, para castiga-la, arrasá-la, e por fim tragar seu espólio para dentro do fundo do mar, onde há de ficar por toda a eternidade.

E como se deseja que eles o fizessem! Como, de bom grado, se espera ansiosamente pelo dia em que esses olhos engolir-nos-ão como a escuridão de uma noite sem lua!

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

À quem possa interessar

Neste mar de braços, mãos e lábios
Urdido por palavras desconexas
Que um dia foram promessas
Cheias de pressa em ser feliz
E que hoje jazem esquecidas
Envelhecidas e desbotadas
No fundo de um armário empoeirado
Ou são simplesmente perdidas
Para se reencontrarem tímidas
Como crianças, renascidas, redivivas
Na boca dos apaixonados
No grito dos inconformados
No pulso em riste dos revoltados
É neste mar onde nos afogamos
Que eu mergulho, afundo, vou ao fundo
E, mesmo imerso em palavras, sinto-me mudo
As palavras, se extraviadas pelo meio do caminho,
Encontrar-se-iam no beijo fatal dos extremos?
O último e mortal beijo que daremos
Aliás, sem qualquer arrependimento
Abraços chegam porque têm de chegar
Seja por terra, água ou mar
Nós damos um jeito de os enviar
Um abraço – livre, humano, fraternal
Que teria acontecido com o nosso serviço postal?
Para extraviar tantos abraços por aí?
Quem dera fosse a causa excesso de trabalho!
Aquele abraço que mandei
Dias desses, filho bastardo de noite insone
Cheio de saudade, e que de tantos cuidados cerquei,
Chegou ao destinatário?
Tê-lo-ido encalhar num recife de coral?
Ou caído no abismo que finda o mundo?
Depois da queda, onde teria ido meu abraço parar?
Encontrara, algo bobo, outros braços?
Aos quais pudesse se agarrar?
E que ensinasse-lhe como abraçar de novo?
Pois se alguém o encontrar
Saiba que meu abraço não tem dono
Não é de ninguém e é de todos
É de quem o achar
Como todo abraço,
Ele só precisa de outros braços, abertos
E um peito para chamar de lar

domingo, 13 de outubro de 2013

Todo apoio à Fran: mais uma vítima do nosso machismo de cada dia

As reações suscitadas na rede a propósito do caso da Fran, garota exposta publicamente em vídeo gravado durante uma transa, são muito ilustrativas no que se refere à mentalidade machista dominante. Entre as reações, há quem defenda-a, há quem a condene, mas o interessante mesmo é notar as reações ambíguas, que tentam compartilhar a culpa entre ela e seu algoz.

É tão incrível que alguém tente encontrar alguma espécie de culpa numa pessoa que foi, em todos os sentidos, vitimada por um ato criminoso alheio, que isto só se explica pelo nível e profundidade do sentimento misógino entre nós. Porque o fato de uma mulher ser vítima parece ilógico para muitas pessoas, e que, portanto, alguma culpa ela deve ter na história. Colocada a questão de forma abstrata, ninguém acharia moralmente correto que uma “pessoa” tornasse público imagens íntimas de outra “pessoa” sem o seu consentimento. Mas o fato de ser a vítima-culpada uma mulher, e o culpado-vítima um homem não é mera coincidência.

A lógica por trás dessa tentativa, aparentemente imparcial e razoável, de compartilhar a responsabilidade é a mesma que culpa as mulheres vítimas de assédio e/ou estupro em função de seu comportamento, tido como inadequado. Culpabilizar a vítima é o meio usado para recolocar a mulher no lugar dela. Essa lógica funciona mais ou menos assim: o homem não pode ser culpado por uma ação que ele está predisposto a fazer, de modo que cabe à mulher evitar que ele a faça.

Para que essa lógica funcione é preciso que determinados papeis sociais de gênero sejam bem definidos, de tal sorte que a culpa da mulher é ter faltado com o seu papel. Espera-se que a mulher seja recatada, seletiva em relação aos seus parceiros sexuais, que faça amor e não sexo, que se interesse por um parceiro reprodutivo ao invés de por um parceiro sexual. Quando uma mulher não age desse modo, cai sobre o ela o estigma de puta, de vadia, e, como tal, quando “ela se coloca” em determina situação, cuja posição normalmente identificaríamos com a vítima, pode-se transferir a ela a culpa, como se, ao não observar o comportamento adequado ao seu papel de mulher, ela tivesse possibilitado e jogado sobre si a responsabilidade pela situação. Logo, ela é culpada.

Nossos valores sexuais e de gênero invertem, desse modo, os valores morais mais básicos. O homem, neste caso, não é, evidentemente, considerado uma vítima, no sentido literal do termo, mas também não é considerado o culpado, uma vez que ele estaria apenas fazendo “o que todos os homens fazem”. Ele é apenas mais um garanhão caçador que apanhou outra vítima. A culpa é da vítima que não se resguardou, que não percebeu com quem estava lidando. Alguém aí já viu um vídeo íntimo onde o homem é quem é exposto e humilhado? Só se for um homem homossexual...

O fato de que vídeos como este se tornem virais é expressão da vontade profunda, ainda que inconsciente, de humilhar a mulher, de rebaixá-la, de submetê-la aos nossos desígnios machistas. Quase como um lembrete de que se ela se rebelar haverá consequências. Quer gozar? Não podemos te impedir como faz um clérigo xiita, ou te apedrejar em praça pública, uma vez que somos ocidentais civilizados, mas, cuidado, podemos te expor publicamente. Quer ter o corpo livre para ir e vir onde e quando quiser ou para fazer dele o que bem entender? Também não podemos te impedir, mas podemos te estuprar em alguma rua escura. É assim que criamos novos mecanismos de controle que, sendo sutis como são, não vemos como tal.

sábado, 12 de outubro de 2013

Que se vayan todos!

Que se vayan todos!
Os arrivistas, os gananciosos
Aves de rapina do mundo dos negócios
Pressurosos em caçar e acumular numerário
Incapazes de amar, só raciocinam com seus bolsos
Entregues à sanha de desejos sórdidos
Investem a vida em egocentrismo e competição
E o que lucram em capital, perdem em humanidade
Deixando um saldo de mesquinharia e indignidade
Como apólice banhada em sangue aos que virão

Que se vayan todos!
Os machistas, os homofóbicos
Os racistas, os xenofóbicos e demais tipos preconceituosos
Ressentidos de sua própria pequenez e mediocridade
Medrosos, alimentam pré-conceitos abjetos e mórbidos
Por crerem-se mais importantes, genuínos e dignos
Quando na verdade são o lixo moral que a história deverá descartar
Logo, num futuro próximo

Que se vayan todos!
Os elitistas, os vaidosos
Os soberbos e presunçosos que não passam de tolos
Preocupados demais com seus umbigos fátuos
Não enxergam um palmo além de seus narizes empinados
Imerecidos da posição que ocupam entre seus pares
Em cujas cabeças se apoiam com pés que nunca viram trabalho

Nunca olham para baixo
E por isso não sabem que estão com os dias contados
Vamos nos sacudir com tanta força
Que eles vão desmoronar sobre o chão
Estatelados e pisoteados
E nós gritaremos então:
Que se vayan todos!

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Conselho para uma vida vivida

Aconselha o homem prático,
Que uma hora chega o dia,
De se pensar NA vida
E retruca-lhe o sábio:
Mas pensar porque na vida,
Se pensar é pensar COM a vida,
E PARA a vida?

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Reflexões sobre nossa relação com a natureza

Um bom exemplo que nos permite visualizar a relação entre a sociedade contemporânea (e, por esta, entenda-se: ocidentalocêntrica e capitalista) e a natureza pode ser tirado do modo como a maioria de nós, enquanto indivíduos, lida com a água. De forma mais inconsciente do que consciente, de modo geral não estabelecemos nenhuma conexão entre a água que sai da nossa torneira e a água que corre nos rios, que escorre das geleiras, que cai da chuva. E olha que um dos conhecimentos mais martelados na escola é justamente o ciclo da água, embora talvez o mesmo não seja verdadeiro no tocante às técnicas empregadas pelos seres humanos na sua captação e devolução ao ciclo. Enquanto isso, seguimos destruindo um dos bens mais essenciais à vida e, obviamente, à nossa própria existência.

Não está em causa aqui se o principal culpado é a indústria ou o consumidor, a sociedade ou o indivíduo, até porque esse é um falso problema. As causas são múltiplas. À primeira vista, parece lógico que a indústria, em sentido amplo, consuma e polua infinitamente mais do que os indivíduos tomados em conjunto. Entretanto, não existe produção sem consumidor, e considerando-se que a nossa economia está baseada no excesso e no desperdício, os indivíduos, investidos no papel de consumidor, constituem um pilar tão fundamental nesse sistema quanto a própria indústria em si. Daí também a conclusão lógica de que não é possível transformar fundamentalmente esse sistema a menos que alteremos todos os elementos da equação, o que significa que apenas a responsabilidade pessoal não vai salvar o mundo.

Mas voltando ao nosso exemplo, este me ocorreu enquanto tomava banho e se trata justamente deste ato tão banal e tão importante no que se refere ao consumo de água. A maioria de nós, eu inclusive, não fecha a torneira para se ensaboar (se posso argumentar em minha defesa, às vezes fecho, às vezes não, mas sempre procuro não me demorar no banho). Como se trata de uma ação cotidiana banal, ninguém para pra pensar na quantidade de água que ela consome, ou em quê poderia contribuir para diminuir esse consumo. Se esse tipo de reflexão já passou pela sua cabeça, mas você continua fazendo do mesmo modo que fazia antes, provavelmente a discussão interna que se travou dentro de você acabou com a vitória de algum argumento espúrio usado para justificar a opção de não mudar. Ora, somos seres racionais e éticos, e por mais que uma pessoa esteja cagando para a natureza ela precisa justificar, com o mínimo de consistência lógica, a si mesma essa postura.

É precisamente nessas justificativas que podemos encontrar as representações que expressam as nossas noções de sociedade e de natureza (representada neste caso pelo elemento água), assim como da relação entre essas instâncias. Entre aqueles que pensam ou já pensaram criticamente na maneira como usam a água, uns podem se sentir mal, outros podem não dar a mínima, e outros ainda podem se importar mas não o suficiente para se incomodarem permanentemente com isso. Alguns irão justificar sua reação com base em uma ideologia individualista, seja sob um ponto de vista pessimista/fatalista, conforme o qual um indivíduo sozinho não pode alterar em nada a situação, seja sob um ponto de vista egoísta, conforme o qual ele se arroga no direito de usufruir o prazer de um banho mais demorado do que os outros. Outros irão pautar a sua justificativa em termos mercadológicos, afirmando que quem paga a conta é ele e, se o paga, está-lhe garantido o direito líquido e certo de fazer o que bem entender com a “sua” água.

Dessa breve reflexão, podemos ver como o núcleo em torno do qual giram as representações da relação sociedade/natureza é o indivíduo. Composta por sujeitos individuais portadores de direito, a sociedade se caracteriza assim por uma irresolvível tensão em seu interior: cada direito individual se coloca em antagonismo com todos os demais. Por isso, o individualismo típico da nossa sociedade é, por natureza e definição, egocêntrico. Para se satisfazer, ele tem que eliminar o direito individual alheio. Daí a concorrência que se estabelece e, necessariamente, a desigualdade entre eles.

Essa é uma forma de ver o mundo muito distinta dos povos ditos “primitivos”, cuja relação com a natureza se estabelece sobre bases radicalmente distintas das nossas. Em termos ideológicos, os indivíduos desses povos não compreendem a sua própria existência individual senão como uma função da existência coletiva e da natureza, a qual essa coletividade está organicamente integrada. Nenhum de nós, pessoas urbanas e “civilizadas”, se sentimos responsável pela mãe natureza como eles se sentem, muito menos sentimos que o simples fato de deixar a torneira ligada ou se esquecer debaixo do chuveiro representa uma agressão a ela. Esse senso de responsabilidade e de pertencimento a um todo maior, de fato, não pode surgir dentro de uma sociedade que toma o indivíduo isolado como sujeito e centro do mundo.

Defender os blockers é defender as manifestações populares

Os black blocs têm ensejado uma feroz polêmica desde que apareceram no cenário nacional junto com as manifestações de junho. De modo geral, eles não agradam, seja entre a direita liberal, entre a esquerda socialista, ou entre a opinião pública não alinhada ideologicamente. Alguns poucos setores os defendem, mas a maioria faz críticas ou se posiciona abertamente contra seu modus operandi.

Da minha parte, eu ainda me sinto dividido quanto aos blockers. Por um lado, nutro uma honesta simpatia por esses jovens indômitos e mascarados. Além da evidente satisfação em ver bancos, vitrines e até viaturas destruídas, o estilo dos blockers lembra justiceiros vingando o povo pobre e oprimido. No entanto, é preciso reconhecer que essas táticas são imediatistas e bastante limitadas, incapazes de construir um projeto amplo e de longo prazo.

Por outro lado, é um problema sua intransigência e indisposição ao diálogo (não em relação ao poder constituído, mas em relação às próprias organizações e movimentos ao lado das quais eles se colocam) e sua pré-disposição extremada ao uso da violência, como se esta fosse um fim em si mesma. Definitivamente, suas táticas não somam, ao contrário, isolam.

Entretanto, acredito que centrar o debate em torno dos blockers é um equívoco. Perdemos, assim, o essencial da questão. Pior ainda: fazemos o jogo da reação e esquecemos o que realmente está em jogo neste momento.

Diante do avanço da repressão estatal e das medidas inconstitucionais adotadas pelos governos estaduais, a tarefa principal neste momento não é atacar, mas defender os blockers. Admitir que eles é que são o problema, e não a intransigência e o autoritarismo dos poderes públicos é concordar, mesmo que por vias indiretas, as ações empregadas para reprimir e criminalizar o processo de organização e luta popular em curso no país. Porque os blockers não passam de um bode expiatório que esconde objetivos políticos muito maiores e menos confessáveis. Defendê-los é defender o direito à livre-expressão e organização, ao direito de se manifestar e de lutar sem ser criminalizado.

Embora no RJ o governador Sérgio Cabral tenha revogado a comissão especial criada para investigar e coibir atos de vandalismo, que em dois meses de atuação arrogou-se poderes arbitrários em nome da segurança e da ordem, em São Paulo o tucano Alckmin criou recentemente a sua própria versão da comissão, que ele chamou de força-tarefa. Alguns dias atrás, um casal foi preso com base na Lei de Segurança Nacional, um atavismo dos tempos ditatoriais e cuja simples existência põe em dúvida a qualidade da nossa democracia. Não deveria ser preciso dizer o quanto esse último fato é absurdo e preocupante. Talvez menos pelo uso da lei em si do que pela aparente trivialidade com que o fato vem sendo tratado pela grande mídia, historicamente imbuída de tendências golpistas. O fato de essa “lei” ter sido usada num contexto político, de repressão a manifestantes, é o que mais assusta.

Mas não para por aí. No Rio, manifestantes acusados de vandalismo poderão ser enquadrados na nova Lei de Organizações Criminosas, que prevê penas mais duras do que as atualmente impostas aos manifestantes presos. No Rio Grande do Sul, a sede de um coletivo anarquista e as casas de dois militantes pelo transporte público foram invadidas pela polícia no começo deste mês. Chama a atenção o fato de, entre os bens confiscados, terem sido incluídos livros teóricos marxistas e materiais de propaganda anarquista. O governo do estado, petista, admitiu saber da ação antecipadamente, o que sustenta a hipótese de não se tratar de uma iniciativa policial isolada, mas articulada jurídica e politicamente.

Alguém pode argumentar que, a despeito de todas essas dificuldades, é desejável coibir atos de vandalismo e que necessariamente alguma medida deve ser tomada. Pode ser que sim. O problema é que a nossa polícia não é exatamente um exemplo de integridade e respeito às leis. Se a polícia coíbe os vândalos, quem coíbe a polícia? Casos de abuso policial não faltam, na verdade abundam. Prisões arbitrárias são recorrentes, sem mencionar as agressões físicas e morais. E, mesmo sem provas, ativistas sociais podem ficar presos durante meses. A ampla disponibilidade de tecnologias da informação são poderosas ferramentas quando se trata de identificar e expor esses problemas. Dentre as várias ações denunciadas (denúncias irrefutáveis, registradas em imagem), as mais graves são a infiltração de policiais a paisanas com a missão de provocar seus colegas e iniciar os tumultos, e as tentativas de plantar provas acusatórias em manifestantes presos.

Nessas condições, portanto, como garantir que as medidas antivandalismo vão realmente combater o vandalismo e não reprimir os manifestantes? Além disso, não existe uma separação clara e inequívoca entre “manifestantes”, tidos como democráticos e lídimos, e “vândalos”, uma minoria antidemocrática e violenta, de modo que não se pode separá-los perfeitamente como se separa o joio do trigo.

Desculpem-me o meu ceticismo, mas tudo faz supor que por detrás da aparente finalidade legítima dessas medidas coercitivas, tanto o discurso maniqueísta que antagoniza abstratamente manifestantes e vândalos, quanto as medidas que esse discurso procura legitimar, não visam apenas a garantir a segurança pessoal e a integridade patrimonial durante as manifestações populares, mas sobretudo criar mecanismos de controle que permitam coagir e manter essas manifestações dentro dos limites do “aceitável”. Para nós, o aceitável não muda nada. O que é aceitável para os governantes não é para nós. A longo prazo, como um ovo de serpente, essas políticas repressivas, ao normalizar o que é ou deveria ser anormal, ou seja, a suspensão de determinadas garantias democráticas, prepara o caminho para outras políticas ainda mais repressivas e assim sucessivamente. Na eventual – e ainda improvável – hipótese de início de um processo revolucionário no Brasil, estariam já dadas não apenas algumas das condições objetivas mas sobretudo as condições subjetivas para desencadear a contrarrevolução.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Há coisas mais importante com que a gente deve se preocupar do que com o vandalismo dos blockers

O escrúpulo quase puritano que as pessoas sentem em relação às cenas de violência em que as manifestações populares inevitavelmente se degeneram se explica, em parte, por uma espécie de temperamento bovino que lhes é cotidianamente introjetado pela ideologia da ordem e progresso. Uma longa e tenaz educação através da burocracia, dos protocolos formais e informais, dos bons costumes e de todo tipo de mecanismo de conformação social é muito mais eficaz em criar cidadãos passivos e submissos do que qualquer ameaça ou coerção física. Mas só isso não explica porque eles se sentem tão mal quando a aparente e frágil fachada de ordem que lhes é mostrada de repente vem abaixo. (Paradoxalmente, a quebra dessa fachada reconfortante cuja função é engendrar um sentimento de segurança entre as pessoas pode ter como efeito leva-las a sair da sua condição de passividade, só que pela direita, isto é, perfilando-se com a reação, na busca pela segurança e ordem perdidas).

Acho extremamente curioso, e contraditório, que o autoproclamado cidadão de bem (sim, porque os cidadãos de bem conferem a si mesmos esse título honorífico, e são incentivados a fazê-lo pelos “formadores de opinião” e pelos “legitimadores de discurso”) sinta horror e indignação em relação a bancos depredados ou manequins em chamas, ao passo que permanece insensível em relação à violência institucional que o Estado exerce cotidianamente entre os trabalhadores pobres e (geralmente) negros que moram nas modernas zonas de exclusão urbanas. E esse modo de pensar e sentir está tão visceralmente impregnado que mesmo que o cidadão de bem leia essas palavras ele não será capaz de dar-se conta dessa contradição. Ele vai continuar se enfurecendo honestamente com os atos de vandalismo nas manifestações populares, enquanto – tão honestamente quanto, diga-se de passagem – não se digna a uma só palavra de indignação ou comiseração pelos mortos da PM.

O escrúpulo puritano do cidadão de bem é irritante porque, para ele, a luta popular, as pautas e demandas de um movimento social, desaparecem face às cenas de quebra-quebra. Parece que nada mais importa a não ser a disputa entre “vândalos” e policiais. Incrivelmente, onde passam 100 mil pessoas exigindo melhores salários para os professores e condições descentes na educação pública, para o cidadão de bem fica apenas a imagem de cem jovens mascarados vestidos de preto ateando fogo em lixo e lançando pedras contra a tropa de choque. E como a mídia e a expressão da mentalidade desse cidadão, a impressão que resta para ela é a mesma. Antes, quando se tratava de cobrir greves e passeatas em condições normais, a mídia falada dos transtornos gerados no trânsito, agora ela só fala em vandalismo e nos transtornos que isso causa para o comércio e para as instituições públicas.

Tudo bem, chegou a um ponto em que todo o mundo está cansado de black bloc, que ninguém mais os quer caminhando junto numa passeata. É fato que eles estão mais atrapalhando do que ajudando, talvez menos por incompetência própria – se bem que sua tática é mestra em auto-isolar-se – do que pela campanha midiática que fazem deles os vilões, campanha contra a qual é difícil concorrer dado o poder que a mídia tem. Não é o caso aqui de fazer a defesa das táticas do grupo, considerado como um todo. Como atores independentes e conscientes que são, eles devem responder pelas suas ações. Ademais, os blockers são uma minoria, e a massiva maioria não pode ficar refém de uma minoria. De resto, a responsabilidade dos blockers é com os manifestantes e, particularmente, com os lutadores sociais que organizam os atos, e não com a polícia ou outro órgão do Estado.

O ponto aqui é a hipocrisia e o julgamento de dois pesos e duas medidas com que o discurso dominante trata o problema do vandalismo nas manifestações populares. Afinal, quase nenhuma palavra se diz a propósito da violência exercida pela polícia, e quando se fala dela, ela de longe não recebe o mesmo tratamento que os “vândalos” recebem. Assim, cobra-se todo o rigor da lei para lidar com estes, mas com a polícia não. Por exemplo, estará sendo investigado o caso do policial que postou no Facebook uma foto provocativa na qual exibia seu cassetete que provavelmente fora quebrado na cabeça de algum professor? E, se estiver, vai ser efetivamente tomada alguma medida disciplinar séria? Porque a mídia não dá o mesmo destaque a um fato como esse, gravíssimo em todos os sentidos, como dá aos casos de vandalismo? A experiência, à luz de centenas ou milhares de outros exemplos, nos diz que não, que a polícia pode espancar, matar, prender à vontade, e que ela continuará fazendo isso.

Com ou sem vandalismo, nada anula a justeza das manifestações populares. Mas, acima de tudo, nada justifica as iniciativas “legais” que tem tomado o poder político no sentido de suspender direitos civis básicos, ao mesmo tempo em que dá liberdade total para que seu braço repressor, a polícia, dê vazão aos seus instintos homicidas. Querem fazer disso uma guerra civil para justificar a espécie de estado de exceção que de certa maneira está em vigor. Não se trata de salvar a pele dos blockers. Trata-se de salvar a própria liberdade de organização e manifestação, que, sob pretexto de manter a ordem e a segurança, está ameaçada. A finalidade dessa estratégia sabemos bem: frear e reverter o processo de iniciativa e luta popular desencadeado desde junho.

O romantismo facebookiano

Pode existir alguma coisa mais brega que infindáveis demonstrações de amor no Facebook? Quem diria que a manifestação do amor romântico se transladaria do mundo fictício da idealização artística, atualmente sob a forma de novelas melodramáticas, para a coletividade virtual criada pelas redes sociais da internet. Qual o intuito de promover uma exibição enjoativa de pieguice aos olhos de todo o mundo? E quando digo todo o mundo, quero dizer todo o mundo mesmo: não apenas amigos e familiares, mas conhecidos longínquos e, também, notórios desconhecidos. Durante um tempo, eu cheguei a imaginar que o romantismo estava destinado a acabar; que atualmente ele não passava de uma reminiscência de tempos mais, digamos, vitorianos. Hoje o romantismo voltou com força total. De duas uma: ou essa minha impressão é equivocada, e o romantismo nunca saiu de moda, ou efetivamente os tempos e, consequentemente, os valores e necessidades são outros. Talvez o romantismo nunca tenha saído de moda simplesmente porque isso não pode acontecer; porque se trata de uma necessidade humana intrínseca, a qual por força da ordem das coisas nunca se poderá alienar. A questão então é: porque o Facebook se tornou o lócus privilegiado onde o amor romântico é cultivado? Ou será essa também uma impressão enviesada, na medida em que encontramos, entre os casais românticos, demonstrações de amor tanto na vida virtual quanto na vida real? Não obstante, um espaço não se confunde com o outro, e cada um deles põe suas próprias regras de conduta e seus limites de ação entre o que é aceitável e o que não é. Não digo que não o seja demonstrar carinho na outrora inimaginável publicidade virtual do mundo cibernético. Mas eu não vejo porque ficar se pavoneando por ter encontrado um grande amor senão entre as pessoas queridas, que efetivamente se importam com isso. Se o olho gordo e o mau-olhado são forças que existem de fato, então os amantes estão cada vez mais sujeitos a serem acometido por elas. Talvez tudo isso seja secundário, racionalizações de um sentimento mais profundo e menos consciente. Estaria eu, com dor de cotovelo, deixando que meus rancores e frustrações obscureçam meu julgamento? Eu não quero ser – mas já sendo – o estraga prazer, o ranzinza mal-amado que não quer ninguém feliz ipso facto. Na verdade, nem sei porque estou a escrever essas linhas. Nada disso me incomoda tanto assim. Pergunto-me se a nossa vida virtual estaria tornando-se mais importante que nossa vida real? Porque, com efeito, o que somos e fazemos na internet é uma construção, não meramente um espelho ou uma extensão do que somos e fazemos na vida real. Por exemplo, a julgar pelo Facebook ninguém mais tem problemas familiares. E sabendo-se que esses problemas não acabariam assim tão repentinamente, é de supor que a vida virtual esconde a vida real ou inventa para ela outra realidade, uma “realidade fictícia” que nos satisfaça emocionalmente e sobre a qual temos algum controle. Mas, então, meu raciocínio cai numa contradição: se eu argumentava, acima, contra a tendência cada vez maior de expor publicamente a vida real no mundo virtual, agora não posso defender conscientemente a postura de que sejamos mais abertos e sinceros e que não criemos vidas fictícias neste mundo. Afinal, a que serviria, então, o Facebook? Certamente não é para ficar emitindo opiniões intrometidas, sem ser convidado a fazê-lo, tal como eu costumo fazer – e como eu vou fazer também com essa em particular. Aos amigos e amigas apaixonadxs e românticxs, de internet e de vida, por favor não levem a mau esses comentários estúpidos de um indivíduo carente e rancoroso. Trata-se apenas de mais tentativa de racionar esse mundo surreal que chamamos de redes sociais. Ainda estamos experimentando. Quem sabe no que isso vai dar?

domingo, 6 de outubro de 2013

Como veem o mundo as crianças?

Aborrecido, passeando pela casa, comecei a percebê-la de um ponto de vista diferente. Uma casa é bem mais do que um produto útil do trabalho humano. Mas não é essa obviedade que me intrigou. Me intrigou o fato de que uma casa tão pequena quanto a minha possa esconder tantos detalhes, espaços, contornos e objetos que a primeira vista não estavam lá. Só passam a existir a partir do momento em que nós reparamos neles. De repente, a casa cresceu, tornou-se muito maior e mais complexa do que eu jamais imaginaria. Isso me fez pensar no significado das diferenças entre o olhar de uma criança e de um adulto. Porque, para uma criança, o mundo é enorme, quase infinito, ainda que esteja limitado às proporções de uma casa. Naturalmente, isso não se deve à diferença de tamanho entre ela e um adulto. Lembrei de como as casas onde morei na infância eram enormes. Nela cabiam selvas fechadas coalhadas de guerrilheiros, desertos guardiães de segredos de civilizações passadas, montanhas encimadas de castelos mágicos. O espaço virtualmente infinito que existe entre os metros quadrados de uma casa e a mente de uma criança está dado pela fertilidade da sua imaginação. Uma das grandes questões filosóficas da humanidade é o porquê de geralmente perdermos essa qualidade tão maravilhosa ao chegar à idade adulta. Mas há outro fator envolvido na diferenciação de olhares entre um adulto e uma criança que não diz respeito apenas ou diretamente à imaginação. A criança é naturalmente curiosa e contemplativa. Tudo para ela parece ter um valor intrínseco, sendo, portanto, digno de atenção e, por isso mesmo, merecedor de ser explorado. Toda criança é uma cientista e uma filósofa nata. É por isso que tudo parece tão grande para uma criança, enquanto para um adulto parece pequeno: é porque uma criança vê nas coisas muito mais do que um adulto pode ver. Se eu olhar de longe para uma porta, por exemplo, vou ver apenas uma porta, com seus contornos bem definidos, textura lisa e material homogêneo. Essa imagem superficial só pode ser desfeita se eu me aproximo dela, percebo seus detalhes, o entrelaçamento das fibras, a variação de tonalidades nas cores da madeira, etc. Não sei se a analogia é pertinente, mas o ponto é que se você não olha para as coisas em profundidade, não pode perceber o quão complexas elas são. Os adultos, não tendo mais a curiosidade que têm as crianças, perderam essa capacidade de olhar em profundidade. Nunca aconteceu de você se ver num pequeno canto desprezado da sua própria casa e, num assomo de surpresa, ter de repente a sensação de que nunca estivera ali? Ou de você de repente olhar para um ângulo e se dar conta de que nunca tinha reparado nisso ou naquilo? Essa sensação de estranhamento em relação a um espaço que naturalmente tomamos por absolutamente familiar é incrível. A impressão que isso me dá é que nós, adultos, temos o olhar condicionado. Olhamos sempre para os mesmo lugares e coisas, e da mesma forma. Passamos sempre pelo mesmo lugar. Nossa visão vai ficando, com isso, tão viciada que acabamos perdendo a capacidade de discernir detalhes, identificar diferenças, de se estranhar com aquilo que parece familiar. Isso não acontece com as crianças. Elas estão a todo o momento procurando novos pontos de vista, explorando novos espaços, investigando o mosaico que forma o nosso mundo em seus mínimos detalhes. Os adultos se preocupam com a forma e a função desse mosaico. As crianças com o seu conteúdo e a sua essência. Adultos se relacionam com o mundo segundo critérios práticos. Já as crianças o fazem por motivos desinteressados. É por isso que o mundo parece muito maior a uma criança do que a um adulto. E o curioso de tudo isso é que aquela aparente relação antagônica entre a mentalidade de uma criança e de um adulto – a qual nos referimos acima; ou seja: a mente de uma criança estaria voltada para si mesma, vivendo no mundo fantástico da sua imaginação, enquanto a mente de um adulto estaria voltada para o mundo exterior, para a descoberta das coisas tais como são objetivamente – se inverte: enquanto a criança explora o mundo que a rodeia, um adulto vive com a cabeça no passado, remoendo seus erros e culpas, e no futuro, planejando um amanhã melhor, mas pouco no presente, a não ser por força de suas obrigações e preocupações cotidianas. Vive, portanto, em sua própria cabeça e torna-se incapaz de enxergar o mundo.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Sabedoria

Muitas pessoas passam ao longo da nossa vida
Sei que é duro deixa-las ir, mas não se aflija
Não se sinta responsável por tantos amores
E, acima de tudo, não queira doutriná-los com seus valores
Aprenda o que tiver que aprender
Ensine o que tiver que ensinar
Você se torna parte de cada uma delas
E cada uma delas se torna um pouquinho de você
Mas todos nós seguimos sendo únicos
Cada pessoa encontra em si mesma seu próprio caminho
Só que, no final, encontramo-nos todos no mesmo destino

A vida 2.0

Estou esgotado de estar conectado a todo tempo
De ser perseguido pela exigência de saber de tudo
De estar em todos os lugares ao mesmo tempo
De ser parte de qualquer evento que acontece no mundo

Tenho que ser multitarefas, proativo
Preciso atualizar constantemente o meu Windows
Ser analógico, 1.0, é a morte!
Obsolescência é um crime capital
Produzir informação é mais importante do que pensar
Ter seguidores é mais importante do que ter amigos
Curtir é o melhor remédio
Nesse universo, você vale os bits que recebe
O caráter opera agora como um google

Meus olhos são uma tela full hd
Meu horizonte tem 1080 pixels e 64 bits
Não tenho mais cérebro, tenho um IP
Minha mente virou ondas eletromagnéticas
É parte da consciência coletiva em wi-fi
Não sou corpo e espírito
Sou dados binários, sou internet
Por favor, só me toque em bluetooth
Quer ser meu iphone?
Venha, eu te adiciono
Você vai me curtir e compartilhar
Eu animo como gifs em tumblr
Minha vida é um youtube, com propaganda
Estou globalmente geoposicionado
Tenho 10 gigabytes de velocidade
Crescem hiperlinks pelas minhas orelhas
Meu cabelo está cheio de redes sociais
No meu rosto tem photoshop
Meu mundo é um perfil
E nele eu sou o administrador
Eu posto, eu comento, eu twitto
Eu curto, eu compartilho, eu publico
E ai de mim se resolvo puxar a tomada
Ai de mim se cancelo o plano banda-larga
Mandam me buscar a toques de celulares
E terei de prestar contas no tribunal do facebook