sexta-feira, 26 de setembro de 2008

CEOs wargame

A Business Roundtable talvez possa ser considera o maior lobby do capital dentro dos EUA. Isso porque abriga entre seu rebanho os CEOs (diretores executivos) das maiores corporações privadas do mundo. A associação é formada por 160 CEOs que congregam sozinhos US$ 4,5 trilhões em rendas anuais e 10 milhões de empregados no mundo todo. Todas as companhias membros representam 1/3 do valor total do mercado de ações dos EUA e correspondem a 40% do total de impostos pagos ao governo referentes aos rendimentos empresarias do país[1]. Nos quadros da associação estão presentes gerentes corporativos de gigantes como a International Group, Citigroup, Lockheed Martin, Exxon Móbil, General Electrics, Ford, entre outros.
Segundo a própria associação, que evidentemente acredita na capacidade auto-regularizadora do mercado, ela está “committed to advocating public policies that ensure vigorous economic growth, a dynamic global economy” (comprometida em advogar políticas públicas que garantam um crescimento econômico vigoroso, e uma economia global dinâmica), sendo que a associação se acha particularmente apta a realizar tal papel uma vez que ela pode “draws on CEOs directly and personally, and presents government with reasoned alternatives and positive suggestions” (reunir os CEOs direta e pessoalmente, e com o governo apresentar alternativas fundamentadas e sugestões positivas). Noutras palavras ela busca, na medida em que angaria e congrue forças econômicas gigantescas, influenciar decisões de políticas públicas em face de interesses que, longe de serem salutares para a sociedade como um todo e mais ainda para a população, constituem tão-somente seus, qual seja, desregulamentação financeira, favorecimento da iniciativa privada, quebra de direitos trabalhistas. Enfim, a velha e conhecida agente neoliberal posta em prática por Reagan e aprofundada brilhantemente por Clinton, Bush pai e Bush filho.
Escandalosamente a Business Roundtable acredita que “the basic interests of business closely parallel the interests of the American people” (os interesses básicos dos negócios [leia-se capitalismo] correm paralelamente com os interesses do povo Americano)!!! Nada poderia ser tão revelador da mentalidade estadunidense quando tal discurso ideológico da classe capitalista.
É sabido que o 11/9 ensejou a maioria das políticas atuais de “contra-terrorismo” – contra quem? O povo? – controle de informação e expansão neoimperialista. O fato é que a histeria coletiva injetada nas veias da sociedade mediante campanhas do medo e do pânico, mantida sempre efervescente no sangue coletivo com o “panic button” apertado, conferiu ao governo e, por tabela, às corporações de empresas privadas, poderes nunca antes visto. Obviamente, quando se outorga poderes dessa magnitude, baseada no complexo militar-industrial mais poderoso do mundo, a um Estado que faz guerra em nome de supostos princípios éticos-morais mas que na verdade a faz por mercados e para escoar sua produção bélica, as conseqüências podem ser irreversíveis. Nesse sentido, além da guerra constituir um ótimo negócio, a “ameaça iminente” de ataques configura outro tipo de potencialidades econômicas.
Dois meses após o 11/9 a Business Roundtable criou a Business Roundtable Security Task Force, uma seção da associação destinada, segunda a empresa, a conferir proteção e defesa à setores estratégicas da sociedade norte-americana, uma vez que 85% da infra-estrutura do país esta nas mãos da iniciativa privada. Dentro desse setor foi criado, juntamente com o Departamento de Segurança Interna do governo americano, o programa chamado de CEO COM LINK[2]. Este programa constitui uma hot line dos CEOs da associação conectada com o governo, ou seja, é nada menos que uma linha de telefone ligada diretamente com o Departamento de Segurança Interna dos EUA disponibilizadas para os CEOs e habilitadas para ser usada em caso de “ameaça terrorista”. Segundo a ativista Varda Burstyn, “este aparato de comunicação sem precedentes e sem igual cria a possibilidade de que em uma emergência seria a Casa Branca e os gerentes das maiores corporações (não eleitos) que tomariam decisões políticas essenciais, deixando de lado e usurpando o Congresso (...)”[3]. Para ela esse tipo de aceso privado à informação restrita e uma vigilância totalitária defendida como “necessária” para a segurança nacional, leva o Estado americano a um tipo de Estado nos moldes do Partido Interno do romance de Orwell (1984).
É o poder do Capital controlando a política e o interesse público. Cuidado você está sendo vigiado!


Notas:
[1] Disponível em: http://www.businessroundtable.org/aboutus/index.aspx
[2] http://brt.org/taskForces/taskforce/document.aspx?qs=6D35BF159F349514481138A74EA1851159169FEB5623EB4
[3] Socialist Register 2005: O império reloaded. Buenos Aires, CLACSO, 1ª edição, 2006.

Ação social e tipo ideal

Para Weber, a sociologia só pode se definir, enquanto ciência, “tomando-se como ponto de partida a ação do indivíduo, [ou seja, de modo] estritamente individualista quanto ao método” (WEBER, 1920).
O objeto de análise sociológico, portanto, não pode ser estruturas e instituições sociais com sentido intrínseco e exterior ao indivíduo, uma vez que é o indivíduo, como agente social que atua concretamente na realidade, que constrói as estruturas sociais mediante a ação social e lhe confere sentido no intuito de alcançar determinados fins.
Nesse sentido, a compreensão sociológica da ação social deve ser feita a partir da reconstrução, através da análise interpretativa, do sentido e do motivo subjetivo ao agente social. Isso porque “do ponto de vista do agente, o motivo é o fundamento da ação” e do ponto de vista do sociólogo o motivo “figura como a causa da ação” (COHEN, p. 27).
A ação social não pode ser pensada abstratamente e reduzida puramente à dimensão do indivíduo. Ela constitui uma ação social exatamente porque se orienta “significativamente pelo agente conforme a conduta de outros e transcorre em consonância com isso” (idem, p. 26-27). O sentido manifesta-se, portanto, nas ações concretas do agente na sociedade e ele fundamenta tal ação por meio de um motivo que lhe é subjetivo. Interessa portanto, para Weber, a reconstrução do motivo (causa) e a captação do sentido.
Dado que a ação social constitui um meio para a consecução de certo fim desejado pelo agente social, ela não pode limitar-se a um ato isolado. Ao contrário, é formada por uma cadeia de pequenos atos que se conectam via elos de significação, ou seja, processam-se segundo o sentido e, conseqüentemente, segundo o fim visado subjetivamente pelo agente. De acordo com Cohen, “os elementos desse processo articulam-se naquilo que Weber chama de ‘cadeia motivacional’” (p. 27), de um modo tal que cada ato parcial se insere numa corrente de atos seqüenciais relacionados entre si. Cada ato tomado isoladamente não diz nada, mas postos em um todo constituem o processo realizado pelo agente como o meio para a consecução de determinado fim ansiado.
Assim, aos objetos e processos da sociedade a ação humana imprime uma natureza específica de acordo com o sentido visado. Essa natureza, por sua vez, pode ser de ordem econômica, política, educacional, etc. Dentro da ação social encontramos o sentido que une os processos, os articula entre si e, por fim, a torna compreensível. “É somente através do sentido que podemos apreender os nexos entre os diversos elos significativos de um processo particular de ação e reconstruir esse processo como uma unidade que não se desfaz numa poeira de atos isolados. Realizar isso é precisamente compreender o sentido da ação”, escreve Cohen. Portanto, cada processo de ação social possui um sentido particular que conecta todos os elos do processo e permite caracterizá-lo como de natureza ou de ordem tal; noutras palavras, a captação desse sentido permite compreender a ação nas suas causas e efeitos.
Conclui-se que a compreensão se dá mediante a reconstrução do encadeamento significativo do processo de ação e que o que se compreende não são os processos psicológicos subjacentes ao indivíduo agente da ação, mas sim o sentido social que ele lhe confere.

Seguindo o esquema de Cohen, o próximo passo é “examinar o papel do conceito de ‘agente’” (p. 28) na teoria weberiana. Qual seria então o argumento de Weber para analisar a sociedade a partir do indivíduo e não das classes, por exemplo, uma vez que as análises sociológicas devem ser de ordem coletiva e não psicológicas?
Há duas razões para isso. A primeira sustenta que apenas o indivíduo – o agente social individual – pode efetivamente conferir sentido às ações. A segunda razão é um tanto mais complexa e devemos nos deter um tanto mais. Ao contrário do materialismo histórico, a teoria weberiana defende a importância da “autonomia interna das diferentes esferas da existência humana”, nas palavras de Cohen. Isso significa que cada esfera distinta da existência humana – a econômica, a política, a jurídica, a artística – se processa conforme uma lógica interna própria, de maneira que não se pode encontrar no interior de uma delas a causa do desenvolvimento de outras. Decorre que a articulação entre as diversas esferas necessita de um elemento mediador que, ao agir concretamente na realidade, ponha-as em contato: o agente individual. Esse é a única entidade social capaz de realizar esse movimento, porquanto é ele que fundamenta as esferas através da sua ação e que reúne em si mesmo simultaneamente múltiplas delas, dado que os agentes sociais operacionalizam ao mesmo tempo com variadas ações sociais na realidade. O indivíduo constitui assim o elo que intercambia as várias esferas da existência humana, as quais correm paralelas entre si, sem se tocaram senão mediante as ações sociais dos agentes individuais.
Basta pensar na reflexão weberiana acerca da ética protestante (esfera religiosa) e sua influência na gênese de um “espírito capitalista” (esfera econômica). Cada uma dessas esferas é autônoma entre si já que possuem uma lógica interna própria – que Weber chama de “legalidade própria”, mas que podem ser postas em contato através da ação do agente individual, portador simultaneamente de sentidos econômicos e religiosos (COHEN).

Como cada agente mobiliza em si infinitos sentidos e ações, não há possibilidade de serem analisados cientificamente do modo como se apresentam na concreticidade. Faz-se necessário então elaborar um instrumento metodológico capaz de dar conta dessa realidade extremamente ampla, complexa e difusa: o tipo ideal. Nas palavras de Cohen: “impõe-se (...) a construção desse instrumento de orientação na realidade empírica e meio para a elaboração de hipóteses, que é o tipo ideal” (p. 29). O tipo ideal jamais se apresenta efetivamente nas situações reais e observáveis. São construídos e existem tão-somente no pensamento do pesquisador como um recurso metodológico capaz de caracterizar o sentido de uma determinada ação social, enfatizando aspectos e traços singulares que permita conceber o fenômeno social na sua expressão mais pura, todavia inexistente na realidade. Busca-se, portanto, “enquadrar” a realidade mediante alguns traços singulares caracterizantes de uma dada ação social. Esse é o “exagero” metodológico de que fala Cohen.
A análise sociológica weberiana não poderia se conter apenas no sentido estritamente individual que cada agente social confere a sua ação social. Pode-se encontrar empiricamente certas regularidades nas múltiplas ações sociais diretas e indiretas entre inúmeros agentes. Essas regularidades são formas de conduta com caráter coletivo e que são incorporadas cotidianamente à vida dos agentes. Constitui, pois, um desdobramento da ação social: a relação social.
Na ação social o sentido se orienta em face de outro (ou outros). Já na relação social é um conteúdo de sentido reciprocamente compartilhado que orienta a ação de múltiplos sujeitos, independente de estarem em contado direto ou não. A relação social, portanto, figura como uma norma (um conteúdo de sentido) compartilhada coletivamente que influi sobre as ações. Essa influencia só pode ser pensada em termos de probabilidade, porque não há garantia prévia de que ela ocorra, de modo que as relações sociais “não existem senão quando se traduz[am] em condutas [ação] efetivas” (COHEN, p. 30).
Quando o conteúdo de sentido de uma dada relação social é incorporada e aceita como legítima, essa relação social, por sua vez, valida uma determina ordem produto da ação social como legítima. A validação de uma determinada ordem (que pode ser convencional ou jurídica) social como legítima diz respeito aos conteúdos de sentido das relações sociais referentes à esfera de ação dessa ordem. No exemplo dado por Cohen, “podemos falar de uma ‘ordem econômica’, em termos dos conteúdos de sentido das relações sociais referentes ao mercado, ou de uma ‘ordem social’, relativa aos conteúdos de sentido das relações sociais referentes a uma concepção de honra e a um estilo de vida dos agentes; ou ainda de ‘ordem política’, relativa aos conteúdos de sentido referentes à apropriação e luta pelo poder”. Três conceitos surgem a partir dessa análise: classe, estamento e partido. São, portanto, os conteúdos de sentido de dadas relações sociais tidos como legítimos que orientam à ação social dentro de determinadas esferas da vida social.
A legitimação à conteúdos de sentido por parte dos agentes sociais é sempre provável e sua persistência está sempre colocada de forma problemática na realidade, porque envolve confronto de interesses diversos entre os indivíduos. Assim, a possibilidade de ruptura de processos de dominação está sempre ligada à continuidade ou ao abandono, pelos dominados, da crença na legitimidade que fundamenta determinados mandatos de dominação.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Hoje não acordei pra outro dia

Hoje não acordei para um dia. O sol me esperava a pino enquanto eu ainda sonhava coisas estranhas. “Qual o propósito?” Perguntava-me. Pensava: estou bem acolhido entre camadas e mais camadas de pensamentos solitários. Um dia, resolvi acordar. Caminhei bambo com os pés descalços em direção à janela. Olhei. Parecia meu sonho, mas de certa forma estava tudo de cabeça pra baixo. Podia ver todo o mundo em sua esplendida balburdia janela a fora. Fiquei curioso, confesso: um tanto assustado. Jamais havia estado ou mesmo presenciado uma realidade onde os homens vivessem juntos. Aquela mixórdia de sons, cores e movimentos agrediam-me os sentidos. Passado décadas da minha existência, nunca provara sabores novos além de variados pratos de solidão. Este me era familiar e, apesar de constituir minha morada e refúgio, eu já estava ansioso para fugir de casa.

domingo, 21 de setembro de 2008

Momento de descrença

Fixo olhos temerosos ameaçara
Praguejar aos vômitos. Em vão.
Um longo tapa na cara,
Uma pausa na respiração.

Foge. Projeta-se no horizonte.
Alhures um rosto esquálido sorri.
Braços não afagam, maltratam.
Beijos não acalentam, violentam.
Puro são os tempos imemoriais,
Que de nós fogem em passos ligeiros,
Pois violentados seremos ainda mais,
Acostumados a infindáveis desesperos.

Lamento, mas faria tudo outra vez

Não me lamento
Pelos amores perdidos,
Pelas experiências desprezadas
Que agora são cicatrizes.


Pelas lições que não tirei da vida,
Pelos braços que não abracei,
Pelas merdas que não disse,
Pelos pensamentos mudos e engavetados.


Mas sim,
Por perder amores,
Por desprezar experiências
Que ainda não cicatrizaram.


Por não tirar nada da vida,
Por não abraçar mais braços,
Porque deveria ter dito merda,
Porque emudeci e engavetei tantos pensamentos...


Quem sabe uma segunda chance ainda espreita na esquina do mundo trazendo-me a redenção. Caso ela apareça por aqui queira, por favor, anotar-me o recado, porque, de novo, estou ausente.

Invasão do Iraque e discurso hegemônico

Entre 20 de março e 1º maio de 2003, foi deflagrada a operação “Iraque Freedom” pelos EUA e uma dita coalizão de forças (Multi-National Force – Iraq) multinacionais, mas que foram, na verdade, formadas na sua maioria por tropas estadunidenses – com 250 mil soldados no país, enquanto que a segunda maior força da coalizão, a Inglaterra, possuía apenas 45 mil soldados na região. A invasão marca o começo da Guerra do Iraque. Atualmente, a coalizão ainda é composta em quase sua totalidade pelas forças americanas, 93% do total, o que representa 144 mil soldados. A Inglaterra possui agora apenas cerca de 4 mil (Wikipedia, verbetes: “Iraq War”, “2003 Invasion of Iraq”, “Multinational Force in Iraq”).
Nas palavras do próprio presidente Bush, na ocasião de um discurso em 22 de março, os objetivos da empreitada são "to disarm Iraq of weapons of mass destruction (WMD), to end Saddam Hussein's support for terrorism, and to free the Iraqi people." Blair disse que o real gatilho para a guerra foi o fracasso iraquiano em aproveitar uma “oportunidade final” de desarmar por iniciativa própria seu arsenal nuclear, biológico e químico (Idem).
Por trás deste discurso fica patente a auto-afirmação hegemônica dos EUA sobre as decisões e intervenções, em última instância militares, ao redor do mundo, sem nenhuma consideração, ou mesmo necessidade, de ratificação desses atos por organismos internacionais. Segundo Noam Chomsky, um dos maiores críticos da política norte-americana, prenúncio dessa política internacional despudoradamente cínica aconteceu em setembro de 2002, quando a administração George W. Bush – formada pelas veteranas raposas carniceiras da administração Reagan e Bush pai, qual seja, Cheney, Rumsfeld, Powell e Cia – anunciou a implantação duma nova Doutrina de Segurança Nacional. Nas palavras do próprio Chomsky, durante a III Conferência Latino-Americana e Caribenha para as Ciências Sociais realizada em 2003, “os EU anunciavam a intenção de dominar o mundo de forma permanente, pela força se necessário fosse – e a força é a dimensão na qual os Estados Unidos reinam sem contrapeso -, e a pretensão de eliminar todo desafio potencial a seu domínio” (Nova Hegemonia Mundial, CLACSO, p.15).
A subseqüente invasão do Iraque, portanto, constituiu o primeiro passo efetivo fundamental para levar a cabo os planos hegemônicos ideologicamente sustentados por uma suposta ameaça iminente à sociedade americana e seu “way of life” – traduzida eufemisticamente em conceitos abstratos como liberdade e igualdade – e, por isso mesmo, angariou apoio não só da opinião pública norte-americana bem como também mundial. O fato é que, para além desse desvirtuamento ideológico, tal invasão foi a realização concreta das “denominadas ‘ações exemplares’, cujo objetivo era demonstrar que a Doutrina de Segurança Nacional era um projeto que deveria ser levado a sério” (Chomsky). Desnecessário dizer que as campanhas midiáticas, focadas em manipular a opinião pública, estrategicamente centraram-se em inspirar medo nas pessoas com o fito de homogeneizar, entre todos os grupos sociais, a legitimação social da guerra.
Corrobora com essa última tese uma pesquisa de opinião realizada pela CBS News em janeiro de 2003 – ou seja, dois meses antes da invasão – segundo a qual a maioria esmagadora dos americanos (85%) acreditava que Saddam possuía armas de destruição em massa. A despeito de 55% acreditarem que os EUA perderiam respeito no mundo com uma possível intervenção militar, 47% ainda assim viam a necessidade desta ação militar, mesmo sem provas concretas da existência de tais armas.
A prerrogativa de fazer “guerra preventiva”, cujo direito os EUA reserva para si, ou de se “auto-defender antecipatoriamente” não passam de meros eufemismos, os quais fundamentam ações extremas de uso de força com objetivo de preservar o status quo. Senão vejamos: como podemos estabelecer uma ligação lógica entre as palavras “defender” e “antecipar”, na medida em que a defesa só pode ser resultante lógica de uma agressão concreta, ou seja, quem ataca primeiro, não havendo evidências de uma ameaça iminente, ou ainda, não respondendo reflexivamente a tal ameaça, está forçosamente figurando no papel de agressor. Portanto, quem se defende, defende-se mediante um reflexo condicionado por uma agressão presente, o que não foi o caso da guerra do Iraque.
Ainda que passível de crítica, essa afirmação mantém o essencial da questão: os países injuriados ao sentirem na pele as políticas intervencionistas – dado que não encaram tais iniciativas como “defensivas” e sim como ofensivas – irão indubitavelmente resvalar em políticas agressivas de contra-ataque – ainda que indiretas – à fonte daquilo que enxergam como produtora das hostilidades. Indiretas porque aqueles, não dispondo de uma força militar que pudesse fazer paralelo com as forças hegemônicas, acabam apelando às “armas dos fracos”, nas palavras de Chomsky, ou seja, as armas de destruição em massa e o terrorismo. Essa disparidade de forças é obviamente irrefragável, porquanto os países alvos passíveis de uma dada intervenção localizam-se decerto na periferia do mundo desenvolvido, e não há exemplo na história recente, desde o final da II Grande Guerra Mundial, de duas potências centrais contenderem diretamente entre si – a prova disso é que durante a guerra fria EUA e URSS jamais chegaram a embater belicamente senão por meio de suas respectivas “áreas de influência”.
Dentro do debate acerca da hegemonia mundial, devemos nos ater também ao papel daquilo que Perry Anderson vai chamar de “debate das idéias na construção de alternativas” (Clacso, p. 37).
A evolução histórica do discurso ideológico legitimador das políticas hegemônicas passou da qualidade de escamoteado para a de manifesto com a derrocada do comunismo soviético. A partir do pós-segunda guerra mundial e da subseqüente bipolarização do mundo em duas áreas de orientação político-econômica distintas – o comunismo e o capitalismo – as formas de dominação ideológica, do oriente e do ocidente respectivamente, foram sutilmente encobertas por uma estratégia de contrapor as “verdade” de um bloco em relação ao outro, isto é, cada lado atacava a contraparte da sua relação dicotômica mundial. Segundo Anderson, “No Ocidente, a Guerra Fria foi apresentada como uma batalha entre a Democracia e o Totalitarismo”. Ciente que o termo “capitalismo” denotava algo de pejorativo e, por isso mesmo, era usado pelo bloco comunista como arma ideológica, os estados ocidentais capitalistas, ao invés de se caracterizarem como tal, expressavam-se “em termos de ‘Mundo Livre’” (Clacso, p. 38).
Na luta das idéias pela hegemonia mundial é de se esperar que o ocaso do bloco comunista ensejasse e trouxesse conseqüências sérias ao equilíbrio de poder bipartidário engendrado ao longo de toda a Guerra Fria. Com efeito, a Queda do Muro constituiu o marco que entronizou a teoria do Fim da História, nascida com Hegel e coroada por Fukuyama, segundo a qual o liberalismo econômico e a democracia burguesa nos moldes ocidentais constituem o último patamar evolutivo da humanidade. Não à toa, Fukuyama datou o fim da História a 9 de novembro de 1989. Assim, ele escreve:
"What we may be witnessing is not just the end of the Cold War, or the passing of a particular period of post-war history, but the end of history as such: that is, the end point of mankind's ideological evolution and the universalization of Western liberal democracy as the final form of human government." (FUKUYAMA, Francis. The End of History and the Last Man, 1992).
Para Anderson, essa soberba burguesa, produto do triunfo global do sistema capitalista, gerou uma embriaguez de poder tal que as classes dominantes mundiais não precisam mais de “eufemismos ou rodeios para [classificar] a natureza de seu domínio” (Clacso, p. 38).
Esse argumento não é inteiramente procedente, basta olharmos os acontecimentos pós-11/9. Em primeiro lugar porque o xerife “Cowboy” Bush e sua cavalaria do velho-oeste não teriam ido à guerra caso não houvesse uma expressiva opinião pública – apavorada demais para pensar por si só – apoiando-os. E quando enfim foram, continuaram dependendo do apoio incondicional da sociedade, carecendo sempre de uma realimentação constante através da política do medo de que se vale a Casa Branca. Em outras palavras, para não desvelar a fraca mão de tinta democrática sob a qual se reveste os atos intervencionistas dos EUA, estes mantêm sempre o “botão do pânico” pressionado – para usar um termo de Noam Chomsky. Caiu a URSS e ascendeu ao posto de inimigo da liberdade o Iraque, a Coréia do Norte, o Irã, etc. Ou seja, sem possíveis inimigos, o discurso hegemônico-ideológico perderia a legitimidade com a qual leva a cabo seus planos neo-imperialistas. O terrorismo veio, portanto, a substituir o comunismo como a ameaça premente que legitima o discurso e os atos hegemônicos norte-americanos.
Em segundo lugar, porque a legitimidade do discurso é sempre feita embasada em conceitos humanistas como democracia, direitos humanos, liberdade, mas nunca em conceitos econômicos como neoliberalismo, manutenção de mercados neocoloniais, commodities energéticos (petróleo, principalmente). Afinal de contas, quem poderia ser contra os direitos mais elementares do Homem? O terrorismo, ameaçando então solapar os próprios alicerces da sociedade Ocidental e destruir os valores mais caros cultivados pelo homem estabelecidos desde a Declaração Universal dos Direitos do Homem, deve, portanto, ser destruído. Empreende-se assim uma nova cruzada contra o “eixo do mal” através de uma contraposição entre o “bem” e o “mau”. Consoante com um maniqueísmo próprio da Igreja Católica, os EUA empunham o estandarte de padroeiro dos valores ocidentais e agem como se fossem a “polícia do mundo”.
Em ambos os casos a legitimação se faz necessária: tanto segundo uma ameaça de agressão física iminente, quanto segundo uma ameaça aos sublimes valores ocidentais dos quais os EUA intitulam-se patronos.
Essa alusão a uma constante ameaça por parte de grupos antidemocráticos, e que põe em risco os próprios direitos humanos, levou à criação de um tipo particular de política intervencionista hegemônica que os teóricos vêm chamando de “humanismo militar”. Essa idéia põe em xeque o próprio princípio de autodeterminação dos povos contido na Carta das Nações Unidas em favor de princípios, supostamente, mais nobres. Teorizam que o princípio de soberania nacional “é um anacronismo perigoso nesta época de globalização, e que pode e deve ser pisoteado para a universalização dos direitos do homem” (Clacso, p. 39). Ora, não é necessária muita empresa de reflexão para desmitificar esse discurso: basta associar “universalização” à prerrogativa de intervir na soberania de outros países postos à margem do desenvolvimento sócio-econômico na justificava de defender os “direitos do homem”, os quais, por sua vez, podemos associar ao modelo econômico de livre mercado e da propriedade privada. Sustento essa afirmação através de um discurso de W. Bush por ocasião do 20º Aniversário National Endowment for Democracy, em 2003: “The United States made military and moral commitments in Europe and Asia, which protected free nations from aggression, and created the conditions in which new democracies could flourish (…) the advance of markets and free enterprise helped to create a middle class that was confident enough to demand their own rights”.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Nada de novo no front


Pense em uma família. Decerto a clássica pintura que nos vêem à cabeça é aquela tão tradicional quanto inexpressiva, insossa, enjoativa: mamãe, papai, filhinho(a).

Logo pela manhã mamãe acorda o papai com um beijo mecânico e um sacolejo abnegado. Ele abre os olhos. Deseja morrer. Ela idem. Numa ânsia de desencanto ao olhar a face do marido que deixa transparecer sua desestima por ela, sente vontade de vomitar o café extremamente forte, ingerido minutos antes, no rosto dele. O sentimento de agressão perpassa os dois corações quando, por um breve e acidental resvalo, seus olhares se cruzam. Portanto não se olham. E isso é quase que tacitamente acordado entre eles, pode-se dizer.

Na verdade, esse pequeno ínterim nada tem de anormal. De fato, marido e mulher, ao enjeitarem-se mutuamente, nada mais fazem além de consumar seu cotidiano de casal. É mais outro dia normal.

- Levanta, bem (traste)!
- Porra, mas que horas são mulher? Já lhe disse para não me acordar antes da merda das sete horas!
- São sete horas...

“Essa porcaria de despertador deve ter sido feito numa freqüência sonora audível apenas pelos ouvidos femininos”.

Tal foi o pensamento da mulher, mesmo antes de abrir os olhos. Indagava-se todos os dias acerca dessa questão mesmo sem nunca chegar a uma resposta concreta. Era inútil: a problemática do “rádio-relógio despertador que só podia ser ouvido pelas mulheres” era impassível de uma resolução e ponto final. De fato esta era a única tese que lhe ocorria, uma vez que ela e o marido dividiam o mesmo quarto e a mesma cama, de modo que o despertador podia evidentemente ser ouvido pelos dois quando apitava pela manhã e, a despeito disso, apenas ela levantava. É verdade que esse maldito aparelho estava em cima do criado-mudo situado do seu lado da cama, entretanto por mera força do hábito, já que isso facilitava para ela desligá-lo. Com efeito, o marido certamente ouvia a azáfama fragorosa com que o despertador tentava lhe botar de pé. Isso para ele era tão odioso, quanto se imaginar fazendo sexo com aquela mulher prostrada ao seu lado logo pela manhã. Por isso, preferia manter os olhos cerrados e tentar dormir alguns minutos a mais. O ato sexual vinha cinicamente à mente de ambos apenas como subproduto de resquícios hormonais que certas feitas lhe ocorriam. E isto não passava de uma ou duas vezes por semana no máximo.

“Não, não. Esse desgraçado também ouve o barulho, mas ignora-o” pensou a mulher, finalmente concluindo sua tese, “aproveita para dormir um pouco mais enquanto preparo seu café, ajeito-lhe a roupa do trabalho de maneira a ficar fácil à vista e pego seu jornal na caixa de correio”.

Tal era a perícia com que desempenhava a função, ela desligou a aparelho sem olhar diretamente para ele, apenas usando levemente o tato. Levantou-se, calçou as sandálias e desceu para fazer as obrigações que o destino lhe reservara.

“Grande merda” pensou.

“Merda de emprego, merda de mulher, merda de filho, e merda de cachorro que ficou latindo a noite toda e não me deixou pregar os olhos”.

Tal foi o primeiro pensamento que lhe passou pela cabeça que decidiu não pensar em mais nada até chegar ao trabalho, isso porque poderia lhe ocorrer coisas piores e, como ultimamente dava-se a se entregar impetuosamente aos primeiros desvarios de cólera, achava melhor furtar-se a maiores celeumas. Pôs a roupa numa fleuma típica das manhãs de segundas-feiras. Com os pensamentos ainda pachorrentos e se reorganizando em sua mente, abalançou-se para o café-da-manhã.

Enfim, estavam todos à mesa do café. Ah! sim, havia o menino, filho do casal. Mas este não convém se deter por muito tempo, porquanto ainda era novo demais para entender as angústias de um casal em crise. Sentia lá no fundo do seu coraçãozinho apertado que algo estava errado, e que, em última instância, era ele o culpado. De certa forma, mesmo sem ter a real concepção da situação, vislumbrava o fardo que carregava por ser o único elo que mantinha os pais sobre o mesmo teto, atados a uma coleira curta e condenados a cheirarem seus respectivos ânus eternamente. O pequeno tomaria a exata consciência disso quando se tornasse grande o bastante para perceber efetivamente que seus pais aturaram-se mutuamente, todo aquele tempo, unicamente por sua causa. E isso era um fardo demasiado dolorido para um garoto de a sua idade carregar. Por hora, tentava simplesmente não pensar nisso.

TO BE CONTINUED...

Uma visita qualquer


Palmas. Aproximo-me do portão. Uma mulher de semblante surrado, portando um bebê à tira colo, pede por uns trocados para comprar leite. Respondo-lhe que dinheiro não tenho, mas que poderia lhe dar um litro de leite. Ela argumenta que precisa de dinheiro não para comprar leite natural, mas sim leite em pó – que, suponho eu, rende mais.

Fico em silêncio por alguns instantes. Olho aqueles dois seres abandonados à própria sorte e sinto um forte pesar. A mulher me olha em resposta como se estivesse muda, procurando algo a dizer, “uma ajuda por favor, qualquer uma”, talvez. A criança de colo, nascida no seio da miséria, já parece saber dos meios consuetudinários utilizados para induzir condolência naqueles além propriedade e me olha piedosamente.

“Espere, por favor”.

Entro em casa, caço algumas moedas espalhadas que não somam nem um real, pego um litro de leite e entrego à moça. Ela agradece com um “obrigado” esmaecido, quase inaudível, de quem não tem forças ou de quem não tem mais fé para continuar tamanha vida sofrida. Logo depois se afasta.

Fico inerte, junto ao portão, observando seus passos curtos – de quem não tem para onde ir mesmo – pela calçada em direção à residência subseqüente. Passos cabisbaixos. As pessoas que passam ao lado também estão cabisbaixas. Por medo ou vergonha, não sei ao certo. Ou ainda por desilusão talvez. O certo é que, ao chegar no portão contíguo ao meu, a mulher, na tentativa de livrar uma das mãos do peso da menina, coloca-a no chão, de pé, apoiada nas grades do portão. A criança num gesto inesperado – pelo menos para mim – largou a grade e pôs-se a bater palma.

Fiquei estarrecido. De fato, o meio perpetua e imprime, através da vivência, maneiras de pensar e de agir na consciência de uma pessoa. Uma criança de colo que mal consegue para em pé, consegue largar o objeto no qual se apóia para, instintivamente, acompanhar as ações da mãe. Hoje bater palmas, amanhã – quando aprender a falar – pedir comida. Como um animal que ensina seu filhote a sobreviver, a menina toma as ações da mãe como aprendizado, percebendo que aquele é o meio pelo qual, primeiro sua mãe e depois ela própria, sobreviverão. Essa criança jamais poderia entender o amplo significado social que reside em seu gesto. A mãe sim, e talvez por isso, ela impede que a menina continue a bater palmas.

Meu telefone nunca toca

Meu telefone que nunca toca,
E hoje outra vez não tocará.
Espero... esperançoso de que lembrarão,
Mas não, não hão de lembrar.

“Feliz aniversário” alguém me disse,
Mas que maluquice! Será isso mesmo q’eu ouviste?
Talvez sejam apenas lembranças de minha meninice...

E esse telefone que não toca, meu Deus?
E porque haveria se era isso que você queria!

Eu tentei. Sinceramente, juro que tentei,
Mas, nesse mundo, ninguém nunca quis me ver.
De todos que convivi jamais algum rejeitei,
E assim mesmo, de verdade, quem pude ter?

Se alguém puder me ouvir, me toque!
Qualquer palavra pode ser que me comove.
Por favor, me recorde, me recorde...

E esse telefone que não toca?
... quer deixar recado?
Não, eu espero...

Na sala, um sofá, a TV que nunca liga, o telefone que nunca toca e o silêncio perene. Para além da janela, lá fora, existe barulho, vida, pessoas. Orgia de palavras buzinadas. Um completo desperdício. Não entendem a sorte que os contempla com toda a ordem de sons humanos e, por essa razão, não sabem ouvir. Tolos que não dão o devido valor. São como ilhas cheias de vida que não se comunicam entre si, cada qual com a sua beleza e verdade transcendentais. Aquele alvoroço todo lá fora e aqui o silêncio mortal...

A noite estende-se rumorosa, mas não para mim. Parece tudo tão quieto que até posso ouvir as batucadas solitárias martelando meu peito. Eis que de repente o inesperado acontece: o telefone toca!

Será que dessa vez eu atendo?
Acho melhor não...

domingo, 14 de setembro de 2008

O nosso 11/9

Útimo Discurso do presidente Salvador Allende, no dia 11 de setembro, durante o golpe militiar, que tomaria sua vida, apoiado pela CIA e pelo Departamento de Estado dos EUA, e que alçaria Pinochet ao poder.

"Seguramente, esta será a última oportunidade em que poderei dirigir-me a vocês. A Força Aérea bombardeou as antenas da Rádio Magallanes. Minhas palavras não têm amargura, mas decepção. Que sejam elas um castigo moral para quem traiu seu juramento: soldados do Chile, comandantes-em-chefe titulares, o almirante Merino, que se autodesignou comandante da Armada, e o senhor Mendoza, general rastejante que ainda ontem manifestara sua fidelidade e lealdade ao Governo, e que também se autodenominou diretor geral dos carabineros.

Diante destes fatos só me cabe dizer aos trabalhadores: Não vou renunciar! Colocado numa encruzilhada histórica, pagarei com minha vida a lealdade ao povo. E lhes digo que tenho a certeza de que a semente que entregamos à consciência digna de milhares e milhares de chilenos, não poderá ser ceifada definitivamente. [Eles] têm a força, poderão nos avassalar, mas não se detém os processos sociais nem com o crime nem com a força. A história é nossa e a fazem os povos.

Trabalhadores de minha Pátria: quero agradecer-lhes a lealdade que sempre tiveram, a confiança que depositaram em um homem que foi apenas intérprete de grandes anseios de justiça, que empenhou sua palavra em que respeitaria a Constituição e a lei, e assim o fez.

Neste momento definitivo, o último em que eu poderei dirigir-me a vocês, quero que aproveitem a lição: o capital estrangeiro, o imperialismo, unidos à reação criaram o clima para que as Forças Armadas rompessem sua tradição, que lhes ensinara o general Schneider e reafirmara o comandante Araya, vítimas do mesmo setor social que hoje estará esperando com as mãos livres, reconquistar o poder para seguir defendendo seus lucros e seus privilégios.

Dirijo-me a vocês, sobretudo à mulher simples de nossa terra, à camponesa que nos acreditou, à mãe que soube de nossa preocupação com as crianças. Dirijo-me aos profissionais da Pátria, aos profissionais patriotas que continuaram trabalhando contra a sedição auspiciada pelas associações profissionais, associações classistas que também defenderam os lucros de uma sociedade capitalista. Dirijo-me à juventude, àqueles que cantaram e deram sua alegria e seu espírito de luta.

Dirijo-me ao homem do Chile, ao operário, ao camponês, ao intelectual, àqueles que serão perseguidos, porque em nosso país o fascismo está há tempos presente; nos atentados terroristas, explodindo as pontes, cortando as vias férreas, destruindo os oleodutos e os gasodutos, frente ao silêncio daqueles que tinham a obrigação de agir. Estavam comprometidos. A historia os julgará.

Seguramente a Rádio Magallanes será calada e o metal tranqüilo de minha voz não chegará mais a vocês. Não importa. Vocês continuarão a ouvi-la. Sempre estarei junto a vocês. Pelo menos minha lembrança será a de um homem digno que foi leal à Pátria. O povo deve defender-se, mas não se sacrificar. O povo não deve se deixar arrasar nem tranqüilizar, mas tampouco pode humilhar-se.

Trabalhadores de minha Pátria, tenho fé no Chile e seu destino. Superarão outros homens este momento cinzento e amargo em que a traição pretende impor-se. Saibam que, antes do que se pensa, de novo se abrirão as grandes alamedas por onde passará o homem livre, para construir uma sociedade melhor.

Viva o Chile! Viva o povo! Viva os trabalhadores! Estas são minhas últimas palavras e tenho a certeza de que meu sacrifício não será em vão. Tenho a certeza de que, pelo menos, será uma lição moral que castigará a perfídia, a covardia e a traição."