quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Preconceito e discriminação: uma polêmica com o marxismo

Sobre preconceito, exclusão, segregação, discriminação. Primeiro, é preciso compreender que se tratam de conceitos distintos, cuja distinção não vem ao caso fazê-la aqui. Partamos apenas do conceito geral de discriminação social que se organiza em torno de preconceitos raciais, culturais, sexuais ou de qualquer outro tipo. Qual a sua causa? Um marxista diria que é, acima de tudo, a propriedade privada, a divisão do trabalho e a estrutura de classes, conceitos que abarcam praticamente toda a história da humanidade, desde o fim do “estágio” primordial que Marx chama de comunismo primitivo até o fim das sociedades de classe com o advento do comunismo. São as relações sociais surgidas a partir dessas categorias, relações sobretudo de dominação e exploração, que sustentam as ideias preconceituosas. Apenas os marxistas mais vulgares, cujo conhecimento provém de manuais partidários de corte stalinista, defenderiam a ideia de que o preconceito é um a função direta do capitalismo. Isso seria, evidentemente, descurar toda a história dos seres humanos, além de um reducionismo simplista. No entanto, o que une marxistas mais ou menos refinados é opinião de que para acabar com todo preconceito e discriminação é necessário acabar ou superar o capitalismo, ou seja, a última sociedade divida em classes. A parte o fato óbvio de que tal suposição não pode ser comprovada empiricamente, ela só faz sentido no quadro de uma concepção da história que concebe o capitalismo como o último estágio de uma evolução humano-social onde a chegada é necessariamente a construção de uma sociedade sem classes. Sei que os marxistas não gostam de ouvir isso (ou não gostava, e ainda não gosto dependendo de onde venha), mas, neste particular, não há diferença formal entre a teologia bíblica cristã e a filosofia da história marxista: primeiro havia um estado de perfeição não desenvolvida, digamos assim, que foi maculado por um pecado original (divisão do trabalho, excedente, propriedade privada e classes), historicamente necessário do ponto de vista marxista, e cuja redenção se dá com a superação das classes pela única classe da história que não tem nada a perder senão os seus grilhões. O valor prático dessa filosofia para a história moderna não pode ser questionado, mas, como premissa científica, ela é falha. Não se pode inferir, a partir de uma teoria que, à luz dos conhecimentos atuais, é dificilmente sustentável, a proposição de que somente com o fim da mais fundamental categoria estruturante da sociedade, em termos marxistas, as classes, pode-se extinguir preconceitos de cor, gênero, orientação sexual, naturalidade, etc. Além do mais, e não menos importante, essa concepção também supõe que, de algum modo, todas as clivagens sociais derivam dessa clivagem fundamental entre possuidores e não possuidores, de tal sorte que o preconceito de cor, por exemplo, seria uma função, embora mediata, da dominação e exploração entre as classes. Além de sua metafísica histórica (refiro-me aqui como metafísica essa metanarrativa baseada em pressupostos filosóficos não comprováveis que pretende fornecer uma explicação única e global para toda a “História” de toda a “Humanidade”, ambas com maiúsculas e aspas; por outro lado, misturada a essa metafísica há muitas premissas válidas e profícuas, como a de que os seres humanos se organizam em classes para produzir suas condições materiais de existência e que sua reprodução se faz sobre bases materiais e culturais herdadas), aqui entra o ponto mais fraco dessa teoria: seu reducionismo econômico. É muito duvidoso que exista uma hierarquia ontológica entre as diversas categorias que organizam a sociedade, ao menos de um ponto de vista geral. Creio que, no que concerne ao preconceito, sua origem está ligada muito mais à construção da identidade individual e de grupo, do que à estrutura de classes. E essa identidade se constrói a partir de múltiplas categorias, sendo que a classe, sendo abstrata e afastada da vivência imediata, é talvez a menos importante. Mais importante nesse processo é o grupo familiar, a localidade de nascimento e vivência, as experiências individuais, a cor da pele, a orientação sexual, o nível educacional, a situação econômica e de renda, e assim por diante, ou seja, elementos diretamente envolvidos na vivência pessoal e coletiva de cada indivíduo. Um marxista poderia argumentar que tais categorias são, por sua vez, decorrentes da divisão fundamental entre as classes. Mas, assim, estaríamos de volta à estaca zero; não fazemos senão responder à pergunta com aquilo que se deve explicar. Isso explica tudo, mas não explica nada. Quanto ao fato de o capital se valer das diferenças sociais e dos preconceitos articulados a elas, não significa que a reprodução deles seja necessária do ponto de vista do capital ou que conscientemente se busque reproduzi-los. A dificuldade desse raciocínio se expressa nos próprios termos em que é expresso. Não se pode falar no capital como se fosse um ator. Embora ele tenha necessidades derivadas de uma lógica particular de funcionamento, ele não tem consciência. O que existem são atores econômicos que se valem consciente ou inconscientemente dos preconceitos sociais para maximizar suas possibilidades de lucro ao justificar o barateamento de determinadores setores da força de trabalho em razão de sua nacionalidade, gênero, cor, etc. Percebam como dizer isso é muito diferente do que dizer “o capital” faz isso ou faz aquilo. Ademais, isso não quer dizer que todos os atores econômicos justifiquem seu comportamento com base em preconceitos, embora eles fortaleçam tais preconceitos mediante este comportamento discriminatório, e muito menos que o preconceito e a discriminação é uma necessidade funcional do capitalismo e das sociedades de classe como um todo. O que se pode dizer é que eles existem, e que se articulam com os processos econômicos. Por fim, porque assumir que a discriminação que se dá no campo econômico é mais fundamental do que a discriminação em outros campos? Num mesmo bairro pobre, por exemplo, pode haver discriminação entre a área mais “nobre” e a mais pobre, ou entre os moradores mais antigos e os recém-chegados, etc. Onde entra o capital aqui? Um marxista diria, novamente, que ele é a causa fundamental, primeira, que não vemos, mas que pode ser deduzida, uma vez que é ele quem cria as desigualdades; isto é, o preconceito num bairro pobre só existe pelo fato de que o capital gera bairros e pessoas pobres. Supondo que essa afirmação seja verdadeira, temos que admitir que tudo o que existe tem sua raízes ou está determinado pelas relações sociais capitalistas. Assim, o capital aparece como uma entidade malévola e mística que espalha confusão pelo mundo. Sem dúvida o capital é um mal, e hoje não há dúvidas quanto a isso, mas ele não é malévolo nem é uma entidade. Não se pode, por exemplo, simplesmente atribuir a todas as fronteiras do mundo uma causa única, que seria o capitalismo ou as classes. Além do mais, como pano de fundo desse raciocínio está a visão de uma sociedade ideal que serve de parâmetro para avaliarmos a nossa sociedade real. Esse procedimento é logicamente falho.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Entre amor real e irreal

Me disseram que o amor não tem linhas
Ele é tortuoso por natureza
Acho que isso quer dizer que, para o amor
Não há regras, não há ordem
Não é factível um amor organizado
Reto, burocrático, que saiba exatamente o que está fazendo
Ele vem sempre acompanhado de tantos sentimentos
Circunstâncias e tendências contraditórias
Não existe em estado puro
Mas longe de ser irreal
O amor verdadeiro é surreal
Será que se ele fosse real sua beleza se acabaria?
Será que deveríamos colocar o amor numa redoma de vidro
E conservá-lo longe das intempéries e dos nossos erros?
Simplesmente não dá
Ora, não viver o amor por medo de macula-lo já é vivê-lo
Já é fazer um escolha
Possivelmente fonte de arrependimento futuro
O legal do amor é sua comicidade comovente
Ou sua condição trágica
E a gente enche ele de palavras
Afobadas, inconsequentes, ruidosas
Quando na verdade só queríamos ficar calados
Ouvindo o bater de nossos corações
Isso porque somos confusos
E temos medos
E precisamos justificar
E racionalizar tudo
A nós mesmos
Mesmo aquilo que não tem razão nem nunca terá
E por mais que não o entendamos
Às vezes nos basta ouvir aquela voz que lá de dentro grita
Eu amo!

Sobre o corpo

Hoje, durante ócio contemplativo na praia, duas crianças me chamaram a atenção e me fizeram meditar a respeito de uma questão de grande importância para entendermos o nosso mundo: a educação do corpo como um dispositivo de controle. Percebi como essa educação começa na tenra infância. A primeira criança corria de lá para cá com outras crianças, mas seu biquíni caía a todo momento. No calor da brincadeira, ela parava para subir o biquíni que teimava em ir ao chão. A outra criança era ainda mais jovem, um menino entre dois e três anos. Certa hora, enquanto ele andava, ao perceber que a sua bermuda estava caindo, teve o enorme trabalho de puxá-la para cima. Fiquei bobo em ver como uma criança que, apesar de não saber absolutamente nada do mundo que a cerca, sabe perfeitamente bem, mais por condicionamento do que por qualquer outra razão, que a roupa tem que ser mantida no lugar, que não é permitido ficar nu; ou seja, inconscientemente ela já se guia pelas noções de decência/indecência. Eu acho que a tendência natural da criança é recusar a vestimenta. Tem criança que você mal acaba de vesti-la e ela já está correndo pelada por aí. Mas, incrivelmente, duas delas ali naquela tarde na praia lotada, durante brincadeiras acaloradas, se preocupavam em manter seus trajes de banho no lugar. Não creio que a nudez seja a condição natural do ser humano, simplesmente porque o ser humano pouco tem de condição natural. E recusar, nesta altura do campeonato, um item tão essencial da cultura da humanidade seria no mínimo um desperdício. A questão aqui não se resolve de uma maneira simplistamente dicotômica: nu ou vestido, onde nu = bom e vestido = ruim (ou o contrário para os mais conservadores). A questão que se coloca é a relação que mantemos com o nosso corpo, a maneira que o vemos e como reproduzimos tais formas culturalmente através de uma educação social primária, supostamente natural e óbvia, cotidiana, e, por isso mesmo, inconsciente. Ainda vemos o corpo como algo sujo e feio, que deve ser mantido longe da vista durante as situações normais do dia-a-dia, senão, do contrário, correríamos o risco de contaminar as coisas (a exceção do sexo, embora aqui também essa concepção se manifeste da sua maneira, geralmente como pudor ou nojo exagerados). Também vemos o corpo como um pecado, como uma imoralidade; a famosa noção cristã do corpo como tentação diabólica. E, por fim, vemo-lo como uma coisa/objeto que, pelo fato de ser propriedade de alguém, só pode ser vista (porque ver o corpo é frui-lo, goza-lo) pelo seu/sua proprietário/proprietária, embora no caso da mulher essa posse implique também em dominação. Eis aí três concepções fundamentais acerca do corpo que se expressaram hoje naqueles gestos aparentemente tão banais de duas crianças inocentes brincando na praia.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Sei lá eu

Tá dormindo, caralho?
Acorda, porra!
Onde você vê melhora?
Evolução, progresso?
Cadê essa merda?
A cada ano só piora
A gente caga, senta em cima
E só porque escorrega
Acha que avança
Todo cagado
Este é o mundo que criamos
Cada vez mais lotado
Poluído, violento
Frenético, invivível
Sim, a singularidade catastrófica
Da situação merece um neologismo
Não tem reforma que dê jeito
Nessa estrutura viciada
Pouco, muito pouco
Pode ou merece ser aproveitado
Há que botar tudo abaixo
Consumir com fogo
Começar de novo
Se isso lhe soa como fatalismo
Pra mim soa como um tapa
Na cara do seu pseudo-realismo
Continua aí com o teu sonho
De um capitalismo humanizado
De um socialismo milagroso
Precisaremos ser mais criativos do que isso
Ao invés de escolher um dos lados
Eu escolho o avesso
Ao invés de tomar partido
Eu dou de ombros
O caminho é outro
Vai noutro sentido
Que ninguém sabe qual é
É preciso perder-se para acha-lo
Abrir mão de velhas certas
E a mente para novas ideias
Ousadas, inimagináveis
Sei lá, véio
Tenho certeza de nada, não
Nem das minhas próprias incertezas
Mas às vezes eu acho que tá tudo fodido

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Correspondência

Antes do teu colo
Eu quero o teu peito
Antes do teu afago
Eu quero o teu sexo
É do teu coração
E não de comprazimento
Que eu preciso
Não é compaixão
Que eu procuro
É paixão, entrega
Amor e loucura
Em resumo, pequena
Se for pra me deixar só
Não me venha com a tua dó

Dor

A dor pode servir de aviso
Ante a ameaça iminente
Põe-nos de sobreaviso
Cuidado, perigo à frente!

Mas a dor é mais que isso
Mais do que reação física
Instintiva, desencadeada
Para proteger o organismo

Emoções, sonhos, vontades
Têm o mesmo poder físico
Dum açoite, látego ou chicote
O estrago, contudo, é no espírito

Nem sempre a dor é mal sinal
Ora, sentir dor é prerrogativa dos vivos
Os mortos nada mais têm a arrepender
Nem a corrigir, nem a correr atrás

Certas lembranças pungem
Se doem, não se assuste
Nem se desespere também
Só dói o que ainda vive
E só o que vive ainda tem
Uma segunda chance

O vento

O vento leve
Leva a palavra
Num sopro

Carrega a prece
Até o ouvido
Da santa

Espalha o silêncio
Dissonante
Suspenso no ar

Executa, ao longe
No canto do pássaro
A sinfonia de Bach

Acaricia da árvore
Os ramos

Dissolve, paciente
O barulho

Faz do grito
Murmúrio

Da promessa
Sussurro

Sem pressa
Ao sabor
Do acaso

Vento-oração
Vento-canção

Faz ao mundo
O que faz a mão
Sobre o corpo

Embala
Afaga
Acarinha

Às vezes
Acossa
castiga

E o essencial:
Muda as coisas de lugar
Leva, transforma

Na calmaria
Ou na borrasca
Sejamos vento

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Sina

Quanto a mim
Falta tato, falta jeito
Além de menino, bobo
Não têm braços
Tampouco beijos
Que cure esse desejo
De ser amado
Que aquiete esse desassossego
Que trago desde o berço
No peito
Um coração solitário
Que bate calado
Amuado
Porque não encontra remédio
Pra este vazio
Que aos pouquinhos
Há de me matar
De tanta falta

Dar-se

Não te assustes, morena
Com este meu sorriso farto
Este meu jeito de moleque levado
Nada em mim é segredo
Sou um livro aberto
Nem capa eu tenho
Não faço nenhum mistério
Dos meus sentimentos
Dispenso qualquer cerimônia
Nada em mim é fingimento
Digo-lhe exatamente o que penso
Este lado externo que vês
É igual o interno que não vês
Se rio enquanto te beijo
Se choro depois d'um adeus
É porque é isso
Exatamente isso o que eu sinto
Sei que às vezes corro perigo
Que ando por aí desarmado
Mostrando os dentes a possíveis inimigos
Mas só sei encarar assim o mundo
Sem desconfiança, sem maldade
Mas não te preocupes
Que meu santo é forte
Nem, como lhe disse, te assustes
Com este meu apego
Este meu jeito de cão sem dono
Sou daqueles que se apaixona fácil
Carente e volúvel
Porém sincero
Por isso não te cuides responsável
Pelo que eu sinto
Porque meu coração não tem porto
Ele navega sem rumo
E vive a me enganar

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Presente

As coisas mais bonitas para se dar
São aquelas que ninguém pode ter
Por isso, lhe dou a lua de presente
O céu, e até a última concha do mar
E, claro, o meu coração, todo ele

Humanos

Humanos
Inúmeros
Minúsculos
Atarefados
Apressados
Insatisfeitos
Infatigáveis
Ordenados
Coordenados
Cavando
Extraindo
Modificando
Construindo
Manipulando
Parasitando
Proliferando
Comendo
Cagando
Fodendo
Trepando
Ninguém há
Acima
Ou abaixo
Do céu
Que pode
Pará-los
Quiçá
Nem eles
Próprios

Confusão

Meu coração é um novelo
Todo embaraçado
Tem milhares de fios
Muitos começos
Mas nenhum fim
Todo dia eu tento
Só que nunca encontro
O fio da meada
E quanto mais eu mexo
Mais eu me enredo
Mais eu me perco
Neste labirinto
Que se chama
Sentimento

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Para nada entender

O mundo é vasto
A vida um mistério
As pessoas universos
E eu, pequenino, minúsculo
No meio disso tudo
Nada entendo
Só observo
Mas de confuso em confuso
Alguma coisa eu aprendo

Do lado de dentro

Só parece que eu tô longe
Na verdade tô bem perto
Bem do lado de dentro
Quando quiser me encontrar
Me procura lá no fundo
Bem lá no fundo do peito

Esperança

Neste agora
Sou todo feito de sonhos
A esperança não disse nada
Foi logo abrindo a porta
Puxou uma cadeira e sentou-se pro almoço
Disse que ficava pra janta
A desilusão e o pessimismo
Eu deixei lá fora
De castigo
Não tenho nada com isso, ora
A realidade que cuide de seus filhos
Na minha casa
Só entra amor e carinho
Fica esperança
Fica e faça filhos comigo
Faz da minha morada
A tua
Ainda é tempo
De sermos felizes

Do amor

Acho muito curioso o medo que as pessoas têm de dizer “eu te amo”. Quando dizem, é como se tirassem um peso enorme das costas (“pronto, falei!”). Quando ouvem, levam um susto tão grande que às vezes podem até inconscientemente se afastar. Ficamos embaraçados ou nos sentimos responsáveis por alguma coisa importante. Em qualquer dos casos, o amor é tido como um desvio da normalidade. Algo raro, que não acontece sempre, e, portanto, muito precioso. Daí também porque seria preciso ter cuidado com o amor. O amor é comedido, é pouco, é sério. Amar é uma responsabilidade. Não se diz essa palavra a alguém sem ter certeza. Quando alguém diz que ama a gente já pensa logo em casamento. E quando pensamos em casamento pensamos em amor pra vida toda, como se só existisse um amor de verdade. Portanto, antes de dizer pra alguém “eu te amo”, temos que ter certeza de que se trata do verdadeiro amor, único e pra vida toda. Nossas reações ao dizer ou ouvir um “eu te amo” supõem esse tipo de crença. Mas essa deveria ser a nossa concepção a propósito do amor? Não é possível amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo? E haveria mal em dizer pra uma pessoa que se conhece há apenas uma semana que a ama? Porque o amor tem de ser comedido, pouco, sério, quando a sua própria natureza nos diz que ele deve ser desbragado, excessivo e alegre? Ao invés de sério, como os adultos, não poderia ser brincalhão, como as crianças? Ao invés de precioso, como um diamante belo e inútil, o amor não pode ser banal, como a água que refresca e sustenta a vida?

Sobre a masculinidade

Com a progressiva equiparação dos gêneros, e a libertação de seus rígidos e estritos papeis, junto com a liberdade feminina vem a liberdade masculina. Com efeito, a libertação do homem é uma função da libertação da mulher.

Quanta distância já não nos encontramos em relação ao sóbrio e formal cumprimento masculino de apertar as mãos, no máximo acompanhado por um tapinha nas costas, ou em relação aos pais e filhos que passavam uma vida inteira sem nunca dizer “eu te amo”.

Hoje os homens podem abraçar-se, dizer ao amigo que o ama, e até, os menos preconceituosos, cumprimentarem-se com um beijo no rosto. Há muito ainda por fazer se quisermos chegar ao nível das mulheres, que fazem carinho entre si, deitam juntas e dão selinhos sem o menor pejo.

O curioso, entretanto, é como os homens mudam seu comportamento sem mudar. O abraço que um homem dá em outro homem jamais é o mesmo abraço que ele dá em uma mulher. É menos meigo, mais forte. Dizer “eu te amo”, tudo bem, mas tem que terminar a frase com um xingamento bem macho do tipo “viado ou filho da puta”. O beijo no rosto é ainda algo desconcertante que deve ser feito da maneira mais máscula possível. Pedir para um homem passe protetor solar nas suas costas, então, é feito assim: “aí, dá pra passar protetor aqui na macheza?”.

Portanto, é curioso notar que a libertação dos estereótipos de masculinidade se dá exatamente através desses mesmos estereótipos. Não é a masculinidade e o papel de homem que estão sendo questionados deste modo, mas são as coisas (gestos, palavras, etc.) que consideramos másculos ou não másculos. Ressignifica-se o beijo, o abraço, o amor para que eles caibam na definição de masculinidade. E isso é bastante cômico. Seja como for, a própria noção de masculinidade se transforma no processo, de forma um tanto inconsciente, mas se transforma.

Primeiro amor

Se lembra quando a gente
Chegou um dia a acreditar
Que tudo era pra sempre
Sem saber que o pra sempre
Sempre acaba?

Eu te levava de bike à escola
Transávamos bêbados na rua
Na cama da sua mãe
Ou íamos de taxi ao motel
Não tínhamos um pingo de vergonha

Dois sem-vergonhas, é isso que éramos
Mas não pelas razões que o leitor possa estar pensando
Éramos sem-vergonhas porque não tínhamos vergonha de amar
Nem de ser feliz
Mas, mais importante, não tínhamos vergonha de sermos bobos

Ríamos dos quadros na galeria de arte
E, sobretudo, do ar de bobo das pessoas
Falávamos alto no cinema
Brincávamos de guerra de comida na praça de alimentação do shopping
Pedíamos sorvetes diferentes para repartir os sabores
Eu dava tapa na sua bunda no meio de todo mundo
Você detestava, vinha me batendo
E eu saía correndo, dando risada
Te levava de cavalinho
Dava colo no banco da praça

Tudo era diversão
Tudo era brincadeira
Impressão minha ou o tempo encurtou depois daquela época?
Tínhamos tempo para qualquer bobagem
Mas se viessem com papo sério
Bá! Pra isso não tínhamos tempo
Se bem que pensávamos em casamento
E filhos, uma penca deles

Ficávamos horas e horas contando estrelas na madrugada
Deitados no gramado do lago
Eu estava sempre cismando planos mirabolantes para lhe fazer uma surpresa
Desde fazer-lhe geleia de jabuticaba da jabuticabeira de casa
Até escrever uma poesia na carteira em que você se sentava na faculdade
Ou pedir para tocar a nossa música na rádio
Não passava em frente a um jardim sem pensar em como roubar uma flor pra ti
Por você eu até limpava a banheira da república
E enfeitava-a de pétalas, velas, incenso e sais de banho

Por que todo amor não pode ser assim?
Por que com o tempo a graça se perde e a vontade também?
A verdade é que não existe primeiro amor
Todo amor verdadeiro
É como se fosse o primeiro
É único, e é recomeço

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Estupro

A primeira vez que aconteceu
Eu tinha 10 anos de idade
Meu pai me surpreendeu
Brincando com a minha “perseguida”
Que era como minha mãe chamava a vagina
Só depois, adulta, foi atinar para o significado
Meu pai veio até mim, cara de bravo
Como quem vai me bater
Eu tinha medo dele, desde que me entendo por gente
Disse-me que eu estava fazendo algo muito feio
E que ia me dar uma lição por isso
Eu era uma criança, estava me conhecendo
Começava a sentir coisas lá embaixo que não entendia
Quando andava de bicicleta sentia cosquinhas gostosas
Tinha curiosidade, mas mal sabia que tudo isso acabaria ali, naquela tarde
Aos 10 anos de idade
Ele terminou de tirar a minha roupa
Abaixou as suas calças, tirou o pau pra fora e me penetrou
Sentia aquele corpo grande e pesado
Cheirando a álcool e cigarro
Pressionando sobre mim
Invadindo um território inexplorado
Primeiro, a dor, inexprimível dor, o sangue
Depois, a culpa, o nojo, a vergonha
O medo de olhar ou tocar novamente a minha vagina
A sensação de que a boceta é uma coisa ruim
E de que de alguma forma eu era culpada
A raiva que sentia
Não conseguia nem me olhar no espelho
Depois daquele dia, ao invés de desabrochar
Fechei-me sobre mim mesma
Minha infância acabou naquele momento
Mas também não me tornei adulta
Fiquei numa espécie de limbo
Em que me encontro até hoje
Conforme a o tempo passa
A ferida fecha, vira cicatriz
A vida segue, você casa, tem filhos
Mas sabe que existe um vazio bem lá no fundo do peito
Uma dor pungente, muda, que corrói pelas beiradas
Você a sufoca, mas ela quer gritar a todo custo
Você a esquece, e de repente ela sai da escuridão e te ataca
Nunca tive um orgasmo sequer com um homem
Nem com o meu marido, nem com nenhum outro
Até hoje sinto ansiedade e medo na hora do sexo
O jeito que um homem me olha na rua pode ser suficiente para me causar um ataque de pânico
Dedico esse relato inventado, mas absolutamente verossímil
A todas as mulheres que já sofreram, sofrem ou sofrerão violência sexual
Ou de qualquer outro tipo, pelo simples fato de serem mulheres
Mulheres que sofrem caladas, desde ainda crianças
Crianças que ainda nem sabem o significado das palavras violência, abuso, estupro
E terão que conviver com suas consequências traumáticas a vida toda
Casos como o meu não são exceção, senão a regra, a mais terrível das regras
Somos prisioneiras em nossas próximas casas
Vitimadas pelas mãos não de desconhecidos
Mas dos homens que amamos, ou que deveríamos amar
A violência sexual contra mulheres, incluída sua forma mais bárbara, a pedofilia
É uma chaga, uma ferida aberta que a civilização moderna não conseguiu extirpar
E que além de ignorar, de fingir não ver, nega que ela exista
Mas nós, mulheres, mães, filhas, esposas, sabemos que ela existe
Somos o dedo nesta ferida
Nós somos a ferida

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Mistério

O que você tem menina
Que tanto me fascina assim?
Que misterioso enigma
Esconde-se dentro de ti?

Serão esses olhos de felina
Quando os fixa em mim?
Ou será essa pele delicada
Que transpira a jasmim?

Serão os pelos da tua boceta
Que lembram um gracioso jardim?
Ou será a tua boca perfeita
Que beija com gosto de quindim?

Deste mistério sou presa
E dele não consigo fugir
Enquanto eu voo como mariposa
Entorno de ti, você se diverte e ri
Da minha obsessiva tristeza

Oxalá não tivesse escutado
O teu canto de sereia
Não teria caído como um pato
Na tua inescapável teia

Mas é tarde pra choradeira
Se desse pecado sou culpado
E culpado sou, de fato
Carrego a culpa sem petinência

A rua

Na rua se vê beijos
Abraços, mãos dadas
Se vê caras amarradas
Marmitas amassadas
Olhares de medo
Portas abertas e fechadas
Janelas lacradas
Câmeras e guardas
E muito dinheiro
Indo de lá pra cá, de cá pra lá
Trocando de mãos pelos guichês e caixas
Parece complicado
Mas é fácil resumir toda essa bagunça
Se me vem dinheiro, sorrio
Se me vai, corro atrás de mais
Se não fosse o dinheiro
Tudo isso parava
O semáforo não abria
A cidade não dormia
Nem acordava

Na rua se vê também muita gentileza
Algumas verdadeiras, outras falsas
Obrigados insinceros
Tudo de bons irrefletidos
Dá licenças que’u tenho pressa
Desculpas de não posso fazer nada
Não faço as leis, só as cumpro
Em cada esquina, em cada cruzamento
Um encontro e uma despedida
Um rápido aceno
E já se perderam novamente na multidão
Quem sabe no próximo ano
Eu a convide para aquela bebida
– Meu Deus, olha a hora!
Tô atrasado pra reunião!
Meu chefe me mata!
Tchau, tudo de bão
Mande recordações à família
Melhoras à sua tia
E parabéns pela promoção

Por sorte pela rua se vê também loucos
Profetas, artistas, poetas e bêbados
Militantes, anarquistas, punk e hippies
Alguns até são tudo isso ao mesmo tempo
Gente que não fica presa no trânsito porque vai de bike
Que está cagando para o fim da família brasileira
Que acolhe cães e gatos, como eles, sem abrigo

O que seria da rua não fosse os descontentes
Para quebrar a pobre monotonia do dia a dia?
Para nos fazer ver que o cotidiano não é destino
Mas uma escolha que refazemos inconscientemente todos os dias?

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Romântico-cômico

Ame, de dar vexame
Mas não se avexe
Se acharem graça
Só o amor puro-sangue
É cômico de dar dó
Amar é absurdo
E quem não ri de si
Não ri com o mundo