quarta-feira, 19 de novembro de 2014

A estrada

Poucas coisas são mais tristes
Do que a estrada
Vista pela janela do ônibus
No silêncio da madrugada
As luzes miseráveis no horizonte
Contra o negrume lúgubre da noite
São como fogos fátuos
Que atestam a nossa pequenez
A nossa brevidade
As casas de fazenda
Solitárias
Pontilhando como vagalumes
Parecem saídas de um filme de terror
As luzes mortiças das cidades
Como um grande cabaré decadente
Frágeis contra as trevas
Que as ameaçam engolir
As ruas desertas, mortas
Como vielas de cemitérios
Feitos de concreto e aço
Que ninguém traz flores
Os postos e máquinas
As fábricas e armazéns
Os motéis e bares
As igrejas e bordéis
Tudo me lembra abandono e solidão
Que nem o estrelado do céu
Faz mais alegre
As rodoviárias melancólicas
Com tantos caminhos
Não nos dizem pra onde ir
São entrepostos de almas
Perdidas e magoadas
Vendendo-se e trocando-se por aí
O cadência monótona do ônibus
Me embala na poltrona
Mas eu não consigo dormir
A mente vaga e fica
Em cada árvore
Em cada vaca
Em cada pobre casa de beira de estrada
Tristes e solitárias
Que passam rápidas
Fugindo como presas acuadas
Do tempo e da morte
Do desgosto e do esquecimento
Essa noite não tem fim
Porque a viagem
Jornada longa e demorada
É dentro de mim
Não se apresse motorista
Eu não tenho parada
Aonde ir
Descansar a alma
Calejada
Nessa beira de estrada
Sem fim
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