sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Não!

O não é o látego de todos os poderosos;
É a tara dos ciumentos e mesquinhos;
Mas é também a arma dos explorados,
Dos pobres humilhados e vilipendiados.

O não é basta, gritado a pulmões plenos;
É o nunca mais calados aguentaremos,
Cabisbaixos, entorpecidos e prostrados;
É tudo o que restou aos despossuídos.

O não é a afirmação dentro da negação
A luz que contêm a trevas e a escuridão
É a liberdade que nasce da escravidão

O não é a nossa garantia de salvação;
É o gládio da nossa revolução;
A herança que deixaremos aos que virão;
É o símbolo altivo do nosso pendão;
E empunhando-o alto, gritamos em uníssono: não, não e não!

Par

Você úmida
Eu duro
Você molha
Eu latejo
Você escancha
Eu penetro
Você puxa
Eu adentro
Você aperta
Eu forço
Você vulva
Eu pinto
Você goza
Eu esporro

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Gosto de infância

Você tem sabor de doce
Daqueles de sítio
Que só a vó fazia
Pros cafés da tarde de domingo
Com a criançada reunida
A volta do vô ouvindo histórias
Cheias de aventura e perigo

Tem cheiro de infância
De manga colhida do pé
Da terra úmida pela manhã
Da cachoeira e do rio
Do cavalo
Belo e forte
Que nos fascinava

Tem a inocência de quando subiu na árvore
Pra cumprimentar o senhor e a senhora joão de barro
E encontrou a casa vazia
Chegara tarde, a família tinha se mudado

Quando corria com seu simplório vestidinho de chita
Descalça, você tinha a liberdade dos pássaros
Se abrisse os braços você voava

Feliz o gosto da infância
Com suas boas lembranças
E seus sorrisos pródigos e despreocupados
E agora, que já não é mais criança
Que gosto você tem?

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Mulher

Já fui pecado
Na doutrina da Santa Sé

Já fui gado
Na filosofia de Aristóteles

Já fui bruxa
Para as pessoas de fé

Já fui Geni
Boa de apanhar e boa de cuspir

Já fui déclassée
Na declaração dos direitos civis

Hoje sou mulher
Nem santa, nem puta
Nem natureza, nem deusa
Nem mãe, nem amante
Hoje sou mulher

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Rima

Lua rima com rua
E rua rima com chuva
Chuva rima com madruga
E madruga rima com cintura
Que por fim rima com você nua
E tudo isso rima com a pintura
Que faço de ti:
Nua, numa madruga de chuva e lua
Bambolenado a cintura, louca, pela rua

Nesse vai e vem

Nesse vai e vem do dia e da noite
Eu nem sei mais quando é hoje
Se é domingo ou quarta de cinzas
Se você vai e não vem
Não tem embalo
Nem balanço
Nem cadência tem
E de tanto vai e vem
O compasso das nossas pernas
O mesmo ritmo já não tem
Mas meu samba não espera
Se você vai e não vem
Eu vou e volto, meu bem
Dois pra lá, dois pra cá
Ó abre alas, que eu quero passar

Os dias e os sonhos

Meu sonho?
Um dia, quem sabe
Os sonhos vivem no futuro
Não no presente

Quantos sonhos cabem num dia?
Quantos dias para realizar um sonho?
Tens um dia pra sonhar?

Há um dia pra cada sonho
E tantos sonhos quanto há dias
Se os dias são infinitos
Os sonhos também são

Há sonhos que levam anos e anos
Sonhos que não chegam nunca
Sonhos que só ficam na esperança
E outros que o dia traz de presente
Há dias em que nem se sonha
E outros que viram sonho de repente

Tenho tantos sonhos que me faltam dias
Por isso, encho meus dias com um mundo de sonhos
E guardo nos dias que virão a esperança dos sonhos que me faltam

A moderna dialética do senhor e do escravo

Assim como todos os oprimidos e explorados
As mulheres estão destinadas, são herdeiras
E não por uma espécie de determinismo atávico
Sucede que as qualidades que desenvolveram no cativeiro
Conferem-lhes vantagem sobre seus senhores
É a lei da dialética entre o senhor e o escravo

Os homens não vão simplesmente desaparecer
Mas se não querem ver-se espiritualmente extintos
Nada podem fazer exceto procurar aprender
Tudo o que lhes passou pela vista despercebido
Enquanto brincavam de brincar com o poder

É bom que os homens se lembrem como correr
Pra não perder o bonde da história
Que já se apressa a deixar a estação desta época
Se não vão ficar como cachorros
Que caíram do caminhão da mudança
Sem donos, desamparados,
Com cara de estúpidos, sem saber o que fazer ou dizer
Sem saber como, logo eles, tão cheios de si,
Tão viris, tão donos da situação,
Foram se perder nas curvas da evolução humana

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Como fazer poesia

A poesia é filha da lua
Feita numa noite cálida
Em meio à natureza
Nas areias da praia
Você, enlouquecida
Pela lua iluminada
Subia e descia
Ia e vinha, nua
Enquanto cavalgava
Pra lua uivava
E eu de luz te inundava
É assim que a poesia é concebida
Durante uma foda boa
À luz da lua

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Faz um diário

Meu corpo é papel,
Que já foi muito escrito,
Rasurado e amassado;
Suas linhas o tempo borrou,
Mas sempre resta,
Nalgum canto,
Um pedacinho em branco,
Pra escrever uma história nova.

Minha pele fina folha,
Pede tinta nova;
Usa tua caneta,
Grafa cá tua letra,
Faz dela um diário,
Pras tuas queixas;
Enfeita-a com mimos;
Põe nela tua carência,
E teus defeitos.

Esconda-a na gaveta,
Junto aos teus mais queridos segredos,
Com o zelo de uma criança boba,
E só tire-a de lá num dia de outono,
Quando a chuva bater na janela.
Na minha pele encontrará teu nome,
Feito tatuagem.

Abaixo a poesia lírica!

Abaixo a poesia lírica!
Um pouco mais de carne,
Poeta, um pouco mais de vida em tua lira!
Chega de evasão egótica!
Em outras veias também corre sangue,
Poeta; se saísse de teu refúgio anímico o saberia.
Tuas dores não são mais dignas que as minhas;
Teus amores não são mais intensos que os meus.
Chega de autocomplacência ou autopiedade em tuas poesias.
E ainda que auto-ironia impinja-te, és um tolo, poeta.
Deixa o romantismo no passado,
Põe de parte tua obsessão com a morte;
A vida não pede senão que a viva, em festa.
Há todo um mundo para além do teu impressionismo oco,
Mundo que de histórias fervilha,
De gente que chora, que sofre,
Que ama, que odeia, que goza e que ri.
Se quer fazer poesia de verdade,
Se quer saber a verdade da poesia,
Poeta, desvia o olhar de si e olha
Em volta; olha pra essa gente
E me diz, se não fazem poesia sem o saber
Pelo simples fato de estarem vivos?
Inspira-te nessa gente, poeta,
E verás que, antes de aprender a escrever,
É preciso aprender a viver.

Sobrei

Eu sobrei
De tão cheio
Transbordei
Pelo peito
Vazei
Por todos os poros
Extravasei
Até o pescoço
E emborquei
Eu todo
Na sua boca
Pra quem andava
Vazio e meio
Ando agora tão inteiro
Que até sobra
Quem quer pedaço?

domingo, 19 de janeiro de 2014

Espinhos

As pessoas têm espinhos
Que quando jovens
São ainda pequenos e macios
Mas elas crescem e endurecem
E assim também os seus espinhos

Para não se machucarem
Quando estão juntas
Mantêm entre si distância segura
E as armas sempre em guarda
Embora desejem, lá no íntimo
Companhia e ternura

Acima dos espinhos
Exibem formosas rosas
E ninguém há aos ouvidos
Que lhes diga quão únicas e belas são
A vida é dura com as pessoas
Se por um lado lhes dá um coração
Por outro com espinhos o coroa

A culpa é deste vazio
Deste vazio existencial
Que me come as entranhas
Quanto mais pessoas eu lá dentro eu jogo
Mais sozinho aqui fora eu me sinto

A primeira vez

Já faz tempo agora
E a memória engana
A história que me contas
Será a mesma que trago na lembrança?
Lembro que a gana era muita
E ardia, ardia como chama
A lua ia alta, cheia
Ou ela sorria?
Um sorriso largo e satisfeito
Você mentiu pra estar comigo
O vinho, o vinho tinha outro gosto
Na sua boca rubra
Acho que era o gosto do proibido
Do desejo
Só nosso, nosso doce segredo
Bastava um toque
Um dedo, na nuca
Por entre a virilha, nas dobras da bunda
E eriçavam-se os pelos
Subia o arrepio do cóccix até os cabelos
Enlanguescia as pernas e contorcia a cintura
Esquecemos a timidez, a inocência, o recato
Éramos dois devassos, impudicos, depravados
Diabo, íamos para o inferno, mas íamos felizes!
Ao mesmo tempo, era tudo tão sublime
Para não sair voando, nos agarrávamos à existência segurando pinto, boceta, mamilos, saco e grelho
Minha vida se alimentava do teu gozo
Minha vida se ligava à sua pele suada
E, para salvá-la, eu precisava ir mais fundo
Precisava mergulhar na tua alma
Até encontrar a fonte que corre em teu útero
E você me puxava, me dizia vem, me dizia “sou tua”
Só pra depois me empurrar, e me bater com cara de safada
Era uma trepada, das boas, e era brincadeira, farra
Éramos duas crianças levadas a descobrir o mundo
O mundo escondido no gemido surdo que antecede um orgasmo

sábado, 18 de janeiro de 2014

Sobre o tempo

Curiosa a nossa expressão “perder tempo”. Ninguém gosta e ninguém quer perder tempo. Mas por trás dessa expressão encontram-se algumas ideias básicas sobre as quais nem sempre estamos conscientes. Ideias sobre o que é o tempo e sobre com que é bom ou ruim gastá-lo. Se, atrasado para o trabalho, eu paro para ver o nascer do sol ou algum músico de rua, estou perdendo tempo? Se, voltando para casa, desvio meu caminho para visitar um velho amigo, estou perdendo tempo? Claro, essas são situações banais, para as quais as consequentes repostas podem variar muito de acordo com as circunstâncias. Mas o mesmo questionamento vale para espaços de tempo mais amplos. Se, ao terminar o colégio, não ingresso de imediato na faculdade; se ao invés de quatro anos levo sete para concluí-la; se, após diplomar-me, escolho não procurar trabalho e resolvo viajar pela América Latina, estou perdendo tempo? Claro, também aqui a escolha pode variar de acordo com as circunstâncias e as condições de cada um. Contudo, o ponto aqui é: porque a pressa? O que nos faz pensar que a vida é uma competição? A onde queremos chegar com tudo isso? Estou plenamente consciente das minhas escolhas? Quero dizer, se eu soubesse como o mundo é vasto, belo e excitante, ainda assim escolheria ter pressa para fixar raízes, comprar uma casa, fazer carreira no trabalho?

Sonho de menino

Ainda na tenra infância,
Quando não passava eu de menino,
Já sonhava com a estrada,
Que pra longe levava,
Pra outras searas, sem destino,
Este pequeno peregrino.

Na minha inocência, pensava
Como seria bom ser um mendigo viandante,
Que em qualquer lugar se arranjava,
Era essa a minha definição de liberdade.

Assim eu sonhava, cabeça nas nuvens
E os pés, feito asas, na estrada,
Com o sol a queimar as costas
Da praia; o cimo dos morros e montes
Das serras; o infindo mar vindo em vagas
E indo, sumindo para além do horizonte,
Com o céu imiscuindo-se,
Naquele ponto, que não se sabe onde,
Começa um e termina o outro;
Ou seria começa outro e termina um?

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

A juventude sem voz quer ser vista e ouvida: sobre os rolezinhos

Desde dezembro do ano passado, a elite burguesa e branca brasileira está incomodada com a ousadia da juventude mestiça e pobre. Os chamados “rolezinhos” escancararam o racismo, o elitismo e a segregação social que vigora veladamente em nossa sociedade, deixando a descoberto o abismo social entre brancos e negros, ricos e pobres.

A cobertura da grande mídia, pretensamente jornalística, é um festival a parte de desonestidade e hipocrisia, montada com o propósito deliberado de passar a ideia de que os rolezinhos são, se não criminosos, ao menos um convite à baderna e a ações criminosas, o que justificaria a repressão e a postura elitista dos empresários diretamente interessados em coibir tais manifestações. A tomada de posição aqui é evidente. A discrepância entre a descrição de observadores sérios e a narração jornalística policialesca é patente e enervante. Esta última dá forte e desmedida ênfase às ações da polícia, passando a impressão de que se trata efetivamente de um caso de segurança pública. Toda a narrativa – a forma de conta-la, a desproporção entre os fatos que a compõem, as premissas que a sustentam – é construída de modo a criminalizar os “roleteiros” e de legitimar as queixas de seus opositores.

Alegações de saques e vandalismo são recorrentes, embora tais coisas não tenham acontecido, ou, se aconteceram, foram feitas por uma minúscula minoria que não representa o espírito do movimento. Na verdade os rolezinhos buscam justamente o contrário, isto é, afirmar os valores burgueses de consumo e, vale dizer, por vias legais. Eles são compostos por jovens trabalhadores pobres que moram com os pais e preferem empregar seus magros salários em lazer e em bens que lhes confiram prestígio.

Não vou entrar aqui no mérito desses valores, ou melhor, não vou aqui valorar negativa ou positivamente a adoção desses valores por parte de um grupo social cuja condição de exploração está umbilicalmente ligada à vigência desses mesmos valores. Penso que se trata de uma ilusão, que lhes é negativa, portanto. Mas o consenso ativo dos oprimidos em relação às ideias que informam a visão de mundo de seus opressores é um dado generalizado, ou seja, não é exclusividade de uma juventude alienada e fútil.

A questão importante aqui não é se essa juventude busca um caminho potencialmente negativo, alienante e não-emancipatório, mas o que essa busca significa e o que ela nos diz sobre a nossa sociedade e o nosso país. O que esses jovens estão dizendo é: queremos ser iguais a vocês! Queremos consumir, queremos fazer parte deste mesmo mundo do qual vocês fazem parte! E o que a classe média, a burguesia, a elite, lhes dizem em resposta é: nunca farão! Esse mundo é nosso, exclusivamente nosso! Por mais que o país mude, nada muda.

A elite branca e burguesa brasileira sustenta ainda hoje, por razões históricas, uma mentalidade colonial, escravista, mentalidade de casa grande e senzala. Ela é elitista, segregacionista, racista, preconceituosa. Quer crescimento econômico, maior renda, investimento; quer viajar mais para os EUA a compras, quer trocar o carro por um maior e mais potente, quer mais luxo e conforto, mas não quer abrir mão de seus espaços e atividades exclusivos, seus símbolos de poder e status; aceita que o pobre tenha tevê de plasma e iPhone, mas não que ele frequente shoppings, restaurantes caros ou aeroportos.

Isso tudo, claro, é mais um temor decorrente de uma percepção enviesada do que um dado real. Noutras palavras, os espaços e estilo de vida da burguesia não estão ameaçados por um proletariado aburguesado crescente, como gostaria de fazer-nos acreditar a esquerda governista. O ingresso ao mundo do consumo por uma classe C recentemente alçada ao status de “nova classe média” (eufemismo para “classe trabalhadora com maior poder de consumo”) é menos um fato do que uma ilusão. Mas a elite branca e burguesa é, como toda elite, temerosa. Tem medo da miséria que a rodeia e para a qual ela de ordinário não olha e não se interessa, senão quando ela explode em violência. E qualquer manifestação social, cultural ou política que venha dos setores implicados nessa miséria, especialmente os jovens, é imediatamente identificada como violência.

O que ninguém pode esconder é a discrepância entre a cor/tom de pele majoritária (negra ou parda) e a origem social (bairros pobres e favelas) dos “roleteiros” em relação à cor/tom de pele e origem dos frequentadores tradicionais dos shoppings. É o encontro de dois mundos que coabitam, embora paradoxalmente estejam segregados. Os espaços urbanos não são neutros. Violar a convenção tácita que demarca qual espaço é de quem só poderia levar às deprimentes cenas que temos presenciado. É por isso que argumentar que o temor em relação aos rolezinhos deve-se ao fato de que estão compostos por maloqueiros e funkeiros, ou seja, por uma juventude transviada, não cola. O medo da burguesia branca é generalizado em relação aos pobres e pretos. Há alguns anos atrás uma espécie de rolezinho havia sido organizado com trabalhadores sem-terra e sem-teto na cidade de São Paulo. Eram famílias inteiras, e não apenas adolescentes. Adivinhem: a reação foi a mesma. Chegou-se até a pedir judicialmente pela proibição de sem-tetos entrar em shoppings.

Além do mais, sabemos que o problema não são os jovens baderneiros. Desde 2007 bichos da FEA-USP fazem algo muito parecido com o rolezinho no shopping (dado seus gritos de guerra ofensivos, eu diria que são ainda mais perturbadores). Mas, neste caso, são jovens majoritariamente brancos, filhos de empresários e profissionais liberais. Por que num caso se trata de diversão/comemoração sadia, e noutro se trata de vandalismo e perturbação da ordem pública? Justamente porque a questão aqui não é a baderna, é a cor de pele, é a origem social.

Ora, quando essa “gente diferenciada” adentra espaços exclusivos como os templos de consumo da elite ocorre um choque. Ninguém estranha a Casas Bahias lotada de gente pobre e mestiça. Mas um shopping! O shopping foi pensado precisamente como um enclave de segurança num mundo inseguro! Reparem que o shopping inspira-se na estrutura da cidade, com suas vias, lojas, praças. É a cidade perfeita, ideal, onde os "cidadãos de bem" podem andar a pé sem risco de serem assaltados ou incomodados com a visão da miséria. Quando esta adentra esse espaço, rompe-se assim a convenção tácita que demarca os espaços permitidos e proibidos. Acontece que é preciso violá-la; é preciso expor as fraturas de nossa sociedade injusta, opressora e desigual. A liminar conseguida do poder público pelas empresas donas dos shoppings não institui um apartheid. O apartheid já existe, mas não o percebemos como tal. O que os rolezinhos lograram fazer foi justamente torna-lo evidente.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Perguntas e respostas

Este mundo não é para entender
E não devemos toma-lo tão a sério
Onde está a graça senão no mistério?
O céu azul é azul por quê?
Quem veio primeiro, o ovo ou a galinha?
Ou seria a cloaca?
Quantos grãos de areia há numa praia?
Por que de dia tem sol e de noite tem lua?
Se há uma resposta, ótimo
Se não, ora, ótimo também
Afinal, respostas são muitas
Encontre uma que lhe satisfaça
Porque o mundo é para se viver
Sem hesitação, sem pejo
O céu é azul porque assim ele é belo
O ovo e a galinha são saborosos, bons de comer
A praia é linda, e a areia sedosa, macia
O sol aquece e ilumina
A lua é mágica e verte poesia
Muito entendimento sem contemplação
Sem experimentação
Não faz bem para o coração
Mas tampouco fâ-lo à razão

Casamento

Tua presença é a minha ausência
Dias a fio de solidão acompanhada
Mas não diria compartilhada
Tua mudez casa com a minha indiferença
E a gente vive a vida assim, levando-a
Arrastada, quase que de forma obrigada
Para parafrasear Manuel Bandeira
Uma vida inteira que poderia ter sido
E não foi – Ah! Não era isso que eu planejara...
Mas casamento não é doença
A família não se nos impõem como preceito divino
São apenas roupas velhas, gastas
Roupas que não nos servem mais
Se não nos é mais possível usá-las
Que andemos então pelados!