sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Porque as vezes não consigo escrever poesia

Poesias vem e vão
Sem mais nem menos
Como dias bons
Como alegres momentos
Não duram para todo o sempre
Mas ficam de recordação
Num dia sou poesia
Noutro não
Hoje fiz um poema
Amanhã quem sabe
Ele vira canção
Voz e violão
Enquanto isso
Vamos em frente
Com poesia ou não
Em dias de inverno ou verão
Pois os melhores poemas
Escrevem-se com os pés
E declamam-se com o coração
Nunca se sabe
Que belas liras virão
Quão belos os versos serão
No próximo dia bom

Felicidade (II)

Era feliz
Não porque tivesse muito
Porque nada faltasse
Mas porque bastava-lhe
O pouco que tinha
O pouco é suficiente
Quando é tudo de que se necessita
Era feliz
Não porque não tivesse medo
Culpas e angústias
Mas porque sabia
Que sua fé, sua força
Sua vontade de ser uma melhor pessoa
Era maior que todas as pedras
Juntas
A vida é sofrida
Caminho feito de curvas
Mas não é uma via-cruzes
Nem viemos cá pagar penitência
Era feliz
Porque mesmo a vida machucando
Tinha certeza que uma vida que não machuca
Que não se arrisca
Não vale a pena ser vivida
Por isso tudo
Por ser grato
Com a cota que recebera
E despojado com a parte que ia deixando
Era feliz sem ser
Era feliz estando
E feliz ia passando
Até o dia em que essa palavra
Não fará mais sentido
Nesse dia de serenidade
Felicidade será quase uma matéria
Qualidade do mundo
Natureza pulsante
E não um consolo
Sonho distante
Tristemente
Humano

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

O que significa que os homens devem se manter fora da luta feminista?

Advertência: essa breve reflexão não tem por objetivo falar pelas mulheres; trata-se apenas de uma tentativa de racionalizar logicamente um argumento defendido por elas, o qual eu aceito, buscando determinar, assim, seus pressupostos e implicações. Mas, acima de tudo, é uma tentativa de racionalização que visa refutar as críticas advindas do campo masculino a esse argumento. Essa advertência não teria qualquer valor se ficasse apenas na declaração formal, afinal as palavras de não pretensão podem esconder uma pretensão de fato. Deve-se então partir do suposto de que essa racionalização não revela nenhuma verdade, senão é apenas uma forma possível de fundamentar logicamente um argumento. Alguma mulher pode ou não incorporar essa racionalização ao seu argumento. Feita essa ressalva, avancemos. Acho que agora eu entendo melhor o argumento das feministas, com o qual já estava de acordo, de que o homem deve se manter fora da luta feminista. O argumento se baseia em duas ideias: 1) a mulher deve ter autonomia sobre si mesma, já que esta é exatamente a finalidade da luta (e autonomia em relação quem? Ora, em relação exatamente ao homem); 2) como essa autonomia implica que reflitam sobre suas experiências e ajam por conta própria, a presença do homem distorce na melhor das hipóteses e impossibilita na pior essa autonomia. Isso, no entanto, não significa que as feministas não queiram criar homens feministas. Do contrário a luta não faria sentido, a não ser que fosse concebida como uma guerra entre inimigos mortais cuja vitória de um implica a destruição do outro. Não se trata, portanto, de essencializar as posições – ora, desconstruir ideias essencialistas, seja sobre a natureza da mulher ou da do homem, é precisamente uma das condições de sucesso da luta feminista. O homem não pode tomar parte diretamente dessa luta não pelo simples fato de ser homem; se fosse isso, a luta cairia novamente em ideias essencialistas segundo as quais o homem é homem porque tem pênis, e a mulher porque tem vagina, sendo que seu comportamento – machismo e feminismo – seria deduzido dessa condição imutável. Porque ela é imutável, determinada biologicamente, a luta não faria sentido, já que toda luta social pressupõe a possibilidade e a capacidade de transformar uma condição que é, na verdade, uma situação social. Se se parte de um pressuposto essencialista, conclui-se então que o homem e a mulher são machista e feminista por natureza, e a luta entre ambos se reduz a um cabo de guerra onde a vitória de um pressupõe a derrota do outro e vice-versa; e já que homens e mulheres existem e não podem ser simplesmente destruídos, seria forçoso concluir que essa luta é natural e eterna. Esse tipo de raciocínio nos leva, portanto, a um beco sem saída. Portanto, não se trata de essencializar essas posições. Disso não se conclui que elas não existam. Elas existem, e importam porque têm implicações para a luta feminista. É precisamente este o ponto do argumento das feministas. O feminismo, pensado como um projeto de sociedade onde as relações de poder entre os gêneros estão ausentes, implica a participação do homem, porquanto só com a criação de homens feministas pode uma tal sociedade vir à luz, e para que tais homens surjam é preciso que eles tomem parte da luta, ou seja, que eles se criem pois, como seres humanos que são, é impossível que simplesmente sejam criados por uma força exterior. Por outro lado, o feminismo enquanto modo e espaço de organização e luta política de uma categoria social específica, a mulher, implica a ideia contrária, isto é, que as mulheres tenham autonomia e completa liberdade para refletir sobre suas próprias experiências, necessidades e objetivos. Daí que, embora o feminismo tenha o mesmo sentido tanto para a mulher quanto para o homem (feminista), seu significado para uma e para o outro são em tudo distintos. E como na disposição de poder entre os gêneros o homem ocupa o polo dominante e a mulher o dominado (independentemente se esse homem se vale ou não conscientemente dessa posição de poder), cabe a ela tomar a posição ativa e insubordinada, e o homem a posição passiva e subordinada, e isso pressupõe que o feminismo enquanto luta política (no sentido que dei acima) seja, em princípio, exclusivo da mulher. Dessas novas posições políticas, que subvertem as posições sociais tradicionais, é que deriva o papel e o lugar de cada um dos gêneros nessa luta. Portanto, a defesa de que os homens mantenham-se fora da luta feminista é um princípio político, do qual alguns movimentos feministas se aproximam mais e outros menos, desde os que negam veementemente qualquer participação masculina até aqueles que a aceitam em pé de “igualdade” (as aspas são minhas). Esse princípio político não quer dizer que os homens não tenham algo a dizer sobre o feminismo/machismo, ou que as mulheres não querem ouvir. Entretanto, o fato é que o feminismo quer nos colocar justamente na situação oposta: agora são as mulheres que falam e os homens escutam (pelo amor de jah, homens, não confundir isso com a ideia infantil de que as oprimidas querem, assim, se transformam em opressoras; o que elas querem que escutemos é o seu ponto de vista).

Da série: entendendo o próprio machismo

Há alguns meses, publiquei aqui uma pequena anedota que sucedeu comigo e da qual afirmei estar orgulhoso: tinha sido chamada de mulher por uma garota. No auge da minha alegria vim a público declarar-me como mulher. Recebi críticas de um lado, e elogios de outro. Uma grande amiga me disse que eu estava sendo ofensivo. Na ocasião não entendi exatamente onde estava a ofensa. Ocorre que, orgulhoso com os resultados positivos da minha própria jornada pessoal de desconstrução de meu habitus machista, provavelmente não quis entender. Ao ser chamado de mulher eu estava sendo elogiado, mas quando eu mesmo me declarei mulher não estava elogiando as mulheres. Refletindo sobre o episódio agora, percebo que a mulher que me chamou de mulher estava querendo dizer que eu era o HOMEM mais mulher que ela conhecia, mas obviamente não uma mulher. E isso muda tudo. Com efeito, uma terceira mulher (nessa história toda) me fez ver depois que eu não apenas sou um homem, mas me identifico como tal e, no fundo, gosto de ser um. Percebi que eu não preciso me identificar com o modelo social machista e sexista de homem para ser um. Não me identificar com esse modelo de homem não faz de mim mulher. Como essa outra amiga me disse, se estou com calor tiro a camisa e ponto; se estou apertado, abro a braguilha e faço xixi na rua sem medo algum, eu simplesmente faço e não penso sobre os significados desses atos privilegiados. Mas há, ainda, comportamentos muito mais sérios, como pressionar a parceira a fazer sexo sem camisinha, quando esse ato têm consequências muito mais negativas a ela do que a mim exatamente pelo fato de ela ser mulher e eu ser homem. Quando faço isso não apenas estou sendo egoísta, estou sendo machista. E sem dúvida poderia multiplicar os exemplos de pequenos comportamentos e atitudes, aparentemente inofensivos, mas que são opressivos do ponto de vista da mulher, tais como gestos físicos, inconscientes e implícitos, de intimidação masculina. Daí porque me declarar uma é extremamente ofensivo. É ignorar todas essas diferenças e, pior ainda, é ignorar a minha própria condição de homem e meu papel, não obstante crítico e reflexivo, na reprodução cotidiana do machismo. Tudo isso me fez compreender melhor algo que eu já aceitei mas que talvez não tenha percebido todas as suas implicações e consequências: que a minha condição de homem é determinante, e eu nunca vou saber – porque nunca vou experimentar – como pensam e sentem-se as mulheres. Disso decorre um corolário essencial: elas têm de pensar e falar por si mesmas, e isso supõe que os homens estejam em princípio fora da luta contra o machismo. Em princípio, porque essa participação, para além da sua própria desconstrução pessoal, se faz limitada pela sua condição de homem e pelo que esperam dela as mulheres. E tudo isso reforçou em mim também a certeza de que a luta contra o machismo, ao menos de uma perspectiva individual, é diária e se faz em minúsculos campos de batalhas da vida cotidiana. Os homens que se consideram realmente feministas devem entender que, muito mais do que levantar bandeiras, gritar palavras de ordens, apreender princípios abstratos e argumentos teóricos ou decorar dados estatísticos, somente irão começar a compreender profundamente o patriarcado e o seu próprio papel na sua reprodução ouvindo atentamente as mulheres com quem dividem a vida cotidiana – colega, amiga, namorada, irmã, mãe, etc. –, e com elas se colocando numa relação de alteridade e empatia. E isso já é um papel bastante ativo, uma vez que essas mulheres não precisam ser feministas e ter consciência crítica do machismo para que o homem que se coloque do seu ponto de vista entenda como suas crenças e atitudes são machistas. Empatia e alteridade, embora seja uma postura de quem ouve e não de quem fala, depende da iniciativa do homem, ou seja, depende de uma vontade pessoal do eu de se refletir n@ outr@. Mas quando se trata de mobilização, organização, discussão das suas próprias experiências entre si, troca de ideias e valores, definição de objetivos, nisso o homem tem um papel quando muito exterior, passivo e subordinado. Chegamos, assim, a três premissas básicas que devem nortear a ação do homem feminista: 1) sua condição de homem é determinante para a sua percepção e entendimento tanto do machismo quanto do feminismo; 2) dessa condição (que, vale lembrar, não é inerente, mas trata-se de uma escolha; eu, por exemplo, escolhi ser homem) decorre um papel específico e subordinado na luta pró-feminismo; 3) o melhor lugar para o homem compreender e atuar contra o machismo é a nível cotidiano, nas relações próximas e nas atividades do dia-a-dia.