domingo, 31 de agosto de 2014

Sobre racismo e racistas (ou: de te fabula narratur)

O episódio de racismo envolvendo a torcida do Grêmio e o goleiro do Santos gerou uma onda de revolta e indignação que tomou as redes sociais. Mas é duvidoso se essa é uma resposta correta.

A minha timeline foi inundada por fotos e vídeos de uma garota xingando de “macaco” o jogador santista. A título de explicação, acompanhando essas fotos e vídeos não vi nenhuma ideia ou argumento profundos, além de mais xingamentos, ameaçadas e desejos de “punição”. 

Linchamentos e caças a bruxas são respostas emocionais que se orientam por preconceitos e que buscam expurgar o mal através da violência ao personificá-lo em determinadas pessoas claramente identificáveis e responsabilizáveis. Nisso, não se distinguem do próprio mau ao qual se opõem: os linchamentos públicos racistas de jovens negros e pobres acusados de crimes seguem precisamente a mesma lógica. E o exemplo perfeito disso é que de anti-racistas muitas das declarações na rede mostraram-se machistas e, em casos extremos, misóginas e violentas. 

Se houvesse coerência nisso tudo, deveríamos caçar e linchar também quem chamou a garota de “vadia” e “vagabunda” que merecia “ser estuprada” – e não foram poucos. Nada no comportamento dessas pessoas, aparentemente comprometidas com a justiça, se distancia do comportamento daquela que tomam por réu: foram preconceituosas, discriminatórias, odiosas, e se protegeram covardemente atrás da massa e do anonimato virtual. 

Uma vez que a impunidade e o anonimato incentivam comportamentos ofensivos e racistas como o da torcedora gremista, é necessário identificar e punir seus responsáveis onde e quando ele ocorrer. Mas isso de modo algum deve ser feito como uma turba ensandecida exigindo que alguma cabeça seja cortada como reparação. Por mais difícil que seja, deve ser feito racionalmente e com dignidade. 

É como se de repente o racismo se personificasse numa única pessoa. A turba confortavelmente esquece, assim, que, tal como 99% do crime de estupro é cometida não por homens desconhecidos em algum beco escuro mas por homens próximos da vítima (maridos, pais, tios, amigos), 99% do racismo não é praticado ostensivamente mas por atitudes veladas e sutis. Assim, o racismo deixa de ser um problema social para se tornar um problema individual, moral, de caráter. 

Aparece aqui claramente o mecanismo de expurgo e expiação dos próprios pecados através de sua atribuição ao Outro: uma vez transferido todo o mau e todo a culpa a uma pessoa claramente identificada, pode-se, de um lado, eximir-se de toda responsabilidade por ele, assim como, de outro, destruí-lo ao destruir a sua personificação. 

Com isso, os justiceiros podem ir dormir o sono dos justos, imaginando que nada têm a ver com o racismo, e que o mundo agora é um lugar melhor porque uma racista foi destruída. Mas quantos deles podem honestamente dizer que nunca tiveram um pensamento ou uma atitude racistas?

sábado, 30 de agosto de 2014

Eleições 2014 (II)

O tempo pode passar duas idéias distintas: por um lado, sugere experiência e, portanto, capacidade; por outro, sugere caducidade e, assim, morte. O PT tem sido ameaçado por essa segunda idéia.

O partido não pode evitar ser responsabilizado pelo que fez e pelo que não fez. Como está no poder há 12 anos, enfrenta os ataques da oposição de direita, muito bem armada através da mídia e da influência ideológica das “elites”; mas enfrenta também investidas vindas à sua esquerda, desde grupos e movimentos que lhe fazem oposição até aqueles que consideram o partido um aliado. Fora desse eixo, existe o campo dos não-alinhados, que cresce cada vez mais, especialmente com os jovens adultos que ingressaram no mercado de trabalho já em tempos de PT.

Tudo o que o PT pode fazer é exagerar as diferenças entre ele e a oposição, além de superestimar os feitos da sua própria administração, assim opondo dois projetos tidos como os únicos possíveis: a continuidade entre o que supostamente está dando certo, ou o retorno àquilo que deu errado. O partido construiu para si mesmo o mito de um consenso, uma “pax social”, em torno de um modelo desenvolvimentista autônomo, sustentável e estável. Mas à medida que os sinais de que um terremoto se aproxima ficam evidentes, torna-se-lhe cada vez mais difícil esconder as rachaduras nesta construção mítica.

Em suma, como é o partido há mais tempo no governo, exibe a cara de cansaço, tem dificuldades em se recriar e leva porrada de todos os lados, ao mesmo tempo em que é chamado para prestar contas do que fez e não fez durante esse tempo.

O PSDB, visto como aquele que já teve a sua chance mas falhou, não conseguiu até o momento emplacar o nome do seu candidato à presidência, e com a ascensão da Marina essa possibilidade torna-se mais e mais distante. Os tucanos tinham interesse em incentivar a candidatura da ex-ministra do meio ambiente como meio de desorganizar o campo petista, já que os votos dela saem principalmente da base governista descontente, além dos independentes e novos eleitores. O problema é que o feitiço virou-se contra o feiticeiro, e a criatura mostra-se muito mais forte do que imaginava o criador. Como resultado, o PSDB pode amargar seu pior resultado a nível nacional em 20 anos, ainda que tenha força suficiente para barganhar e influenciar as pautas políticas.

No momento, seria temerário prever a vitória de Marina num provável segundo turno. É preciso esperar para ver se o fenômeno da sua ascensão meteórica não passará de fogo de palha assim que os ânimos se acalmarem, ou se o PT será capaz de reverter essa tendência. Um eventual governo Marina romperia com toda a sua retórica de “nova política” e escancararia a falsidade da tese da "terceira via". Seria obrigada a fazer alianças espúrias e de ocasião – o que ela já demonstrou não ter pudor de fazer –, e a questão da governabilidade seria o seu pé de barro, ainda mais do que foi para o PT. Lotada por razões pragmáticas e de conveniência numa sigla pequena como o PSB e coligada com outros partidos nanicos, depois da morte de Eduardo Campos, seu protetor dentro dela, Marina encontra-se isolada. Na hora de barganhar, seu apelo pessoal junto ao eleitorado de nada servirá.

Quanto ao seu programa econômico, nada há nele de novo, antes o contrário. Retoma a via neoliberal algo mais crua de FHC, que havia sido temperada com alguns poucos ingredientes socialdemocratas pelos petistas. A população, grosso modo, nada entende de política econômica. Mal informada e leiga em relação a problemas complexos, ela é presa das falsificações retóricas dos grupos dirigentes e do modo como a grande mídia (especialmente televisiva), autointeressada, filtra os embates entre eles. A população entende é do seu bolso. Por mais que a economia patine e arrisque descambar, enquanto isso não se fizer sentir no nível de vida do trabalhador médio (e o PT, sabendo disso, tem feitos esforços homéricos para maquiar a situação), ele se manterá fiel ao governo que, segundo entende, foi o responsável pela sua melhoria de vida na última década. Eis aí a frágil e única pilastra que mantém a Dilma, para todos os efeitos, ainda na liderança.

Eleições 2014 (I)

O resultado da eleição nacional deste ano, que parecia bastante claro, torna-se cada vez mais turvo. O fator Marina tem crescido nas últimas semanas, especialmente depois da morte do seu candidato à presidência, Eduardo Campos. Como e porque um evento trágico como esse pode refletir em votos para a ex-candidata a vice-presidente e agora sucessora “outsider” do falecido líder do PSB é uma questão de difícil resposta.

Parece uma resposta emocional dos eleitores, e de fato o é. Não é incomum que a população responda emocionalmente a um evento político trágico. Mas uma resposta emocional necessita, para se concretizar, encontrar determinadas condições que, estas sim, podem ser explicadas racionalmente.

A questão aqui não é se Marina representa uma “terceira via”ou não, ou seja, uma nova forma de fazer política, tão diferente e distante do PSDB quanto do PT. Não é. No fundo, a política é um museu de velhas novidades. Raramente há algo de novo sob o sol. A questão é se ela é percebida assim ou não pelos eleitores. E, para tanto, não basta a retórica da candidata, nem seu “sexy appeal”.

Desde a eleição de 2010 ficou evidente que a Marina tinha enorme potencial de crescimento. Muita água rolou de lá pra cá, e não é impossível que ela acabe alimentando o seu moinho. Progride uma crescente, embora difusa e vaga, onda de insatisfação popular. Por mais que os setores governistas tentem pintar um quadro róseo de desenvolvimento e avanços contínuos e sustentáveis, o modelo petista dá sinais evidentes de esgotamento. Sua base de sustentação, ainda muito firme em 2010 como provou a eleição de uma insossa Dilma, começa a vacilar.

De modo geral, 12 anos é uma idade avançada para qualquer projeto de governo e resistir a ela é um desafio enorme a qualquer ator político. Se recriar sem deixar o palco e voltar aos bastidores é quase impossível. Não adianta os governistas baterem na tecla do (quase) pleno-emprego e da redistribuição de renda. No exato momento quando a economia perde totalmente o fôlego e os problemas estruturais saltam aos olhos, as franjas marginalizadas da população que foram alçadas a uma situação relativamente melhor querem mais. As classes médias, por seu turno, estão aborrecidas como sempre, e a burguesia não tem mais feito o dinheiro que vinha fazendo na última década.

De diferentes maneiras, cada um desses setores expressa seu descontentamento, embora não necessariamente sua oposição. Por outro lado, o principal partido de oposição, e antigo antecessor, o PSDB, não conseguiu até agora se reorganizar durante a era petista, nem fazer-lhe frente, e portanto não se apresenta, ou melhor, não é visto como uma opção original ou viável.

A verdade é que o Brasil viveu, praticamente ao longo de todo este seu último período democrático, um sistema bipartidário de fato. Quando isso acontece, a tendência é que ambos os partidos hegemônicos se alinhem no centro do espectro político, ainda que se distingam tradicionalmente dentro do velho binômio esquerda-direita. Tão logo fatores externos – como uma crise econômica, por exemplo – ponham em xeque a estabilidade e a legitimidade desse arranjo, a percepção das diferenças entre os dois partidos desaparece, e a tendência do eleitorado é justamente procurar pela tal da terceira via.

Nem sempre ela existe. Se no Brasil houvesse um partido de extrema direita capitaneado por um líder populista, provavelmente teríamos aqui um fenômeno parecido com o que se observa em alguns países da Europa. No nosso caso, o fator de desequilíbrio é a Marina Silva. E ela provavelmente sabe de tudo isso. Não é inocentemente que ela joga PT e PSDB um contra o outro, ao mesmo tempo em que procura se apresentar como fora e acima do confronto entre eles. E, desgraçadamente para ambos, quanto mais miram sua artilharia nela, mais o fogo volta contra si mesmos. Até mesmo o grande bloco de oposição, que imaginava que alimentando a Marina criaria uma ameaça para a situação, a qual pudesse manobrar e controlar, percebe que a fera está ficando grande e forte demais.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Praticar a justiça

Quem sou eu para julgar
Onde o outro fraqueja
Onde ele falha ou desiste?
Eu, que, por graça do destino
Tive todas as condições
E oportunidades necessárias
Que sei eu das dificuldades dos outros?
Dos erros e das culpas
Só conheço as minhas
E a despeito de saber disso
Hei de passar a vida toda
Como todas as demais pessoas
A julgar e condenar todo o mundo
É bom, portanto, que
Além de oferecer-me também a julgamento
Ao julgar, ouça
Ao condenar, estenda a mão
O segredo da verdadeira justiça
Está no ouvido que ouve
E na mão que ajuda
E não na boca que acusa
Ou na mão que castiga

Bora'ndar

O tempo e a distância
Infinitos no conceito
Assustadores na ideia
Doídos na carne
Não botam medo
Nem são significantes
Pra quem gosta de andar
E não tem pressa de chegar
Vámonos caminantes
Bora'ndar

Termpo de flor/é/ser

Fulô, se flor é pra ser
Há/veremos (de) flo/rir
A flor/essência de nós mesmos
Num flor/é/ser
Flor/a do tempo
Des/flora o que é espinho
E flores/sendo a passo lento
Pé/tala ante pé/tala
Em/flora o novo amanhã/ser

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

A volta

Voltar é dar uma volta
É a volta em ação
Quando se fecha o ciclo
E se completa o círculo
Encontra-se novamente no início
Porém depois de tê-lo todo percorrido
A volta é aquilo que faz o mundo
Que faz a lua e os astros
Dia após dia
É aquilo que faz a vida
Quando menos se espera
Que em voltas se revira
A volta é aquilo que fazem os humanos
Quando sentem saudades
Quando estão arrependidos
Ou quando perdem a trilha

Para dar uma volta
É preciso aparar as arestas
Livrar-se dos cantos
Até o ponto de se fazer círculo
Circunferência
Como um torrão de argila
Nas mãos do escultor
Se transforma em vaso
Rodopiando livre
Em seu próprio eixo

Se a volta é como um começo
Seria como se nunca houvesse ido
Se não fosse partindo
Que se chega novamente ao início
Exatamente por isso a vida é uma re-volta
Porque sempre nos oferece um re-começo
Ela gira, e redemoinha, e rodopia
Sem início, nem fim, nem meio
É como a roda de uma ciranda
Você entra onde quiser
Pisa com os pés onde todos pisaram
E gira junto, no mesmo sentido
Todos nós vamos um dia
Mas sempre voltamos num outro
E revoltamos
E recomeçamos
De novo
E de novo

Intolerância tolerante

É muito interessante notar como as formas de intolerância contemporâneas se valem de certas estratégias discursivas a fim de se fazer passarem por tolerância. Dois exemplos nos ajuda a pensar essa questão: um em relação à homofobia e o outro à xenofobia. Em ambos os casos, a postura tolerante do indivíduo membro do grupo dominante é sempre condicional à própria representação esteriotipada que ele faz dos membros do grupo dominado, os quais são divididos em aceitáveis e não aceitáveis. Em termos práticos, o homofóbico tolerante aceita que o gay seja gay, desde que não seja bicha, isto é, desde que ele seja parecido com um homem; do mesmo modo que o xenofobico tolerante aceita que o estrangeiro viva em seu país, desde que ele se aproprie plenamente da língua e da cultura enquanto abdica das suas. Ou seja, a alteridade do Outro é aceita desde que ela seja negada; o Outro é aceito desde que seja como o Nós. Assim, pode-se perfeita e paradoxalmente ser, a um só tempo, tolerante e intolerante, inclusivo e discriminador.

Dialética

O caminho não é único
São muitos
Todos ao mesmo tempo
Não há uma só direção
Ela ponta para vários lados
A verdade não está nos extremos
Na oposição
Mas em algum lugar do meio
Virado e revirado do avesso
A dialética é o consenso
Que nasce do conflito
Não vejo os humanos praticarem-na
Em verdade, não podem ser-lhe fiéis
Mas ela dá um jeito
De imprimir a sua marca sobre tudo
É errando que a gente se acerta
É tropeçando que a gente sintoniza o passo

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Poesia das trabalhadoras que fabricaram o meu celular

Então eu me posiciono à linha de produção
Como se fosse à cabeceira do leito de morte de minha mãe
Sem alento, com profundo pesar
Antes da sirene dar o sinal da partida da máquina
Um suspiro fundo prepara a mente ao que virá pelas próximas horas
Quase todo o meu dia, esvai-se junto ao movimento inexorável da esteira
A uma taxa de n peças por minuto
E o que é um dia senão um grão de areia na ampulheta?
Que aos poucos eu preenchê-la-ei por inteira
Das promessas e sonhos de menina, já quase nada resta
Soterradas pela areia que desce aparentemente sem pressa
E então eu me lembro que ainda sou uma menina
Mas uma menina sem sonhos e promessas é uma velha
Miserável, morta, estúpida, como uma máquina
Uma máquina não possui sonhos nem faz promessas
Se ela se move é porque lhe dão energia elétrica
Já eu me movo porque me dão dinheiro
Eis aí a única diferença
A esteira inicia seu trajeto circular
Começando por mim, dá uma volta toda pela fábrica
Até que retorna a mim de novo
Ou começa na trabalhadora ao meu lado?
Isso não importa nem muda em nada as coisas
Eu não sei o que há para além desta breve seção que ocupo
Meu corpo físico inicia seu movimento sozinho
Como se obedecesse ao mesmo comando da máquina
Como se eu tivesse uma espécie de botão também
Meus olhos agitados seguem o balé das mercadorias
Minhas mãos acompanham-nas com agilidade e destreza
Por fora, a aparência de harmonia, força e beleza
Que arranca tantos e orgulhosos suspiros da gerência
Esconde a cenário sombrio, frio e morto que se passa cá dentro
Eu estou longe, viajo em pensamento
Mas não sei para onde ir
Então me espírito paira sobre a linha de produção
É quase como se eu me visse a partir de fora
Olho aquelas mãos que apertam pequenos e delicados parafusos
E é como se não fossem minhas
É como se tudo ao meu redor estivesse acontecendo noutro lugar e tempo
E então eu volto os olhos da alma por sobre as paredes da fábrica sem janela
Por sobre a minúscula cela onde vivo com outras nove companheiras
Por sobre os prédios, e para além da agitação frenética da cidade poluída
Voo sobre os vales, as padrarias, as montanhas
E vou dar de novo na infância de pé descalço
Ajudando meus pais no roçado
Correndo atrás das galinhas quando a vida me permitia ser criança
A fábrica à minha frente torna-se um pesadelo distante
Eu repouso minha cabeça sobre o colo da minha mãe
Enfim, fechos os olhos e descanso
Como há muito tempo não descansava

O grande mistério

A verdade é que o mundo é muito
Muito pequeno para os nossos sonhos
A realidade é sórdida e mesquinha
O que fazemos uns aos outros é ultrajante
Mas existe um “mas”, existe um “a despeito disso tudo”
E é aí que reside o segredo do universo que cada um de nós carrega na alma
Em constante rota de colisão uns com os outros
Chispando em big bangs ou se extinguindo em buracos negros
O segredo é a tenacidade da capacidade de sonhar e amar embora quase tudo o que vemos
Sentimos e fazemos seja contrário a essa capacidade
Permanece sempre queimando a chama daquilo que faz de nós humanos
É preciso procurar com muito afinco para encontrar um ato bondoso
Uma história inspiradora, um acontecimento mágico
E a despeito disso, um único ato-história-mágico desses
É capaz de restituir a fé soterrada por décadas
Abaixo de camadas e mais camadas de frustrações e erros
Um amontoado recoberto por uma fina e inquebrantável película de medo e culpa
Uma vida inteira, e dá para contar nos dedos das mãos o que dela fora bom
E inacreditavelmente nós continuamos, impávidos
Para no final, ao arrostar a face pálida e gélida da morte
Termos uma frágil tábua à qual se apegar
E enfrentar a travessia eterna que se inicia depois
Eu só queria entender essa coisa ininteligível
O porquê de tantos sonhos pacíficos se extraviarem
Confusos, nessa tempestade de misérias
E, o que é ainda mais notável
O porquê de permanecermos fieis a eles
Como é possível que façamos tantas coisas belas
Quando tudo o que criamos é grotesco?

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Problematizando a noção de sionismo

Nas últimas semanas vi muitos posts fazendo distinção entre judaísmo e sionismo. Essa é uma visão otimista, porém injustificada. Ela tem, sem dúvida, um objetivo instrumental: desautorizar as acusações retóricas de que se opor à política israelense e apoiar a luta palestina seria antissemitismo, acusações que se aproveitam da benevolência e condescendência irrestritas dadas aos judeus como compensação ao Holocausto (e como baluarte de defesa dos interesses ianques no estratégico Oriente Médio). Neste sentido, trata-se de uma distinção justificada. Mas é muito difícil hoje sustentar que judaísmo e sionismo sejam coisas absolutamente distintas. Separar uma coisa da outra é cair no anacronismo. Embora tenham raízes históricas distintas, como religião e ideologia, como cultura e projeto político, ambas se fundiram completamente na figura do Estado de Israel. Pesquisas feitas no calor do momento são sempre suspeitas, mas é inegável o suporte enérgico dado pelos israelenses ao massacre empreendido por seu governo em Gaza: 90% da população, sendo que apenas 4% acha que o exército tem usado "força excessiva". Esses que apoiam e comemoram o genocídio sionista são quem senão judeus orgulhosos? Se nós acreditarmos que os judeus não são sionistas, o que se passa então? Como um grupelho sionista fanático tomou o poder e empurrou goela abaixo dos judeus a doutrina sionista? Acho que somos nós que estamos tentando dizer ao judeus que eles não são necessariamente sionistas. Mas eles mesmos dizem outra coisa. Na verdade, o argumento acima pressupõe um sentido amplo para o termo sionismo. Não somente como uma ideologia e um projeto político sistemático, mas como uma crença difusa na legitimidade do Estado israelense e na necessidade da sua defesa; uma representação negativa dos palestinos e uma justificação para discriminá-los. Isso parece muito com a discussão que Pierre-André Taguieff faz sobre o racismo, ou seja, de como ele deixou de ser uma teoria bem definida e construída sobre bases biológicas pseudocientíficas e se tornou atualmente um discurso sutil e velado que se reveste de anti-racismo ao aparentemente afirmar o direito às diferenças. Essas estratégias pós-racistas permitem às formas novas de racismo escapar da crítica e da luta anti-racista que se baseiam ainda numa concepção clássica do racismo. A mesma coisa vale para a luta antissionista: se o sionismo é uma doutrina teórica particular sobra relativamente poucos defensores seus a combater, na medida em que ninguém mais se vale do discurso sionista clássico, anterior à II Guerra. Quem não consegue apreender a novidade dessa forma velada de sionismo, incorporada às representações cotidianas das pessoas, acaba caindo em duas alternativas: ou é obrigado a admitir que o sionismo não existe mais, ou é obrigado a supor que apenas os detentores do poder político são sionistas, suposição que descamba em um maniqueísmo grosseiro.

domingo, 3 de agosto de 2014

Marxismo e ciência

Os marxistas fazem muito pouca ciência. O que não quer dizer que o que fazem não tenha valor ou que tenha valor inferior em relação à ciência (ou que o marxismo seja em si irreconciliável com a ciência ou tenha tornado-se completamente anacrônico). Mas os marxistas se apoiam na autoridade da ciência, e isso eles não fazem, ou fazem muito pouco. Eles respondem essa alegação com uma crítica filosófica contra o empirismo, entendido como método positivista. Brandem a dialética, reiteram alguns princípios quase metafísicas, e fica assim provado que fazem ciência. Primeiro que nem toda tradição teórico-metodológica nas ciências sociais são empiristas/positivistas. Segundo, essa crítica apenas visa justificar e validar a falta de dados nas teorias marxistas, suas generalizações abusivas deduzidas de ideias e não de dados, e sua incapacidade de provar empiricamente alguns pressupostos, como a teoria do valor (por favor, evitemos raciocínios binários: não estou caindo aqui na tese contrária, dos marginalistas). Mas é curioso que, embora os marxistas tenham aversão à fé nos dados demonstrada pelos positivistas, em outros aspectos eles são absolutamente positivistas: creem na validade objetiva absoluta do conhecimento, na autoridade da ciência, sustentam a fé no progresso, na perfectibilidade humana e concebem a história teleologicamente. O núcleo duro de suas teorias, seus pressupostos, remontam ao século XIX, ainda que incorporem dados e fatos contemporâneos.

Religião e ciência

Quando se afirma que a religião é uma ideologia com consequências negativas para o ser humano, um limite para a emancipação humana, como afirmam muitos pensadores de esquerda, isto é, de que toda religião é má em si mesma (o “ópio do povo”), estamos reproduzindo um mito do pensamento moderno, qual seja, a ideia de que o conhecimento derivado da ciência é superior, e que o pensamento religioso é arcaico e equivocado, quando não mistificador. Reproduz-se também a ideia de que somente a ciência, a única capaz de captar a verdade objetiva, pode libertar a humanidade da opressão, do sofrimento, da miséria. Quem defende essa afirmação adota, quer queira quer não, acriticamente a própria representação que a ciência faz de si mesma. Hoje, após o Holocausto (para mencionar apenas um genocídio feito por meio da ciência e legitimado por ela), o quanto a ciência contribui para a escravidão e destruição da espécie humana. Essa representação ignora, por exemplo, o papel da ciência na criação da noção de raça e no seu subsequente desenvolvimento nas teorias e ideologias racistas. Ainda mais importante do que isso, ela ignora que tais ideias se batiam exatamente contra a doutrina cristã da unidade da humanidade, e que uma das condições necessárias para que surgissem era a secularização da sociedade e do pensamento, processo no qual a ciência teve papel central. Ou seja, a derrota da religião e a vitória da ciência é que deu origem a sistemas de representações e práticas talvez muito mais homicidas e terríveis do que a Inquisição Espanhola. E até hoje, a despeito da crítica pós-moderna, estratégias ideológicas de proteção da ciência impede a plena compreensão disso. Impede a compreensão de que o Holocausto, por exemplo, não foi um regresso do barbarismo fanático de tipo religioso: foi a realização plena da ciência. Assim, reescreveu-se a história com base no discurso modernista centrado na ciência, e apagou-se o fato de que o racismo moderno é muito mais um produto da ciência do que da religião. Isso não quer dizer que não existia uma espécie de proto-racismo derivado de práticas de exclusão entre grupos definidos religiosamente, como era o caso do antissemitismo pré-moderno. Não vamos cair na vulgaridade de inverter o argumento. Essa estratégia dicotômica implica uma escala de valores. Mas não se trata de definir qual forma de pensamento está certo ou errado, ou qual delas é mais positiva ou menos nociva para a humanidade. É precisamente essa escala de valores, onde a ciência ocupa o topo, que deve ser desmontada. Para isso, é preciso desconstruir os mitos que a ciência criou e legitimou para si mesma. O fato de que até hoje muitas tradições de pensamento ainda defendam princípios modernistas, como a fé na ciência, no progresso, na secularização, demonstra a força desse mito e desse discurso. Questioná-lo é fazer justiça tanto à religião quanto à própria ciência.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Por que Israel não quer destruir o Hamas?

O primeiro ponto que temos de entender é que Israel, nomeadamente a extrema direita no poder, tem um objetivo, e este certamente não é destruir o Hamas, e tem um plano para atingi-lo. O objeto é manter o controle sobre as terras palestinas e ampliar sua posse sobre elas. O principal modo prático de fazer isso é fomentar a colonização (sim, para quem pensa que colonização é uma prática arcaica, do passado, Israel faz isso atualmente sem remorso ou pudor). Além disso, Israel precisa manter sua própria população palestina em uma posição de cidadãos de segunda classe, inviabilizando sua influência política e ideológica. Outro objetivo, a longo prazo, é inviabilizar qualquer possibilidade que comporte uma “solução de dois Estados”. Isso é absolutamente crucial para Israel. Seu comprometimento formal com essa solução é puro diversionismo. Um terceiro objetivo seria impedir algo que, nas atuais circunstâncias, parece um sonho impossível: o regresso das centenas de milhares de palestinos expulsos durante a guerra de 1948. Para a consecução desses objetivos o Hamas é um elemento estratégico essencial. De fato, sem ele, tornar-se-ia cada vez mais difícil para Israel justificar seu militarismo e, acima de tudo, sua sabotagem sistemática de qualquer acordo de paz.

Como se sabe desde tempos imemoriais, uma guerra é o melhor jeito de abafar divisões internas e unificar a população. Melhor que uma guerra, só uma guerra fria, que não se sabe como termina, nem se sabe mais ao certo como é que começou. A guerra fria parece sempre ter estado lá, e essa presença aparente é traduzida na ideia de que os beligerantes sempre foram inimigos eternos. E isso já impõe de saída a suposição de que uma solução que não implique a destruição de um dos lados seja sequer factível. A guerra, ou a suposta ameaça de guerra, permite sustentar a preeminência de razões de Estado e medidas de segurança nacional sobre o direito internacional, a democracia ou princípios humanistas. Tudo isso por sua vez, gera e mantém a atmosfera de tensão, medo e ódio que leva as pessoas a abdicar do juízo e a seguir como cordeiros assustados seus líderes mais radicais.

O papel que o Hamas desempenha, involuntariamente, nessa estratégia é bastante óbvio. É verdade que inimigos e ameaças não são difíceis de inventar, tanto mais no Oriente Médio. Antes do Hamas era a OLP, e antes da OLP eram indistintamente todos os árabes ao redor. Mas cada circunstância tem suas exigências, e atualmente sem um inimigo claramente identificável, com praticamente todos os países árabes apoiando indiretamente através da omissão o sionismo israelense, Israel precisa de uma ameaça e um inimigo claros. Hamas serve perfeitamente de bote expiatório. E isso especialmente devido a fato de que ele controla apenas a Faixa de Gaza – ou alguém acredita honestamente que Israel a desocupou em 2005 para demonstrar boa vontade? Gaza é irrelevante diante da meta maior que é a Cisjordânia. Eu não quero soar como teórico da conspiração, mas não ficaria nada surpreso se Israel fizesse vista grossa para o contrabando de armas e material para foguetes que passa pela fronteira com o Egito, uma vez que todo o restante encontra-se sobre forte controle israelense. Desde 2007, as agressões e bombardeios feitos contra Gaza não são simples retaliações ou medidas para debilitar o Hamas, mas fazem parte dessa estratégia geral. Além do fato de que os casus belli alegados por Israel são geralmente decorrentes de provocações deliberadas por parte do próprio Estado de Israel. De resto, Israel cria uma situação tão absurda e desesperadora que provoca respostas igualmente desesperadas dos palestinos. Essa resposta Israel usa como justificativa, gerando um ciclo vicioso.

A compreensão disso tudo – de que Israel não deseja uma solução de dois Estados, que nem mesmo deseja uma solução para o “conflito” que não seja a completa expulsão dos palestinos e a apropriação de suas terras – é uma premissa sem a qual nenhuma discussão sobre a “questão palestina” é possível. Essa ela é a reiteradamente suprimida pelas grandes mídias nacionais e internacionais, que fazem o possível para preparar a opinião pública para engolir a agenda política de Washington e de Tel-Aviv.