quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Nada de novo no front: o novo partido de Marina Silva e a política do mais do mesmo

Na análise objetiva de um partido político deve-se concentrar nas relações que ele estabelece com outros partidos e com a sociedade civil. Não que sua liderança em si não seja relevante, mas, tomando apenas uma pessoa, não podemos explicar certas contradições entre essa pessoa, cujo peso é, sim, fundamental na definição do caráter do partido, e o partido em si, suas práticas, suas ideias e sua plataforma. Esse é o caso do novo partido da Marina Silva. Se nos concentramos em sua história de vida, não podemos compreender como e porquê ela foi chegar a tal ponto de depravação política. 

Essa é o tipo de análise objetiva que se deve fazer quando da aparição de um novo partido. Marina Silva é e foi uma grande personalidade, como política e como pessoa. Filha de seringueiros, conheceu as letras tardiamente, mas não a tempo de não obter um diploma superior. Trilhou uma carreira política que se pode qualificar como brilhante, além de se tornar uma personalidade mundial no que se refere à causa ambiental. Além disso, ser amiga do e militar junto ao Chico Mendes não é pouca coisa. 

Dito tudo isso, eu pergunto: e daí? É simplesmente evidente as contradições entre a Marina Silva em discurso e a Marina Silva na prática; ou melhor: a marina Silva de fins da década de 80 e começos da de 90, militante de uma época em que o PT ainda apenas iniciava seus passos em direção ao transformismo, e a Marina Silva de hoje, do PV e, agora, do Rede Sustentabilidade. Se ela fez alguma coisa pelo meio ambiente (e não duvido que não tenha feito), tudo isso cai por terra quando avaliado à luz das suas práticas políticas mais recentes. E não vou tocar aqui na sua orientação religiosa, a qual nunca foi boa para o meio ambiente e, tampouco, para os seres humanos. 

Assim como o PSD de Kassab, o partido da Marina não é nem situação, nem oposição; nem de esquerda, nem de direita. É o que então? É tudo isso ao mesmo tempo, é o que der melhor resultado em termos eleitoreiros, pura e simplesmente. Assim como o PSD de Kassab, que usa o novo partido como moeda de troca, o Rede Sustentabilidade (que é um “movimento” segundo seu idealizadora) também se utilizará do fisiologismo imperante na política brasileira. Assim, para agradar a gregos e troianos, negociará com deus e com o diabo, com qualquer partido que lhe traga dividendos eleitorais ou governamentais. O Rede Sustentabilidade será mais um partido coringa que, entre tantos outros, sonha em se tornar o fiel da balança, lugar hoje ocupado pelo PMDB, o grande mestre quando se trata de política fisiologista. 

Marina Silva diz que não vai receber dinheiro de empresas ligadas a atividades ambientalmente destrutivas, mas aceita o apoio de uma bilionária do setor financeiro (ligada ao banco Itaú) e de outro bilionário, este ligado à indústria de cosméticos, Guilherme Leal, fundador da Natura (a maior empresa do setor no Brasil e que foi acusada recentemente de biopirataria) e seu ex-candidato a vice-presidente. Por outro lado, é óbvio que empresas de agrotóxicos populem o ambiente, mas e empresas ligadas ao agronegócio, por exemplo, ou à extração de minérios, que são atividades altamente destrutivas, como fica? Aceitará ou não suas doações? Parece-me que sim, porque, do contrário, Marina ficará sem opções de financiamento. Isso porque todas as médias e grandes empresas, para não dizer as pequenas também, são ambiental e socialmente irresponsáveis, uma vez que têm no lucro seu escopo fundamental. 

O que nos leva ao ponto central da questão: o fato de que Marina aceite dinheiro de grandes corporações e empresas privadas demonstra o caráter de classe do seu partido, ou seja, trata-se de um partido burguês. Se é a classe média que irá compor com ele, formando sua base eleitoral, isso pouco importa: a natureza mesma do partido é ser burguês, é defender os interesses da grande burguesia. Enfim, essa lenga-lenga de sustentabilidade e de recusa a orientar-se no campo político segundo as balizas tradicionais (esquerda e direita) não passa de um recurso retórico para esconder, primeiro, a absoluta falta de um programa partidário definido (tal como é o caso do PSD), e, segundo, o fato de que o Rede Sustentabilidade não passa de um partido eleitoreiro convencional, pronto para barganhar cargos e princípios, compor alianças espúrias, obter dividendos políticos e econômicos para si e para os seus. Além disso, o termo sustentabilidade e a recusa a se orientar no campo político tem a vantagem de soar moderno aos ouvidos da classe média descrente com a esquerda (tanto a esquerda radical, quanto a esquerda oportunista) e seu consequente pensamento pequeno-burguês. 

Para finalizar façamos uma breve consideração crítica sobre os partidos verdes, do qual o Rede Sustentabilidade é tributário. Os Verdes na Europa, onde surgiram na esteira da falência dos socialistas e eurocomunistas, combinam sua própria leitura da política neoliberal com arroubos piedosos a respeito da necessidade de se fomentar políticas econômicas ambientalmente sustentáveis. Mas não explicam como uma coisa se casa com a outra, ou seja, como o neoliberalismo pode pautar a base econômica de uma economia sustentável, já que a desregulação econômica, a transformação de absolutamente tudo em mercado e mercadorias (sendo o caso mais emblemático a “commoditiezação” do CO2), a ausência de regulação e controle estatal, são políticas diametralmente opostas à preservação ambiental. Não há necessidade de buscar exemplos. Todos nós temos ideia das inúmeras denúncia que, vez ou outra sai na mídia, a respeito de práticas empresariais negligentes e criminosas. 

Evidentemente, o que eu estou propondo aqui não é a irrelevância do tema, isto é, do tema da sustentabilidade. Ao contrário, face ao risco real de um cataclisma ecológico global, ele é absolutamente essencial, mas não pode ser pensado descoladamente a outras questões históricas também colocadas na ordem do dia. A questão central é: não se pode preservar o meio ambiental, não se pode produzir sustentavelmente, senão a partir de outra matriz econômica e social, o socialismo. O capitalismo é, por si mesmo, essencialmente destrutivo, tanto humana quanto ambientalmente. Nesse sentido, movimentos sociais e partidos políticos que pretendem uma sustentabilidade dentro da ordem, a partir das categorias que regem o mundo da mercadoria, são inócuos; mais do que isso: são oportunistas, marqueteiros, demagógicos, eleitoreiros. O novo partido político fundado pela ex ministra do meio ambiente não difere essencialmente em nada do Partido Verde ao qual ela pertencia. No fundo, o que ela e setores ligados ao seu partido pretendem nada mais é do que capitalizar o bom resultado obtido na última eleição presidencial, diante de uma direita falida e sem perspectivas, PSDB à frente. Esta, por sua vez, se regozija com a nova candidatura porque serve para desestabilizar o projeto político da esquerda governista pelega. 

Não precisamos de mais um partido "mais do mesmo", mascarado sob o verniz de uma modernidade fajuta. Sustentabilidade não se faz com mais mercado, com privatizações, com redução do Estado, com um enfoque ético que recai, via de regra, no indivíduo, ou seja, no consumidor. A sustentabilidade só poderá ser alcançada com socialismo, com democracia de base, com trabalhadores autodeterminados na produção social.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Da série, porque não sou (e sou) marxista: #2

Não sei o porquê dessa mania chata que nós, da esquerda, temos em reivindicar diretamente o pensamento de Marx e Lênin, o chamado marxismo-leninismo. Não que não devamos nos apoiar em ambos, assimilando criticamente suas ideias, para construir a luta da classe trabalhadora na contemporaneidade. Mas não devíamos estar fazendo alguma coisa nova? E efetivamente estamos; não é esse o ponto. O problema que eu vejo é essa mania que cada corrente e partido distinto tem de se pretender sucessor direto de Marx e Lênin. "Meu marxismo-leninismo é que é o correto, e, portanto, é melhor que o teu"; "é assim que age um partido consequente dentro do espírito de Marx e Lênin". Os ataques da direita, entre eles o que afirma ser o marxismo semelhante a uma visão religiosa do mundo, não estão inteiramente errados: qual é a diferença entre esse tipo de discurso e aqueles proferidos por seitas religiosas que se arrogam, cada qual, no exercício do verdadeiro cristianismo, da verdadeira palavra de Deus? Haveria tantos Deus e tantos Marx/Lênin para cada seita e para cada partido político? Provavelmente. Tanto a bíblia quanto o marxismo comportam leituras diferentes. Por favor, não estou aqui comparando (e equiparando) a religião e o marxismo (Marx foi, em minha opinião, o grande teórico da modernidade, aquele que inaugurou um continente científico novo, nas palavras de Althusser, e também uma nova filosofia e uma nova política), mas apenas chamando a atenção para uma ideologia presente no interior do discurso marxista. O que se deve fazer é compreender as contradições desse discurso, e não tentar empurrar goela à baixo de Marx afirmações e suposições que são nossas e não dele; feitas com base nele, mas nem por isso menos nossas. Não quero aqui dar motivo aos direitistas para nos criticar, mas é forçoso reconhecer que alguns aspectos dessa crítica são válidas, e, ao invés do orgulho, devemos cultivar a humildade. Aprender com todos os pontos de vistas, eis aí um princípio que julgo poder chamar de "marxista".

Enfim, mesmo que estejamos tentando fazer tudo de outro modo, curiosa e teimosamente insistimos não estar fazendo nada de novo, que tudo já estava dito por Marx e que tudo já foi feito por Lênin. Ao invés dessa deferência toda, quase religiosa, nós, que deveríamos ser seus mais duros críticos, devemos apontar sobretudo para a ruptura que nos separam deles e não somente para a linha de continuidade. A impressão que dá é que a esquerda parou no tempo, senão na prática, ao menos no discurso. Veja, faço oposição aqui não às estratégias e táticas da esquerda (algo muito geral para defini-las aqui, tanto no se refere a estratégias e táticas, quanto no que se refere à própria esquerda, isto é, quem é a esquerda?), elementos que se moldam necessariamente sob pressão das transformações históricas e sociais, mas ao seu discurso, que, à despeito da mudança daquelas, parece engessado e mecanizado. É fácil repetir enunciados de princípios, fórmulas prontas, doutrinas. Mas será que é tão imperceptível assim a disjunção entre teoria e prática, discurso e ação? Ou não haveria uma disjunção tão clara, e equívocos teóricos imprimiriam à prática resultados igualmente equivocados? Seja como for, tendo a acreditar que, mesmo havendo implicações entre teoria e prática (o que me parece óbvio para qualquer concepção dialética), ainda assim as práticas da esquerda contemporânea têm sido mais acertas, ou ao menos mais coerentes, do que seus discursos. A linearidade com que traçam a história do marxismo/comunismo (história que, curiosamente, vem sempre a desaguar no partido ou organização da qual se faz parte); a busca por um marxismo "revelado", que poderia ser encontrado mediante a exegese das obras de Marx e Lênin; a leitura mecânica das transformações históricas e sociais (do tipo que diz: "a crise do capital se aprofunda inexoravelmente"; "a realidade mais uma vez confirmou nossas previsões"; "a vitória da classe trabalhadora se aproxima"; etc.); os argumentos de autoridade baseados em Marx e em Lênin; são todos problemas ainda não superados pela esquerda de modo geral.

Descaminhos da Revolução Russa: vanguarda e burocratização

Os descaminhos trilhados pela Revolução Russa já nos primeiros anos de organização do Estado soviético parecem deixar claro o quão perigoso é um processo revolucionário feito à revelia das bases, ou seja, levado a cabo por uma vanguarda partidária sem participação das massas. Uma série de fatores levaram à traição da revolução de outubro. Para além das características sociais específicas de uma Rússia monárquica e feudal, talvez a própria concepção estratégica dos bolcheviques tenham, também, levado aos problemas que hoje sabemos terem sido o malogro da revolução. Mesmo escolhendo um caminho errado (descontadas as exigências imperativas da conjuntura e que impunham limites à práxis), Lênin tinha, desde o início da revolução, consciência dos perigosos implicados pela burocratização. Contudo, foi incapaz de reverter seus efeitos nefastos. As bases não participaram ativamente da revolução (a palavra de ordem "todo poder aos sovietes" não passou de um anelo). O partido bolchevique, que era minúsculo em 1917, começou a se agigantar rapidamente com a tomada do poder. Esses quadros não foram preenchidos por trabalhadores (o que, de resto, não resolveria o problema: somente a substituição da burocracia estatal pela auto-organização dos trabalhadores nos sovietes poderia impedir o processo de cristalização do poder político na cúpula do partido), mas antes por antigos setores da aristocracia czarista ligados à administração pública. Tomar o poder não basta. Uma vanguarda descolada da base é um erro histórico que não podemos mais cometer. Na verdade, a vanguarda deve ser a própria classe, auto-organizada e autoconsciente.

Páscoa negra

Minha homenagem à alegria da Páscoa. Não canto a festa do comércio, nem o prazer do chocolate, e tampouco seu significado religioso. Canto às crianças escravizadas ao pé dos cacaueiros, que têm a infância roubada para cultivar a matéria-prima dos ovos de páscoa. 40% de todo o cacau do mundo é produzido na Costa do Marfim, sendo que a maioria da produção está alicerçada sobre a base do trabalho escravo e infantil. Isso a Nestlé e cia não divulga na embalagem dos seus produtos.

A páscoa negra

Pende no galho a dourada fruta
Colhem-na mãos puras e cândidas
Primaveris, senão calosas e brutas
Tolhem-lhe a única infância
Na lida daquela diuturna luta
Sem tempo para ser criança
Mãos que trabalham no campo
Antes usadas em alentadas brincadeiras
Noutras terras ficaram os pais
Não têm quem possa chamar por família
Dela, fazem as vezes o capataz
Mal saíra dos cueiros
E fora escravizada ao pé do cacaueiro
De criança nada mais lhe resta
As mãos que corriam o pega-pega
Hoje manuseiam facões amolados
Tão novas e tão crispadas
Essas mãos são já as de um velho cansado
Não servem para amar e não dão afago
São mãos tão-somente de trabalhar
Que homens inescrupulosos compraram
Assim como se compra uma vaca ou um bode
Fazendo da inocência um meio de trabalho
Instrumento descartável e solitário
Vai gastar-se depressa
E depressa outras virão substituí-las
Mãos para o trabalho é o que não falta
Nessa África explorada e oprimida
Será que essas crianças escravizadas
Suspeitam da alegria que suscitam
Nas crianças ricas de além-mar
Brancas e bem nutridas
Também tão inocentes e vestais
Que nada desconfiam da magia da Páscoa
De que a matéria-prima com que se fazem os sonhos
Trazem o sangue de meninas e meninos
De pés descalços e andrajos rotos
Se disso soubessem
Essas meninas e meninos gordos
Será que o chocolate ter-lhes-ia o mesmo gosto?

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

EUA e UE constituirão um novo bloco econômico: como fica a hegemonia mundial?

Vivemos numa esquina histórica, num momento de inflexão. Não me julguem aqueles que acham que nós, viventes no presente (sic), sempre tenderemos a cuidar nosso tempo histórico como ímpar: inflexões ocorrem na história sempre. A inflexão da qual falo não é substancial, nos termos do conceito marxiano de modo de produção, mas fenomênica. O caso é que talvez esteja para ser enterrado toda uma configuração social, política e econômica que tomou corpo a partir de fins dos anos 70 e inícios dos anos 80.

O anúncio recente de que EUA e UE entabularam conversações iniciais para instituir um novo bloco econômico, que será o maior do mundo, levantam duas questões. Em primeiro lugar, o neoliberalismo está longe de ser enterrado (o que contradiz a minha afirmação de inflexão histórica). E a criação da maior zona de livre comércio do mundo é apenas uma das tantas evidências disto (vide, por exemplo, as políticas de austeridade, o aprofundamento do Estado mínimo, a primazia do capital financeiro). Me parece que o modo dominante de pensamento e seu projeto de sociedade não faz mais do que cavar uma série de outros buracos para tapar os já feitos, buracos sempre cada vez maiores. Uma hora ficaremos sem terra para fazer novos buracos. Ou seja: o modelo segue o mesmo, e não faz mais do que empurrar com a barriga uma crise que, quanto mais protelada, com mais intensidade se avizinha.

Em segundo lugar, as conversações entre EUA e UE permitem entrever o surgimento de uma nova geopolítica mundial, marcada pela oposição à posição chinesa e asiática em geral no sistema econômico mundial. Está em curso uma corrida econômica cuja linha de chegada é a conquista de uma nova hegemonia mundial. EUA e UE sentem o peso da sombra que sobre eles projetam uma China e uma Índia cada vez maiores, cada vez mais poderosas. Estas duas são tão capitalistas quanto aquelas duas primeiras, mas seus modelos econômicos e políticos são diferentes, bem como seus contextos sociais e culturais. Não há qualquer dúvida de que o crescimento dos Tigres Asiáticos irá ultrapassar o das nações imperialistas centrais. Por exemplo, hoje está em andamento uma disputa entre ambos para dominar e criar novos mercados na África. Dentre as múltiplas dimensões que constituíram o conflito no Mali, essa disputa inter-imperialismos é uma delas.

A verdade é que não importa se o bloco econômico EUA-UE venha a ficar apenas no plano dos desejos. O que importa para nós neste momento é como esse desejo exprime as mudanças nas correlações de força no interior da geopolítica global. A questão é se e como o crescimento da China e consortes irá toldar a hegemonia capitalista ocidental. É possível que essa processualidade histórica descambe para uma corrida armamentista (que, de resto, já está a ocorrer, ou nunca deixou de ocorrer), para um conflito aberto entre blocos históricos distintos (em ascensão e declínio)? Como se dará o reajuste de posições (que, a priori, podemos admitir que será traumático) no interior do sistema mundial em direção a uma nova hegemonia? Perguntas para as quais o futuro aguarda respostas.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

À cidade e ao mundo: não temos Papa

Urbi et orbis.

O Papa renunciou cercado de dúvidas e questões obscuras. Dentre os tantos escândalos recentes (e uma série de outros não tão recentes assim) que envolveram a Santa Sé (como a pedofilia enquanto prática contumaz), soma-se agora novas evidências das lutas internas por poder. A Santa Sé representa um microcosmo onde todas as vicissitudes ligadas ao poder político e econômico estão presentes. A Igreja de São Pedro é presidida pelas mesmas leis mundanas e nada santas do mundo dos homens sob a regência do capital. 

Não questiono a necessidade (suponhamos que seja uma necessidade) da religião, ou melhor, de uma (indefinida) religiosidade enquanto atributo humano. Se alguém quer acreditar na existência de um Ser superior (e supremo), de uma ordem cósmica eternamente estabelecida, de uma justiça que não é dos homens mas divina, tudo bem, está no seu direito. Questiono a religião enquanto instituição social e, mais do que isso, a religião enquanto instrumento de poder político e econômico. 

O catolicismo já teve seus tempos áureos, quando dominava ao mesmo tempo o poder temporal e secular sobre o mundo civilizado (não seria medieval?), quando o Império ainda era Sacro. O cristianismo, como um todo, já foi revolucionário, quando afirmava a igualdade dos homens ("homens" aqui não é casual) perante Deus, a virtude da pobreza e da caridade, a ignomínia dos poderosos. Agora, em termos políticos e econômicos, a Igreja Católica é uma instituição decadente, não passa de um resquício anacrônico, de um atavismo, e é incapaz de lidar com o novo tempo histórico (seja o que está para acabar, seja o que está para vir); em suma, além de corrupta (moral, política e economicamente), é conservadora, reacionária, quer fazer girar para trás a roda da história (não que ela vá em linha reta, contudo vale a metáfora); impõe ainda mais sofrimento a quem já sofre com uma série de opressões, como as mulheres e os homossexuais. 

Onde fica o preceito de que todos são iguais perante Deus? Esse preceito naufraga precisamente hoje em dia, quando reina a multiplicidade de gostos, usos, costumes, crenças. Entre tenta diversidade, uns são, aos olhos de Deus (ou dos homens que se arrogam seus intérpretes/emissários/representantes?), mais iguais do que outros. Nada mais típico do mundo secular. De santa a Sé não tem nada. 

Não nego que dentro dessa instituição esclerosada haja pessoas virtuosas, sedentas por justiça (neste e noutro mundo), caridosas, e que, não acreditando na justiça dos homens, veem na Igreja a possibilidade de fazer o bem, veem na filosofia cristã uma fórmula revolucionária, uma forma de alcançar a justiça social (penso na teologia da libertação e nos vários exemplos de sacerdotes que se colocaram na luta de frente em prol dos pobres, ofendidos e humilhados). Ora, pessoas assim existem em todos os lugares. O problema não são as pessoas, mas as instituições, ainda que as instituições sejam feitas de pessoas. Além disso, aqui também, não é casual que tais exemplos dentro da Igreja sejam encontrados exclusivamente na base de sua hierarquia, enquanto os exemplos mais vis dos sete pecados capitais encontramos cada vez mais vezeiros nas escalas mais altas dessa hierarquia. E há também, por certo, pessoas crentes (não me refiro aos evangélicos e neopentecostais, que levaram a corrupção cristã ao paroxismo) virtuosas entre os leigos. 

Dito isso, é preciso dizer que a intenção não basta, que o caminho que leva ao inferno está pavimentado de boas intenções. Não se alcança a justiça social fazendo voto de pobreza, praticando a caridade, orando pelos que nada possuem. A luta é eminentemente política, é violenta, e a história já está cansada de nos mostrar isso. Ações piedosas são, por princípio, insuficientes, já que tomam, de forma abstrata, um mundo de desiguais como se fossem iguais, ainda que os teólogos da libertação, por exemplo, condenem os ricos. Essas pessoas que querem fazer o bem dentro e através da igreja, admitindo que existam se bem que em exceção, simplesmente escolheram o caminho errado. Tanto mais porque a estrutura rigidamente militar da Igreja tolhe-lhes a ação. 

É hora de romper completamente com o cristianismo, cujas ideias e práticas não cabem mais no mundo que queremos construir, livre e igualitário. O cristianismo não torna as pessoas mais humanas; justamente ao contrário. Suas ideias e práticas são de uma época em que os humanos eram menos humanos. A humanidade se constrói na e pela história. No que depender de mim, a cadeira papal no Vaticano ficará ociosa. Habemus nullus papam.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Carros, petróleo e a economia mundial

Não à toa o modelo de transporte atual, altamente poluente e excludente, não muda; não à toa as corporações petrolíferas e automobilísticas são tão poderosas: das 15 maiores corporações mundiais, 11 são ou de petróleo/gás ou de automóveis (sobretudo  de petróleo). Mas o pior de tudo, para nós brasileiros e habitantes do terceiro mundo, é que os mais pobres é que têm de arcar com os custos sociais e ambientais desse modelo. Não que o mundo todo não pague, mas os custos são piores para nós (trabalhadores e habitantes da periferia do sistema-mundo). Se não me falha a memória, o Brasil é o 4º ou 5º consumidor mundial de automóveis. Todo o nosso processo de industrialização teve na indústria automobilística seu carro chefe, e hoje a situação não é diferente. Enquanto os países europeus têm sistemas de transporte coletivo públicos e de qualidade, aqui temos de enfrentar horas intermináveis esmagados em metrôs e ônibus superlotados além de arcar com tarifas absurdamente caras; em suma, para quem não pode participar, como consumidor, do mercado automobilístico, que tanto peso tem para a economia mundial, sobra um sistema de transporte ineficiente, caro e corrompido pelas relações promíscuas entre interesse privado e poder público.

A crise econômica mundial se aprofunda sob o comando do capital financeiro

Os dados mais recentes da economia européia (Zona do Euro) não são nada animadores; ao contrário, a crise segue medrando: o crescimento econômico na Alemanha foi pífio, a França está estagnada, Itália e Espanha estão em recessão. Acrescente-se que o Japão acaba de entrar formalmente em recessão (ou seja, três trimestres de crescimento negativo). A exceção de alguns poucos países em forte crescimento, especialmente China e Índia, o economia mundial está estagnada e dando mostras de que a crise irá se aprofundar este ano. De modo geral, as estimativas para o ano passado, já ruins, foram todas superadas por uma queda real ainda pior que as previsões. Destaque-se o exemplo brasileiro, cuja previsão oficial de crescimento começara em 4% para terminar em míseros 1%. As previsões para este já estão sendo rebaixadas, jogando a perspectiva de uma retomada do crescimento somente para o ano que vem (algo que vem acontecendo com muita frequência). A verdade é que a economia continua sendo controlada pelos mesmos responsáveis pela atual crise, e o modelo econômico aplicado por eles não faz mais do que aprofundá-la. Todo o sistema econômico articula-se sobre a base de uma política neoliberal que privilegia o sistema financeiro, e seus agentes, em detrimento da produção e consumo. Nesse sentido, falar em crescimento econômico de forma descontextualizada, ou seja, sem pensá-lo no quadro da política econômica atual é ou equívoco ou má-fé. A economia mundial somente pode ser salva mediante uma política dos e para os trabalhadores.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Renan Calheiros novamente eleito à presidência do Senado

Então o Renan Calhorda foi eleito presidente da excelsa Casa do Povo? Ora, conhecendo o fisiologismo e as relações de compadrio que impera na política brasileira, tal resulto era já esperado. Não há novidade nisso. Basta lembrar que quem lhe passa a cadeira da presidência é ninguém menos que José Sarney.

Calheiros já havia sido presidente da Casa (que, conquanto administrada em nome "do" povo, de "para" o povo não tem nada), renunciando em 2007 após uma série de escândalos e denúncias envolvimento sua pessoa: o ex-novo-presidente teria tido as despesas de seu caso extraconjugal bancadas por lobista (e por despesas entenda a pensão paga à amante); teria feito tráfico de influência para a Schincariol; teria comprado rádios e jornais em Alagoas com a ajuda de laranjas; teria desviado verba de ministérios sob o comando do PMDB; teria espionado senadores da oposição (sabe como é, deve-se estar preparado para jogar bosta no ventilador quando alguém descobre a sujeira debaixo do tapete). Como era de esperar, Renan foi absolvido no Congresso, embora tenha acabado renunciando à presidência como forma de evitar a cassação. Até hoje esses inquéritos correm na justiça. Mas há mais: nos últimos dias vieram à tona novas acusações, desta vez de crime ambiental. Além disso, parece que a velhacaria é uma qualidade hereditária: seu filho deputado também está sendo investigado por desvio em verbas destinadas a merenda escolar. Quão baixo, vil e sórdido é preciso ser para roubar comida de crianças? Uma modalidade de corrupção, aliás, muita difundida entre os gatunos públicos brasileiros.

Enfim, lembremos das caraterísticas básicos do PMDB: trata-se de um partido fisiologista, isto é, que usa a máquina pública para satisfazer interesses pessoais; que se alia com qualquer um que estiver no poder se isso se traduzir em prebendas; que usa seu tamanho e, consequentemente, o poder que detém como moeda de troca; etc. Mas essas características não são, absolutamente, exclusividade do PMDB. O PT, por exemplo, não fica atrás. A começar pela aliança fundamental entre ambos. Quando Renan Caiu, em 2007, o presidente Lula limitou-se a dizer que o que importava é que o Congresso voltasse à normalidade para que pudesse instituir as leis tão importantes ao país. Ora, a corrupção, a prevaricação, o tráfico de influência compõem a própria normalidade do Congresso! E, efetivamente, ele voltou à normalidade. Voltou à normalidade para aprovar as leis que tão importância têm aos grandes capitalistas e latifundiários, nacionais e estrangeiros. Agora, a presidente Dilma repete o mesmo gesto esquivo e, por isso mesmo, condescendente do ex-presidente: parabeniza Renan pela vitória.

O Legislativo brasileiro, bem como virtualmente todos os Legislativos do mundo, é um balcão de negócios, um antro de corrupção e promiscuidade abençoado pela impunidade e pela cordialidade entre compadres. Com efeito, o Congresso exerce duas funções "extraoficiais": serve para satisfazer os interesses particulares e imediatos de políticos e partidos; e serve para legislar em nome da (e para a) burguesia e da manutenção da ordem burguesa. O problema não está nesse ou naquele indivíduo, neste ou naquele partido. É a própria lógica dessa democracia burguesa formal que permite tais aberrações éticas. Todos os partidos do Congresso, inclusive o PSOL, estão condenados. Atribuir a culpa desse estado de coisas à ignorância e indiferença do eleitor é fugir das verdadeiras da causas do problema e é fazer o jogo dos que não desejam mudanças concretas, dos que, ainda que a desejem, acreditam na eficácia da democracia representativa, ou dos que, ao menos, não acreditam que outra fórmula seja possível. Somente quando a administração da res publica for feita pelo povo (e quando digo povo me refiro aos trabalhadores), através de organizações de base, será possível criar condições para a moralidade política. Até lá, seremos reféns de Calheiros e Sarneys.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Livros usados e antigos

Cara, livros antigos e usados são o máximo. Num deles, acabo de achar um volante fazendo propaganda de uma auto escola. O telefone ainda nem tinha o dígito "3" anteposto aos demais 7 dígitos. Provavelmente está lá desde o dia em que o livro foi comprado. Outro dia, encontrei dentro de um livro adquirido em sebo uma nota fiscal de mercado cujos valores dos produtos ainda estavam estabelecidos em cruzeiro. É como encontrar um pequeno tesouro. Mas ainda mais rico que esse achados impessoais é encontrar cartas, anotações, ideias lançadas ao acaso. Certa feita, garimpando num sebo, topei com um livro do A.A., aquele dos 12 passos, e tive uma grande surpresa: havia nele anotações do começo ao fim, em cada sobra de papel branco, desde o interior da capa até o interior da contra-capa. Não se travava exatamente de anotações, mas de uma narrativa. O livro provavelmente seria um regalo a alguém, e o presenteador abre sua narrativa com uma dedicatória. Mas ele, por razões que nunca irei saber, não consuma o objetivo e o livro segue sem ser presenteado. A cada dia ou semana que se passava, sem que o livro fosse dado de presente, seu possuidor escrevia nas partes em branco. Divagações, confissões, lamentações. Dia após dia, ele dialogava, através de um monólogo, com a pessoa que seria presenteada. Até hoje eu não sei porque não comprei esse livro. Será que algum dia ele chegou ao seu destinatário?

Teologia da libertação

Terminada a leitura de Batismo de Sangue, fiquei interessado em conhecer um pouco mais da teoria da libertação. Uma pesquisa rápida não me permite um pronunciamento seguro, mas já foi suficiente para perceber alguns aspectos interessantes, sobretudo no tocante a seus pontos de contato com o marxismo e o socialismo. Eu não adotaria essa concepção teológica, bem como nenhuma outra teologia, tanto por causa do meu ateísmo intransigente, quanto por causa da desconfiança que nutro em relação à Igreja cristã enquanto instituição social. E aqui surge um primeiro ponto digo de nota: o afastamento significativo da hermenêutica e das teses teológico-libertárias em relação às da ortodoxia cristã, católica mais especificamente. A teologia da libertação faz uma espécie de  modernização e mundanização da visão de mundo religiosa, dos dogmas e da doutrina cristã. A recusa do individualismo, a introjeção de Deus na histórica (semelhante com o que Hegel fizera com a filosofia), a recusa da desigualdade e da salvação individual por meios individuais, e a aproximação entre religião e política. Ou seja, os teólogos libertários acreditam que, ao contrário da doutrina ortodoxa, a salvação é um ato humano, coletivo e histórico, e tal salvação identifica-se com a própria criação do Reino de Deus na Terra. Numa releitura das teses marxistas ("a libertação do proletariado será obra do próprio proletário"), o sujeito da libertação é identificado com os pobres, os injustiçados, os humilhados (isso me lembra Dostoiévski e seu messianismo comunitário cristão). Enquanto a Igreja prega o paternalismo e a caridade, os teólogos libertários pregam a autodeterminação e a socialização da riqueza. Criticam a passividade e a obediência aos poderosos, afirmando a necessidade da ação e do engajamento contra os exploradores. Trata-se de uma heresia e tanto em relação à cumplicidade histórica da Igreja com as classes dominantes, não apenas cumplicidade mas efetiva participação no poder político-social. A própria hierarquia da Igreja se vê ameaçada. Não à toa, a Santa Sé logo no início condenou a teologia da libertação como uma heterodoxia. Vale notar também que as circunstâncias nais quais veio à luz essa teologia não são casuais: a teologia da libertação surgiu na América Latina, no contexto das ditaduras que varreram o continente com o advento da Guerra Fria. De fato, sacerdotes e intelectuais ligados à teologia da libertação tiveram papel fundamental na resistência à ascensão dos regimes ditatoriais latinos.

A locomotiva

É locomotiva a vida que passa
Traçada sobre longo trilho
Que a neblina esconde o sentido
Ora pesada, ela vagarosa se arrasta
Ora lépida, ligeira o caminho perpassa
Por sobre pontes, pradarias e pastos
A cada estação faz-se breve parada
Entre beijos e abraços
Uns desembarcam e se perdem na multidão
Vão sorridentes ou calados
Enquanto outros, em ritmo de viagem
Tomam o trem em direção a novas paragens
Onde, perto ou longe não se sabe
Encontrar-se-ão fortunas ou desditas
E lá se vai o trem novamente
Acenando a quem fica
“Mande cumprimentos e notícias!”
Ah, assim é a vida
Se é que me permistes a metáfora
Uma malha férrea a perder de vista
Entretecida de tristezas e alegrias
Encontros e despedidas
Resfolega a vagão das máquinas
Apita o apito da partida
“Todos abordo” um funcionário grita
Quem for ficar, fica
Quem for apear, apeie-se
Não sou eu o maquinista
Nem os passageiros
Nem aqueles alcunhados “surfistas”
Eu sou a própria locomotiva.

Contradições do comportamento humano: para uma tipologia dos defensores da ordem

Lendo Batismo de Sangue acudiu-me a ideia de que existem três tipos de pessoas no mundo (uma ideia abstrata, obviamente, sem valor demonstrativo, e que serve apenas para lançar luz sobre alguns comportamentos humanos): 1) a pessoa sádica, mesquinha e ávida por poder, sem comiseração, remorso ou escrúpulos; os torturadores que sentem prazer em torturar, superando assim, sentimentalmente, a pequenez que sentem diante do mundo, entram nessa categoria; 2) a pessoa alheia e indiferente, cujas obrigações são cumpridas sem satisfação nem desgosto: bastam ser cumpridas, fleumática e diligentemente, como fazem os burocratas; o médico-torturador que executa uma função técnica caberia nessa categoria; 3) a pessoa sensível e arguta, cujo "estar-no-mundo" é acompanhado por um "se-posicionar-diante-do-mundo"; trata-se das pessoas cuja consciência urge que não se aceite e não se cale diante da injustiça, do sofrimento, da miséria, mas que, todavia, por uma série de razões acabam se acostumando, se acomodando e se conformando com a injustiça, o sofrimento, a miséria; os carcereiros que sofrem furtivamente ao ver um torturado esfrangalhado e que fazem o possível, sem arrostar a ordem e sem se comprometer pessoalmente, para amenizar a dor de um preso podem ser encaixados nessa última categoria. Em Batismo de Sangue podemos ver esses três tipos ideais. É intrigante a maleabilidade humana, mas ainda mais intrigante é a ambivalência e a ambiguidade dos comportamentos e das opiniões. Frei Betto não toca diretamente nessa questão, que, tal como exposta aqui, podemos chamar de uma tipologia dos defensores da ordem, mas Graciliano Ramos, em suas Memórias do Cárcere, toca. Jogado de um lado para o outro, entre a malevolência e a benevolência deste e daquele militar, Graciliano se pergunta como é possível a coexistência de tão diferentes mentalidades sob uma mesma estrutura política-repressora. E tal coexistência pode conviver até mesmo dentro de uma só pessoa, um ser aparentemente indivisível. Na verdade, nem é de todo exato que Frei Betto não toca nesse problema - como podemos ver na seguinte passagem: "a viatura não tomou diretamente o caminho da estrada. Embrenhou-se pelas ruas da capital paulista até parar defronte de uma confortável casa, em bairro de classe média. Retiraram as algemas do prisioneiro, convidado a descer. Monsenhor imaginou o pior: um local secreto de torturas. Entrou desconfiado e, muito confuso, viu-se recebido por uma atenciosa senhora rodeada por três crianças. Eram a esposa e os filhos do homem do Esquadrão da Morte. O ambiente revestia o delegado de uma auréola de pureza. A família esperava o prisioneiro com a mesa posta para o lanche, no qual não faltava o bolo feito pela dona da casa. Padre Marcelo tentava compreender como o marido carinhoso e o pai atencioso podiam coexistir no torturador frio e implacável. Misteriosa a natureza humana! O homem que se deliciava em maltratar mulheres, pelo perverso prazer der vê-las nuas, gemendo indefesas em suas mãos, agora ajudava a esposa a servir o café e brincava com o filho menor no colo. O poder é capaz de dividir assim as pessoas? Deus e o diabo disputam um mesmo ser?" -, nem estou tão seguro que Graciliano o faz de forma mais detida (precisaria reler as Memórias...). O certo é que se trata de um problema muito difícil de se colocar e abordar. Mas se há uma coisa clara aqui é o poder coercitivo que as estruturas objetivas criadas histórica e socialmente exercem sobre as consciências individuais. Os mistérios da alma humana são profundos, abissais. Todo maniqueísmo e redutor. Todo psicologismo e todo objetivismo também.