domingo, 29 de setembro de 2013

Família

Vai-se o tempo
Fica a saudade
Dos parceiros
Família é amizade
É sintonia
E a minha
Eu carrego no peito
Jamais esquecer as origens
Orgulhar-se de onde se veio
Porque uma árvore sem raízes
Não resiste aos contratempos

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Pronomes

Lá vem você
Com o seu eu
No singular
Tu não vês
Que sem eles
Não há vós?
Dê-lhes tu
E sê vós
Mais eu, nós
Um todo só

Um louco

Demoro a aprender
Cabeça dura, burro, teimoso
Resisto a ter de crescer
Sou menino meio velho meio moço
E tenho ainda muitos outros erros a cometer
De novo, de novo e de novo
Ainda me resta uma vida inteira por viver
Com sorte consigo um acerto ou outro
Enquanto isso, vou errando por puro prazer
Se eu gosto do caminho sinuoso
Que diabos eu posso fazer?
Ademais, se é por paixão e gosto
Que mal nisso há de ter?
Já tentei outros métodos, confesso
Sem sucesso - felizmente, devo dizer
E mesmo que vá mudando aos poucos
Não deixo de ser
Um louco

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

O livreiro de Rafah

Como sempre faziam todos os dias para irem juntos à escola, Samira e Ahmed encontraram-se com Kamal do lado de fora de seu prédio. Este os esperava impaciente.

– Vocês estão atrasados!

– Não foi nossa culpa, Kamal – respondeu-lhe, Samira. – No caminho havia uma rua interditada que tivemos que contornar. Tinha bombeiros e policiais por todo lado. Parece que um míssil israelense destruiu o antigo cinema.

Ao ouvir essas palavras, os olhos de Kamal injetaram-se de vermelho, um calafrio gelou-lhe a espinha, mas logo foi substituído por uma onda de calor que começou nos pés e foi terminar nas orelhas ruborizadas. Ele fervia de ódio por dentro. E a pressão escapou em vitupérios e anátemas:

– Malditos sejam esses sionistas, filhos da puta! Desgraçados! Eu vou matá-los um por um, eu juro!

Samira e Ahmed já não se assustavam mais com os acessos de ira e as ameaças vãs de Kamal. Conheciam seu temperamento. Sempre quando tomava conhecimento de alguma das muitas e recorrentes injustiças praticadas pelos israelenses contra seu povo, Kamal explodia em fúria cega. Samira não cuidava que um dia ele seria capaz de perder a cabeça de verdade a ponto de botar sua própria vida em risco. Por outro lado, sabia a admiração e respeito que o garoto nutria pelo Hamas e por seu braço armado, as Brigadas Al-Qassam, e tinha medo que um dia ele pudesse juntar-se a elas.

– Vê porque a jihad é o único caminho para a liberdade? Não é possível dialogar com esses criminosos! É preciso expulsá-los, esmagá-los!

Talvez por criação ou por influencia dos grupos mais radicais, Kamal via o mundo através das lentes da religião. Achava que o conflito entre palestinos e israelenses era antes uma guerra santa entre judeus e muçulmanos, cujo desfecho seria a retomada da terra sagrada pelo povo a ela destinado por Deus. Samira não gostava dessas ideias. Mas via em Kamal uma pessoa corajosa e fiel, e amava-o por isso. Enquanto ele discursava, ela tentava demovê-lo de seus planos.

– Você nem tem motivo para sentir tanto ódio, Kamal. Nada aconteceu com você ainda. Se alguém tem motivo aqui para se unir ao Hamas é Ahmed.

Mesmo ao ter seu nome mencionado na discussão, Ahmed não se manifestou. Permaneceu calado, com os olhos tristonhos voltados ao chão, como se não estivesse ali, a cabeça envolta em pensamentos. Era o mais novo dos três. Perdera toda a família durante uma invasão israelense há alguns anos atrás. Numa noite, soldados do exército invadiram sua casa e executaram seus pais, irmãos e irmãs. Não saberia dizer o porquê, nem recorda perfeitamente os acontecimentos daquela noite. Só se lembra de ter sido encontrado debaixo de uma cama e levado para longe de casa. Nunca mais viu nenhum de seus parentes. A família de Samira adotou Ahmed, e desde então ela tem sido sua irmã e protetora.

Diante do argumento de Samira, Kamal silenciou. Voltou os olhos para Ahmed, engoliu seco.

– Vamos à escola – Disse por fim. – Estamos muito atrasados já.

No caminho, Kamal permaneceu em silêncio, pensativo. Tinha uma missão importante para essa tarde, e sabia que Samira não aprovaria. Mas os três eram tão unidos, que se sentiu na obrigação de informá-la.

– Ouvi dizer ontem que explodiram um depósito perto da fronteira com o Egito. Parece que ele estava carregado de armas contrabandeadas. Hoje a tarde vou até lá ver o que encontro.

– O que? Você está louco? – protestou, Samira, enquanto seus olhos enchiam-se de lágrimas. – O que se passa por essa sua cabeça de merda, meu Deus? Você quer é encontrar um jeito de se matar, e não se importa com as pessoas que te amam!

Kamal não respondeu, apenas encarou, impassível, com seus olhos duros os olhos meigos de Samira.

– Eu vou com você – interveio de repente Ahmed.

Os dois voltaram-se para ele, incrédulos. Samira quis protestar, indignada, mas não conseguiu dizer nada. Kamal se sentiu culpado, não queria que ninguém se arriscasse por ele, muito menos seus amigos, mas obviamente respeitava a vontade de Ahmed.

– Então vamos – assentiu Kamal.

Samira, impotente, quis chorar, implorar, gritar, bater-lhes. Não viu, por fim, outra saída senão se juntar à expedição. Combinaram de se encontrar no portão de trás da escola após as aulas, onde Kamal havia amoitado picaretas e pás.

Já passara da hora do almoço quando partiram. Rafah, onde moravam, é uma cidade fronteiriça situada no sul da Faixa de Gaza. Entre ela e o Egito corre uma cerca alta, encimada por arames farpados, e coalhada de soldados armados até os dentes. A fronteira é estritamente controlada pelo governo egípcio, e o acesso entre os respectivos países é restrito. Depois da vitória do Hamas nas eleições, de sua subida ao governo e da expulsão dos moderados do Fatah para a Cisjordânia, o controle e a vigilância endureceu ainda mais devido às pressões de Israel, que considera o partido um grupo terrorista e teme pela segurança de seu país. Segundo o governo israelense, a fronteira em Rafah é a principal porta de entrada das armas que sustentam o Hamas. Cavam-se túneis clandestinos sob ela, e é por isso que a Força Aérea israelense frequentemente realiza bombardeios na região, a fim de destruí-los.

Kamal, Samira e Ahmed chegaram uma hora depois à rua onde ficava o depósito em que supostamente se escondiam as tais armas contrabandeadas. Espalharam-se sobre a montanha de escombros, que se estendia por quase todo o quarteirão, e puseram-se a escarafunchá-la aleatoriamente. De repente Ahmed encontra alguma coisa. Seus olhos, de ordinário macambúzios, tornaram-se curiosos e, por fim, maravilhados quando ele se deu conta que sob os escombros jazia uma pilha de livros.

– Mas... Mas são livros – balbuciou incrédulo, Kamal. – Porque Israel bombardearia um depósito de livros?

E, de repente, tudo fez sentido. A inteligência militar israelense havia se equivocado. Confundira contrabando de livros com contrabando de armas. Não era incomum que, sob o rígido controle fronteiriço, bens de consumo civis fossem barrados na alfândega. Acontecia até mesmo de itens alimentares esbarrarem na burocracia e estragarem esperando autorização para entrar em Gaza. O livreiro de Rafah, por essa razão, resolvera então se arriscar pelos túneis clandestinos, controlados pelo Hamas, o que teria levantado suspeitas de Israel. Afinal, não só armas passavam por ali, mas todo tipo de mercadorias.

Os três amigos passaram então os dias seguintes minerando o antigo depósito e recolhendo os livros como se fossem pedras preciosas. Com eles, montaram uma biblioteca nova na escola, que ficou sob os cuidados de Samira. Kamal esqueceu-se da guerra santa, e pensava agora em fazer faculdade. Segundo ele, existem outras formas de ajudar o seu povo. E Ahmed passava tardes e mais tardes na biblioteca, completamente imerso nas histórias fantásticas de reinos passados e distantes.

domingo, 15 de setembro de 2013

A vida é um círculo

Na vida, nada acaba
Nada termina
Todo fim é recomeço
É a linha de chegada
Ou um novo ponto de partida?
É quando uma ponta da linha
Encontra com a outra
Quando fecha-se o círculo
E outro novo tem início
Não à toa
No universo, tudo é cíclico
A espiral é o movimento universal
É como se realiza o Espírito
É a forma estrutural
A verdadeira face do divino

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Teoria marxista e fascismo

As teorias que explicam o fascismo com base no desenvolvimento econômico capitalista, situando-o especialmente dentro e como consequência de sua fase monopolista, ou na estrutura de classes e as lutas que travam entre si, são insuficientes e não podem fornecer uma explicação global e multidimensional do fascismo. O capitalismo, suas classes e a luta entre elas são categorias bastante gerais e, por isso, abstratas, de modo que não podem explicar porque o fascismo surgiu neste ou naquele país, porque tomou esta ou aquela forma em cada um deles, ou porque foi derrotado em um ao passo que em outro tornou-se um movimento de massas. Essa teoria não está errada, ela apenas para onde realmente começa a explicação; isto é, a seu favor está o fato de que numa mesma época e num amplo espaço político-geográfico (dentro e fora da Europa) surgiram movimentos políticos de extrema direita de um novo tipo, ou seja, diferente dos partidos autoritários tradicionais, ligados à Igreja, ao oficialato, aos altos burocratas e aos grandes latifundiários. Isso significa que a teoria do fascismo como consequência de certas condições históricas inerentes ao capitalismo em sua fase monopolista fornece um quadro bem geral dentro do qual podemos situar o fenômeno, mas diz pouco a respeito deste. Parece óbvio que um movimento como o fascismo não poderia ter surgido no Renascimento, por exemplo, assim como também não poderia ter surgido durante a consolidação dos Estados-nações e da economia de livre mercado ao longo do século XIX. Algumas das condições mais gerais para o surgimento do fascismo, como o parlamentarismo, a democracia liberal, os partidos de massa, a organização dos trabalhadores fabris, etc., estavam ainda sendo gestadas nessa época, e foi somente com o advento da Primeira Guerra e suas consequências catastróficas que o fascismo pode surgir. Por outro lado, o conceito de classe, em sua acepção marxista, e de suas relações contraditórias e antagônicas que se expressam numa luta de classes, são extremamente importantes para entendermos alguns dos mecanismos por trás desse surgimento. Mas há várias outros fatores estruturantes que atravessam uma sociedade, não apenas as classes. Se focarmos única e exclusivamente a classe, acabaremos caindo em certos reducionismos que apenas confirmam um dogma e não a realidade. Assim foi que praticamente todos os marxistas explicaram o fascismo a partir da luta entre as duas classes principais, ou no máximo, em suas versões mais refinas, entre três. É verdade que essa estrutura básica é fundamental, tanto na realidade quanto para explica-la, assim como também o é as suas divisões internas em camadas ou frações de classe. Mas outras categorias de estruturação social, mas dinâmicas e heterogêneas, também são. Não existe aí uma hierarquia explicativa ou axiológica. Isso seria cair num vulgar determinismo. Por isso, é fundamentalmente necessário levar em conta, por exemplo, as associações de militares e ex-veteranos de guerra, os grupos intelectuais e estudantis, a diferença entre os moradores da cidade e do campo, etc. Além do mais, existe, num nível teórico profundo e a despeito de suas ressalvas, uma tendência economicamente determinista entre os marxistas, segundo a qual a preeminência da explicação cai sempre sobre o pertencimento objetivo dos indivíduos às classes, deixando de lado em certa medida seus valores, crenças, expectativas, costumes, vivências. No máximo, esses intelectuais constatam uma disjunção, um descompasso entre essas ideologias e as que se espera que devam sustentar em conformidade com seu pertencimento de classe. Isso não é o suficiente para afirmar a autonomia ideológica que determinados marxistas, em desacordo com seus colegas mais deterministas, defendem, simplesmente porque o mundo das ideias acaba sendo sempre visto sobre o pano de fundo da estrutura de classe, de modo que as ideias estão, de qualquer forma, ancoradas a ela. Mas a realidade é infinitamente mais complexa, e vários outros fatores, para além das classes, estão mutuamente implicados na constituição dos discursos e práticas de um indivíduo ou de um grupo social. Assim, por exemplo, por uma infinidade de razões uma parcela significativa da sociedade não se considera vinculada a nenhuma classe em especial, e, por isso, na eventualidade de uma luta entre elas (o que efetivamente ocorria durante a época do fascismo), esses indivíduos e grupos podem assumir uma posição de oposição aos dois lados e, deste modo, tornarem-se sensíveis ao discurso de “terceira via” defendido pelo fascismo. É certo que esses sujeitos não estão desvinculados das classes, mas o fato de acharem que sim tem consequências reais. É preciso, portanto, compreender quais os principais fatores que ensejaram os vários discursos ideológicos e políticos que tomaram corpo naquele período da história do capitalismo europeu e que permitiram ao discurso fascista crescer e tomar o poder.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

O tempo e o Facebook

O tempo é questão-chave para se entender o tempo – de hoje. Tempo, tal como mostrou Einstein em relação ao mundo físico, é relativo, e isto é ainda mais verdadeiro para o mundo humano, eminentemente histórico e social. Atualmente é um lugar-comum a ideia de que a modernidade, com suas revoluções e suas máquinas, acelerou exponencialmente o tempo. Até a emergência desse marco histórico, o tempo se arrastava na velocidade permitida pela natureza. Embora isto não seja de todo verdade – pensemos, por exemplo, no moinho hidráulico ou movido por tração animal: ainda que dependente de elementos naturais como força motriz primordial (a água, o boi), eram já avanços consideráveis na técnica e na tecnologia que permitiam a quebra relativa do tempo da natureza –, uma vez que, de uma maneira ou de outra, os seres humanos sempre determinaram em alguma medida o tempo em que vivem (o tempo é, sob o ponto de vista estritamente humano, sempre um produto da sua ação), nada do que aconteceu antes na história humana compara-se ao tempo vivido na modernidade. E o cerne desse processo, seu epicentro, sem dúvida encontra-se na produção social, na economia, e nas tecnologias e técnicas que a acompanham. Um exemplo curioso, que pode ser aduzido aqui de passagem, é o tempo decorrido entre o nascimento e o abatimento de um frango: enquanto um frango caipira leva em média 180 dias para atingir o peso ideal, um frango de granja hoje leva a metade desse tempo. Isto nos faz pensar como o tempo humano relaciona-se e interfere no tempo da natureza, e como a separação entre um e outro é abstrata. O planeta esquentou velozmente nos últimos dois séculos, e ainda mais rapidamente nos últimos cinquenta anos, com a industrialização do chamado Terceiro Mundo; há milhões de anos a natureza não presenciava semelhante aquecimento, e é a primeira vez que a causa são as mãos humanas. Bom, mas eu comecei esse texto não para discutir as questões filosóficas, historiográficas ou sociológicas relacionadas ao tempo, mas simplesmente para criticar uma noção muito comum e invariavelmente aceita como inescapável: a de que a aceleração dos tempos modernos, que Chaplin representou muito bem numa época em que todo o potencial tecnológico da modernidade ainda não passava de uma promessa, exige nossa adaptação, de que só nos resta acompanha-la. Esse tempo, que não é exatamente nosso, mas das máquinas, é um grilhão, e não uma benção. Na época de Chaplin, as máquinas e o crescimento da velocidade na produção e na comunicação prometia libertar os humanos do fardo do trabalho. Essa promessa não passou de uma promessa; ainda mais: não passou de uma mentira contada inescrupulosamente por quem dela se beneficia. Atualmente, a comunicação é virtual e instantânea, bens e pessoas circulam rapidamente dentro do mundo todo, as grandes cidades, para onde uma boa parte da humanidade se mudou, não desliga dia e noite. Estamos sempre em movimento, e não há tempo sequer para pensar em porque ou para onde nos movemos. Dentro do tempo cada vez mais escasso que individualmente cada um nós dispomos para sermos nós mesmos, o trabalho certamente consome a maior fatia. E ainda é preciso cuidar das necessidades mundanas, viver a vida familiar, ter amigos, fazer atividades extracotidianas, cuidar da saúde, apropriar-se da e produzir cultura, enfim viver plenamente uma vida atribulada e prenhe de inesgotáveis atividades. E se alguém não consegue ou recusa esse estilo de vida em favor de um outro onde não se esteja reiteradamente brigando com o relógio, este alguém é taxado de perdedor, aquele que não deu conta da modernidade, que não suportou-a e não tem o que é preciso para tanto. Por trás dessa crença generalizada está um juízo de valor de que esse tempo moderno é bom, de que quanto mais coisas fazemos mais desenvolvidos e mais completos somos. Como se correr contra o relógio e ganhar (ou achar que se está ganhando, ao menos em relação às outras pessoas, porquanto se trata de uma luta definitivamente perdida) fosse o critério da felicidade. E as coisas pequenas e improdutivas da vida? E a contemplação e o ócio criativo, onde ficam? Na universidade ouve-se o argumento: o que você faz da meia noite às seis? Pois não durma, estude! É claro que esse é um argumento extremo e fanfarrão, porém há nele um quê de verdade, e esse quê é justamente a ideia de que é preciso produzir, produzir e produzir em detrimento do lazer, do gozo, da fruição. Dormir sete horas é preciso. Falta tempo para fazer tudo o que se quer de modo que é preciso sacrificar alguma coisa? Então está na hora de pararmos de sacrificar o que realmente importa e fazer isso com o que não importa, há começar pela perda de tempo que é esse Facebook.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

A cidade

A cidade é obra humana
É trabalho consubstanciado
Que imprime em concreto e aço
Numa doida sanha
Amores, sonhos e esperanças
De homens e mulheres passados
Cujos restos estão entre nós
Na forma de ângulos, de linhas
E cada traço, cada polígono
Não é simples matemática
A cidade é um volumoso caderno
Um diário, prenhe de histórias
Escritas a várias mãos, apócrifas
É um monumento
À nossa capacidade de transformação
É um livro aberto
A quem quiser dar contribuição

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

As mentiras da Globo: as de ontem e as de hoje

Poucas coisas são mais repulsivas do que o cinismo dos "de cima". É como se, não bastasse pisar no pescoço dos "de baixo", ainda cuspissem-lhe à cara. É precisamente o que o grupo Globo acaba de fazer com o povo brasileiro, ao negar-lhe a verdade de sua história enquanto, supostamente, presta contas com ela. Com efeito, o recente editorial no qual, pela primeira vez, a organização admite ter sido um erro apoiar o golpe militar de 1964, nega a história, deturpa-a, como é de praxe, a pretexto de resgatá-la. Ainda mais: procura fazer da culpa de uma das organizações mais poderosas deste país, menos do que um simples erro, mas acima de tudo uma mea culpa, compartilhada com toda a sociedade e, portanto, compreensível e justificável.

Em primeiro lugar, é preciso dizer: erro é teu cu! Não se pode, conscientemente, assumir uma postura e tomar uma escolha a fim de satisfazer interesses pessoais e, depois de satisfeitos tais interesses, afirmar que cometera um erro. Isso é oportunismo, um duplo oportunismo, porque, mais uma vez, não passa de uma tentativa infantil de alienar-se da responsabilidade por seus próprios atos. Para começo de conversa, a Globo não seria o que ela é hoje (um dos maiores impérios midiáticos do mundo) sem a ditadura militar. Na época, ela era basicamente um jornal. Entre todos os aparelhos ideológicos da burguesia brasileira, a Globo foi a que esteve mais organicamente ligada ao golpe e ao regime ditatorial, e que mais lucrou com o desenvolvimento das telecomunicações nos anos 1970. Agora ela vem dizer que isso foi um erro? Se ela efetivamente se arrepende dele pode começar devolvendo suas inúmeras concessões de tevê ao poder público, assim como todo seu patrimônio. Erro mais cômodo esse, hein! Tão cômodo quanto admitir agora que fora um erro.

A simples e ululante verdade é que a Globo está acuada pelas manifestações populares que sacudiram e sacodem os poderes constituídos. Sendo um desses poderes, sendo um Estado dentro do Estado, ela é também alvo dos manifestantes. De início, tentou disfarçar essa animosidade contra si (e que entre os setores de vanguarda do movimento assumiu o caráter de pauta pela democratização da mídia) com táticas grosseiras. Ao mesmo tempo em que procurava direcionar a fúria popular contra seus inimigos, sobretudo o governo federal e o PT, a Globo procurava tirar o foco de si mesma. Mas como isso não foi possível, e diante da crescente manifestação contra ela, cujo ápice foi a chuva de bosta sobre o logo da emissora no RJ, ela se viu na contingência de ceder uma grande concessão à sociedade. Fazer uma autocrítica por suas ações durante a ditadura foi a melhor saída: primeiro porque se trata de uma grande concessão, e segundo porque diz respeito a um fato passado, que aparentemente nada tem a ver com o presente. Mas, como é óbvio e diferentemente do que ela tenta, explicitamente, defender, tem sim, e muito.

Isso tudo é muito óbvio. O que talvez não seja tão óbvio é que até mesmo na hora de fazer semelhante concessão, a Globo não deixa de mentir e de escamotear a verdade de forma desesperada a fim de preservar o que resta da sua imagem. Em termos simples, a ideia que ela procura passar no editorial em questão é: apoiamos a ditadura sim, e isso foi um erro, mas não fomos só nós que a apoiamos e, consequentemente, não somos os únicos errados nessa história. À primeira vista, pode parecer verdadeiro semelhante argumento. A ditadura foi saudada pela maioria da população brasileira, e o fato de que a grande maioria do meios de comunicação tenha feito o mesmo parece corroborar a opinião de que esse foi um erro geral.

Ora, a questão se resolve muito facilmente quando se tem em conta que são os meios de comunicação, oligopolizados e geridas como um negócio privado, que determinam em grande medida (talvez em toda medida) a opinião pública. Se a maioria da população estava a favor do golpe foi porque as grandes empresas de comunicação mobilizaram todo o seu aparelho para isso. Apoiados pelas classes proprietárias, que tinham interesse em depor Jango (e que já vinham há tempos tentando orquestrar um golpe), empreenderam uma campanha cuja finalidade era estigmatizar seu governo e colocar todo o povo contra ele. Se o povo cometeu, portanto, o erro de apoiar o golpe, isso se deu porque foi manipulado pelos construtores de consenso, pelos intelectuais orgânicos da burguesia, pelo aparelho ideológico de Estado: a grande mídia empresarial. Dito isso, compreende-se que a Globo não pode usar como desculpa um sentimento que ela mesmo criou conscientemente e com finalidades claras.

De resto, é muito claro que o editorial "autocrítico" do jornalão O Globo faz exatamente o contrário do que se propõe a fazer: diz que quer esclarecer a história, mas não faz senão obscurecê-la; diz que quer resgatar a verdade, mas não faz outra cousa que não negá-la. Num certo ponto da sua "confissão", o editorialista afirma que o que aconteceu aconteceu, e que não se pode negá-lo porque se trata de história. Desnecessário dizer que quase trinta anos após o ocaso do regime ditatorial a Globo vem ainda, exitosamente, negando a verdade. É por isso que a história não é simplesmente um conjunto de fatos: ela é um processo sempre ressignificado; o que aconteceu, aconteceu da forma como o lembramos. A pretexto de corrigir essa lembrança, a Globo não faz senão ratificar o significado corrente dado à ditadura: de que sua causa foi o clima ideológico da Guerra Fria e de que havia a ameaça iminente de um golpe do campo ideológico oposto: a instauração de uma "república sindical", o que quer que isso signifique.

Enfim, o editorial em questão é um festival de impropriedades historiográficas, e de mentiras e deturpações deslavadas e cínicas. Deixo aos mais capazes do que eu a tarefa de demolir ponto a ponto as falácias dos Marinho. Essas falácias não são, contudo, uma surpresa. A Globo, bem como seus parceiros-concorrentes midiáticos da direita e a burguesia brasileira, depende delas. Não é de esperar que não lançaria mão, num momento de grande ameaça, das mesmas táticas vis e velhacas de que sempre se valeu para manipular a opinião pública e para manter a ordem econômica e política excludente e exploradora deste país.

domingo, 1 de setembro de 2013

Sobre a intervenção ianque na Síria

Tudo indica que a intervenção estadunidense direta na Síria não é mais uma questão de "se", mas de "quando". Nos próximos dias ou semanas podemos esperar um ataque às forças de Assad. Como sempre fizeram, os EUA não estão dispostos a construir um consenso a propósito, e muito menos a respeitar as leis internacionais que eles mesmos criaram. Quando se trata de botar em prática suas agendas políticas internacionais, os EUA estão pouco se lixando para questões legais e/ou éticas - e eles têm poder militar e econômico para se darem a esse luxo. Não obstante, a recente declaração de Obama, de que vai procurar apoio no legislativo para um ataque unilateral (sem mandado do CS da ONU) ao regime sírio, tem como fito assentar um mínimo de consenso nacional e evitar o isolamento, já que, dada a atual conjuntura interna, não há consentimento popular que abone a ação. Independente disso, dificilmente essa ação terá apoio popular, internou ou externo, bem como de apoiadores ou de inimigos de Assad.

Diante do já requentado discurso de guerra humanitária, ou seja, de que uma intervenção na Síria visaria única e exclusivamente fins humanitários, como a salvaguarda de direitos humanos do povo sírio, é fácil ver que os EUA não fazem senão perseguir sua própria agenda política e econômica. Nada de novo até aí. É por isso que é inútil discutir o problema à luz de questões éticas ou legais. Os EUA obviamente não têm autoridade moral para falar em violações de direitos humanos por parte de seus antagonistas internacionais. Também não têm qualquer legitimidade ao aduzir preceitos jurídicos para fundamentar sua posição, uma vez que eles próprios deixam de parte tais preceitos quando lhes convêm. O critério de análise aqui deve ser as necessidades da revolução síria, e isso implica tomar um lado - vale dizer: o lado dos revolucionários. O problema todo, portanto, se resume em: se, ao intervir na Síria, os EUA podem ou não pesar a balança para o lado dos rebeldes. Isso depende de como tal intervenção será feita.

Se for desincumbida como um ataque pontual e rápido, visando destruir ou debilitar a capacidade bélica de Assad, sem ocupação do território com tropas, então pode ser que essa intervenção militar norte-americana seja, pela primeira vez na história, positiva. Tratar-se-ia, portanto, de uma intervenção bastante distinta daquela levada a cabo por Bush, no Afeganistão e no Iraque, pretextando uma cruzada contra o "terror". Repito, as motivações de Washington não são humanitárias. Visam perseguir objetivos particulares: impedir o fortalecimento do Hezbollah e dos grupos jihadistas que cerram fileiras com o campo rebelde; abrir espaço para uma transição negociada que não desequilibre o status quo geopolítico no Oriente Médio, etc. Mas, uma vez que a intervenção norte-americana não vai ocupar o território sírio, ficaria assim, em tese, resguardada a autonomia dos organismo políticos e militares dos rebeldes.

Eu sou absolutamente contrário ao imperialismo ianque. Mas impõem-se necessidades táticas urgentes que me obrigam a suspender esse meu posicionamento político geral. A guerra civil já se arrasta há dois anos e meio e, a continuar como está, arrastar-se-á por mais dois, cobrando seu inevitável preço em vidas. Daí porque o argumento de que os efeitos colaterais dos assim-chamados "bombardeamentos cirúrgicos" invalidam a si mesmos já que matam civis a pretexto de salvá-los, é relativo. Civis estão morrendo nesse exato momento. Por exemplo, 1.400 deles morreram semana passada sufocados por gás sarin, independentemente do culpado, se rebeldes ou governo. Quem sabe quantos mais morrerão. É por isso também que palavras de ordem abstratas não resolvem o problema. "Abaixo Assad! Não à intervenção imperialista! Viva a revolução síria!" Perfeitamente. Mas como colocá-las em prática senão mediante uma intervenção imperialista? O povo está exausto de tanto sangue derramado, o Hezbollah entrou no conflito ao lado de Assad, e enquanto o tempo passa as forças rebeldes têm que lidar, cada vez mais, com seus próprios problemas internos, como a influência de grupos islamistas sectários em seu interior. Pôr termo à guerra deve ser a nossa preocupação primordial. Só assim será possível que o conflito armado seja substituído pelo conflito político. Que tipo de Estado e de regime político nascerá daí é com o povo sírio.