segunda-feira, 30 de junho de 2014

Futebol e política

Eu acho que tem mais é que politizar a Copa mesmo, por mais que isso pareça coisa de gente chata e "do contra". Não apenas o evento em si, quem ganha e quem perde fora das arenas, mas como um fato concreto a partir do qual se pode debater várias questões sociais, como o machismo por exemplo. Fazer manifestações, pontuar críticas ao governo, denunciar a Fifa, tudo isso me parece legítimo, assim como é legítima a escolha de quem só quer tomar sua cervejinha e torcer com xs amigxs. Alienação, pão e circo? Talvez, mas não apenas, e, o mais importante, a Copa não inventou isso tudo nem vai fazer desaparecer. Eu não gostaria de ver o Brasil na final, mas isto só porque eu gosto de apostar nos azarões cheios de raça, e não porque sou antinacionalista e anticapitalista. Sobre os vícios da Copa, muita coisa foi exposta e discutida nos últimos anos. Ainda assim, se as pessoas querem assisti-la, não sou eu que vou ficar emburrado, jogando água no chopp dos outros mas espiando de rabo de olho os jogos e torcendo no íntimo. Torcer contra tudo bem também, ninguém é obrigado a se juntar ao coro da multidão, só não o façamos por motivos simplistas ou arrogantes demais. De resto, vamos pegar mais leve e relaxar. Até parece que a Copa é a parteira da história, que ela está inaugurando um novo período na luta de classes. Nada mudou, em termos estrururais, e nada vai mudar com ela. A Copa a quem é de Copa, e a política a quem é de política. E, no final, seria bom se os da política aprendessem com os da Copa, e os da Copa aprendessem com os da política. Já seríamos campeões.

Meu jardim

Meu jardim tem hibiscos
Onde beija o beija-flor
No jardim dos vizinhos
Ele não beija com tanto amor

Vaia e pobreza sociológica

Quem vaiou a presidente Dilma na abertura da Copa? Essa é uma pergunta enganosa, porque supõe que se conhecermos a origem social dos vaiadores saberemos como pensam e agem como um todo a “classe” a qual pertencem. Essa generalização, porém, não é tão perigosa quanto a raciocínio oposto, o qual é muito mais comum: assim, os marxistas deduzem o comportamento das pessoas de determinada classe com base na ideia que fazem do comportamento das pessoas desta classe. Temos aí um raciocínio circular, tautológico. Nesse sentido, ao constatar que o público do estádio estava composto em sua esmagadora maioria por pessoas de relativamente elevada renda (o que já é suficiente para que eles concluam que se trata da burguesia e/ou pequena burguesia), e ao constatar seu comportamento, dizem: aí está, a burguesia é conservadora, reacionária, como havíamos predito. Vê-se logo a inconsistência desse raciocínio: a realidade é estereotipada para que caiba nos limites dos preconceitos de quem a estereotipa e, uma vez que a realidade, assim estereotipada, efetivamente cabe dentro do estereótipo, isso é a comprovação de que o estereótipo é empiricamente correto. O estereótipo em questão, o comportamento relacionado às classes, é explicado com base num reducionismo grosseiro: como as classes são construídas, conceitualmente, em relação à sua posição na estrutura econômica, o comportamento de seus membros é derivado dessa posição e, portanto, dos interesses materiais que ela implica. Para explicar as variações de comportamento entre os membros de uma classe, os marxistas subdividem arbitrariamente as classes em frações de classe, relacionando cada uma delas a determinado comportamento (assim a pequena burguesia é associada ao comportamento mais conservador ou mesmo reacionário por causa da sua posição na estrutura econômica). Deste modo, preservam a suposição inicial segundo a qual os interesses materiais das classes explicam seu comportamento coletivo. A verdade é que o conceito de classe, muito útil para muitas coisas, não é tão útil quando se quer compreender valores, atitudes, comportamentos, crenças, hábitos, etc., a não ser de um ponto de vista muito genérico e abstrato. Tendo em mente que o público do estádio era composto por pessoas com relativo poder aquisitivo, sabemos que, em termos de classe, ele compunha-se, grosso modo, da classe média para cima. Vaiar a presidente Dilma, petista, vista como de esquerda, ex-guerrilheira, parece um comportamento previsível da parte dessa camada social, ainda mais sabendo que a maior parte da sua base eleitoral vem das camadas de menor renda, especialmente as localizadas no nordeste do país. Entretanto, daí derivar um comportamento típico de uma determinada classe ou fração de classe é um salto mortal que diz mais sobre a ideologia de quem julga do que da própria coisa julgada. Eu tenderia a explicar esse comportamento com base nos preconceitos profundamente arraigados nas “velhas elites”, isto é, aquelas que conquistaram e se mantiveram no poder político, econômico e cultural antes dos governos petistas e, por isso, não mantêm com ele nenhuma dependência sentimental ou simbólica e cuja visão de mundo exerce enorme peso na produção de discursos. Para elas, o PT sempre vai ser um “outsider”, por mais que ele sirva aos seus interesses econômicos, e sempre vai encarnar tudo aquilo que elas repudiam: os trabalhadores, os nordestinos, os cidadãos comuns, a esquerda. As “novas elites”, do tipo Eike Batista, embora mantenham uma ligação mais orgânica com o PT, não deixam de manter uma relação ambígua com ele. Em segundo lugar, é preciso olhar para o contexto sociopolítico de radicalização e crise de legitimidade política, o que facilita de alguma maneira vaiar uma presidente num evento público como a abertura da Copa. Eu examinaria, em terceiro lugar, até mesmo os efeitos psicológicos decorrentes de manifestações coletivas de massa, potencializados num ambiente como um estádio de futebol. Enfim, há muitos fatores para os quais olhar, e a classe social é apenas um deles, quiçá nem o mais importante.

Ciência e neutralidade

Na análise do velho problema do estatuto do conhecimento científico, um ponto de partida possível é admitir que ele não é neutro. A ciência é uma complexa mistura entre ciência e ideologia, embora para se legitimar enquanto ciência ela teve de omitir a impureza dessa mistura, criando um mito para si mesma cuja validade a modernidade, industrializada e burocratizada, se encarregou de ratificar. Mas a verdade é que não existe ciência pura, muito menos no campo das ciências humanas, as quais lidam com “objetos” que pensam, falam, agem, desejam, do mesmo modo que com “sujeitos”, os cientistas, que pensam, falam, agem, desejam e, portanto, escolhem, tomam partido, etc. Além disso, existe uma dimensão histórica nesse problema, onde o que era ciência ontem é ideologia hoje (e quem poderá dizer que não voltará a sê-lo?). A ciência opera com pressuposições baseadas em crenças e valores que não são científicos, e a própria tentativa de excluir essas pressuposições do campo da ciência (Durkheim) já mostrou o quanto esse movimento tem de ideológico em si mesmo. Uma das soluções propostas foi tentar controlar, explicitamente e dentro de limites aceitáveis, esses pressupostos (Weber). Entretanto, eu não sei se descobrimos um modo claro e seguro de fazê-lo, nem se isso é possível. Existe uma metodologia capaz de garantir isso? Essa me parece uma solução muito técnica, cujos limites sempre há de esbarrar no elemento humano (variável, incontrolável, imprevisível) que necessariamente faz parte da equação. A questão é que, embora a ciência em si seja neutra e objetiva, porque é isso que confere sua especificidade enquanto forma de conhecimento, o “fazer” científico não é. O marxismo se apoia nessa tese para avançar a ideia de que se o fazer científico não é neutro, logo é necessariamente engajado, quer queira quer não, consciente ou inconscientemente. Este me parece um passo demasiado ousado. Admitir que não existe ciência pura não significa admitir a proposição diametralmente oposta. Lukács deu um jeito de preservar a premissa de objetividade ao mesmo tempo em que incorpora a tese da não neutralidade, embora de uma forma muito diferente de Weber. Mas não acho que exista um ponto de vista particular (sic) donde se pode, segura e inquestionavelmente, olhar para a totalidade (o ponto de vista da classe revolucionária herdeira da “História”). Todo ponto de vista é, por definição, particular. No fundo, o que os marxistas tentaram fazer foi legitimar cientificamente uma tese que é anticientífica: ou seja, tentaram usar a ciência contra ela mesma e, ao fazê-lo, justificar cientificamente sua própria concepção de ciência. Isso reflete muito bem a hegemonia que a ciência desfruta. Entretanto, esse movimento, embora hábil, é questionável. A verdade é que o engajamento e a não neutralidade do fazer científico não pode ser justificado sobre bases científicas, mas somente éticas, porque se trata de uma escolha. Razão pura e razão prática são absolutamente distintas, mas ambas existem e fazem parte de qualquer atividade humana. De alguma forma, escolhas éticas, baseadas em crenças e valores, são feitas a todo o momento enquanto se faz ciência, por mais que o fazer científico negue, por princípio, essas escolhas. Essa contradição é irresolvível. A “boa” ciência se faz não com a superação dessa contradição, que na prática não passa de escamoteação, mas, ao contrário, com a sua confissão. Entretanto, nenhuma escolha ética é melhor do que a outra, nem a que esposa a causa do proletariado, porque o valor de toda escolha ética é irredutível.

Eleição, Copa e estado de exceção

Neste ano de eleição os interesses políticos estão mais inflamados do que nunca, sensibilizados não apenas pela eleição presidencial iminente, mas especialmente pela nova conjuntura sociopolítica que se abriu há um ano. A hegemonia petista não está mais tão sólida, a sociedade civil deu mostras contundentes de seu descrédito e aversão à política tradicional e, por outro lado, nenhum ator novo assim como nenhum projeto ideológico novo surgiu e se afirmou. A oposição liberal (ou seria conservadora?, na medida em que estabelecer distinções entre os partidos e blocos de partidos brasileiros com base no critério ideológico é difícil e, quem sabe, enganador. Seja como for, a oposição liberal designa, como é de se supor, aquele bloco capitaneado pelo Partido da “Social democracia” Brasileira) sente que este é seu momento de retornar à ribalda da política nacional. A situação enfrenta pressões externas, à medida que se apresentam outros concorrentes, e internas, devido à tendência centrífuga da sua base partidária. Para simplificar, esse ano as apostas são altas, e isso influencia em muito o comportamento dos governos federal e estaduais. A repressão violenta às manifestações anti-Copa resultam dessa influência.

Embora os governos dos estaduais tenham interesses distintos e, possivelmente, conflitantes, assim como em relação aos interesses do governo federal, eles não podem se dar ao luxo de perder o controle sobre as ruas como perderam no ano passado. E isso menos por causa da imagem que vai ficar para os que nos olham “lá de fora” e muito mais pelo que uma festa azedada pode significar para nós aqui dentro, sobretudo, é óbvio, em termos eleitorais. Ante qualquer ameaça, por mais irrisória que seja, a resposta geralmente virá na estratégia de choque de lei e ordem, ou seja, reprimir na fonte e duramente. Portanto, a violência desmedida da polícia diante de manifestações pequenas e pacíficas, inofensivas em comparação com as do ano passado, não vem por acaso e não decorre das características típicas de uma polícia violenta e arbitrária. A polícia militar é um órgão estatal altamente verticalizado e disciplinado, cujo vértice superior é ocupado por ninguém menos que a maior autoridade do executivo estadual. Se essa polícia sai na rua pra espalhar o terror, a pretexto de contê-lo, o faz conscientemente e como parte de um plano. Já podíamos prefigurar qual seria esse plano ao constatar a dimensão do aparato policial e militar mobilizados para a Copa, ou seja, não é segredo que a repressão ia ser dura. Mas a pergunta que eu me faço é se os riscos dessa opção foram devidamente calculados.

À primeira vista parece um plano estúpido, tendo em vista as consequências inesperadas que produziram ano passado, levando a opinião pública a apoiar, ao menos num primeiro momento, os manifestantes. Mas as pessoas que controlam o poder político não são estúpidas, ao contrário. Sabem muito bem que agora, à luz das circunstâncias, a repressão mais dura possível é a resposta. E por duas razões: porque não vai botar a opinião pública contra si, e porque, de quebra, ainda vai disciplinar os “causadores de problemas” mais obstinados. As manifestações perderam força e suas razões e significados, desconexos, vagos e confusos, não são mais, per se, suficientes para mobilizar espontaneamente pessoas nas ruas. Elas perderam também a credibilidade devido aos “transtornos” que causaram e à campanha midiática massiva contra o “vandalismo”. Além disso, a opinião pública está entorpecida com a Copa e o máximo que quer saber de política neste momento é xingar a presidente em estágios. Os grupos que controlam os meios de comunicação farão também a sua parte: embora não possam ignorar completamente o que acontece fora dos estádios, não farão disso uma pauta central e o que puder fazerem para deturpar e deslegitimar as manifestações o farão. De resto, manifestações políticas de massa espontâneas e intensas como essas refluem rapidamente após a maré montante e no momento estamos de volta ao ponto de uma maré jusante. Portanto, os governos sabem que baixar o cacete covardemente em quem levantar uma faixa na avenida é a coisa certa a se fazer. Temos aí uma espécie de estado de exceção, mas não porque a FIFA exigi e tem poder ou autoridade para fazê-lo, mas simplesmente porque as elites políticas não são burras e sabem jogar muito bem o jogo político.

Carpe diem

The life
Is a ride
Enjoy yourself
Because it pass
Really fast
In a blink
Of eyes

Qual cachorro

Eu sou parecido
Com um cachorro
Só funciono
Sob a ameaça
De um castigo
Ou sob a promessa
De uma recompensa
Se você me arreda
Abaixo o nariz
Meto o rabo
Entre as pernas
E volto
Achando que algo eu fiz
Para merecer isso

Uma abordagem diferente

Sexta. Cansaço. Volta pra casa. Buzinas, engarrafamentos. Um sujeito me fecha (e eu nem estou no corredor) sem dar seta. Tenho todos os motivos pra xingar a mãe dele (mesmo sabendo que ela não tem nada a ver com isso, porque ofender uma mulher é o que os homens fazem quando querem ofender outros homens). Ao invés disso, tento uma estratégia absurda, radical, inimaginável: argumentar. Emparelho a moto na sua janela e lhe digo que ele não deu seta, que ele tem que dar seta quando vai mudar de faixa (digo isso mesmo sabendo que ele, obviamente, sabe disso tudo, e que não há nenhum segredo ou dificuldade nisso). Incrivelmente, funciona. Ele fica meio contrário, faz cara de quem comeu e não gostou, mas de algum modo admite o erro. Pelo visto, eu não tinha tanto motivo assim pra xingá-lo e arrumar briga. Afinal, todo o mundo está tão cansado quanto eu. Todo mundo quer só chegar em casa depois de uma semana difícil. O Motivo, na verdade, é a justificativa que a gente usa pra justificar nosso comportamento injustificável, como se tivéssemos mais motivos, e consequentemente, mais direitos do que os outros. Xingar e brigar é, na verdade, um simples impulso egoísta e irracional.

Os primeiros ais

Como doem
Os primeiros ais
Do coração
Como coçam e inflamam
Os primeiros sinais
De uma paixão
Incuráveis
Jamais cicatrizam
Nem nunca desaparecerão
Ainda que durem o tempo
Duma canção
De antigos carnavais
Gravados a ferro e fogo
Como memoriais
Sob o relicário do coração
Serão sempre virginais
Lembranças dum tempo bom
Quando os ais
Não eram de fome nem de solidão
Mas de paz e afeição
Da ilusão doce
Que é a primeira paixão

Desejo, consumo e (in)felicidade

Quem precisa de um som de 750 watts RMS pra colocar na sala de um apartamento? Quem precisa de um SUV 6 cilindros de duas toneladas pra ir da casa pro trabalho e do trabalho pra casa? Quem precisa de um tênis de corrida Mizuno profissional só pra correr aos fins de semana? Que ninguém se engane: ninguém precisa. E não se trata mesmo de precisar. O desejo, uma força irracional muito poderosa, não envolve necessidade. E o capitalismo consumista e midiatizado soube mobilizar muito bem esse sentimento. Apenas aparentemente hoje ele se tornou um fim em si mesmo. Na verdade, o desejo é sempre um meio para obter o prazer que a sua satisfação proporciona. E o prazer, sendo efêmero, reiteradamente recoloca o desejo, e ambos se retroalimentam aumentadamente, numa espiral alucinante de desejo-satisfação-prazer-desejo sem fim. O desejo é, portanto, um fetiche, não no sentido feuerbachiano que Marx lhe atribui principalmente, mas no sentido psicanalítico, espécie de tara, de compulsão. E, na medida em que o mundo desencantado e fragmentado de hoje (carente de sentido e isolador) cria expectativas na mesma proporção em que as frustra, o consumo de bens materiais carregados simbolicamente de prestígio, poder, liberdade, amor, serve de sucedâneo artificial a tudo que realmente nos falta. E quanto mais desejamos, mais nos falta. O desejo é uma força tão poderosa na vida das pessoas a ponto de ser a causa que move e condiciona seu agir e, sobretudo, o porquê agem. Muitos fatos típicos da vida cotidiana se explicam pelo desejo, nu e cru, de consumir. Entre um consumo e outro, ou melhor, ao longo da busca pelo consumo a gente acha algum tempo pra casar, ter filhos, fazer amigos, etc. Eis aí o significado da vida nas sociedades de consumo. Claro que algum sentido não materialista, ético ou espiritual tem que ser formulado e experimentado em alguma medida. Poucos seriam hedonistas e materialistas ao ponto de simplesmente admitir que o sentido da vida é consumir para obter prazer. Mas temos uma noção vaga de felicidade. Se nós vivêssemos conscientes dessa noção; se cotidianamente cotejássemos o ideal de felicidade e a vivência real, a vida seria insuportável. No entanto, quase sempre no cerne da noção moderna de felicidade está alguma coisa como a casa própria com um banheiro reluzente e uma cozinha planejada, um confortável carro zero km na garagem, viagens para o exterior nas férias e assim por diante. Podemos nos enganar acreditando que a felicidade não está nas coisas, mas no que elas proporcionam, afinal, assim como o dinheiro, elas são meios. Isso é um equívoco. A felicidade não está nem em um nem em outro, nem nos fins nem nos meios tornados fins em si mesmos. Estamos procurando no lugar errado

Meus queridos marxistas que me perdoem

Se para os liberais a História chega ao fim em 1991, com a derrocada do socialismo soviético, para os marxistas ela já havia terminado em meados do século XIX, quando Marx lançou os fundamentos do materialismo histórico e dialético – por mais que, paradoxalmente, essa teoria conscientemente voltasse seu olhar para o futuro, nominalmente comunista.

Evidentemente, não quero dizer que os liberais sejam mais realistas ou menos retrógrados do que os marxistas porque supostamente teriam aguentado mais tempo o teste da História. Infelizmente, não existe “a” História, com “H” maiúsculo, nem ela é um laboratório científico onde se podem realizar experiências precisas e objetivas de validade universal.

Ambos têm suas raízes no século XIX, na revolução industrial, na filosofia iluminista e na ciência positivista, por mais que se digladiem e se queiram essencialmente distintos – ou por mais que, acicatados pela necessidade de (re)inventar memória e mitos, neguem essas raízes. São irmãos brigões, filhos de uma mesma época. Época que moldou o mundo contemporâneo e que ainda hoje tem importância decisiva para nós.

A prova disso está em que marxismo e liberalismo não estão nem um pouco envelhecidos, embora, paradoxalmente, seus discursos estejam desacreditados, talvez porque não consigamos vislumbrar alternativas concretas, de modo que, à mingua destas, só nos resta voltar, sempre contrafeitos, a adotar as velhas fórmulas que nos trouxeram a esse beco sem saída.

O que eu realmente quero dizer é que o marxismo, embora a princípio assuma a indeterminabilidade não teleológica da História, na prática age como se ela fosse determinista e teleológica. Tudo o que essa tradição de pensamento vem fazendo, no campo da ciência, nos últimos cento e cinquenta anos é reafirmar, sob novas expressões, velhas teses de Marx, as quais a própria “História”, que os marxistas tanto afirmam respeitar e ouvir, já mostrou infundadas.

E isso não é necessariamente ruim. Como contraponto e interlocutor teórico e político – como uma eterna “mosca na sopa” não apenas dos liberais, mas também de outras tradições de pensamento e daqueles que se arriscam a tomar um caminho independente –, o marxismo desempenhou papel importantíssimo como baliza nos debates que se seguiram ao longo do século XX. Se situar num campo é uma ação eminentemente relativa, e o marxismo sempre foi um ponto de referência importante que não podia ser meramente ignorado.

Descobertas importantes muitas vezes foram feitas não devido à sua colaboração direta, mas à sua oposição, o que prova que respostas “certas” podem ser encontradas também através de perguntas “erradas”.

Não estou argumentando aqui que o marxismo não produziu nada de novo desde Marx e só colaborou negativamente com a evolução do pensamento contemporâneo. Marxistas não são brutamontes abobados que só repetem frases prontas – ao menos não mais do que outras tradições de pensamento o fazem. Em muitos assuntos, especialmente econômicos e político-nacionais, os marxistas estiveram na vanguarda, antecipando-os ou analisando-os com mais perspicácia que seus concorrentes.

O ponto aqui é simplesmente fazer uma constatação dolorosa: atualmente, o marxismo, exceto algumas tentativas bastante livres e heterodoxas de atualizá-lo, não tem nada de substancialmente novo a oferecer, assim com o liberalismo também não.

É comum encontrar marxistas zombando dos liberais por repetirem princípios sabidamente equivocados como o da autoregulação dos mercados. Ora, e a ideia de que as contradições do capitalismo levarão necessariamente à sua ruína não é também, hoje em dia, motivo para zombaria?

Por mais que ambas as tradições de pensamento alterem aspectos secundários da sua visão de mundo a fim de acomodar, teoricamente, transformações concretas que não cabem em seus esquemas conceituais, o núcleo duro desses esquemas permanecem intactos.

Pautar, igualmente, a distinção entre elas como progressistas e conservadoras não é mais válido. Se é que algum dia o foi, tanto porque o liberalismo, evidentemente, foi e ainda é uma força social dinâmica, mas sobretudo porque atribuir a qualidade de progressista ao marxismo assim como a de conservador ao liberalismo pressupõe aceitar que o socialismo é uma possibilidade real e que somente em relação a ele se pode avaliar uma posição como progressista (a que quer construir o socialismo) e outra como conservadora (a que quer permanecer no capitalismo). É óbvio que tal possibilidade não pode ser demonstrada, e ninguém pode ser taxado, a não ser com fins de propaganda política, coerentemente como conservador pelo simples fato de não aceitar as premissas do pensamento marxista.

Talvez não exista nada de errado com esse julgamento em si, desde que se entenda que ele só tem valor dentro do quadro de pensamento marxista, e que ser progressista ou conservador não é uma condição objetiva senão um valor subjetivo. Do ponto de vista dos liberais, nada pode ser mais conservador do que uma tradição de pensamento associada ao comunismo soviético. Outras teorias, por sua vez, podem colocar ambos entre as forças conservadoras da história.

Alguns palpites sobre o futuro do PT

Para revestir seu governo de um caráter popular e classista, o PT inventou o mito de que chegou ao poder com base no apoio popular organizado e de massas. Não foi bem assim.

É claro que a militância de sindicatos e movimentos sociais, onde o PT está, ainda hoje, sobrerrepresentado, constituiriam uma base fundamental. É claro, também, que ele contou com apoio manifesto das massas, embora na forma puramente eleitoral e não mobilizada nas ruas. Mas a verdade é que o PT chegou ao poder quando as massas de trabalhadores precarizados, subempregados ou desempregadas se desencantaram com a política econômica – ou melhor seus resultados – do governo FHC, ou seja, quando o plano real, que o elegeu duas vezes, esgotou-se. O PSDB perdeu apoio e, naturalmente, essas massas voltaram-se para a única oposição expressiva, e cuja história e ideologia suscitavam sua simpatia.

Contudo, o PT também teve que contar com uma articulação com as antigas elites políticas simbolizada na sua aliança com o PMBD. Não se tratava, assim como ainda não se trata, somente de governabilidade, mas da própria condição de existência do governo petista. Isso mostra que a trajetória e as opções políticas do PT não podem ser explicadas unicamente em termos de função de classe. O partido não adotou a linha do transformismo simplesmente para administrar os negócios da burguesia, embora sem dúvida não se importe de colher seus frutos. O PT é um ator político de tipo weberiano: buscava o poder e, agora que o obteve, busca se perpetuar no poder, lançando mão, para tanto, de determinadas estratégias políticas.

Embora o apoio/participação dos movimentos sociais e sindicatos, ou seja, de organizações da sociedade civil tradicionalmente articuladas com o PT, esse apoio nunca foi essencial. Tanto é que uma vez alcançado o poder, o PT resolveu rapidamente o problema cooptando suas lideranças com cargos no governo e isolando as demandas vinda da base. Essencial ou não, sem dúvida o apoio e a participação dessas organizações no novo governo nunca foi suficiente. Foi preciso, como já disse, também o apoio das elites (ao menos de parte significativa delas) e da massa não organizada que fornece o grosso dos votos no partido.

Entretanto, dentre esses três pilares, o ponto de apoio mais importante é esta última. Se essa base ruir, bye bye PT. Poderá ruir? Em tese, sim, mas eu não apostaria nisso num futuro próximo (até a eleição nacional deste ano).

Antes de mais nada, é preciso ter em mente que o comportamento de cada um desses três atores (além, evidentemente, do comportamento do próprio PT) se influenciam reciprocamente, aos quais é preciso acrescentar um quarto, a fração das elites não alinhadas com o PT. Num cenário de profundo descrédito das instituições democráticas, e não tendo conseguido recuperar a influência que possuía outrora, a oposição “de direita” não representa nenhum perigo ao PT. Suas tentativas de deslegitimar o governo (vide julgamento do mensalão) têm sido infrutíferas.

Por outro lado, os movimentos sociais têm crescido em poder de fogo, e se mostrado uma ameaça crescente após as manifestações populares de junho passado. No entanto, a base eleitoral, cuja maior fatia é composta pelas camadas mais pobres e menos organizadas da população, continua sólida. Ela é impermeável aos ataques da oposição tradicional, tanto quanto dos novos atores progressistas.

Paradoxalmente, essas massas são muito leais e muito desleais ao mesmo tempo. O que pode fazer com que essa base se rompa é a sustação do crescimento econômico, mas especialmente das migalhas que sobram para as massas pobres (seja na forma de ganhos salariais ou políticas redistributivas). Sua lealdade depende, portanto, dos ganhos que elas recebem. Mas, no caso do Brasil, essa lealdade também está ancorada na figura carismática e quase santificada do Lula. Ele é a barreira última que protege o partido de um tsunami de descrédito e deslegitimação.

Mas essa barreira tem limites. A economia é o pé de barro do gigante. Se ela quebra, leva junto todo o governo, assim como aconteceu com o governo FHC. Para as camadas que compõem a base eleitoral do PT pouco importa as acusações de corrupção, de que não tem princípios, ou se ele se alia com antigos ou novos oligarcas políticos e empresariais para obter apoio político. O PT, afinal, se preocupa fundamentalmente com isto: governabilidade é só uma desculpa para hegemonia. Já que no Brasil essa hegemonia se sustenta sobre bases heterogêneas e antagônicas, sua união é frágil e mantê-la colada é difícil, de modo que a “governabilidade” é sempre uma opção arriscada na medida em que não é possível agradar a gregos e troianos – não indefinitivamente.

Mas o cenário no Brasil é tal que, não tendo nenhum ator que lhe represente ameaça, o PT pode se dar ao luxo de jogar em mais de um time ao mesmo tempo. O que interessa a ele é como as massas veem esse comportamento. Para elas, o PT é um pai provedor que pensa nos e age pelos pobres, pouco importando como ele faz para provê-los. Embora as massas nem saibam exatamente como funciona a política, têm uma vaga noção de que se o PT toma certas atitudes que parecem ir contra suas expectativas, ele o faz como um mal necessário. Ou seja, supõem que o PT suja as mãos pensando, no fundo, nelas. Não obstante, se o PT não mantém o provimento em dia, a lealdade pode vacilar, e se aparecer um ator político capaz de capitalizar os ressentimentos e fomentar novas esperanças, leva o governo.

Nada disso está, aparentemente, em vias de acontecer. Mas baseados na história passada, acontecerá. A desaceleração econômica deve estar deixando o PT com o cu na mão.

Buscar a verdade

A busca da verdade
Na verdade não está
Está tão-somente na busca
No ato em si de buscar
E não encontrá-la
A sabedoria consiste
Precisamente nisto
Em saber que verdade não há
E satisfazer-se com isso
Com o simples prazer de buscar

Saudade (mais um pouco de)

Quanta saudade do que já passei
De todos e de tudo um pouco
Saudade do passado e do futuro
E do que nem dizer eu sei

Muita saudade do que eu fui
Das coisas que nem conheço
Saudade de todo um mundo
E dos lugares que nunca verei

Sobra saudade disso e daquilo
Dos amores que nunca terei
Saudade da família e dos amigos
E das bocas que experimentei

Saudade da infância de menino
Das experiências com que ainda presentear-me-ei
Saudade do que era triste e belo
E das confissões que quem sabe um dia farei

Saudade daquele nosso momento
E dos fatos que esquecerei
Saudade do que poderia ter sido doutro jeito
Pois jamais saberei

Da vida que vivi e vivê-la ainda hei
Fica a saudade guardada no peito
Não há espaço pra arrependimento
Só saudade, doce saudade, sentirei

Carta aberta aos marxistas

Espero que não me levem a mal meus camaradas marxistas – sim, ainda somos camaradas, embora eu pense que a vida não se restrinja a trincheiras (de que lá estou?) e prefira a liberdade de poder circular entre a “terra de ninguém”; somos camaradas porque o que nos une é menos uma consciência de classe do que a utopia de que um mundo novo é possível –, com meus textos progressivamente “anti-marxismo”, se é que eu poderia caracterizá-los assim (porque, com efeito, não se trata disso).

Estou passando pela fase adolescente e a rebelião, às vezes imprudente, injusta e temerária, é da natureza dela. Não, essa metáfora naturalista definitivamente é uma merda. Mas vou deixa-la aqui para nos lembrar de ela implica muitas armadilhas, entre as quais a mais grave é que supõe, implicitamente, que quem ainda não “superou” o marxismo está preso à infância. Obviamente, também não se trata disso.

Hoje vejo o quanto o marxismo é uma camisa de força e para se livrar dela tenho que me debater – que outros não se riam do marxismo, contudo, porque, definitivamente, o marxismo não é a única nem a pior forma de camisa de força intelectual.

Em termos pessoais – e também impessoais –, continuo nutrindo o maior respeito pelos marxistas e, como dito, considerando-os meus camaradas, se não de armas ao menos de sonho. Abnegação, lealdade e ousadia são virtudes dignas de nota, embora eu não ignore vícios irritantes, como a pretensão a uma autoridade moral supostamente lhes conferida pela “História”.

Minha rebelião vai, antes, contra o marxismo enquanto visão de mundo, tradição de pensamento, teoria e assim por diante, embora isso implique, de alguma forma, abandonar também o barco da revolução e, especialmente, da ditadura do proletariado.

Ao criticá-lo, não me motiva ódio, ingratidão ou coisa parecida. Apenas preciso acertar as contas comigo mesmo. Para se alterar a rota é preciso ver em que ponto se está e onde se considera ter-se perdido. Enquanto se retoma o caminho, não há mal em praguejar um pouco.

A questão é puramente intelectual e, ao mesmo tempo, pragmática. Acredito que a melhor maneira de se seguir o exemplo de Marx é não sendo marxista, tampouco comunista, assim como ele não foi feuerbachiano ou proudhoniano.

Tenho certeza que Marx, caso ainda vivesse, se horrorizaria com a deferência às suas palavras, com o comportamento religioso diante da sua presença consubstanciada, com a tentativa obstinada de remendar a estrutura de seu pensamento ao invés de demoli-la – o que não significa, por suposto, não aproveitar os entulhos que sobrarem, afinal, nada é preto no branco, oito ou oitenta (Marx grita: dialética!).

Sei que “marxismo” é uma generalização simplista e enganadora. Têm marxistas e marxistas, e se, por um lado, é preciso distinguir Marx dos marxistas, por outro lado ambos se confundem e são inseparáveis. No fundo, minhas queixas se voltam contra uma abstração, uma ideia de marxismo. Mas essa ideia não deixa de ter implicações concretas.

Não teria qualquer ressalva ao marxismo de um Harvey, por exemplo, sem dúvida um dos maiores intelectuais contemporâneos, ou de um Hobsbawm. Mas me parece que a maioria dos marxismos exercitados por aí passam longe deles. Portanto, de alguma maneira essa “ideia de marxismo” – dogmático, preconceituoso, anacrônico, raso, estreito, intransigente, burro – têm implicações reais.

Marx foi um gigante, e devemos subir-lhe nos ombros, mas sem ter medo de pisar em sua cabeça. Houve história de lá pra cá, e essa história não se restringe à decadência do mundo capitalista ou à gestação de um mundo comunista. Hoje sabemos coisas que fazem Marx parecer um bobo. Coisas que não saberíamos sem Marx, é verdade, mas que mudam tudo o que sabemos sobre Marx.

A pergunta não é o que do pensamento marxista não serve mais para entender o mundo (pergunta que esconde o que nunca serviu), mas o que ainda pode servir. Marx ficaria deprimido com a nossa falta de imaginação. Talvez seja hora de ir adiante – verdadeiramente adiante – levando pouca coisa além da roupa do corpo e sem olhar para trás.

Futebol e gênero

Nesta Copa, vamos aproveitar para discutir questões de gênero no esporte? Especialmente no futebol, cujo caráter masculino (e hetero) é basicamente inquestionado porque a distinção entre gêneros que tal caráter pressupõe é tacitamente aceita como natural. Entre os esportes, gênero (e orientação sexual) é um marcador estrutural. (Vale notar como as questões de gênero estão umbilicalmente ligadas às questões de sexualidade.) Neste aspecto, o esporte é um campo social tão disciplinador e definidor de papeis quanto o exército – e, com efeito, poder-se-ia estabelecer uma série de paralelos entre ambos. Por exemplo, por mais que ninguém chame seriamente os jogadores profissionais de vôlei de homossexuais (e os comportamentos “não-sérios”, como gracejos e brincadeiras, são talvez mais determinantes do que o que é dito “seriamente” na reprodução de preconceitos) , a ideia de que se trata de um esporte “de mulher” é um preconceito corrente e disseminado. Nos processos de socialização da criança isso fica muito claro, e o papel do esporte é particularmente importante na construção das identidades de gênero: assim como azul é de menino e rosa é de menina, futebol é de menino e vôlei é de menina. Os casos desviantes são sempre estigmatizados. Parece correto que estamos no meio de mudanças históricas significativas, e essas distinções e preconceitos não são talvez mais tão claros. O fenômeno se manifesta através de matizes e expressões ambíguas. A mídia hoje dá certa atenção ao futebol feminino, por exemplo, mas um futebol misto é quase inimaginável, e as diferenças de prestígio e posição entre o futebol masculino e feminino são explícitas. Argumentos naturalistas e pseudocientíficos são invariavelmente mobilizados, assim como em relação a muitas outras questões de gênero, para explicar tais diferenças. Enfim, os esportes em geral, e o futebol em particular, são campos férteis para se problematizar as relações de desigualdade e poder entre os gêneros. Vamos questionar e debater?

Os black blocs e o que aprendemos desde junho

O inusitado episódio envolvendo um pai exasperado e seu filho suposto black bloc é cômico. Não é a minha intenção aqui problematizar o discurso do pai, do filho ou as marcantes diferenças culturais entre gerações. Aconteceu, azar do garoto, será motivo de chacota, afinal é realmente engraçado. Não dá pra não rir e se divertir, conquanto que ninguém se esqueça que todos nós temos pais e já tivemos dezessete anos também. 

O que não é tão cômico é o uso político de um fato tão prosaico, que deveria dizer respeito apenas à comédia da vida privada ou, no máximo, ser noticiado através de uma crônica de Carlos Drummond de Andrade no Correio da manhã. A direita, entre progressistas e conservadores, regozija-se com o fato menos pelo ibope quanto pelas consequências ideológicas. Pintar os black blocs como crianças mimadas, rebeldes sem causa, é tão eficaz quanto pintá-los como arruaceiros violentos sem ética. O que me decepciona é como pessoas de opiniões de esquerda compram essa discurso e o reproduzem. Isso não significa condescendência total com os black blocs. O problema não é se colocar contra eles, mas fazê-lo pelos motivos errados. Para entender isso, vejamos o que aprendemos com as manifestações de massa de 2013.

Nessa ocasião, no calor dos acontecimentos, eu defendi intransigentemente os black blocs contra os ataques virulentos vindos tanto da direita quanto da esquerda, por mais equivocados ou ilegítimos que fossem algumas de suas ações. Àquela ocasião acreditava que era fundamental fazê-lo, porque tais ataques permitiam legitimar e instituir políticas repressivas e criminalizadoras que afetavam o movimento de massas como um todo, não apenas os black blocs, e restringia o próprio direito constitucional de manifestação política. Nem todo mascarado é black bloc e nem todos que entram em confronto com a polícia é vândalo. Mas essas categorias reducionistas, como eram construídas pelo discurso midiático, permitiam tomar a parte pelo todo. Isso ficou muito claro em algumas resoluções públicas que instauravam quase um estado de exceção. Com base nelas, manifestantes portando vinagre, somente para se proteger dos efeitos de um provável conflito, poderiam ser presos. Um manifestante fantasiado de Batman, por exemplo, foi preso por se recusar a tirar a máscara, depois que a proibição do uso de máscaras foi tomada. A questão, portanto, para mim não era se os black blocs agiam corretamente ou se tinham legitimidade para agir como agiam (afinal, num movimento de massas, espontâneo, sem lideranças, desorganizado, sem pautas definidas, quem age corretamente e quem tem legitimidade ou não?), a questão é como essas ações estavam sendo politizadas de forma a beneficiar os interesses contrários aos movimentos de massas.

O PSTU acusava os black blocs de não terem legitimidade diante da base, como se de fato existisse uma base do movimento. É verdade que a maioria da opinião pública se voltava contra eles, mas isso não significa deslegitimidade. Ninguém afinal havia votado um programa político ou, tampouco, uma liderança. Ninguém, portanto, tinha o monopólio da legitimidade de ação, a não ser que consideremos uma maioria difusa e abstrata como base. Nesse caso, o próprio PSTU deveria, para ser coerente, se retirar da luta, porque essa mesma “base” assim como se colocava contra os black blocs também se colocava contra os “partidários”. Mas é típico dos partidos políticos numa democracia, obrigadas a se legitimar pela maioria mas nem sempre de fato apoiados por ela, arrogar-se o direito de falar por ela. Quando essa maioria discorda, eles simplesmente a ignoram. Nessa hora, quando se veem contrariados, se valem de argumentos como “ditadura da maioria” para deslegitimar sua opinião ou para defender o direito da sua própria opinião minoritária, mas quando se veem apoiados ou percebem que seus interesses coincidem, se valem de argumentos como “legítima maioria” para deslegitimar a posição contrária minoritária. Esse comportamento seletivo e retórico é típico dos partidos políticos, obrigados a legitimar suas pautas e propostas com base numa maioria fictícia imaginada ad hoc.

Por isso, me espanta que alguns colegas cujas opiniões são de esquerda tripudiem em cima do fato inusitado e usem-no para acusar os black blocs como um todo, como se aquele adolescente fosse de alguma forma uma expressão representativa do grupo como um todo. Não sei é, não posso afirmar isso com base no “zoiômetro”, mas duvido muito, embora não se discuta que os indivíduos black blocs são muito jovens. Mas daí caracterizá-los como “filhinhos de papai, rebeldes sem causa” é um equívoco que deixa claro o tom emocional da crítica de quem não gosta deles. Não passa de puro preconceito que acaba municiando a crítica da direita a procura de pretextos para desacreditar os movimentos de massa, especialmente os grupos mais radicalizados.

Meu partido

Não é contra
Quase nada
Exceto certezas
Muito certas
Verdades
Muito verdadeiras
Não tem bandeiras
Nem programa
Defende pouca coisa
Dúvidas
Questionamentos
Perguntas
Ao invés de respostas
Prescinde de carteirinha
Ou assembleias
Não tem maioria
Nem direção
É só fazer o quer vier à veneta
Pois há de ser tudo da lei
Nossa única máxima
Meu partido não é sério
Tampouco a salvação
É utopia sem revolução
Não faz política
Nem usa a razão
Faz arte, bagunça e confusão

Um síntese entre Benjamin e Raul

Se não for um crime
Permitam-me substituir a metáfora benjaminiana
Demasiado classicista e dramática
Para o gosto contemporâneo
Por uma mais simplória e despretensiosa
Ao estilo raulzito
A história é uma charrete velha
Dessas que recolhem “recicráveis”
Ataviada com acessórios automobilísticos esportivos
Calota Audi, spoilers, vidro fumê
De modo que quem de frente a vê
Cuida tratar-se de carro importado
Modelo último tipo, tope de linha
Mas depois que ela passa
Espanta o estado miserável em que se encontra
Madeira podre sob sucessivas demãos de tinta desbotada
Estrutura enferrujada
Sustentada por arrimos improvisados
A charrete vem puxada por um burrico
Fantasiado de alazão branco
A crina é de aplique e o casco tem salto
Para que pareça mais imponente e alto
Mas o andar e o porte, abatido
Sem brio, desasado, abobado
Não enganam
Acontece, no entanto
Que a charrete ainda não perdeu o condutor
O infeliz se veste em traje de gala
Exibe galardões militares recobertos de sangue
E se porta como se trouxesse a Madona no passageiro
Às suas costas, o bagageiro abarrota-se de lixo
De todo tipo de porcaria que ele passa recolhendo
Enquanto olha para o chão
Ignora que se dirige a um beco sem saída e estreito
O burrico vai porque acostumou-se a ir
O condutor não atina para o caminho porque só olha para baixo
Cuida-se importante e distinto, mas é pobre e ignorante
E a história segue com o nome de progresso

Crítica ao feminismo masculino

Tempos atrás eu expus aqui uma breve crítica da expressão “feminazi”. Como muitos homens que não se consideram machistas podem não se identificar com a crítica porque não se identificam com a expressão em questão, devo fazer a crítica também à expressão “femismo”, cujo significado é idêntico àquela.

Embora se apresente como uma crítica equilibrada e ponderada aosexcessos do movimento feminista, e, portanto, pode ser usada por homens que não se consideram machistas e, provavelmente, até mesmo se considerem feministas, a expressão “femismo” não passa de uma forma politicamente correta e diplomática de dizer às feministas: este feminismo é bom, aquele é ruim. Sobre essa aparência de juízo de fato, esconde-se na verdade um juízo de valor: este feminismo eu, homem, gosto, aquele eu, homem, não gosto. A estratégia implícita é evidente: trata-se de predelimitar um campo discursivo onde o feminismo pode agir e onde ele não pode.

Sociologicamente, essa estratégia pode ser definida como o poder do sujeito dominante no interior de um campo em disputa de impor os limites da ação do sujeito dominado em relação à sua disputa com o dominante. Ou seja, um sujeito dominante, parte de uma relação de poder, impõe as regras do jogo ao sujeito dominado, e o faz porque tem poder e porque tem interesses em jogo. Para ficar mais claro, o juiz ao mesmo tempo arbitra e joga o jogo. Claro que nem sempre é bem sucedido, mas sempre tenta, e a tendência geral é de que consiga.

Para ficar ainda mais claro, vamos pensar num exemplo concreto fora do campo do feminismo. A relação de dominação entre israelenses e palestinos exibe esse padrão. Assim, os israelenses, dominantes, definiram quais são as regras válidas que os palestinos, dominados, devem observar se quiserem questionar a sua dominação, e com isso podem excluir alguns grupos da disputa. Podem dizer: o Fatah vale, mas o Hamas não vale. A lógica por trás da expressão “femismo” é exatamente a mesma.

Eu gostaria de contribuir e participar do feminismo, ombro a ombro com as mulheres, e não ser sumariamente excluído da luta por ser homem. Mas o fato de ser homem tem implicações reais, e por mais feminista que eu seja não posso simplesmente alterar esse fato ou pedir que as mulheres o ignorem. Meu papel e possibilidades na luta feminista estão, portanto, necessariamente condicionados pelo fato de eu ser homem. Além de ser homem, sou hetero, branco, bonito, classe média, nível universitário, quer dizer, mais privilegiado do que isso só se eu fosse rico e filho de senador. Tudo isso influencia, e quando uma mulher feminista chama atenção para esse fato eu não posso simplesmente chama-la de “femista”, porque do ponto de vista dela faz todo o sentido definir a relatividade das posições.

Eu diria que a luta ganha quando se consegue conciliar essas diferenças, porque superá-las é impossível – na melhor das hipóteses, só é possível como resultado da luta, pressupondo-se que a luta tem um fim, e não durante se transcurso. Existem muitas visões do feminismo, e só quem tem legitimidade para determinar qual delas é a mais acertada são as mulheres. Eu sempre vou dar a minha opinião, no mais das vezes porque eu não consigo me calar afinal, mas sempre sabendo que não tenho autoridade nem legitimidade para decidir qualquer coisa em relação ao feminismo, e sempre não esquecendo que a minha posição de homem pode e fará na maioria das vezes eu me enganar a respeito dela.

Cognição e preconceito

Uma maneira exemplar de atinar para como o discurso dominante em uma sociedade determina a nossa percepção das coisas é o exercício mental de “jogar” palavras e associá-las com ideias. Em algum lugar eu ouvi que o cérebro não funciona de forma discursiva mas associativa. Isso parece correto, ao menos baseado na minha experiência. Meu cérebro é uma completa bagunça, e tirando os momentos em que eu conscientemente faço o esforço mental de desenvolver discursivamente uma ideia, na maior parte do tempo ele opera com associações livres entre imagens (imagens não necessariamente visuais, mas como se as ideias fossem uma espécie de objeto que as expressa), frequentemente de maneira espontânea, intuitiva e inconsciente. Se isso for correto, isto é, se for verdade que o cérebro humano funciona por associações na maior parte do tempo, então grande parte das teorias vigentes, bem como muitas das crenças cotidianas comuns, tem que ser revistas porque partem de pressupostos racionalistas, como se o ser humano agisse sempre ou normalmente com base em raciocínios lógicos, isto é, discursivos. Ao contrário, normalmente o ser humano age com base em ideias construídas através das experiências sociais, ou seja, com base em um repertório pré-fabricado e que são operacionalizados no cérebro como se fossem imagens. Uma vez construídas essas ideias, ainda que estejam ao mesmo tempo sempre em construção, elas se tornam como que imagens relativamente fixas que são acionadas intuitivamente e associadas entre si. Ninguém para pra pensar nas ideias, noções ou conceitos com os quais está significando o mundo e suas ações nele. A maior parte das ideias permanece ao nível do inconsciente – isto é, a parte lógica das ideias (digamos o interior da imagem ou do objeto-ideia), constituída por um encadeamento linguístico que constitui discursivamente a ideia –, e o que aparece ao nível da consciência é apenas a face exterior dessa ideia. Por isso que quando somos instados a explicar em que consiste determina ideia (qual o encadeamento linguístico-lógico que constitui discursivamente a ideia) enfrentamos invariavelmente uma dificuldade tremenda, o que nos obriga a concluir que não temos uma noção tão clara do significado essa ideia (o que tem por trás daquela face exterior). A despeito disso, por mais que não tenhamos consciência do significado das ideias com que nos orientamos e agimos no mundo, ainda assim nos orientamos e agimos. É mais ou menos como usar um computador ou dirigir um carro: não fazemos ideia de como esse objeto é constituído de modo a funcionar daquela maneira, mas sabemos que funciona e agimos com base nisso. Além disso, embora não tenhamos consciência das nossas ideias e de como elas se encadeiam associativa e intuitivamente, como elas são construídas com matérias-primas tiradas da cultura na qual se vive, a experiência cotidiana reafirma e valida essas ideias. Por mais que hoje em dia não seja mais possível agir racionalmente com base em discriminação de cor de pele, por exemplo, agir assim ainda é um padrão comum, e quem age assim não percebe, por mais que conscientemente não se veja como um racista. Eis porque é tão difícil desconstruir pré-conceitos e preconceitos. Portanto, as palavras não são neutras, mas associam-se a ideias que são automaticamente operacionalizadas quando as palavras surgem no discurso. Por exemplo, muito provavelmente se eu perguntar para um europeu o que ele pensa a respeito de “imigrantes”, seu cérebro irá associar imediatamente a imigração à criminalidade ou à pobreza que é exatamente o viés pelo qual o discurso dominante dá significado às pessoas de outras culturas/nacionalidades morando na Europa. Inconscientemente, portanto, o interpelado reproduziria preconceitos que não são vistos como tais porque não temos ideia de como essas ideias estão construídas e funcionando na nossa mente. Apenas as usamos. Vamos fazer uma experiência. Eu digo uma palavra e você me diz o que vem à cabeça: favela (crime? drogas?), empregada doméstica (negra? nordestina?), negro (favela?), agricultor (caipira? Ignorante?), indígena (primitivo?). Aqui focamos em elementos humanos explorados e oprimidos, mas o mesmo poderia se aplicar a palavras que designam pessoas importantes, poderosas, etc. Quer dizer, sempre agimos com base em ideias e em associações de ideias que são, por definição, preconceituosas

A prática como critério último da verdade

O marxismo defende que o critério último da verdade é a prática. Embora eu trocaria a palavra verdade pela palavra correção, estou de acordo com essa proposição em relação ao mundo natural. Em relação ao mundo natural, regido por leis, no sentido forte da palavra – ou seja, por relações fixas que, por mais que sofram interferência externa (por definição, humana), não mudam –, pode-se falar em verdade, muito embora a verdade seja sempre uma suposição útil porque nada nos autoriza pressupor que existe um ponto onde se chega à verdade última. E verdade pressupõe a ideia de verdade última. O marxismo contorna esse problema definindo a verdade como relativa, o que é uma contradição em termos. A verdade é sempre absoluta, do contrário não seria verdade. Até onde sabemos, ao ser humano só é possível construir ideias que de alguma forma e em alguma medida se aproxima da verdade. O problema é que se se pode falar em verdade e em ideia-próxima-à-verdade em relação ao mundo natural, isso não vale para o mundo humano, e o marxismo parece ignorar as diferenças epistemológicas irredutíveis entre essas esferas ontológicas (para usar a expressão de Lukács). Não se pode falar em verdade no mundo humano não apenas porque tal mundo é simbolicamente significado pelos humanos, mas também e sobretudo porque ele não é regido por leis fixas e imutáveis que constituem a verdade. Isso quer dizer que não há critério objetivo à ação? Não há como julgar de fato as ações? Voltamos aqui à prática como critério da “ação correta” (ao invés da verdade), ou talvez da “melhor ação” entre tantas ações possíveis. A resposta a essa pergunta depende dos fins buscados. A melhor ação para se alcançar um fim não é a melhor para se alcançar outro fim, e o mundo humano não é um organismo autômato que persegue um fim predeterminado (seja pela natureza ou pela história), mas uma infinidade de fins (de projetos) que se embatem através de uma infinidade de ações. Como determinar qual é o “melhor fim”? Eu parto do princípio que isso não é possível de ser determinado ou demonstrado, porque se trata de escolhas cujas consequências desconhecemos e porque não há nenhuma verdade última com base na qual se pode avaliar os fins em disputa. O marxismo aqui retorna novamente à prática como critério válido para avaliar a correção desses fins. O problema é que essa avaliação é sempre feita a posteriori, ou seja, a correção de uma ação é sempre feita após a ação. Entretanto, ela não serve de base para a ação seguinte justamente porque não estamos lidando com fenômenos do mundo natural que permanecem regidos pelas mesmas leis eternamente. No momento de passar para a próxima ação, a correção da ação passada tem pouca ou nenhuma influência na correção da ação seguinte. Como a correção da ação vai estar sempre atrasada em relação à própria ação, e como as condições sempre vão estar diferentes no momento da ação seguinte, ela não serve como critério objetivo para avaliar antes de agir se se age corretamente ou não. Isso só seria possível caso se tenha em mente um modelo evolucionista da história e da vida social humana, como de fato tem o marxismo

Sobre feministos

Eu me pergunto o porquê da tamanha resistência que os homens impõem às mulheres feministas que querem se organizar aparte e independentemente deles. Será mesmo que o motivo é tão pragmático e isento de valores quanto divergências puramente teóricas e políticas? Primeiro, é preciso definir em que consiste essa “organização aparte e independente” em relação aos homens. Vamos admitir que se trata de uma posição mais moderada, que não exclui o homem da luta, mas defende que ele tem um papel subordinado nela, e ignoremos por um momento as posições mais radicais, que defendem a exclusão total do homem em relação à luta. Neste caso, é perfeitamente compreensível os argumentos e motivos das mulheres. As mulheres querem olhar para o lado e encontrar outras mulheres que sentem na pele o mesmo que elas, querem se identificar enquanto grupo, falar e debater abertamente com outras mulheres pelo fato de que são mulheres. Daí porque nos espaços de organização e decisão elas querem estar apenas entre elas, querem se sentir seguras, verdadeiramente livres. A presença de um único homem ali as vezes é o suficiente para desempoderar algumas mulheres, ou seja, um único homem pode ter efeitos psicológicos que enfraquecem as próprias protagonistas da luta. E quando esse homem fala pode cair em violência de gênero e em relações de poder que ele, pelo fato de ser homem, não percebe como tal, mas que prejudica a atuação das mulheres. É por isso que o debate entre posições divergentes nunca é feita num campo neutro e isento. O fato de quem fala ser homem ou mulher tem consequências reais, e esse fato não pode simplesmente ser ignorado em nome do direito abstrato a uma livre troca de ideias entre iguais. Pensemos em outros exemplos. Os indígenas não se opõem quando uma pessoa branca da cidade se soma à sua luta, mas essa pessoa branca da cidade nunca deixa de ser (vista como) uma pessoa branca da cidade. E parece claro que, exceto em casos específicos, as decisões principais serão tomadas pelos próprios indígenas, a despeito do que pensam seus colaboradores brancos. Além disso, todos os brancos são brancos, ou seja, opressores, até que provem o contrário. Isso quer dizer que não podem pretender que só pelo fato de somarem-se à luta isso já lhes dá o direito de discutir e decidir em pé de igualdade com os próprios indígenas. Precisam conquistar a confiança e mostrar seu valor. Isso tudo é muito inteligível, mas ainda assim os homens não dão o braço a torcer. Por quê? Eu suponho que exista motivos mais profundos, inconscientes e irracionais, do que os alegados. Afinal, se eles encontrassem a mesma posição das mulheres entre os indígenas, por exemplo, será que se incomodariam tanto quanto se incomodam quando se trata das mulheres? Algo me diz que é mais fácil para eles compreender e aceitar a posição de indígenas que os colocasse num papel de coadjuvante na luta, do que compreender e aceitar a mesma posição da parte das mulheres e da luta feminista. Por quê? Será que no fundo não se trata de uma resistência velada à autonomia e liberdade da mulher? Como se fosse um absurdo a mulher fazer qualquer coisa sem o aval do homem.

Muito prazer

Se faço cara de bobo
É porque sou de fato
Se travo e me calo
É porque sou tímido
E se abro um sorriso
É pela mesma razão
Sou triste, atrapalhado
Perdido e problemático
Desvio o olhar no chão
Evito pessoas e fujo
Nunca sei o que dizer
E ainda sou míope
E um pouco surdo
Isso é tudo que tens que saber
Eis o manual do João
Do Jão-Sem-Jeito
Veja quão é simples
Não tem segredo
Tirando os defeitos
O resto é só coração
Também quero ser feliz
Igualzinho a todo o mundo

Remédios e teorias

Esse sentimento
De me dissolver
De me diluir no mundo
De com ele tornar-me um só ser
De estar com todos
E tudo fazer
A um só tempo
Esse sentimento
Que grita dentro do peito
Que força e quer sair a todo custo
Como uma explosão
A psicologia diz que é ansiedade
E dependendo da intensidade
Ministra sedação química
Porque sentir demais faz mal à psique
Já a sociologia
Diz que ele é uma anomia
Uma condição da pós-modernidade
Fragmentada, líquida
Eu digo que é amor
Que é um bem-querer intraduzível
Absoluto e impossível pela humanidade
Pela natureza e pela vida
Não me deem remédios
Não me expliquem teorias
Deixem-me senti-lo
E escrever poesias

Há sempre uma primeira vez

Beije
As bocas
Que por aí encontrardes
Como se fosse a primeira
Os lábios
Você morda com a fome
De quem come e nunca se sacia
As mãos
Segure bem firme
Como se sumisse o chão sob os pés
Os sexos
Explore como um viajante
Em mata virgem e bravia
Aproveite
Porque cada vez
É como se fosse a primeira
Única e sem volta
Antes que acabe
E era uma vez...
Para a vida inteira

Das notas

Quem se sente SOL
E perdeu a RÉ
Não sinta DÓ de SI
FÁ como MI
Vê LÁ um violão
Que SUSTENIDO canto
Faz BEMOL ao coração

O homem do saco

O pequeno Luca era ainda um neófito neste mundo. Era esperto, mas seus cinco anos de idade não lhe conferiam grande experiência para que pudesse discernir e compreender fatos básicos da vida e dos seres humanos. Por exemplo: porque aquele senhor passa seus dias sentado naquela calçada, uma das mãos estendidas e voltadas para cima, olhar suplicante, balbuciando coisas indiferentes para os passantes indiferentes? Porque, quando cai a noite, ele não volta para casa? Porque deita-se debaixo daquela marquise e, sobre papelão imundo, dorme, envolto em trapos? Não terá mãe? Será que ela ralhou com ele, como a minha ralha comigo, fazendo-o fugir de casa?

Entre as frinchas do portão do condomínio, Luca podia vê-lo, a algumas dezenas de metros de sua casa. Às vezes, perdia horas a observá-lo. Sabia que ele dormia ali porque, numa madrugada, saíra escondido do apartamento e descera até o portão para ter certeza. Quando saia para ir à escolinha, o carro passava rente ao homem mendicante, e Luca colava o rosto à janela para analisa-lo melhor. Isso era o mais perto que podia chegar. Inquiriu o pai sobre quem era aquele homem e o que ele fazia ali. A resposta que recebeu não aliviou-lhe em nada tantas perguntas cruéis, tantos mistérios:

– É só um vagabundo, filho. Não tem trabalho e, por isso, não tem onde morar.

E por que não tem trabalho? E o que o trabalho tem a ver com ter onde morar? E, afinal de contas, o que seria um vagabundo? Não somente não obteve resposta inteligível, como as perguntas se multiplicavam. Recorreu à mãe.

– Ele está nessa condição porque não estudou, querido. É por isso que você tem que estudar, pra ser alguém na vida.

Deu nelas por elas. Tudo isso não fazia o menor sentido para o pequeno Luca.

Um dia ouviu uma história estranha e assustadora sobre um tal “homem do saco” que sequestrava as criancinhas que não se comportavam. Lembrou-se do vagabundo-sem-trabalho-e-sem-estudo, como definira-o seus pais, que vira e mexe trazia e levava um saco grande e preto nas costas. Perguntou à tia como se parecia o homem do saco, e a reposta deixou-o atônito. A semelhança era tamanha que perguntou-se se não poderia ser ele, então, esse homem malvado a carregar criancinhas desobedientes no saco preto.

Certa noite o condomínio acordou em polvorosa no meio da madrugada. Choro, gritaria e um corre-corre de um lado pro outro. Luca sumira. Seu pai dava de dedo na cara do porteiro, acusando-o de negligência com suas obrigações, enquanto a mão, catatônica, era acudida por uma vizinha no hall do prédio. Uma voz lúcida atravessou a agitação com a razoável hipótese de que aquilo não passava de uma travessura de criança. Montou-se assim uma força tarefa de busca.

Reviraram o prédio de cima a baixo e nada encontraram. Ganharam a rua, e mal deram uns passos avistaram o menino ao lado do homem esfarrapado e sujo. Correram em direção a ele, com ódio nas ventas e prontos para linchá-lo, mas estacaram a alguns passos. Luca dormia tranquilamente e o homem nem parecia dar-se conta da sua presença. Em volta deles, Luca desenhara com um giz-de-cera colorido os contornos de uma casa, com direito até a chaminé e um sol radiante e sorridente.

Casa do Pai-Jão

Rede e violão
Muito café e chimarrão
Livros e textos pelo chão
Filmes e nada de televisão
Cosidos e assados no fogão
Mousse e doce de mamão
Vinho caubernet sauvignon
E música nas caixas de som
Yoga e meditação
Paz, amor e união

sexta-feira, 6 de junho de 2014

O vento (II)

Quanta saudade do que já passei
De todos e de tudo um pouco
Saudade do passado e do futuro
E do que nem dizer eu sei

Muita saudade do que eu fui
Das coisas que nem conheço
Saudade de todo um mundo
E dos lugares que nunca verei

Sobra saudade disso e daquilo
Dos amores que nunca terei
Saudade de fulana e de ciclano
E das pessoas que um dia beijei

Saudade daquele nosso momento
E dos fatos que esquecerei
Saudade porque poderia ter sido doutro jeito
Jamais saberei

Da vida que vivi e vivê-la ainda hei
Fica a saudade guardada no peito
Não há espaço pra arrependimento
Só saudade, doce saudade, sentirei

Saudade

Quanta saudade do que já passei
De todos e de tudo um pouco
Saudade do passado e do futuro
E do que nem dizer eu sei

Muita saudade do que eu fui
Das coisas que nem conheço
Saudade de todo um mundo
E dos lugares que nunca verei

Sobra saudade disso e daquilo
Dos amores que nunca terei
Saudade de fulana e de ciclano
E das pessoas que um dia beijei

Saudade daquele nosso momento
E dos fatos que esquecerei
Saudade porque poderia ter sido doutro jeito
Jamais saberei

Da vida que vivi e vivê-la ainda hei
Fica a saudade guardada no peito
Não há espaço pra arrependimento
Só saudade, doce saudade, sentirei

Beija-flor

O beija-flor só namora
É delicado e esbelto
Como um hibisco
Mas quando abre o bico
Cruz credo, que coisa horrorosa!
Canta, não, seu beija-flor
Que sua voz é feia e rouca
Só beija, com amor
A minha boca

Um conselho

Parece um bom conselho dizer a alguém que não crie expectativas porque as pessoas irão necessariamente frustá-las. Mas isso não parece, na verdade, um pouco egoísta? Afinal de contas, as expectativas somos nós que criamos, e ainda culpamos os outros por isso. Como se as pessoas tivessem obrigação de agir como se espera delas e como se não tivessem o direito de agir por si mesmas. Como se estivéssemos sempre certos e os outros errados. Como se a nossa expectativa valesse mais do que a expectativa alheia. As pessoas se desentendem, se confundem, se frustram e se magoam, sim. When it happening, don't take personal, kiddo.

Escolha

Dói fundo no coração
A condição humana
Ter que fazer escolhas
Como se as pessoas
Fossem itens num cardápio
Oferecidas como opção
Quando cada uma delas
É especial e única
Me envergonha
Colocá-las numa escala
De valor e importância
Quando todas elas
São iguais por direito
Completas e plenas
E o medo, a angústia
De magoar quem se ama
De tratar as pessoas como meio
De usá-las
Com que direito?
Esse medo me consome
De ser egoísta
E não ser de fato livre
Porque a liberdade
Tem de confundir-se
Com egoísmo?
Isso é injustiça!
Eu não posso querer apenas uma
Quero a humanidade toda
Como quero a mim mesmo
Como isso pode ser bom e ruim
Ao mesmo tempo?
Viver é escolher
É dizer: você eu quero
Mas não você
E como fazer
Para não magoar ninguém?
Acho que o problema é esse espaço
Que no coração eu trago
Grande demais só pra mim
E, nesta viagem
O amor das pessoas
É a bagagem
Que eu levo no caminho
Para não magoá-las
Só há um jeito
O segredo
É deixa-las passar
Como um passarinho

Quarta-feira

Eu sou assim
De cinzas
Pobre de mim
Cuja vida inteira
É uma quarta-feira
Sem fim

Meu violão

Se para os males do coração
Não existe nenhuma cura
Ao menos conforto há
E eu o encontro no som
Da palavra cantada
Que suave embala
Os acordes de meu violão

Viva a música!
Poesia em forma de canção
Viva a banda
Que toca velhos sambas
Em acordes menores
Neste dissonante coração