segunda-feira, 30 de junho de 2014

Um síntese entre Benjamin e Raul

Se não for um crime
Permitam-me substituir a metáfora benjaminiana
Demasiado classicista e dramática
Para o gosto contemporâneo
Por uma mais simplória e despretensiosa
Ao estilo raulzito
A história é uma charrete velha
Dessas que recolhem “recicráveis”
Ataviada com acessórios automobilísticos esportivos
Calota Audi, spoilers, vidro fumê
De modo que quem de frente a vê
Cuida tratar-se de carro importado
Modelo último tipo, tope de linha
Mas depois que ela passa
Espanta o estado miserável em que se encontra
Madeira podre sob sucessivas demãos de tinta desbotada
Estrutura enferrujada
Sustentada por arrimos improvisados
A charrete vem puxada por um burrico
Fantasiado de alazão branco
A crina é de aplique e o casco tem salto
Para que pareça mais imponente e alto
Mas o andar e o porte, abatido
Sem brio, desasado, abobado
Não enganam
Acontece, no entanto
Que a charrete ainda não perdeu o condutor
O infeliz se veste em traje de gala
Exibe galardões militares recobertos de sangue
E se porta como se trouxesse a Madona no passageiro
Às suas costas, o bagageiro abarrota-se de lixo
De todo tipo de porcaria que ele passa recolhendo
Enquanto olha para o chão
Ignora que se dirige a um beco sem saída e estreito
O burrico vai porque acostumou-se a ir
O condutor não atina para o caminho porque só olha para baixo
Cuida-se importante e distinto, mas é pobre e ignorante
E a história segue com o nome de progresso
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