domingo, 16 de dezembro de 2012

A beleza do crime

"Alegra-te, lá vem a inspiração
Da praça, em fogo, voam pedradas
Um casal embuçado as mãos se davam
Alegra-te o coração, camarada
Aquela praça lotada, de gente transbordava
Todos uma só voz, em uníssona canção,
Alegra-te porque aí vem a revolução!
Entre pedras, socos e pontapés,
Pais, filhos, irmãos e amigos
Braços dados, beijos e afagos
É a revolução que vem vindo
Alegra-te, porque um novo amanhã é possível
E aquele casal, lindo, entre mil vozes
Um mesmo hino, um mesmo grito
E os dois a afrontar a ordem,
Um beijo para selar o compromisso
Cúmplices de um mesmo crime
Amar e sonhar,
Porque não se ama sem sonhar,
E não se sonha sem amar
Alegra-te, porque é um belo crime
Amar e sonhar,
É um belo crime, camarada."

Homenagem a todos os amantes incendiários pelas praças deste mundo.

sábado, 15 de dezembro de 2012

A medida da eternidade

Quem manja de matemática aí? Eu estou tentando calcular a medida da eternidade, mas ela envolve tantos zeros que eu me perco completamente. Pode parecer absurdo, temeridade ou pretensão calcular a medida da eternidade, mas talvez haja um jeito de nós, meros mortais, vislumbrarmos uma pequena intuição do que é a eternidade. A conta se faz assim: você já parou para pensar que ao longo de uma vida toda o seu coração baterá "apenas" aproximadamente 3 bilhões e meio de vezes? Ou seja, são 80 batimentos por minuto, 4 800 por hora, 115 200 por dia, 3 456 000 por mês, 41 472 000 por ano, e 3 317 760 000 ao longo de 80 anos. Mas arredondaremos esse número por alto (bem por alto) para facilitar a nossa conta: digamos que um coração bate 4 bilhões de vezes ao longo de uma vida de 80 anos (tempo acima da média, note-se). Tendo em conta que se estima em 100 bilhões o número de galáxias no universo, e em 100 bilhões o número de estrelas que cada uma delas possui, isso nos dá um total de 1 sextilhão de estrelas no universo (ou seja, 1 000 000 000 000 000 000 000; ou ainda: o 1 seguido de 21 zeros). Se dividirmos a totalidade de estrelas no universo pela quantidade de vezes que bate um coração ao longo de uma vida, sobram 250 000 000 000, ou seja, 250 bilhões. Conclusão (se a conta estiver correta; matemáticos, ajudem aí): se cada vez que o coração de alguém batesse surgisse uma estrela no universo, seriam necessárias 250 bilhões de vidas diferentes para alcançar a totalidade de estrelas existente no universo! Isso é 35 vezes mais do que a população mundial atual. Agora raciocine assim: lembre-se da infância, das brincadeiras de criança, dos tempos de escola, do primeiro beijo, do primeiro trabalho, do dia em que deixaste a casa dos pais, do segundo, terceiro, quarto e quinto trabalhos, do dia em que casaste, em que nasceste teu primeiro filho, e o segundo logo depois, em assim por diante; se você ainda está longe de fazer 80 anos como eu, que tenho 27, pense que ainda estás entrando no seu segundo terço de vida, etc.; agora sinta o quanto ficou para trás, ou seja, a dimensão de tempo que tua vida já transcorreu; por fim, perceba que você precisaria ainda de 250 bilhões de vidas iguais a essa para preencher o universo de estrelas. Pronto, essa me parece uma boa imagem do que representa a medida da eternidade.

Partida, despedida e recomeço

Aos amigos e amigas: 

Escrevo para dizer que esta é a última vez que escreverei – ao menos aqui, na internet. Cheguei a um ponto tal na minha caminhada, que já não posso mais continuar como vinha caminhando. No interesse da verdade, na busca pelo autoconhecimento, é hoje preciso uma guinada brusca. O mundo é uma roupa que já não me serve mais. Cada vez menos me sinto confortável vivendo em suas cidades, andando sobre suas ruas, frequentando os seus edifícios. De fato, cheguei a um ponto insuportável. Não vejo mais qualquer sentido, valor ou bem em salvar esse mundo. Algo foi crescendo dentro de mim, algo que gritava: liberdade! E o grito tornou-se tão ensurdecedor que mal consigo ouvir meus próprios pensamentos em meio a essa barafunda de carros, televisores e máquinas. Se o mundo não mais me é caro, porque continuar? Por covardia? Por que é mais cômodo assim? Eu só consumo comida, abrigo e livros. Por que então deveria sentir falta de um hipermercado, por exemplo? Ou de um Shopping? Que força é esta que mantém tais necessidades presentes em meu corpo mesmo quando elas não mais existem em minha mente? Já estou completamente cheio de insatisfação, desgosto, raiva e de vontade de revolucionar(-me), de modo que a única coisa que me faltava era a coragem. Não falta mais. Numa cidadezinha litorânea, encontrei um casebre humilde, de madeira, a vinte passos da praia, e estou me mudando para lá. Há nela uma pequena comunidade de pescadores e quilombolas em que darei aula. Não se preocupem; nada me faltará. Pelo contrário, tudo o que realmente me interessa estará a minha disposição: crianças, famílias, trabalhadores, natureza, conversas; numa palavra: a vida, em toda a sua simplicidade e beleza. Quem estiver disposto a me procurar, esqueça a comunicação virtual, porque o celular ficará aqui, nesta mesma mesa em que escrevo, juntamente com o computador; basta seguir o mar. 

Grande abraço a todos! 

(P.S: essa é a carta que escreverei no dia em que decidir abandonar este mundo à sua própria sorte; adiantei-a porque me pareceu muito divertido escrevê-la, mas por ora é apenas um sonho que acalento; uma hora ele há de crescer e se tornar inexorável.)

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Mitologia e autoridade: as religiões grega e judaico-cristã

É muito curioso o fato de que o mito acerca da gênese do conhecimento humano na mitologia grega e nas religiões judaica e cristã seja muito parecido em ambas. Em especial no que toca ao aspecto negativo desse conhecimento: a Bíblia nos conta que os humanos foram condenados a tirar o pão da terra com seu próprio suor porque atreveram-se, Adão e Eva, a comer do fruto da sabedoria, ou conhecimento; a mitologia grega nos conta que, por terem aceito a centelha do fogo divino das mãos de Prometeu, os humanos foram condenados com a peste, a doença e a morte, trazidas por Pandora. Em ambos os casos, a punição lhes dada por Deus ou pelos deuses está ligada à ideia do trabalho, e o trabalho, na medida que significa dominação do mundo, implica também em conhecimento do mundo. Porque o fogo que Prometeu dá aos homens não significa apenas cozinhar alimentos, aquecer-se e espantar as feras da noite; significa, antes de tudo, produção: deu ao homem a capacidade de produzir o bronze, o ferro, de criar a indústria. Ao ter a ousadia de tomar o mundo, feito à imagem e semelhança de deus, e imprimir nele a sua própria face humana, os homens foram condenados à mundanidade, isto é, perderam sua essência divina, tornaram-se mortais e, com a mortalidade, sujeitos a todas as vicissitudes da matéria: a finitude, a imperfeição, isto é, a dor, a morte, o sofrimento. É assim que se explica, mitologicamente, o surgimento do mundo dos homens (começo a achar insuportável usar a palavra “homens” para me referir à humanidade). Seria preciso um conhecimento que eu não tenho para afirmar que esse padrão se reproduz em outras religiões e em outros sistemas de crenças mitológicos. Mesmo ficando apenas na religião da civilização helênica e da judaico-cristã podemos extrair uma conclusão muito elucidativa. O que está implícito nesses mitos é a ideia de uma relação paterna entre os deuses e os humanos: Deus-pai, o ser criador, homem, o ser criado. Há aí, como em toda relação de paternidade (ao menos as historicamente existentes), uma relação de dominação, de poder, de autoridade, entre o pai e o filho. A imagem de Adão e Eva no paraíso, por exemplo, vivendo alegre e inocentemente, sem preocupações e autoconsciência algumas, remete à imagem de uma criança. Foi por desafiar a autoridade da divindade-paterna, ao procurar pensar e viver por sua própria conta, que os humanos foram, digamos, deserdados pelos deuses. Nesse sentido, há nesses mitos a ideia, inconsciente, do filho que se rebela e do pai que lhe pune por isto. Todas as graças do pai são perdidas, e o filho é obrigado a viver por conta própria, com todo o sofrimento que isso traz. Ao termos em mente que a noção de autoridade política nasce a partir da noção de autoridade paterna, o recado dado por essas religiões é muito claro: não se atreva a desafiar a autoridade; veja as consequências que esse ato de rebeldia implica. E essa autoridade é, antes de tudo, uma autoridade política. Toda religião é uma cosmogonia e, como tal, concebe o mundo como uma ordem fechada, dada de uma vez para todo o sempre. Ela não apenas busca explicar, através de uma narrativa mítica, o nascimento e a ordenação do mundo, mas também, e quiçá sobretudo, busca justificar, legitimar e institucionalizar estaticamente essa ordem. O mito do nascimento do mundo, tanto na Antiguidade grega quanto no Velho Testamento judaico-cristão, já traz no bojo essa justificativa, legitimação e defesa da ordem do mundo, o que equivale a dizer: da ordem da sociedade, de suas classes e estruturas.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

A infância e a indústria cultural

Estava zapeando os canais aleatoriamente enquanto saboreava a minha janta, e eis que encontro um filme clássico: Independence Day. Um daqueles filmes recheados de explosões e efeitos visuais em que os EUA salvam a mundo, tudo com muito humor e espirituosidade. Neste caso, o inimigo era o terrorismo intergalático. Isso faz a gente pensar que, afinal, não foi tão ruim assim que os EUA tenham bombardeado camponeses nas florestas tropicais, beduínos no deserto, comunistas nas cidades; nunca se sabe quando precisaremos bombardear um outro planeta! É bom que estejamos preparados. Venho aqui comentar semelhante bobagem porque Independence Day não é, ou não era, para mim um filme qualquer: tal como o Predador, Alien, Rambo, Top Gun, entre outros, trata-se de um filme que marcou profundamente a minha infância. Tudo o que envolvia explosões, tiroteios, sangue, pancadarias, eu fruía com ânsia. Não pela violência em si, que me parecia muito divertida, mas pelos valores por trás dela: a coragem, a honra, a altivez. Cresci imaginando que a face do inimigo era moura, e que a sua língua era um português carregado de (um cômico) sotaque russo; que ele se escondia nas selvas da América Central, e usava turbante e barba cheia; que era mau, muito mau, e que sua única missão e desejo era destruir nosso mundo livre. Eu não fazia ideia, evidentemente, o que significa o assim-chamado mundo livre, ou o que é um muçulmano ou um comunista. Mas a imagem e o sentimento ficaram profundamente impressos em meu ser. Queria ser piloto de caça ou membro de elite dos fuzileiros navais. Hollywood me criou, me ensinou valores, e ajudou a moldar meu caráter. Hoje carrego essas marcas, esse trauma de infância que nem Freud conseguiria explicar. Luto a todo momento para desconstruir o modo como Hollywood e a indústria cultura me fizeram ver e entender o mundo. Luto porque não acredito mais que o dinheiro tenha algum valor, não acredito que exista um único padrão de beleza, não acredito que um comportamento mesquinho e egocêntrico me traga mais amigos, não acredito num deus branco, de olhos azuis e sorriso impecável, não acredito que os comunistas comam criancinha na janta, nem que os muçulmanos sejam monomaníacos alucinados. Mas por mais que eu lute e desconstrua tudo o que o mundo me ensinou; por mais que seja possível extirpar cada traço que essa doença mental deixou em meu ser, nada vai trazer de volta o tempo em que não apenas a vivenciei, como me cri saudável. Então, eu peço, de todo coração: se você tem uma criança pequena, em estado de desabrochar para o mundo, ansiosa por conhecer e experimentar, não tenha TV em casa, não escute músicas da moda, não lhe dê brinquedos caros e ultratecnológicos; leia-lhe livros desde o berço; leve-a para acampar ou pescar; ajude-a a fazer carrinhos de rolimã e pipas; ensine-lhe brincadeiras e lendas antigas; leve-a aos lugares mais diversos possíveis para que faça amigos de todas as cores e de todos os sabores; compre-lhe doces caseiros em bares e padarias; e nunca, em hipótese alguma, lhe obrigue a fazer coisas como cantar o hino nacional, jurar a bandeira, rezar o pai nosso, pedir benção, agradecer a deus, rebaixar-se diante de um superior hierárquico, e assim por diante.

O umbigo e o buraco do mundo: a caminho do fim?

Nos últimos 150 anos criamos um mundo feito de bancos, carros, chaminés, cercas, mísseis, concreto, aço. Enquanto a economia vai para o buraco, as pessoas perdem tudo; têm suas energias e esperanças sugadas até o tutano para satisfazer um sistema financeiro que mais parece um buraco negro, devorando tudo ao seu redor. A superstição popular dizia que o LHC, quando posto em funcionamento, criaria um buraco negro que engoliria a Terra toda; seria este o nosso fim, a ciência seria a nossa perdição, tal como na bíblia: quem comer da árvore do conhecimento descobrirá suas vergonhas, perderá a inocência e decairá do paraíso. Bem, não é a primeira vez que criamos um buraco negro, feito de dinheiro, dinheiro virtual, abstração de trabalho, sangue, suor e lágrimas; mas desta vez, intuitivamente, algo me diz que será muito difícil conter-lhe a gula mortal. Mais um pecado para entrar na conta dos pecados humanos. Enquanto isso, enquanto o fim não vem, a vida, o mundo, com uma obstinada insistência continua tal e qual os deixamos, em uma indiferença exasperante. Cegos em direção ao precipício acreditando ir de encontro ao mar. As cidades se apinham de gente, empoleiradas em espaços cada vez mais cinzas porém mais iluminados. Benesses do progresso. Um progresso que nós criamos, e mesmo assim não nos sentimos confortáveis nele. Passamos por baratas tontas, perdidas entre escombros. Quando muito, gostamos de comparar a sofisticação e a complexidade organizacional de uma grande metrópole à de um formigueiro. Cada um tem uma função; todos trabalham juntos e cooperam em favor do formigueiro; precisamos apenas azeitar a máquina, e tudo ficará bem. Contudo, para mim, parecemos baratas tontas. Só que a fé, por definição incondicional, tem limites, tem condições. A violência, a miséria e a incerteza esfregam na nossa cara essa divergência entre fé e realidade. Por sorte há sucedâneos, há escapatórias, se bem que todas individuais. A felicidade está em um amplo e potente 4X4. Deixe que o mundo se acabe lá fora. Dirija um Ford, um GM, um Volkswagen. Destaque-se. Eleve-se da multidão, da massa disforme. Conquiste o mundo. O sonho americano não morreu. Quem não quer ser classe média e morar num condomínio fechado? E assim as chaminés continuam fumegando, poluindo um dos únicos bens ainda intocados pela mão-de-Midas do capitalismo, esfalfando carne, produzindo o sonho natimorto que insiste em permanecer vivo nas consciências de quem lhe é devoto. Não se pode comer ouro. As cercas protegem os espaços privados, separa-os do público, cada vez mais exíguo. Não há um único rincão, por mais recôndito que seja, que não ostente, à entrada, a palavra mágica, o abre-te, sésamo: não entre, propriedade privada. Separam povos, famílias, condições de vida, oportunidades. A esperança circunscrita entre fronteiras. As nações são propriedade privada da classe burguesa e, portanto, se cercam: povos indesejados, permaneçam fora, entrem apenas para ser explorados; em épocas de vacas gordas precisamos de vocês. A pobreza é o mais lucrativo dos negócios. Insensato. Este mundo tem dono, e ele não é você ou eu, meros trabalhadores empoderados pelo "poder" do voto. Esse dono não abrirá mão jamais da sua posição de dono, e a sua dominância é que está nos levando perigosamente para perto do "ponto sem volta" do buraco negro, para perto da beirada do precipício. Nossa obrigação é tomar o mundo de volta, e com isso salvar o próprio mundo e os seres que nele habitam.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

A Ideologia Alemã e o comunismo

“Na sociedade comunista, porém, onde cada indivíduo pode aperfeiçoar-se no campo que lhe aprouver, não tendo por isso uma esfera de atividade exclusiva é a sociedade que regula a produção geral e me possibilita fazer hoje uma coisa, amanhã outra, caçar de manhã, pescar à tarde, pastorear a noite, fazer crítica depois da refeição, e tudo isto a meu bel-prazer, sem por isso me tornar exclusivamente caçador, pescador ou crítico." (MARX; ENGELS, A Ideologia Alemã)

Foi o tempo em que eu acreditei que essa passagem resumia perfeitamente o que seria as sociedades futuras, baseadas no modo de produção comunista. Mas como, tal como Marx, eu não sou marxista, dou-me ao luxo de questioná-la hoje. Caçar de manhã, percar à tarde, pastorear à noite, fazer crítica depois da refeição, parece-me mais uma visão inspiradora (e apenas isso) do que o esboço de uma futura realidade social. Essa é uma entre tantas passagens em que Marx se entrega ao romantismo, à imaginação utópica. E as próprias atividades que ele elenca (caçar, pescar, pastorear) são, ele o sabia e, ademais, é bastante óbvio, atividades econômicas de um mundo passado, pré-capitalista, que não pode ser usado para ilustrar a realidade de uma sociedade pós-capitalista. Um grande erro do marxismo é tomar ao pé da letra essa visão messiânica, romântica, bucólica. Marx e Engels deixaram de bom grado a Ideologia Alemã à crítica roedora dos ratos. Há nela, certamente, hipóteses muito interessantes, profícuas e até hoje não superadas de como ler a História. Mas nem todas elas devem ser tomadas literalmente ou sob o rótulo científico. Eu não condeno os voos utópicos de Marx. Ao contrário, sou grande fã desse tipo de posicionamento diante do mundo. Erram os marxistas que tomam os escritos marxianos como máximas infalíveis escritas em pedra. Mas não digo que é impossível reduzir a carga de trabalho dos trabalhadores (isto é, de todos nós, homens e mulheres) de forma a permitir um maior tempo livre, voltado ao ócio criativo. Mas, neste sentido, ficamos apenas com a "crítica após às refeições", porque caçar, pescar e pastorear não me parece algo muito edificante face a tudo o que milênios de cultura nos oferecem. Isso em relação a todo trabalho, mesmo quando feito em condições livres, não-alienadas. O que quero dizer é que trabalhar o dia todo, mesmo que em atividades diferentes ao longo de um dia, não resolve completamente o problema da alienação. Mesmo assumindo que Marx estava sendo metafórico, e que o que ele queria dizer é que no comunismo, sendo a produção social voltada para fins humanos e não-reificados, os trabalhadores organizados é que decidiram os fins e os meios de seu trabalho, de modo a cada um poder trabalhar no que lhe convém; mesmo assim, o problema, para mim, se mantém. O que é realmente decisivo é que tipo de mundo queremos para colocar no lugar do mundo capitalista. Se o comunismo for pensado em termos de produtividade absoluta, industrialismo, alto padrão de consumo, continuaremos tão escravizados como somos no capitalismo. Imagine quanto trabalho seria necessário para socializar o padrão de consumo dos norte-americanos! E quantos planetas Terra precisaríamos! Só sobraria mesmo tempo para a crítica após às refeições. Mas como eu disse: a passagem acima é uma visão linda e inspiradora. Não há necessidade que seja verdadeira ou exequível. Trata-se de um desejo humano, profundo. Para torná-lo realidade, enfrentaremos questões infinitamente mais complexas do que a simples socialização dos meios de produção. Com quais valores e finalidades produziremos? É esta a questão.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Para (nós) pensar(mos) a sociedade, a sociologia e o sociólogo

Para falar de sociedade, sociologia e sociólogos é preciso remeter aos anos de nascimento da sociedade na qual vivemos hoje e da ciência que a procura explicar. Ou seja, a sociologia não é uma ciência abstrata, mas antes o momento teórico de sublimação da sociedade moderna-ocidental-capitalista. Nasce como reflexo consciente de um processo histórico-concreto que criou o mundo tal como hoje o conhecemos. Esta é a sua face ideológica – cujo reconhecimento, aliás, é teimosamente negado pelos sociólogos, os quais preferem ver em sua ciência uma ciência geral de uma sociedade geral.

Tendo a sociedade contemporânea uma essência ou uma base econômica (o capitalismo), não à toa os precursores dos sociólogos pioneiros eram economistas políticos – aqueles mesmos aos quais Marx faz a crítica. Condorcert e Saint-Simon eram economistas. Sob o horizonte intelectual destes, Comte escreveu Curso de Sociologia Positiva, inaugurando formalmente a ciência que seria desenvolvida por Durkheim, Weber, Pareto, Ward, Giddings e outros. Também não é à toa que a sociologia nasça como uma ciência positiva, em oposição à herança destrutiva da dialética hegeliana e do romantismo alemão. Não esqueçamos, também, do evolucionismo spenceriano e da marca persistente que a sua doutrina imprimiu à ciência nascente.

Assim, a sociologia é a ciência do progresso, da indústria, da civilização ocidental em expansão. Nasce sob o signo do poder mundano, da fé absoluta na engenhosidade humana, da crença no sentido positivo e não-contraditório do progresso. Mas crença e realidade não necessariamente coincidem, e a face mais obscura e assustadora do progresso industrial-ocidental exibiu cada vez mais inegavelmente sua natureza monstruosa. Não obstante, a visão de mundo dominante não reconhece a dialética entre produção da riqueza e produção da miséria (seja em sentido estritamente econômico, seja em sentido humano-ontológico). A sociologia é chamada então para reformar o sistema que ameaça desabar sobre o peso das suas próprias contradições. A máxima de Comte, “saber para prever, prever para poder”, expressa justamente essa motivação alojada no coração da própria sociologia.

Neste ponto de desenvolvimento da ideologia industrialista-cientificista moderna sociedade e natureza, a cultura e o seu meio natural, igualam-se: ambas são mecanismos autônomos e cegos que podem ser melhorados através da ciência e da indústria humanas. Esta crença, a ciência natural empresta de bom grado à ciência da sociedade. A luta entre/dos homens e mulheres e o contínuo esforço para melhorar suas condições de vida e para descobrir sua natureza e seu lugar no mundo; seus erros e acertos; seus dramas, tragédias, comédias e epopeias, são solenemente ignorados.

A sociologia serve, assim, como justificação de uma ordem historicamente dada mas que é concebida como resultado de forças que não imanam do próprio ser humano; dentro deste quadro, resta apenas à sociologia definir-se como uma espécie de engenharia social (lembremos do termo física social com o qual Comte quis batizar sua ciência): sua missão é recolher e consertar os refugos e as má-funções que sobram e que decorrem do progresso social.

Não é correto que a sociologia ainda pense assim. Estou aqui tão-somente esboçando as características gerais da sociologia em seus primórdios. De lá para cá, muita água rolou por debaixo da ponte: o progresso se mostrou um conceito falho, o próprio desenvolvimento positivo deste mundo promissor mostrou-se mais incerto e truncado do que de início se acreditava, e o mundo não é mais o mesmo daquele da belle epoque; a sociologia passou por crises, reelaborou conceitos e teorias, inovou problemas e objetivos, reconheceu e expurgou alguns de seus problemas mais candentes (não sem uma ajudinha de outros campos do saber, como os da filosofia e da arte).

Mas é forçoso reconhecer que a sociologia, assim como a ciência e o saber de modo geral, não pode se libertar totalmente de seus demônios enquanto vigorar a ordem histórico-social que lhe deu origem. Muitos dos axiomas, indemonstráveis porém aceitos por princípio, presentes em seu nascimento e evolução ainda alimentam, de um modo ou de outro, as suas raízes. Conhecer a sociedade é hoje, talvez mais do que ontem, uma tarefa técnica, realizada com metros, gráficos, fórmulas, formulários e modelos alimentados por computador. Os sociólogos não são mais sábios, intelectuais, pensadores; são antes especialistas, analistas, estatísticos sociais. Os grandes voos da autoconsciência humana foram substituídos pela firmeza rasa mas pouco abrangente e pouco profunda do empirismo, dos dados imediatamente acessíveis à observação.

Não que nada disso tenha o seu valor. Mas esse valor torna-se o seu oposto quando serve apenas à reiteração do que já existe, do ser, do que é. O empirismo e a ciência moderna, por si sós, não podem postular as questões maiores para o ser social: o que deve ser, o devir-ser, o que queremos fazer de nós. Embora a sociologia e as ciências sociais e humanas de modo geral tenham nascido com pretensões menos burocráticas e menos academicistas, uma vez que preocupavam-se com o sentido da história, a essência da cultura, os tipos de sociedade, etc., foram tornando-se, por uma série de razões concretas ligadas às necessidades de desenvolvimento do sistema capitalista, cada vez mais institucionalizadas, domesticadas, confinadas às fronteiras da academia e da burocracia. Weber estava certo quando via na burocracia e no desencantamento do mundo os corolários da racionalização crescente da vida.

Está aí um dos problemas fulcrais da sociologia: a perda ou a recusa da utopia, tal como a concebia Mannheim, e a autolimitação dentro dos estreitos limites da ideologia; isto é: a aceitação acrítica do dado, e a recusa de pensar o não-dado, o imponderável, o desejável. A sociologia se impregnou das “verdades” do mundo contemporâneo, e não me parece ainda disposta a questionar tais verdades: tornou-se fria, calculista, mecânica, burocratizada, especializada, academicista.

Mas não nos enganemos: não precisamos da sociologia para pensar um novo mundo, nem para justificar a crença na possibilidade deste novo mundo; não precisamos sustentar um postulado político sobre uma base científica: isto seria basear a nossa crítica ao mundo em que vivemos a partir dos princípios deste próprio mundo. Postular a necessidade e a possibilidade da socialização dos meios de produção não implica fazê-las passar por verdades científicas. A ciência não tem todas as respostas. Mas, por outro lado, é certo que libertar a sociologia e as ciências sociais/humanas/naturais dos constrangimentos da sociedade historicamente definida pelo poder do capital é também parte e momento dessa luta por uma transformação radical; neste sentido, a sociologia é ao mesmo tempo inimiga e aliada.

Neste dia do sociólogo (ou seria da sociologia?) devemos deixar as comemorações para depois, e lembrar os descaminhos e desventuras da empresa científica voltada à explicação e à compreensão da sociedade; devemos questionar o seu lugar no quadro do conhecimento humano, sua finalidade e a sua natureza; devemos indagar sobre o nosso papel enquanto sociólogos. Além disso, problematizar a sociologia passa pelo questionamento da própria sociedade contemporânea. Afinal, ser sociólogo é produzir e publicar um determinado número de artigos em revistas acadêmicas especializadas de tanto em tanto tempo? Ser sociólogo é competir entre pares por bolsas, status e privilégios acadêmicos? É reproduzir inconscientemente axiomas ideológicos cujo fim é justificar e perpetuar uma certa ordem social? O que é o olhar sociológico? É olhar desinteressadamente para a sociedade como um dado externo? É olhar para ela a partir de seu gabinete e do alto dos muros da academia? E cadê a tal da imaginação sociológica? Como educar os sociólogos que virão? Como lutar contra a institucionalização, a especialização e a burocratização? Como lutar contra a ingerência do interesse privado-econômico-capitalista sobre as preocupações sociológicas? Como democratizar o conhecimento sociológico? Como fazer deste conhecimento uma construção coletiva, de via-dupla? Como lutar contra o elitismo e o pedantismo e fazer da sociologia uma arma nas mãos do povo? Como dialogar com o povo, ou seja, com o seu objeto? Ou melhor: como fazer do objeto, sujeito, e do sujeito, objeto?

A sociologia não é uma especialidade do saber, mas uma parte da totalidade complexa que é o saber, duas coisas muito distintas. Assim como a sociologia é um momento de algo maior, o sociólogo não é apenas sociólogo: é um ser humano em toda a sua complexidade. Ser sociólogo não é cumprir formalidades, ritos e protocolos: é ser lutador, artista, político, filósofo, crítico; tudo isso ao mesmo tempo e muito mais.