quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Raízes

Se perguntarem por mim
Diga que eu parti
Que fui me enfiar no mato
Procurar minha raiz
Mas eu volto, hei de voltar
Trazendo as bênçãos de Iemanjá
Porque eu não sou daqui
Eu sou de lá, eu sou de lá

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

O idiota

Ontem eu era um idiota
E o hoje, eu sou o que?
O idiota de amanhã
Entre o idiota de ontem
E o de amanhã
Há o caminho de uma vida toda
Com seus muitos erros e poucos acertos
E o objetivo de terminá-lo
Menos idiota do que quando o comecei
Não me censurem por ser um idiota hoje
Censurem-me por não ser menos idiota amanhã

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Homens que querem ensinar às mulheres como ser feministas

Homens que querem ensinar as mulheres como ser feministas são aborrecedores. Não porque os homens não possam (e não devam) participar da luta, mas simplesmente porque são elas que são as vítimas diretas de sua opressão. Quem sente a opressão na pele tem proeminência na luta. Seria o mesmo que um morador branco da cidade querer ensinar aos indígenas como ser indígenas. Ademais, muitos desses homens mal começaram a entender o significado do machismo, e só porque reproduzem (verbalmente) princípios básicos e assentados do feminismo já não se creem mais machistas. E digo isso com a sinceridade de um homem que já foi um feminista da boca-pra-fora. Tudo o que eu escrevo aqui sobre o machismo não tem a pretensão de ensinar às mulheres e às feministas como lutar contra ele. Trata-se apenas de momentos de meu próprio processo de autoconhecimento e evolução. Não se combate o machismo com frases prontas, mas somente com um esforço infatigável e honesto que desce ao mais fundo de seu próprio ser, onde as raízes do machismo estão fincadas. Autocrítica nunca (eu disse nunca) é demais. Menos hipocrisia e mais humildade! Menos arrogância e mais empatia! Exercitar a alteridade é preciso.

Haddad entre o fogo amigo e inimigo

O clima de animosidade que se instalou entre o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, e a alta-cúpula petista é um bom indicador de como funciona o PT e no que o partido se transformou.

Além de ter que enfrentar a oposição, a grande mídia paulistana e os setores burgueses da cidade, Haddad ainda tem que lidar com o fogo amigo vindo de figuras centrais de seu partido, como Lula e Dilma. Qual a acusação? Não fazer política, ou melhor, colocar a gestão da cidade acima dos interesses políticos, que, para o PT e para os partidos eleitoreiros de modo geral, significam ganhar eleições e cooptar o máximo de aliados possíveis.

Para o PT, implementar um IPTU progressivo ou criar 300 km de corredores exclusivos de ônibus são medidas menos importantes do que eleger o ministro da saúde, Alexandre Padilha, governador do Estado em 2014, ou aproximar possíveis aliados como o ex-demo Kassab ou o presidente da FIESP, Paulo Skaf, pré-candidato pelo PMDB, partido aliado do Planalto, ao governo de São Paulo, ambos inimigos de Haddad.

Podemos questionar o que seria uma boa gestão pública, ou até mesmo o próprio conceito de gestão pública, ou podemos nos perguntar se Haddad está mesmo fazendo tudo o que poderia fazer se (ainda) tivesse uma concepção ideológica mais à esquerda. Mas o ponto aqui é: não foi para melhorar a vida da população paulistana que o PT brigou tanto por este reduto político tucano, antes foi porque a cidade é o principal palanque político do país.

A mesmo coisa vale para a sua ambição no Estado. Não nos iludamos quanto a isso.

domingo, 22 de dezembro de 2013

Presença

Você aí
Eu aqui
E teu cheiro
Em mim
E eu me sinto repleto
De ti
Longe embora tão perto
Porque tão dentro
De mim

sábado, 21 de dezembro de 2013

O machismo e a violência disfarçados de elogio e flerte

Eu acho (tragi)cômico os homens que pensam ser natural se irritar ou agredir, verbal ou fisicamente, outro homem que, por ventura, lhes passe uma cantada, enquanto se arrogam o direito de “elogiar” toda e qualquer mulher que quiserem. Eu pergunto: qual é a diferença? E de fato, diferença existe, mas não no que se refere ao comportamento em ambos os casos, e sim aos sujeitos envolvidos. A posição de poder ocupada por cada um deles é que permite a criação de um discurso que legitima a raiva num caso, e o “elogio” no outro. Mas antes de demolir essa noção estúpida de elogio, pensemos no efeito psicológico que sua prática gera sobre a mulher, e como tais efeitos se constituem num dispositivo de controle sobre ela e sobre seu corpo.

Para pensarmos essa questão, um exemplo concreto é sempre de grande valia. Certo dia, de madrugada, voltava eu sozinho completamente embriagado para casa, quando um carro parou ao meu lado. O motorista perguntou se eu queria uma “chupadinha”. Minha reação foi automática e intempestiva. Por pouco não parto pra cima do abusado. (Deixo claro que isso foi há muito tempo. Hoje não me comportaria assim).

E se a situação fosse diferente? Se eu fosse uma mulher, e o motorista fosse um homem hetero? Nesse caso não seria uma agressão, um desrespeito, seria um elogio, um flerte? Em primeiro lugar, se eu fosse uma mulher não estaria voltando para casa, de madrugada, alcoolizada e sozinha. Em segundo, se estivesse, não teria coragem de enfrentar o agressor, como eu fiz. Se tivesse, quem garante que a história teria acabado aí, sem o homem, um possível estuprador, tornar-se efetivamente um estuprador? Em terceiro lugar, esse fato não engendrou em mim um pavor de sair sozinho de madrugada. Diferentemente da mulher (e exatamente por ser homem), eu continuo me sentindo seguro para voltar de madrugada bêbado e sozinho para casa, certo de que, no máximo, serei assaltado ou, eventualmente, morto, mas nunca estuprado.

Ora, essa situação não é corriqueira na minha vida de homem. Ao contrário, é cotidiana na vida da mulher. E pelo fato de ser cotidiana, e de ser, de um modo ou de outro, legitimada pelo discurso machista, suas consequências são profundas: geram estados psicológicos de insegurança, apreensão e angústia que se consubstanciam em dispositivos de controle que determinam, internamente, onde e quando a mulher pode ou não ir, como se deve comportar e se apresentar, etc. Ou vocês, homens machistas, acreditam seriamente que as mulheres sentem medo e/ou angústia porque são naturalmente medrosas, frágeis, bobas? Garanto que se vocês sofressem a carga de abusos que elas sofrem todos os dias desenvolveriam quadros clínicos de perseguição e paranoia. As mulheres são criaturas estoicas, de uma bravura e tenacidade que eu, na minha condição de homem, não consigo sequer imaginar.

Mas, neste ponto, aparecem aqueles que refutam esses argumentos com a seguinte objeção: certo, concordo que abordar uma mulher dessa forma é desrespeitoso e invasivo, mas não é a isso que me refiro quando falo em elogio. Então o que seria elogio? Um aparentemente inocente “fiu-fiu” ou dizer “gostosa”, “delícia”, “gata”, embora sem acrescentar (o que geralmente acontece) “ai se eu te pego”, “te como todinha”? São termos realmente tão diferentes assim?

Em primeiro lugar, a diferença entre chamar uma mulher desconhecida de linda na rua, e chama-la de gostosa não passa de uma diferença de grau, de intensidade, e não de gênero, ou seja, não são coisas diferentes, mas idênticas só que em intensidades variadas. Assim também como ser mais agressivo, dizendo “te como todinha”, não muda em nada o problema. Trata-se apenas de um caso limite, cuja expressão máxima é consumar a ameaça. Isso porque o que importa aqui verdadeiramente não é a palavra que se usa para “elogiar”, mas o “elogio” em si, ou melhor, o que se acredita tratar-se de um elogio.

Ora, simplesmente não se trata de um elogio. Trata-se do exercício de um poder, o poder do homem sobre a mulher. Simples assim. Toda vez que um homem faz um “elogio” para uma mulher está basicamente afirmando o domínio de todos os homens sobre todas as mulheres. E quando esse elogio fica mais sério, quando é levado às últimas consequências, o homem acredita estar exercendo uma prerrogativa sua, isto é, de que ele tem o direito de subjugar a mulher, ainda que isso implique no uso da violência. Como isso não é feito de forma inteiramente consciente, e como existem barreiras morais para tal violência, toda uma série de argumentos espúrios surge para legitima-la, muitos deles acabam aceitos. Além do mais, eu gostaria de saber onde está a linha tênue que separa o “elogio” da agressão verbal? Essa linha não existe, simplesmente porque elogio e agressão verbal (cantadas de rua) são coisas inteiramente distintas.

Elogios existem? Quero acreditar que sim. E flertes? Também. Mas, seguramente, não é disso que estamos falando aqui. Estamos falando de violência pura e simples. Precisamos redefinir nossas ideias e valores, transformar nossos comportamentos e práticas, e descobrir como elogiar e flertar sem ser machista. Nada impede que um homem tente se aproximar de uma mulher desconhecida numa circunstância qualquer. Mas com respeito e gentileza. E ao primeiro sinal de que não é correspondido, pare. Você não é o último homem do mundo, e a mulher tem o direito sobre o seu corpo, tem liberdade e autonomia sobre sua vontade, ou seja, é um indivíduo com direitos e prerrogativas idênticas às dos homens. De resto, as mulheres não nos olham como pedaços de carne desfilando na rua, como os homens as enxergam. O machismo hiperssexualiza as mulheres, e é por isso que os homens acham que podem flertar com elas onde e quando quiserem, como se elas estivessem lá só pra isso. Por isso, meu caro amigo machista caçador de mulheres, nem sempre sendo gentil e educado não se está a cometer um desrespeito e uma violência à mulher, que tem direito de andar pela rua sem que um monte de galanteadores inoportunos a persigam, ainda que com rosas e não com pedras.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

O que as crianças têm a ensinar para os adultos

Os adultos estão tão seguros de sua superioridade e de seu modo de vida que mal se dignam a olhar para baixo, onde ficam as crianças, quanto mais a se colocar no ponto de vista delas para ver com seus olhos e tentar entender os seus motivos. A noção de que a criança é um adulto em potencial, e que, portanto, sendo ainda pouco desenvolvido, necessita desenvolver-se, é uma espécie de noção de progresso deslocada do gênero sobre o indivíduo. Tal noção de progresso, que supõe o sentido do desenvolvimento indo do simples ao complexo, do inferior ao superior, impede que enxerguemos na criança um ser completo em sua própria especificidade. Daí a justificava de que podemos fazer dela o que quisermos, isto é, que podemos (e devemos) fazer delas a nossa imagem e semelhança, o que implica, necessariamente, transformá-la em adultos. Este é exatamente o papel que acreditamos ter para com a criança.

Essa noção de progresso individual, que começa na infância e alcança o cume na idade adulta, é aceita pelos adultos como autoevidente, tal como a ilusão progressista e perfectível oitocentista também fora; ou seja, na medida em que se trata de um axioma, sua aceitação nos exime de problematizar a noção em questão. Temos até, por exemplo, um sentido pejorativo com o qual empregamos a palavra “infantil”, o qual denotaria algo como um comportamento frívolo e caprichoso que acreditamos ser típico da criança e que, como tal, é inaceitável em adultos. Assim, a linguagem é não apenas uma expressão de nossos preconceitos, como também um meio pelo qual tornamo-los reais, ou seja, a linguagem é um instrumento de coerção cuja finalidade é moldar o comportamento da criança e do adulto segundo os papéis, culturalmente construídos, que se espera de um e de outro.

Paradoxalmente, a infância é um conceito relativamente recente. Um de seus corolários estabelece que toda criança tem direito à infância. Ela não pode, portanto, trabalhar ou fazer outras atividades consideradas de natureza adulta. Deve, isso sim, fazer coisas de criança, notadamente brincar. Progressivamente o tempo da vida destinada à infância foi ampliando-se. Somada à adolescência, um conceito essencialmente moderno, chegou aos 18 anos de vida. Convencionou-se, por conseguinte, um momento de ruptura arbitrário, momento no qual se espera que a criança, num passe de mágica, torne-se adulto. A bem da verdade, existe um conteúdo material dando substância a essa convenção social abstrata: nessa idade ou próxima dela, a criança está para terminar os estudos, ingressar no mercado de trabalho e/ou estudos superiores, deixar a casa dos pais, etc. Esse processo implica em arcar progressivamente com mais e mais responsabilidades e obrigações. E é basicamente nisso que reside toda a nossa ideia de maturidade: responsabilidades e obrigações. Sintomaticamente, quando uma criança está no meio desse processo de transição, geralmente é cobrada em relação ao seu comportamento com críticas do tipo: “você não tem mais idade para agir assim”, “tem que tomar um rumo na vida”, etc.

Obviamente, não estou defendendo aqui que temos que nos eximir de nossas responsabilidades e obrigações. Apenas chamo atenção para a concepção mesquinha e estreita que temos da vida adulta – e, ao mesmo tempo, para o modo aviltante e arrogante com que lidamos com a criança. Tais concepções não me parecem naturais – como, desnecessário dizer, basicamente nada do que diz respeito aos seres humanos enquanto seres sociais o são. Estamos imersos numa cultura que dá valor desmedido à produção e à vida material; logo, ao trabalho. Em semelhante cultura, certamente, não há espaço para “infatilidades”. É preciso se empenhar em atividades monótonas e alienantes, ser parcimonioso, frio e calculista; numa palavra: é preciso abdicar dos prazeres da vida – e quando eu digo prazeres da vida não me refiro a essa ideia deturpada que se faz deles; tais prazeres não se resumem a beber e comer bem, mas se estende a vários aspectos da vida, como a família, as amizades, o ócio criativo, a natureza, as artes, etc. – para dedicar-se única e exclusivamente ao trabalho. Ora, é precisamente nesse ponto que começa a crise na vida de todas as pessoas. A vida, que ia bem até aí, estraga-se da noite para dia. Daí porque dizemos: “Ah, que saudade da infância! Eu era feliz e não sabia”.

A criança não se interessa por resultados, metas, objetividade, cálculo; desgraçadamente (para ela), a criança não nasce como um pequeno indivíduo tipicamente capitalista (da Era capitalista). Ela nasce simplesmente criança, e, como tal, interessa-se pela beleza, pela diversão, pelas pequenas coisas da vida. Antes que o mundo destroce seu espírito, ela tem todo um mundo para descobrir. A criança é por natureza uma filósofa, uma cientista e uma artista. Ela gosta de contemplar – uma faculdade que, por demandar tempo e paciência, caiu em descrédito diante de uma sociedade que cobra resultados ótimos em relação ao melhor custo/benefício possível –; é curiosa, se entretém com as mínimas coisas – aliás, o que vemos na criança como facilidade de distrair-se, a criança vê como interesse legítimo pelas coisas que, aos adultos, são invisíveis –; é criativa, sensível, ama a beleza e as formas. Diante disso, não é de estranhar que a sociedade se encarregue de suprimir todas essas qualidades na criança. Quando ela o consegue, passamos a chama-la de adulto.

E para voltar a essa questão, qual seja, a da passagem da vida infantil para a adulta, o ponto aqui não é defender que tal passagem é uma criação abominável, antinatural, e que deveria ser abolida (embora ao menos a forma como a concebemos deveria, em tese, ser abolida); a questão aqui é: porque precisa existir um ponto de ruptura e separação absolutas entre a criança/infância e o adulto/maturidade? Ou, noutras palavras e melhor dizendo: porque precisamos matar a criança para tornarmo-nos adultos? O que impede o adulto de ser mais parecido com a criança, ou, ao menos, de ouvi-la com sinceridade, de respeitá-la enquanto um ser legítimo, e assim aprender com ela? Será que não teríamos muito a aprender com ela?

Pergunta mais velha do que andar pra trás

Entender não é difícil
Na verdade, é bem fácil:
“Não faças aos outros o que não queres que façam contigo”
Pode algo ser mais simples do que isso?
Princípio categórico, imperativo
Imediatamente evidente
Então por que fazemos o contrário?
Porque é tão complicado
Fazer dessa fraseologia vazia
Uma real filosofia de vida?

Sentimento ruim

Não me venha com essa
De me contar o que você fez
Faz ou deixa de fazer
Não quero saber de você
Não me diga que as coisas são assim mesmo
Com esse ar de superior benevolência
E que, afinal, é bom que assim seja
Já que não era mais pra ser
Nem diga que quer participar da minha vida
Como dois grandes amigos
Porque o tal do sentimento permanece vivo
Na nossa longa história
E porque depois de tanto tempo juntos
É absurda a indiferença
Que precisamos ser maduros
E encarar o fato de frente
Que o que passou, passou
E importa apenas o que restou da gente

Não esfregue sua felicidade
Que pelo visto vai muito bem
Na cara da minha saudade
Não me diga que está bem
Com esse olhar de piedade
Não preciso do seu vintém
Resta-me ainda dignidade
E eu sei mostrar desdém
Com um pouco de vaidade
Sei guardar rancor também
Sai pra lá com essa bondade
Porque por hoje, meu bem
Só tenha uma única vontade
Ver você sofrer também

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Fim

Como dói
Dar-se conta
Da perda
Do fim
Que não tem volta

E falta o ar
Com que respirar
E desaba o chão
Sob os pés
E não mais se vê
É tudo escuridão
Deixa-se de crer
Perde-se a fé
E a razão

Mas como só acaba
Quando termina
A gente continua
Nessa busca
Chamada vida
E, no final
Quem não espera
Encontrar
O que procura?

A Coca-Cola e o marketing

A Coca-Cola, um símbolo literalmente onipresente no mundo e o mais emblemático no que tange ao propalado estilo de vida norte-americano, realiza todos os anos uma caravana natalina pelas cidades do país. Eu, curiosamente, desconhecia essa já “tradicional” caravana da Coca-Cola. Vi-a, com olhos incrédulos e horrorizados, ontem. Se nalgum dia de minha infância já havia presenciado essa cena grotesca, sou grato por não lembrar. O que, aliás, me deixa orgulhoso: em certa medida permaneci fora do raio de alcance de sua deletéria influência ideológica.

Fiquei pensando no enorme poder emocional que campanhas como essa exercem sobre as pessoas – quero dizer, consumidores. Aliás, a Coca-Cola talvez represente o caso mais bem-sucedido de marketing na história do capitalismo. Seu sucesso não se deve (apenas) às altas doses de açúcares, compostos químicos artificiais, praticidade e baixo preço (quatro características altamente viciantes). Muito menos à “visão de mercado” (seja lá o que isso signifique), empreendedorismo, competitividade, e outras bobagens pseudocientíficas que se ensina nas escolas de administração. Se é possível sintetizar a megacorporação Coca-Cola numa única palavra, essa palavra é: marketing.

Marketing sendo a palavra eufemística socialmente aceita para designar “falsa ideia e/ou sentimento vendidos através de uma mercadoria qualquer, ideias e sentimentos que a mercadoria não contém nem pode conter”. Pode ser que a ideia não seja falsa em si. “Viva o que é bom”, “viva positivamente”, “gostoso é viver” (slogans da Coca) podem ser ideias verdadeiras. Mas quando se analisa o contexto e o emissor da mensagem imediatamente compreende-se que não passam de hipocrisia e cinismo, cuja única finalidade é vender. Se o contrário vendesse – tipo, “seja pessimista, a vida é uma merda” –, não tenha dúvida que seria essa a divisa estampada nas garrafas de Coca. Mas, obviamente, isso não vende. Num mundo carente de esperança e alegria, é a promessa do que falta que vende.

E ninguém é tão mestre e versado na arte de semear falsas ideias e ilusões do que a Coca-Cola. Pense nas suas propagandas, lembre todas que você já viu, pense em suas campanhas de responsabilidade social, e você vai entender o que estou tentando dizer. Não é preciso pesquisar. Tal como a verdade platônica, essa compreensão também está dentro de você, impregnada por anos e anos de propaganda ideológica. Em certa medida, o “conhece-te a ti mesmo” do templo de Delfos, é também uma forma de conhecer o capitalismo. Pensemos, por exemplo, no papai Noel, já que o pano de fundo dessa discussão é o natal. A imagem que certamente lhe vem à cabeça, de um velhinho rechonchudo e branquelo, de bochechas róseas e barba encanecida, trajando roupas vermelhas de inverno, é justamente uma peça comercial da Coca-Cola.

Se houvesse sinceridade neste mundo, os marqueteiros, junto com seus empregadores empresários (e figuras políticas), seriam presos por estelionato. Claro que o marketing pode ser usado, igualmente, para vender uma ideia boa. Mas ideias boas não precisam de marketing, elas vendem por si só. O que precisa de marketing são as ideias ruins. Aliás, como você acha que as ideias ruins prevalecem sobre as ideias boas? Marketing!

A ideia falsa que a Coca-Cola vende através de suas campanhas publicitárias é que a sua garrafa contém mais do que compostos químicos potencialmente carcinogênicos: contém otimismo, esperança, felicidade; contém, ainda mais, a própria magia do natal. E, afinal, existe data melhor para empurrar uma mentira deslavada dessas do que o natal? O natal (junto à virada do ano) é o momento em que toda a merda vivida num ano inteiro de trabalho absurdo e insuportável é esquecida; é quando as esperanças são renovadas (artificialmente) para, no ano seguinte, fazermos a mesma coisa que instituições como a Coca-Cola querem que façamos sempre: trabalhar para consumir. Logo, o natal é como uma porta aberta, um momento de baixa imunidade, às ideologias do capitalismo. Nesse mês ficamos ainda mais crédulos.

Quando comecei este texto, tinha em mente abordar o caso do Coca-Cola sob o ponto de vista do problema de saúde pública da qual ela é um fator de peso (literalmente). Mas um assunto puxa o outro: como a Coca-Cola pode se atrever a falar em viver positivamente, com alegria, vendendo o veneno que vende? Daí a necessidade do marketing: não cairia bem colocar uma caveira em seus produtos, embora isso fosse o mais honesto. Ao invés de caveira, otimismo, felicidade, esperança e um papai Noel fofinho!

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Gadgets

Não saio de casa sem celular
Um Smartphone, claro
Não dirijo mais sem GPS
E, na faculdade, levo sempre o notebook
Em suma, nada faço sem meus Gadgets
E nunca deixo de estar conectado
Ah, que saudade da época que Gadgets
Era um relógio da Cássio
E um canivete!

Física política

Queria ser um elétron
Para ocupar dois lugares
Ao mesmo tempo
Sem me importar com limites corporais

Abaixo Newton
E sua mecânica antiquada!
Abaixo a física clássica!
Viva a física quântica
E a anarquia das partículas subatômicas!

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Carinho

Se o amor é uma coisa humana
O carinho é universal
Não há ninguém que não o queria
Nem que, ao recebe-lo, não o entenda
E, afinal, o que é o carinho
Senão uma forma diferente de amor?
É o amor sem teoria, em estado bruto
É o amor que se sente, e não que se diz
O Amor é ideal; o carinho é concreto, material
Do carinho, até as mais terríveis bestas gostam
Quanto mais eu, um pobre ser humano infeliz
Se o amor acabar, que o carinho nunca acabe!
Se o amor faltar, que o carinho nunca nos falte!

Deu a louca no Papa?

Detesto admitir, mas o Francisco I, de nome Bergoglio, me surpreendeu. No começo, achei que suas declarações não passassem de jogo de cena. A Igreja está em crise, e a escolha de um papa latino-americano, pela primeira vez na história, significaria sobretudo uma concessão da Santa Sé para com seu curral de ovelhas mais importante, onde o pentecostalismo que cresce a olhos vistos tem ameaçado significativamente a hegemonia católica.

Por outro lado, lá no velho continente, o Vaticano está às voltas com crises internas que repercutem em escândalos grotescos – e nada santos ; cite-se, em especial, corrupção financeira e pedofilia. Sem dúvida, isso tem maculado a imagem da Igreja Católica – se é que, para quem conhece um pouco de história, se pode macular ainda mais essa vestal imunda. Há ainda um fator adicional, que, vale dizer, talvez não seja mais que uma percepção subjetiva minha, mas que também joga contra ela: o novo consenso que as poucos se forma em torno de temas antes tidos como prerrogativa religiosa, como família e sexualidade. Entre eles, podemos citar o direito ao casamento gay e à liberdade reprodutiva da mulher. Esse novo consenso vai diretamente contra os dogmas do cristianismo. Tal como aconteceu no passado com relação a outros temas, o poder da Igreja vai sendo rebaixado até em seus últimos bastiões. 

Em suma, a Igreja Católica enfrenta uma tempestuosa crise, já sobre sua cabeça há algum tempo, mas bastante agravada depois do pontificado de Bento XVI. Os prelados do alto clero sabem disso. Quem acha que eles não passam de monumentos medievais embalsamados, sem qualquer contado com o mundo contemporâneo, se engana redondamente. Não que eles estejam em sintonia com o sentido desse (novo) mundo. Ao contrário, se opõem a ele. Mas, para ser bem sucedidos, precisam de uma estratégia coerente e eficaz. Eleger pela primeira vez na história um cardeal latino-americano e, ainda por cima, jesuíta seria parte dessa estratégia. A começar pelo nome escolhido, Francisco, em homenagem a São Francisco de Assis, conhecido por ter sido devoto da pobreza e fiel seguidor do estilo de vida e das pregações originais de Cristo. Tido como humilde e simples, frugal e conciliador, Bergoglio era o nome perfeito para levantar o moral dos católicos. 

Desde o início, para mim, era disso que se tratava todo esse espetáculo midiático em torno da eleição do novo sumo-pontífice, escolhido a dedo, de caso pensado. Aquilo me aborrecia tremendamente, e não pude evitar de pegar, desde logo, antipatia pelo novo papa, até porque sou e serei sempre desconfiado quando o assunto é religião, ainda mais de uma religião com um legado vil como o do cristianismo. 

Agora tenho que admitir que essa antipatia está se convertendo em simpatia. O que aparecia para mim como uma tática velhaca e sórdida, agora se parece cada vez mais como uma disposição sincera do novo papa. Tudo começou com seu comportamento antiprotocolar e descerimonioso, sua aversão às pompas e ao luxo típico do alto clero. Tudo bem, disse a mim mesmo, isso não passa de populismo. Depois vieram atos como lavar o pé de detentos durante cerimônia importante. Não bastasse lavá-los, o papa os beijou! E ainda disse que os de cima têm de servir aos de baixo. Os “de cima” devem ter se horrorizado com essa declaração. Insisti comigo mesmo: populismo, papa esperto. 

Contudo, com suas mais recentes declarações, parte do documento fundamental que deve guiar seu papado, ficou muito mais difícil sustentar a tese de populismo. Francisco foi bastante incisivo em sua crítica ao capitalismo: mais do que focar supostos “excessos”, como seria mais plausível, o novo papa ataca o capitalismo em si, como paradigma econômico. Em especial, ele ataca uma noção econômica muito corrente nos EUA, qual seja, o conjunto de medidas que hoje chamamos de neoliberais. Para Francisco, a eficácia dessa política econômica – a sua capacidade de gerar e distribuir riqueza –, simplesmente não podem ser confirmadas pelos fatos, e que é muita ingenuidade esperar que os de cima façam alguma coisa pelos de baixo. No plano interno, Francisco propôs a descentralização da estrutura organizacional da Igreja, tão rigidamente hierárquica nessa instituição quanto num exército. Diante disso, nos EUA, a extrema direita está puta da vida com o novo Papa, e já advoga a necessidade de intervir militarmente no Vaticano para derrubar o papa rebelde... 

É cedo para supor em andamento uma revolução ideológica na Igreja, tanto porque o papa Francisco é apenas um homem – embora na figura de líder máximo da instituição e representante supremo de Deus na Terra –, quanto porque o peso da tradição conservadora sobre os espíritos divergentes é esmagador. Tal suposição seria, ademais, bastante ingênua. Mas é alentador ver as iniciativas do novo papa, e o receio e desdém que elas têm suscitada entre os círculos mais reacionários. Alguns deles já acusam o papado de Bergoglio de marxista. São uns estúpidos, evidentemente. Mas, de nosso lado, seria também uma estupidez brutal ignorarmos essa mudança tangível de direção. Se continuar assim, o papa Francisco sem dúvida encontrará muitas dificuldades pela frente e fará muitos inimigos. É preciso que ele saiba que, se ele estiver disposto a levar a Igreja e o cristianismo do século XIII para o século XXI (e, de quebra, leva-las de volta às suas raízes), não faltará apoio do nosso lado. Se extinguir o cristianismo é impensável, ao menos que façamos dele uma religião melhor. 

(Claro que essa minha impressão pode ser apenas isto, uma impressão, ou pode ser defraudada. O tempo dirá. Fiquemos atentos.)

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Fechando o ciclo

É chegada a hora
Hora tão esperada
De colocar os pés descalços
Nos caminhos da estrada
De enterrá-los, fundo
Na areia cálida da praia
De molhar a cabeça
Nas águas sagradas do mar
É hora de caminhar
De me perder de novo
Para alguém encontrar
Antes de voltar, renovado
Por outro caminho qualquer
Quer ir junto? Levo-te comigo
Vamos conhecer pessoas
Vamos rir e dançar à toa
Ter histórias pra contar
Porque é chegada a hora
A hora de ir embora
Com o coração tranquilo
Para encerrar esse ciclo
E começar outro
De alma lavada

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Considerações de um viajante

Na vida, há infinitas estradas
Tem pessoas que dão voltas e voltas
Em falso, sem chegar a lugar algum
Tem quem vá, certo de si, em linha reta
Acreditando, assim, conquistar o podium
Mas, no final, só conseguem se perder na própria meta
E, coisa estranha, sem deixarem de crer-se no prumo
Fazem cálculos geométricos, ponderam tempo e custo
Andam rápido, mas não olham para os lados
Se alguém fica para trás, abandonam-no, é cada um por si
Diferente desses, há aqueles que giram e giram e giram
E que encontram seu caminho justamente nos círculos
Que outros, os muito seguros, veem como descaminho
Eu pertenço a essa última categoria, a dos perdidos
Que gira, que se extravia porque quer, que sai da trilha
Que prefere seguir sem sentido, sem bússola
Sem mapa, ignorando as placas de aviso
Se existe ponto de chegada, nem todos o alcançam
Porém o certo mesmo é que existe caminho
Qualquer um, porque é preciso caminhar
É correto, portanto, dizer: caminhos, no plural
No infinitivo, porque o que importa é caminhar
Seja qual for o teu, ele jamais está pretraçado, predefinido
É preciso fazê-lo, um pouco sozinho, um pouco acompanhado
Porque o caminho se faz no caminhar, em ato
Não há certo, nem errado; do bem e do mal quem sabe é você
Se errar, ou mudar de ideia, volta, retoma, revoluciona-se
Sem medo, sem culpa; vá com calma, contemple, tateando com o coração
Aprecie a paisagem, porque a vida é uma só, e é breve
Então, divirta-se e aproveite a viagem

A propósito de Mandela

Sua história, complexa e contraditória como todas as histórias, pode e deve ser vista e revista a partir de um prisma objetivo e científico. (Re)encontrar a pessoa de Mandela – quem ela foi –, parte necessariamente da análise desapaixonada do que ela disse e fez – antes, depois e durante. Somente a partir deste ponto de partida concreto pode-se fazer um balanço crítico de quem Mandela realmente foi, seu papel e significado para a emancipação da África e do povo negro.

Nem terrorista, nem revolucionário (coerente), Mandela foi, antes de tudo, um ser humano, que, como tal, nem sempre fez escolhas acertadas. Creio que, enquanto pessoa, enquanto ser humano, seu caráter, a honestidade de suas motivações, a abnegação e seriedade com que levou adiante o fardo pesado da luta contra o apartheid não podem ser questionados. Se hoje o CNA é acusado de trair a causa pela qual se propôs a lutar – que não se restringia ao fim do apartheid, mas se estendia à soberania nacional e à justiça social –, isso não deve ser creditado apenas a Mandela; ou melhor: sua parte de culpa, assim penso eu, deve-se a escolhas equivocadas e não à corrupção de seu caráter.

Mandela nunca traiu a causa negra, o CNA sim. Ele não foi comprado pela elite capitalista branca dominante, nem, tenho certeza, tinha por objetivo fazer surgir uma (pequena) elite capitalista negra enquanto a grande maioria do povo negro continuasse sob o jugo, agora velado, do apartheid. Mas aliar-se a seus algozes a fim de fazer uma transição pacífica não teve por efeito apenas evitar uma guerra civil; pagou também o preço de manter intacta as relações de poder que constituíam os alicerces do apartheid. Mandela optou pela pior opção quando todas as portas para uma profunda reformulação da sociedade sul-africana estavam abertas.

Mas, para além da análise objetiva de quem foi Mandela, temos de compreender como nós o vemos e porque. Aqui entra a questão da memória coletiva e histórica, que não necessariamente se confunde com os fatos. Mandela, como toda figura histórica de grande importância, transformou-se num mito. E esse mito, o Mandela-símbolo, está em disputa. Não é a toa que aqueles que há trinta anos chamavam o líder da resistência negra sul-africana de terrorista hoje tentam, hipocritamente, depura-lo – o Mandela Nobel da paz – em uma figura inofensiva, arrependida e absolvida de seus pecados.

Contra essa imagem de um Mandela santo, que sofreu no calvário e que, como Jesus, foi capaz de perdoar seus algozes, é contra essa imagem que temos de lutar. Mandela foi antes de tudo um revolucionário. Um dos mais importantes de todo o século XX. O que deve ficar para nós não é o Mandela pacifista, aberto ao diálogo e pronto a perdoar seus algozes fascistas. Para nós, fica a lembrança do Mandela antirrascista, antiimperialista e anticapitalista. Por isso, elites ocidentais conservadoras, tirem suas mãos sujas de cima do Mandela!

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Ler um livro é como viver um romance

Ler um livro é envolver-se pessoal e emocionalmente
É uma espécie de namoro, de conúbio
Que, ipso facto, tem seus altos e baixos
Como qualquer outro relacionamento
De início, nos damos de bom grado
Com prazer, descobre-se as páginas
A leitura flui, rápida, apaixonada
O entrecho, misterioso, cativa
O leitmotiv parece especial, único
Os personagens são interessantíssimos
Depois, lá pelo meio, cansa-se
A leitura arrasta-se, quase obrigada
Não há mais tesão, apenas compromisso
Começa a se perceber problemas antes não atinados
Bem da verdade, se os cria, por implicância mesmo
Esforça-se por continuar, força-se a permanecer lendo
Para, abandona, retoma, para novamente
Como se se não pudesse deixar as coisas pela metade
Mal resolvidas, inacabadas
E, entre tapas e beijos, brigas e arroubos de paixão
Chega-se ao ponto final
Este, assim como em toda história de amor
Pode ser traumático ou sereno
E a separação pode carregar mágoa ou afeto
Mas sempre, inevitavelmente, chega-se ao fim
De modo que se está livre para ler novamente
Um outro livro, prenhe de novas aventuras

A bunda

Das redondas e empinadas
Diz-se que são calipígias
Perfeitas carnes de Vênus
Mas é as grandes e gordas
Que o vulgo mais elogia
Desde que tenham tônus
Embora as fofas e macias
Boas de esmagar com as mãos
Estejam também entre as preferidas
Sejam brancas ou negras
Melhor ainda quando morenas
As magras, de delicada silhueta
Também têm seu charme
São como maçãs ou peras
Tenras, dão água na boca
Vontade louca de morder
Ah, desejado pedaço de carne!
És a quintessência da fartura!
Ah, louvada seja a bunda!
E como abunda, como abunda!

Do futuro

A vida não deve ser somente a rudeza
Do pão suado que se tem que ganhar
A vida deve ser o livre gozo da beleza
Que dá a natureza sem nada cobrar

Tenho esperança de que num belo dia
Desses cálidos, iluminados de domingo
Quando tudo fará novo sentido na vida
Seremos capazes de compreender isso

Amaremos por que é feliz saber amar
Nada de egos e ismos tão mesquinhos
Nem da morte atemorizar-nos sozinhos

Nada de angustias fúteis a nos acossar
Nem de sentir-nos assim, só e perdidos
Amaremos apenas, porque é feliz amar