sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Fetichismo da mercadoria, revolução e socialismo

Iremos tratar de duas categorias chaves no pensamento marxista: o fetichismo, que Marx denomina como “fetichismo da mercadoria”, e o processo da revolução social ao socialismo. Iniciemos com o fetichismo.



Para Marx, o fetichismo da mercadoria é um tipo particular de ideologia; portanto, se queremos entender esse conceito, temos que ter claro o significado de ideologia em Marx. Então, o que é ideologia? É apenas falsa consciência? Não apenas: ideologias são formas de consciência invertida que os homens produzem a respeito de si próprios. Nesse caso, há um descompasso entre a existência material dos homens e a idéia que fazem dessa existência. Lembram do prédio esquisito que representa a sociedade em Marx? Lembram que as idéias, as leis, o Estado, que se situam na parte de cima, cumprem a função de legitimar a parte de baixo do prédio, isto é, a parte social onde se dá a produção? A esfera da produção, onde os homens se relacionam em classes, é contraditória (no capitalismo: contradição entre capital e trabalho), sendo que a ideologia cumpre a função de ocultar e, no limite, legitimar tais contradições. É assim que podemos conceitualizar a ideologia de forma geral.


Antes de tratar do fetichismo da mercadoria enquanto uma ideologia específica do capitalismo, farei um parêntese para contextualizar o campo filosófico inaugurado por Marx, no qual ele se move e orienta sua ciência. Alguém aí já ouviu falar na dialética? Marx era um dialético. Isso significa, entre outras coisas, que a epistemologia marxiana divide a realidade em dois âmbitos distintos, porém relacionados: a esfera da aparência (ou do fenômeno) e a da essência. Aos nossos olhos a realidade não se apresenta como efetivamente é, mas de forma aparente, de modo ideológico (invertida e ocultada). É em razão dessa aparência que criamos falsas consciências acerca da essência da realidade. Mas qual é a essência da sociedade? É a esfera da produção, onde o capital e o trabalho se juntam para produzir os bens necessários à vida. Contudo, essa “união” é contraditória: o capitalista e o trabalhador assalariado não têm os mesmo interesses. O trabalhador, especialmente, não é livre nem igual em relação ao capitalista. Mesmo assim, pela lei, ambos são igualmente livres e iguais. É nessa contradição dialética que podemos apreciar a diferença entre essência e aparência: a essência está na produção social, onde o trabalhador não é livre nem igual, e a aparência é o mercado e o Estado, onde, ao contrário, ele aparentemente é. Mas como existe uma ideologia que encobre a essência, acreditamos que os homens sejam livres e iguais por natureza, mesma naquela relação contraditória entre capital e trabalho. Percebem como a ideologia atua para legitimar essa visão de mundo burguesa?



Com base nesses pressupostos podemos passar ao exame do fetichismo da mercadoria. Mas o que é exatamente a mercadoria? Em primeiro lugar, a mercadoria é a forma que os produtos de uma sociedade assumem quando são organizados por meio da troca. Isso pressupõe a existência de produtores privados que vão ao mercado para trocar seus produtos por outros dos quais necessitem. Portanto, a mercadoria só existe numa organização social cuja divisão do trabalho seja altamente desenvolvida. Os produtores trocam suas mercadorias porque precisam delas para sanar suas necessidades. Certo. Mas como se trocam? Se cada mercadoria possui uma qualidade própria, distinta de todas as outras, como determinar o valor delas entre si? Marx diferencia na mercadoria um duplo caráter: por um lado, ela é um valor-de-uso, ou seja, ela possui a qualidade de satisfazer alguma necessidade humana (por. ex: a água que mata a sede, o arroz que satisfaz a fome, a roupa que protege do frio, etc.); por outro lado, uma vez que os homens precisam trocá-las entre si, elas são também um valor-de-troca. O valor-de-troca não possui nenhuma qualidade, serve para medir quantitativamente as mercadorias (por. ex: 1 kg de arroz vale o mesmo que 5 litros de leite). Mas com base em que se determinam seus valores? Se é o trabalho que produz as mercadorias, seus valores irão ser determinados pela quantidade de trabalho gasto na sua produção. Para tanto, todos os trabalhos particulares têm de ser reduzidos a um só tipo de trabalho, um trabalho abstrato, que represente apenas o tempo que esse trabalho leva para produzir uma mercadoria.

A mercadoria, portanto, é um produto do trabalho humano que satisfaz necessidades e que, sendo produzidas por indivíduos privados, tem de ser trocada no mercado para que todos possam usufruí-las. A contradição dessa forma mercadoria de produzir reside no fato de que, enquanto produto privado, ela tem que se tornar produto social através do mercado e, enquanto produto social, ela é produzida por trabalhos privados. É essa contradição que Marx chamou de fetichismo. Os homens se tornam eles próprios mercadorias. Só participam da sociedade por meio delas, por meio da sua posse. E é a posse ou não-posse de mercadorias que determina seu papel na sociedade. A vontade do homem passa a ser a vontade da mercadoria. E qual é a vontade da mercadoria no capitalismo? Ela é fabricada para satisfazer necessidades humanas ou para acumular lucros ao seu proprietário? Satisfazer necessidades é apenas uma condição sem a qual ela não seria trocada (quem compraria algo que não lhe é útil?), mas o lucro é seu objetivo final. Assim, a necessidade humana de se alimentar, por exemplo, produzindo arroz está subordinada à lógica do capital, ou seja, se produzir arroz não dá lucro àquele que produz, então ele mudará de ramo econômico, algum outro qualquer que dê lucro como a cana-de-açúcar, não importando se as pessoas não terão o que comer sem o arroz. Vocês conseguem perceber como as mercadorias parecem ter poder sobre os homens, parecem ser uma realidade própria e independente que se impõem sobre as vontades humanas? As relações econômicas surgem assim como uma relação entre coisas e não entre homens. Aqui entra novamente a aparência e a essência. Aparentemente as relações de troca se dão entre os produtos do trabalho, entre coisas materiais, e não entre os homens. Aparentemente isso se deve ao fato de que as mercadorias possuem essas características próprias, naturais e não que nós (homens) as fizemos assim. Esse o fetichismo da mercadoria: as relações entre os homens aparecem como uma relação entre coisas, entre mercadorias, relações essas que os homens não conseguem controlar.

O fetichismo só se sustenta pela forma como o trabalho está organizado na sociedade capitalista, isto é, pela alta divisão do trabalho entre produtores independentes e pelo trabalho assalariado. É essa lógica que a revolução socialista pretende destruir e superar. Marx compreende que as transformações históricas se dão por meio de rupturas, ou, se preferir, por meio de revoluções. Foi assim na passagem do feudalismo para o capitalismo e, provavelmente, será assim também na passagem para o socialismo. Cada uma dessas fases históricas diz respeito a um modo de produção específico, portanto, o objetivo de uma revolução social que abale os fundamentos do modo de produção capitalista (trabalho assalariado, de um lado, e propriedade privada dos meios de produção, de outro) é substituí-lo por outro modo de produção.

Já sabemos que nas sociedades de classes existe uma contradição incurável entre elas. Ao se estruturam em classes para produzir seus bens materiais, os homens se relacionam contraditória e antagonicamente. Contraditoriamente porque a burguesia não pode nunca se desfazer do proletariado, embora gostaria. Antagonicamente porque os interesses de um e de outro são irreconciliáveis. Essa contradição insanável só pode ser desfeita pela superação das duas classes em prol de uma sociedade sem classes. Mas a burguesia poderia realizar essa superação? Evidente que não. Em razão do seu papel como quase dominante, ela sempre será conservadora no que diz respeito à sua dominação. Cabe ao proletariado ser o sujeito histórico que assume o processo de mudança, porque o proletariado não tem nada a perder senão a sua própria condição de explorado. Para Marx, o socialismo seria o produto do desenvolvimento histórico do capitalismo. Ao potencializar as forças produtivas da sociedade a um ponto jamais visto, as contradições inerentes às relações sociais de produção se tornariam um entrave ao desenvolvimento ainda maior dessas forças. As relações capitalistas cederiam lugar a outras de tipo socialista em face do agravamento das lutas entre as classes fundamentais do sistema. Nesse processo, o proletariado deveria tomar consciência do seu papel histórico como classe, tornando-se de classe em-si para classe para-si, isto é, voltada para realização do seu projeto de sociedade. Essencialmente, a revolução e o socialismo, para Marx, são a superação do modo de produção e da sociabilidade capitalista em favor de uma nova forma de relação com o trabalho e entre os homens, sem classes e sem Estado, sem exploração do trabalho e sem alienação da consciência, seria, enfim, o fim do que Marx chamou de “pré-história” da humanidade e o começa da sua verdadeira história.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Histórias de um futuro próximo

Lembro-me bem quando, ainda criança, ouvia e via pela televisão apelos para que puséssemos fim ao aquecimento global. Faziam conjecturas sombrias sobre um futuro particularmente sem saídas, beco no qual a humanidade estaria condenada. Mas eram somente conjecturas, diziam, isto é, baseados no modo que produzimos e vivemos, ou mudamos radicalmente nossa relação com o mundo, ou perecer-nos-emos. Parece que falhamos fragorosamente.


Suas antevisões de certa maneira se concretizaram. Estamos hoje reduzidos a cacos do que fomos um dia, vivendo dos restos materiais de uma sociedade outrora vencedora. Espalhados, esgueirando como ratos, os homens perderam sua posição privilegiada no planeta. Como afinal essa catástrofe foi acontecer?


Contudo, aquelas vaticinações terríveis do passado viam na causa um mero efeito, e culparam sujeitos inocentes pelo apocalipse. Cobravam atitudes corriqueiras e triviais de homens igualmente banais, o que, segundo diziam, seria suficiente para evitar o pior. “Faça sua parte”, era a frase de ordem mais utilizada. Mas o que poderiam fazer aqueles homens, pobres coitados que mal tinham o mínimo de condições materiais para se sustentarem decentemente, diante da iminência do problema? Absolutamente nada. Metade dos seres humanos daquela época vivia com menos de dois dólares por dia. Vocês crianças certamente não sabem o quão pouco isso significava, porém, acreditem em mim, era pouco, bem pouco. O que deveriam fazer, parar de respirar e morrer?


Enquanto isso, homens privilegiados e reduzidos numericamente, cujos bens utilizavam para explorar aqueles, gastavam os recursos do mundo insaciavelmente. Seus carros, enormes e elegantes, com motores turbo lançavam ao ar mais CO2 por dia do que qualquer operário produziria em toda sua vida. Suas fábricas, ligadas vinte e quatro horas, fabricavam milhões e milhões de mercadorias descartáveis a cada minuto, consumindo matéria natural, cada vez mais e mais, mercadorias que não satisfaziam aos interesses humanos, mas sim à necessidade insidiosa de um ser chamado de capital, o qual acumulava e acumulava, até implodir, como vocês bem sabem. Queimaram as florestas tropicais, caçaram as baleias até a extinção, poluíram rios e mares com lixo não-biodegradável, plantaram bilhões de hectares com culturas nocivas ao equilíbrio ambiental, fizeram isso e aquilo, “pintaram e bordaram”, como dizia minha finada avó. Vocês vêem o resultado. Podem apreciar o que lhes deixaram de herança?


De qualquer maneira crianças, a história de hoje teve apenas uma intenção: fazer justiça aos seus pais, trabalhadores insuspeitos que foram devorados por uma lógica estranha ao ser humano, uma lógica que criaram, embora jamais imaginassem a onde levariam seus descaminhos.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Novas gerações e velhas desilusões

Aos nossos pais e avós é relativamente fácil – e temerário – pôr o dedo em riste e acusar-nos de indolência, ociosidade e apatia. Imputam-nos a culpa de uma situação que não criamos, mas, ao contrário, que nos foi legada. Para eles, nascidos quando acreditava-se ser possível harmonizar a relação capital/trabalho, destruir os antagonismos e criar a cooperação entre os homens, a despeito de suas diferenças de classe, a crença no trabalho duro, na firmeza de caráter, na observâncias dos costumes morais eram suficientes para resgatar o mundo da iniquidade, embora nada disso tenha sido realizado efetivamente. Simples questão de tempo, simples continuidade de um trabalho já iniciado por eles, mas que a nova geração defraudara suas expectativas. “Trabalhamos duro e facilitamos demais para eles”, é o que dizem. “Estragamo-los”.


Nascemos num mundo cujas mais diminutas brechas foram ocupadas pelo Capital, sufocando a nova geração. Obviamente não somos o futuro de nada; somos a face mais esgarçada da angústia e da desesperança que nos espera logo ali, na esquina da história. E, de fato, para aqueles que nasceram e cresceram durante os “trinta anos gloriosos” do capitalismo é razoável crer positivamente na honestidade dessa sociedade – a meu ver, inerentemente desumanizante e corrupta. Mas não para nós. Após duas ou, no máximo, três décadas de devorismo irracional, por parte da máquina, da carne e da mente humana, de deglutição ávida por matéria natural, cujo produto cagado não se converte em benesses a todos, senão a poucos, ser-nos-ia impossível acreditar nessa lógica abominável. E culpam-nos justamente?


Não, estamos cansados de ser acusados. Vocês tiveram sua chance, mas a desperdiçaram com engodos infantis dos patrões. Em troca de uma máquina-de-lavar, uma televisão e cerveja barata esposaram as exigências do Capital, o qual ofereceu-lhes mundos e fundos de deleite e desfrute. Não tiveram, foram enganados. Não percebem? O mundo em que acreditavam rui, como um muro. Somos o produto hipócrita dessa realidade que nos devora as beiradas da razão dia após dia. Se somos podres – e, certamente, somos mesmo: hedonistas, mesquinhos, apequenados moral e intelectualmente –, somos em grande medida por culpa de vocês, cuja herança não foi mais do que valores e objetivos vis, desumanizantes. Temos parcela de culpa? Pois evidentemente. Todos têm. Eu, enquanto indivíduo singular, enquanto João Gabriel Vieira Bordin, não me esforço muito para tentar reverter tal quadro. Apenas procuro compreender avidamente a realidade que me cerca. E quanto mais conheço, mais me desencanto. Eu digo, com certo pudor, é verdade, confessadamente que sou um pessimista. Sou parte intrínseca do problema, e, por enquanto, continuarei alimentando sua insolubilidade.


P.S: o devir deve ser construído pelas novas gerações, não esqueçam...