domingo, 27 de dezembro de 2009

Dias mortos

Naquele dia ele acordou meio confuso, incapaz de distinguir a data que nascia pela manhã. Foi direto a cozinha e tomou um copo d’água gelado. Olhou ao seu redor e, sem grande surpresa, constatou que este era um dia como qualquer outro. Os pássaros cantarolavam cantigas urbanas esgarçadas, o sol tocava morno o solo ainda úmido pela madrugada, seus cachorros atracavam-se como de costume.


Ainda sonolento, encheu a leiteira com água e a pôs sobre o fogo para fazer café. “Mas que diabos”, pensava, “alguma coisa está errada!”. Mas não havia absolutamente nada de errado, tudo estava impecavelmente organizado e limpo. “Exatamente!”, deduziu, “eis o quê está errado”. Pois estaria certo em seu pensamento? Talvez sim posto que ele não fosse um homem lá muito organizado e limpo. Na verdade, sua casa vivia eternamente numa arrematada imundice. De fato, a casa, o quintal, os cachorros, até as nuvens estavam demasiadamente limpas. “Ora, que coisa mais estranha...”.


A água já efervescia na panela. Coou o café, bem forte como de costume, pegou uma xícara bem grande (também como de costume) e saiu para o quintal. Aquela sensação de estranheza acompanhava-o. Exceto a lerdeza dos movimentos, como em câmera lenta, tudo estava absolutamente perfeito. A luz, a harmonia do som ambiente. Por um momento passou-lhe pela cabeça que estivesse morto.


Resolveu esquecer isso e pôs-se a trabalhar. Pôs feijão na panela enquanto dava banho nos cachorros; varreu as folhas secas que caíam do frondoso flamboyant que majestosamente irrompia do solo; almoçou; lavou roupa; tomou banho; fez de um tudo. Mas aquela sensação insistia em lhe perseguir os pensamentos.


“O quê será que está faltando?” E, num assomo, deu-se conta de que faltavam pessoas, vozes, olhares. Não escutava absolutamente nada afora o som ambiente do vento e dos pássaros. As crianças não corriam espevitadas pela rua, os carros não passavam apressados com seus motores, o telefone histérico não tocava.


“Por que isso?”, indagava-se confuso o homem. Algo muito fora do comum acontecera. Ele não conseguia lembrar-se de nada que concerne aos homens em sociedade. Não lembrava de trabalho algum que já tivera feito ou que deveria fazer. Tampouco lembrava de seus parentes e amigos, nem nomes nem rostos. Não lembrava do amor.


“A quanto tempo estivera assim, completamente inerte?”. Não sabia dizer. Tudo parecia infinito, eterno, perene e imutável. “Havia parado no tempo?”, “estava numa outra dimensão?”.


Quanto mais se perguntava mais não encontrava respostas. Desistiu de procurar saber. Continuou suas tarefas acriticamente. Extenuado ao fim do dia, com aquela mesma sensação a lhe fustigar a mente, esticou as pernas por sobre a cama. Aquele mesmo som ambiente só foi substituído por uma roupagem noturna. Ainda sem vozes, sem rostos dos quais pudesse se lembrar. Foi deitar-se inquieto com os cachorros aos seus pés. Enfim, num suspiro de desalento, dormiu triste. No outro dia o relógio voltaria a lhe despertar no mesmo horário, sem rostos, sem vozes, sem sorrisos.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

A tristeza

A tristeza é como uma pedra enorme colocada sobre as costas. Arcado para frente, passos curtos e indecisos, cabeça baixa a olhar fixamente para os pés. Uma penumbra cai como um véu soturno e acoberta a vista. Tudo fica lerdo e morto. Os sons se harmonizam em tons e escalas menores, melódicos e deprimentes. Aquilo que antes tinha graça torna-se ou sem graça ou angustiante. Face inexpressiva, abjurada da alegria. Não fazemos mais do que o necessário nessas condições; simplesmente agimos como se tudo fosse acabar no instante seguinte, então de que adiantaria fazer algo importante? É como um “foda-se” geral, eterno e definitivo.


Sempre lidei de forma singular com a tristeza, e, talvez por isso, nada disso do que escrevo seja merecedor de crédito, deva ser levado a sério. Sofro, por assim dizer, de uma tristeza relâmpago, repentina. Do estado normal do humor, para uma tristeza profunda num piscar de olhos, e desta para aquele no momento seguinte. Simples assim, sem explicação alguma. Nenhum fato em absoluto que poderia nomear como causa. Talvez alguma disfunção hormonal (estará cientificamente correta esta hipótese?), do tipo serotonina, adenosina, cocaína, qualquer composto psicoativo terminado pelo sufixo “Ina”? Não importa, de qualquer maneira, recusaria qualquer remédio receitado mesmo. O fato é que já foi pior. Do que fora antes, hoje minhas tristezas relâmpagos não passam de um tímido clarão em céu aberto. Terá meu cérebro começado a produzir mais “inas”? Tampouco importa. Acho que, decerto, desenvolvi métodos, aprendi a conviver com elas e, assim, já não sinto mais tanto os seus efeitos.


Mas a tristeza convive bem com a solidão. Ancoradas em meu coração, ambas cavaram profunda trincheira nesse espaço vazio. A solidão a gente enterra. Engolimos a tristeza num só trago, levantamos a cabeça rindo de modo desconfiado e seguimos em frente. Mas elas teimam em nascer de novo, como ervas daninhas inexoráveis. A tristeza e a solidão terminam por florescer e crescem abundantemente, fazendo selva meu coração.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

A ciência e a torre de marfim

Por décadas, acusaram o marxismo de um utopismo irremediável, de perceber na história um movimento contraditório que poria fim à sociabilidade capitalista, percepção esta, para esses críticos, completamente infundada, dignitário mais de fé do que de ciência. Outros, menos radicais, argumentaram que o compromisso marxista com a superação e transformação social em favor de uma sociedade sem classes, noutras palavras, sem exploração do homem pelo homem, era algo louvável, embora irrealizável, de modo que a plena emancipação humana deveria ser substituída capengamente por uma reforma nas iniquidades do capital. Se, em resumo, nos acusam de utópicos e não de cientistas, acusamos a direita e o centro do espectro intelectual de conformismo – quando não de partidários de classe, cujos interesses escusos conformam seu ponto de vista. E, afinal, quando a ciência deixou de parte seu compromisso com a crítica e a transformação revolucionária da realidade? Quando “utopismo”, nos termos deles, passou a ser uma qualidade pejorativa? E, por acaso, não deveria ser a ciência um fator importante no progresso do desenvolvimento humano? Senão, qual seria sua utilidade?


De fato, cooptada pelo capital, a ciência é hoje instrumento de engessamento da realidade. Proclama-se “cientificamente” o “fim da história”. É tristemente engraçado como até mesmo os cientistas sociais que se dizem de “esquerda”, que se dizem desejosos por uma nova ordem social, afirmam que o marxismo escorregou na perspectiva da revolução, que foi no momento em que Marx previu a transformação revolucionária do social – que, diga-se de passagem, ele não chegou a aprofundar analítica e teoricamente porque sabia caber ao movimento histórico real nos mostrar o caminho, limitando-se a advogar a necessidade e a possibilidade de pormos fim à sociedade de classes, o que ele chamou genericamente de socialismo – que ele minou suas formulações científicas a respeito do capitalismo. A descrença em Marx, dizem, é devida ao seu utopismo. Partidários de uma pseudo neutralidade, afirmam ser incompatível ciência com política, noutras palavras, mesmo que não percebam, acabam afirmando que a ciência não se presta a crítica social, que fazer ciência não é fazer política, e que quem faz ciência militante e compromissada não é digno de crédito.


É revoltante como as ciências sociais se deixaram enlevar por esse discurso burguês. O argumento que empunham como um estandarte de guerra, com o qual pretendem invalidar a perspectiva da revolução no marxismo – perspectiva, de fato, científica – é tão lasso quanto os gritos ideológicos desesperados da burguesia, esgotada em face da história. Embora lasso, é contraditório como esse argumento infantil ainda consegue fincar fundo seu pé na terra. Precisamente o oposto do que dizem: a ciência é crítica e militante por natureza, deve fazer cumprir seu papel ativo na transformação do real e não se trancafiar na última torre do seu castelo de marfim enquanto os homens devoram-se uns aos outros à sua porta.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Fetichismo da mercadoria, revolução e socialismo

Iremos tratar de duas categorias chaves no pensamento marxista: o fetichismo, que Marx denomina como “fetichismo da mercadoria”, e o processo da revolução social ao socialismo. Iniciemos com o fetichismo.



Para Marx, o fetichismo da mercadoria é um tipo particular de ideologia; portanto, se queremos entender esse conceito, temos que ter claro o significado de ideologia em Marx. Então, o que é ideologia? É apenas falsa consciência? Não apenas: ideologias são formas de consciência invertida que os homens produzem a respeito de si próprios. Nesse caso, há um descompasso entre a existência material dos homens e a idéia que fazem dessa existência. Lembram do prédio esquisito que representa a sociedade em Marx? Lembram que as idéias, as leis, o Estado, que se situam na parte de cima, cumprem a função de legitimar a parte de baixo do prédio, isto é, a parte social onde se dá a produção? A esfera da produção, onde os homens se relacionam em classes, é contraditória (no capitalismo: contradição entre capital e trabalho), sendo que a ideologia cumpre a função de ocultar e, no limite, legitimar tais contradições. É assim que podemos conceitualizar a ideologia de forma geral.


Antes de tratar do fetichismo da mercadoria enquanto uma ideologia específica do capitalismo, farei um parêntese para contextualizar o campo filosófico inaugurado por Marx, no qual ele se move e orienta sua ciência. Alguém aí já ouviu falar na dialética? Marx era um dialético. Isso significa, entre outras coisas, que a epistemologia marxiana divide a realidade em dois âmbitos distintos, porém relacionados: a esfera da aparência (ou do fenômeno) e a da essência. Aos nossos olhos a realidade não se apresenta como efetivamente é, mas de forma aparente, de modo ideológico (invertida e ocultada). É em razão dessa aparência que criamos falsas consciências acerca da essência da realidade. Mas qual é a essência da sociedade? É a esfera da produção, onde o capital e o trabalho se juntam para produzir os bens necessários à vida. Contudo, essa “união” é contraditória: o capitalista e o trabalhador assalariado não têm os mesmo interesses. O trabalhador, especialmente, não é livre nem igual em relação ao capitalista. Mesmo assim, pela lei, ambos são igualmente livres e iguais. É nessa contradição dialética que podemos apreciar a diferença entre essência e aparência: a essência está na produção social, onde o trabalhador não é livre nem igual, e a aparência é o mercado e o Estado, onde, ao contrário, ele aparentemente é. Mas como existe uma ideologia que encobre a essência, acreditamos que os homens sejam livres e iguais por natureza, mesma naquela relação contraditória entre capital e trabalho. Percebem como a ideologia atua para legitimar essa visão de mundo burguesa?



Com base nesses pressupostos podemos passar ao exame do fetichismo da mercadoria. Mas o que é exatamente a mercadoria? Em primeiro lugar, a mercadoria é a forma que os produtos de uma sociedade assumem quando são organizados por meio da troca. Isso pressupõe a existência de produtores privados que vão ao mercado para trocar seus produtos por outros dos quais necessitem. Portanto, a mercadoria só existe numa organização social cuja divisão do trabalho seja altamente desenvolvida. Os produtores trocam suas mercadorias porque precisam delas para sanar suas necessidades. Certo. Mas como se trocam? Se cada mercadoria possui uma qualidade própria, distinta de todas as outras, como determinar o valor delas entre si? Marx diferencia na mercadoria um duplo caráter: por um lado, ela é um valor-de-uso, ou seja, ela possui a qualidade de satisfazer alguma necessidade humana (por. ex: a água que mata a sede, o arroz que satisfaz a fome, a roupa que protege do frio, etc.); por outro lado, uma vez que os homens precisam trocá-las entre si, elas são também um valor-de-troca. O valor-de-troca não possui nenhuma qualidade, serve para medir quantitativamente as mercadorias (por. ex: 1 kg de arroz vale o mesmo que 5 litros de leite). Mas com base em que se determinam seus valores? Se é o trabalho que produz as mercadorias, seus valores irão ser determinados pela quantidade de trabalho gasto na sua produção. Para tanto, todos os trabalhos particulares têm de ser reduzidos a um só tipo de trabalho, um trabalho abstrato, que represente apenas o tempo que esse trabalho leva para produzir uma mercadoria.

A mercadoria, portanto, é um produto do trabalho humano que satisfaz necessidades e que, sendo produzidas por indivíduos privados, tem de ser trocada no mercado para que todos possam usufruí-las. A contradição dessa forma mercadoria de produzir reside no fato de que, enquanto produto privado, ela tem que se tornar produto social através do mercado e, enquanto produto social, ela é produzida por trabalhos privados. É essa contradição que Marx chamou de fetichismo. Os homens se tornam eles próprios mercadorias. Só participam da sociedade por meio delas, por meio da sua posse. E é a posse ou não-posse de mercadorias que determina seu papel na sociedade. A vontade do homem passa a ser a vontade da mercadoria. E qual é a vontade da mercadoria no capitalismo? Ela é fabricada para satisfazer necessidades humanas ou para acumular lucros ao seu proprietário? Satisfazer necessidades é apenas uma condição sem a qual ela não seria trocada (quem compraria algo que não lhe é útil?), mas o lucro é seu objetivo final. Assim, a necessidade humana de se alimentar, por exemplo, produzindo arroz está subordinada à lógica do capital, ou seja, se produzir arroz não dá lucro àquele que produz, então ele mudará de ramo econômico, algum outro qualquer que dê lucro como a cana-de-açúcar, não importando se as pessoas não terão o que comer sem o arroz. Vocês conseguem perceber como as mercadorias parecem ter poder sobre os homens, parecem ser uma realidade própria e independente que se impõem sobre as vontades humanas? As relações econômicas surgem assim como uma relação entre coisas e não entre homens. Aqui entra novamente a aparência e a essência. Aparentemente as relações de troca se dão entre os produtos do trabalho, entre coisas materiais, e não entre os homens. Aparentemente isso se deve ao fato de que as mercadorias possuem essas características próprias, naturais e não que nós (homens) as fizemos assim. Esse o fetichismo da mercadoria: as relações entre os homens aparecem como uma relação entre coisas, entre mercadorias, relações essas que os homens não conseguem controlar.

O fetichismo só se sustenta pela forma como o trabalho está organizado na sociedade capitalista, isto é, pela alta divisão do trabalho entre produtores independentes e pelo trabalho assalariado. É essa lógica que a revolução socialista pretende destruir e superar. Marx compreende que as transformações históricas se dão por meio de rupturas, ou, se preferir, por meio de revoluções. Foi assim na passagem do feudalismo para o capitalismo e, provavelmente, será assim também na passagem para o socialismo. Cada uma dessas fases históricas diz respeito a um modo de produção específico, portanto, o objetivo de uma revolução social que abale os fundamentos do modo de produção capitalista (trabalho assalariado, de um lado, e propriedade privada dos meios de produção, de outro) é substituí-lo por outro modo de produção.

Já sabemos que nas sociedades de classes existe uma contradição incurável entre elas. Ao se estruturam em classes para produzir seus bens materiais, os homens se relacionam contraditória e antagonicamente. Contraditoriamente porque a burguesia não pode nunca se desfazer do proletariado, embora gostaria. Antagonicamente porque os interesses de um e de outro são irreconciliáveis. Essa contradição insanável só pode ser desfeita pela superação das duas classes em prol de uma sociedade sem classes. Mas a burguesia poderia realizar essa superação? Evidente que não. Em razão do seu papel como quase dominante, ela sempre será conservadora no que diz respeito à sua dominação. Cabe ao proletariado ser o sujeito histórico que assume o processo de mudança, porque o proletariado não tem nada a perder senão a sua própria condição de explorado. Para Marx, o socialismo seria o produto do desenvolvimento histórico do capitalismo. Ao potencializar as forças produtivas da sociedade a um ponto jamais visto, as contradições inerentes às relações sociais de produção se tornariam um entrave ao desenvolvimento ainda maior dessas forças. As relações capitalistas cederiam lugar a outras de tipo socialista em face do agravamento das lutas entre as classes fundamentais do sistema. Nesse processo, o proletariado deveria tomar consciência do seu papel histórico como classe, tornando-se de classe em-si para classe para-si, isto é, voltada para realização do seu projeto de sociedade. Essencialmente, a revolução e o socialismo, para Marx, são a superação do modo de produção e da sociabilidade capitalista em favor de uma nova forma de relação com o trabalho e entre os homens, sem classes e sem Estado, sem exploração do trabalho e sem alienação da consciência, seria, enfim, o fim do que Marx chamou de “pré-história” da humanidade e o começa da sua verdadeira história.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Histórias de um futuro próximo

Lembro-me bem quando, ainda criança, ouvia e via pela televisão apelos para que puséssemos fim ao aquecimento global. Faziam conjecturas sombrias sobre um futuro particularmente sem saídas, beco no qual a humanidade estaria condenada. Mas eram somente conjecturas, diziam, isto é, baseados no modo que produzimos e vivemos, ou mudamos radicalmente nossa relação com o mundo, ou perecer-nos-emos. Parece que falhamos fragorosamente.


Suas antevisões de certa maneira se concretizaram. Estamos hoje reduzidos a cacos do que fomos um dia, vivendo dos restos materiais de uma sociedade outrora vencedora. Espalhados, esgueirando como ratos, os homens perderam sua posição privilegiada no planeta. Como afinal essa catástrofe foi acontecer?


Contudo, aquelas vaticinações terríveis do passado viam na causa um mero efeito, e culparam sujeitos inocentes pelo apocalipse. Cobravam atitudes corriqueiras e triviais de homens igualmente banais, o que, segundo diziam, seria suficiente para evitar o pior. “Faça sua parte”, era a frase de ordem mais utilizada. Mas o que poderiam fazer aqueles homens, pobres coitados que mal tinham o mínimo de condições materiais para se sustentarem decentemente, diante da iminência do problema? Absolutamente nada. Metade dos seres humanos daquela época vivia com menos de dois dólares por dia. Vocês crianças certamente não sabem o quão pouco isso significava, porém, acreditem em mim, era pouco, bem pouco. O que deveriam fazer, parar de respirar e morrer?


Enquanto isso, homens privilegiados e reduzidos numericamente, cujos bens utilizavam para explorar aqueles, gastavam os recursos do mundo insaciavelmente. Seus carros, enormes e elegantes, com motores turbo lançavam ao ar mais CO2 por dia do que qualquer operário produziria em toda sua vida. Suas fábricas, ligadas vinte e quatro horas, fabricavam milhões e milhões de mercadorias descartáveis a cada minuto, consumindo matéria natural, cada vez mais e mais, mercadorias que não satisfaziam aos interesses humanos, mas sim à necessidade insidiosa de um ser chamado de capital, o qual acumulava e acumulava, até implodir, como vocês bem sabem. Queimaram as florestas tropicais, caçaram as baleias até a extinção, poluíram rios e mares com lixo não-biodegradável, plantaram bilhões de hectares com culturas nocivas ao equilíbrio ambiental, fizeram isso e aquilo, “pintaram e bordaram”, como dizia minha finada avó. Vocês vêem o resultado. Podem apreciar o que lhes deixaram de herança?


De qualquer maneira crianças, a história de hoje teve apenas uma intenção: fazer justiça aos seus pais, trabalhadores insuspeitos que foram devorados por uma lógica estranha ao ser humano, uma lógica que criaram, embora jamais imaginassem a onde levariam seus descaminhos.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Novas gerações e velhas desilusões

Aos nossos pais e avós é relativamente fácil – e temerário – pôr o dedo em riste e acusar-nos de indolência, ociosidade e apatia. Imputam-nos a culpa de uma situação que não criamos, mas, ao contrário, que nos foi legada. Para eles, nascidos quando acreditava-se ser possível harmonizar a relação capital/trabalho, destruir os antagonismos e criar a cooperação entre os homens, a despeito de suas diferenças de classe, a crença no trabalho duro, na firmeza de caráter, na observâncias dos costumes morais eram suficientes para resgatar o mundo da iniquidade, embora nada disso tenha sido realizado efetivamente. Simples questão de tempo, simples continuidade de um trabalho já iniciado por eles, mas que a nova geração defraudara suas expectativas. “Trabalhamos duro e facilitamos demais para eles”, é o que dizem. “Estragamo-los”.


Nascemos num mundo cujas mais diminutas brechas foram ocupadas pelo Capital, sufocando a nova geração. Obviamente não somos o futuro de nada; somos a face mais esgarçada da angústia e da desesperança que nos espera logo ali, na esquina da história. E, de fato, para aqueles que nasceram e cresceram durante os “trinta anos gloriosos” do capitalismo é razoável crer positivamente na honestidade dessa sociedade – a meu ver, inerentemente desumanizante e corrupta. Mas não para nós. Após duas ou, no máximo, três décadas de devorismo irracional, por parte da máquina, da carne e da mente humana, de deglutição ávida por matéria natural, cujo produto cagado não se converte em benesses a todos, senão a poucos, ser-nos-ia impossível acreditar nessa lógica abominável. E culpam-nos justamente?


Não, estamos cansados de ser acusados. Vocês tiveram sua chance, mas a desperdiçaram com engodos infantis dos patrões. Em troca de uma máquina-de-lavar, uma televisão e cerveja barata esposaram as exigências do Capital, o qual ofereceu-lhes mundos e fundos de deleite e desfrute. Não tiveram, foram enganados. Não percebem? O mundo em que acreditavam rui, como um muro. Somos o produto hipócrita dessa realidade que nos devora as beiradas da razão dia após dia. Se somos podres – e, certamente, somos mesmo: hedonistas, mesquinhos, apequenados moral e intelectualmente –, somos em grande medida por culpa de vocês, cuja herança não foi mais do que valores e objetivos vis, desumanizantes. Temos parcela de culpa? Pois evidentemente. Todos têm. Eu, enquanto indivíduo singular, enquanto João Gabriel Vieira Bordin, não me esforço muito para tentar reverter tal quadro. Apenas procuro compreender avidamente a realidade que me cerca. E quanto mais conheço, mais me desencanto. Eu digo, com certo pudor, é verdade, confessadamente que sou um pessimista. Sou parte intrínseca do problema, e, por enquanto, continuarei alimentando sua insolubilidade.


P.S: o devir deve ser construído pelas novas gerações, não esqueçam...

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Revolução política ou emancipação social?

A emancipação política, resultante da revolução burguesa, cujo marco pode ser retraçado historicamente até a Revolução Francesa, é indubitavelmente um avanço substancial ao longo do desenvolvimento sócio-histórico da humanidade. Marx não o nega. Entretanto, pela sua própria natureza, pela sua essência classista, por se tratar de um processo que não supera, mas, ao contrário, traz também em seu bojo uma sociedade de classes, ainda que revolucionária na medida em que enterra de vez as atrasadas relações sociais do Antigo Regime feudal, a emancipação política é intrinsecamente limitada. No limite, o reconhecimento de que todos os homens nascem iguais em direito não se dá senão e tão-somente na esfera superestrutural jurídico-política da nascente sociedade burguesa, condição sine que non para o ser social capitalista se reproduzir. Trata-se de uma emancipação puramente formal dos homens, reiteradamente estruturados em classes, não se tratando, portanto, de modo algum de uma verdadeira e efetiva emancipação humana, assim como entendida por Marx e, de modo geral, pelos materialistas histórico-dialéticos.


Hegel incide precisamente nesse erro, ao considerar o Estado moderno como o princípio ordenador da sociedade civil, inerentemente anárquica, sobre a qual atua conferindo-lhe uma racionalidade externa. Espírito e sociedade seriam pólos contraditórios de uma mesma realidade, a tese e a antítese que encontrariam no Estado sua síntese mais acabada, a objetivação da razão no mundo. Inverter a equação é basicamente a crítica que fará Marx à Hegel, afirmando que não é o Estado que determina a sociedade civil, senão o contrário, a sociedade civil, cuja existência é reflexo dos homens que agem organicamente sobre a natureza para produzir e reproduzir suas condições materiais de existência e, ao assim procederem, estruturam-se em classes, o liame concreto sobre o qual “se levanta uma superestrutura jurídica e política, e à qual correspondem formas sociais determinadas de consciência.” (Marx, 1999, p.52). Evidente que essa superestrutura é o Estado, com tudo que, para Marx, isso significa, e as formas determinadas de consciência que passam pelo individualismo burguês e vão até a concepção dos direitos universais de liberdade e igualdade – dentro dos seus manifestos limites de classe, bem entendido.


Por partirem de concepções ontológicas diametralmente opostas, a filosofia burguesa e a filosofia marxista são irremediavelmente inimigas. Ao conceber o ser social como portador de determinações apriorísticas, inerentes à natureza do homem, em especial o individualismo, a “ascese burguesa”, a economia política clássica advoga que a melhor sociedade a qual essa natureza humana poderia se conformar é a sociedade capitalista. Excluí-se, assim, tudo para além do Capital, fazendo desse momento histórico específico o último, o fim da História. Como o capitalismo não pode subsistir sem uma superestrutura que, erigindo-se a partir das contradições e dos antagonismos das classes produtoras, corrobore tais contradições e impeça a desagregação das partes, concluem que o Estado democrático-liberal é por certo a expressão mais acabada da política e, sobretudo, da sociabilidade humana. Que sobra diante disso senão a vazia discussão weberiana da legitimidade do poder político, do político por vocação, enfim, da melhor política a ser adotada? Nada, porquanto a possibilidade de superação dessa sociabilidade específica, alienada no caso, foi suprimida.


Entretanto, não é isso que afirma Marx. Estado democrático-burguês e, sua contrapartida material, as relações sociais de produção capitalistas, não são eternos, muito menos são o remate, a coroação de um movimento histórico teleológico que tinha por fim encontrar a vida social mais pertinente a uma suposta natureza humana. Marx demonstra com sagacidade que essa realidade é mais um momento histórico, transitório como todos os outros, específico e determinado da humanidade.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Quem trabalha, quem consome?

Trabalho estranhado, trabalho alienado. Compramos mercadorias inúteis, sem as haver produzido. Não compramos as mercadorias inúteis, mesmo tendo as produzido. Aquelas pobres almas, homens e mulheres, cujo sangue o Capital atravessou oceanos e continentes para sorver, laboram dia e noite para produzir uma infinidade de televisores de plasma, de celulares, de brinquedos eletrônicos, tudo da mais moderna geração, os quais, eles próprios, não podem usufruir. São explorados, desumanizados, bestializados ao longo de uma existência descartável. Os produtos de seu próprio trabalho lhes são estranhos. Que fazem estes produtos além de voltar-se contra seus criadores e escravizá-los?


Não bastasse vê-los todos os dias, aos milhares, a correr frente aos seus olhos, um por um, peça por peça, entrando pela esteira na forma de elementos de pouco valor agregado e saindo pronto, acabado, levando o seu trabalho cristalizado ao próximo comprador, esses trabalhadores são obrigados a vê-los também na mídia, no “horário comercial”, sendo trazidos reluzentes, como invólucros contendo felicidade, implorando para serem adquiridos. Mas, afinal, qual horário desse mundo capitalista não é comercial? Há algum momento, por menor sequer, em que qualquer coisa não esteja relacionada, motivada, determinada pelo valor, pela forma mercadoria?


– Pai, compra pra mim aquela boneca? – pergunta a criança, em chinês, inocentemente ao seu pobre pai, exausto, derribado num sofá roto, a olhar fixa e indistintamente o teto, sem nada a dizer. Como poderia? Como explicar à filha, incapaz de entender o mundo que a cerca, que não pode comprar uma das milhares de bonecas que faz todos os dias? São tantas, mas não são dele, não podem ser consumidas por quem as produz, são tão-somente valores-de-troca.


E essa cena repete-se abundantemente, senão de forma homogênea, pelo menos endêmica e espraiada pelas muitas periferias desse mundo. Quantos pais e mães não estão sobre esse jugo, a saber, do Capital? Cenas corriqueiras que não encontram paralelo em nenhuma fantasia dantesca, são, na verdade, reais. A mãe que, a pós contar as parcas moedas nas mãos, constata tristemente que não tem o suficiente para comprar um doce, um salgadinho, uma Coca-Cola, ou qualquer coisa que o valha para o filho que pede atrelado à barra da sua saia; ao mesmo tempo em que uma outra mãe cerca seus filhos de sufocantes paparicos, gastando a felicidade alheia. Eu mesmo, quem vos escreve, quanto da felicidade alheia consumo? Não trabalho e, portanto, não tenho uma existência produtiva, mas, no entanto, consumo, e relativamente bem. Quanto do que consumo é meu por direito e quanto deveria ser de outrem?

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Aniversário

Aniversário: data na qual se comemora o dia em que se nasceu. Data para receber telefonemas, alguns sinceros outros não, alguns de quem está perto, outros de quem só se fala religiosamente nesse dia. Dia de fazer votos de felicidade, de reiterá-los ou de simplesmente não renová-los. Dia de repensar os rumos que a vida veio tomando nesse último ano. Data na qual, por um momento de descuido e prazer fugaz, meus pais me trouxeram a esse mundo triste. Data que, para a criança, inocente e egoísta, significa ganhar um novo presente. Data boba, na qual nos achamos especiais, nos achamos merecedores de paparicos. Dia só seu e de mais milhões de outros aniversariantes. Dia de fazer promessas, muitas promessas que sabemos jamais conseguir ou mesmo tentar cumpri-las. Data para dizer a quem se ama: “eu te amo”. Dia entre tantos outros, com a diferença de estar um ano mais velho do que nos dias do ano anterior. Dia feliz para uns, infeliz para outros. Data na qual tem-se certeza que se está a fazer tudo errado. Data que dá vontade de ser regredida, refeita, referida a outro. Dia de dizer “obrigado”, embora se queira trancar-se no quarto e dizer “adeus”. Dia único do ano que não lhe pertence. Dia que me lembra tudo o que fiz de errado, mas nada daquilo que fiz de certo. Data na qual se percebe que a vida é um cronômetro em contagem regressiva. Data para se inventariar aquilo que ainda quer se fazer no tempo que resta. Data na qual, todos os anos, pago penitência a minha consciência. Data em cujo dia estou mais longe do começo e mais próximo do fim. Data que me lembra a solidão. Dia triste que espero que passe logo.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

O mito da felicidade

É triste ver as pessoas tentarem ser feliz. Tentarem é a palavra correta? Não. Desejarem ser feliz. É isso o que elas fazem: lamentam seus desejos vãos e irrealizáveis de felicidades intermináveis. Acreditam que existe uma felicidade para além do horizonte, acima dos píncaros rochosos e frios, no final da estrada, num amor além-mar. Ou mesmo que haveria de ser encontrada na outra vida que as esperam, na labuta empreendida com afinco e sem reclamações, no final de uma das pontas do arco-íris. Enfim, seja qual for a forma desse sonho, ele traz consigo uma concepção irracional de felicidade: a de que a felicidade seria um bem maior, um bem supremo, prêmio máximo concedido à realização pessoal de cada alma desse mundo tenebroso pela coragem vitoriosa.


Envoltos nas trevas, a felicidade representaria a luz no fim do túnel para esses seres tão habituados e afeitos ao sofrimento. Nesse sentido, a felicidade é egoísta. Nada impede a um indivíduo qualquer passar por cima da felicidade alheia para conquistar a sua própria. Ou talvez roubá-la de algum descuidado. Afinal, em se tratando da felicidade, não valeria à pena lançar mão de qualquer meio, moralmente condenável ou não, para obtê-la? Os meios não justificariam o fim? A felicidade consiste num estado individual caracterizado, por um lado, pela completa ausência de sofrimento, e, por outro, pela mais absoluta presença de satisfação com tudo aquilo que é comumente considerado bom: o dinheiro, o amor romântico, o bem-querer de amigos próximos, a boa relação com familiares, a “saúde de ferro”, o sucesso profissional. Todos esses pequenos bens burgueses dos quais ouvimos tão bem e, tão cedo quanto possível, somos encaminhados e instados a persegui-los. É bem verdade que, para cada alma solitária desse mundo, este ou aquele desses objetivos pode ou não ser considerado bom, ou uns podem ser considerados melhores do que outros. Entretanto, isso não elimina o fato de que são essencialmente objetivos individuais, individualistas e individualizantes.


Como objetivos individuais que são, só podem ser alcançados pelas almas particulares que, travando uma encarniçada luta, disputam palmo a palmo as parcas reservas desses elementos compositores da felicidade de que dispõe nosso mundo. Em vista disso, tornam-se almas aguerridas e tendem sempre a desconsiderar que, por direito, a alma adjacente à sua também é merecedora da mesma coisa que si mesmo. Cada uma sofre candentemente por não alcançar aquele estado indelével de felicidade que lhe fora prometido. Como se, uma vez alcançada, a felicidade fosse um estado eternamente perene, de cujo usufruto jamais seríamos novamente despojados.


Mas não é assim. A felicidade é um conceito burguês. Ela não pode de modo algum ser plenamente realizada porque ela não é um fim, e sim um meio. É através dela que nos dispomos dia após dia a acordar cedo e a nos abalançar, sem uma clara noção das verdadeiras razões, para a insanidade do cotidiano servil e hipócrita que partilhamos. Fazemos isso, fazemos aquilo. Ora de bom, ora de malgrado Estudamos o que achamos que nos conferirá uma carreira coroada de sucessos. Se, por sorte ou por artimanha, conseguimos fazer a vida dentro da área estudada, esperamos que desse trabalho saia a satisfação, seja ela sentimental, pecuniária ou de qualquer outra natureza. Ao mesmo tempo, no meio dessa balburdia toda de suceder-se de fatos, surge o amor. Este é literalmente fogo de palha. Dura tão pouco quanto se acreditou sê-lo infinito e eterno. De repente vira rotina. Aquilo que pareciam ser qualidades viram defeitos, defeitos insuportáveis que sufocam o que antes parecia ser amor. Mas não é o amor que acabou. É a busca desesperada pela felicidade que, não sendo encontrada no amor, na profissão ou na família, volta-se raivosamente contra os meios que supostamente deveriam realizá-la. E enfim, eles assistem à novela, pois lá sim existe um final feliz, tomam remédios para o desequilíbrio mental que os acometem, maldizem tudo e todos, e, por fim, morrem amargos e ressentidos com o destino medíocre que lhes fora reservado. A felicidade é uma cenoura amarrada na ponta de uma vara, que, por sua vez, está amarrada ao dorso dos asnos, burros, jegues, jumentos e mulas que somos todos nós. Dela não podemos tirar mais do que diminutas mordidas insossas. A felicidade plena não pode existir, vai contra as leis naturais e sociais desse mundo. Talvez – repito, talvez – em um futuro cuja aurora seja a emancipação humana tenhamos da felicidade um pouco mais do que costumam nos dar de ração.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

As rosas brancas e você

As rosas brancas,
Assim como você,
Cantam e encantam
Minha manhã e o meu entardecer


Há de se ter cuidado
Senão nem me vejo envelhecer
Estando sempre do teu lado
Passaria a vida toda a te ver


As rosas brancas,
Assim como você,
Têm pontudas lanças
E ferem um coração à mercê


Há de se ter cuidado
Com seu temperamento
Variam do alto a baixo
Mudam sem consentimento.


As rosas brancas,
Assim como você,
Dão-me esperanças
Dão-me vontade de viver


Não tenho muito cuidado,
Mas, afinal, fazer o quê,
Se com as rosas sinto-me amado?
Sim, as rosas brancas é você.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Crítica à crítica da globalização econômica

Nessa passagem, Hirst e Thompson definem o conceito ideal de economia globalizada, alegando que, embora internacionalizada, a atual economia capitalista não perdeu suas bases nacionais, ao contrário, mantêm-na solidamente delimitadas e influentes na determinação do sistema. Embora concorde em parte, os autores estão embasados numa concepção ontológica errônia: de que são as políticas estatais e privadas que determinam a dinâmica e transformação do sistema econômico. Penso precisamente ao contrário, assim como Marx, que a dinâmica do capital, enquanto universal concreto, é que cria as condições e as demandas por políticas socioeconômicas que venham em seu favor. Nesse sentido, faço a crítica à passagem que, embora tenha o merecido mérito de negar o mito de uma globalização inexorável, atribui pouca proeminência ao âmbito global do capitalismo, enquanto sistema-mundo.

O sistema econômico internacional torna-se autônomo e socialmente sem raízes, enquanto os mercados e a produção tornam-se realmente globais. As políticas internas, sejam de corporações privadas, sejam de reguladores públicos, agora têm de levar em conta rotineiramente os determinantes predominantemente internacionais de sua esfera de operações. Enquanto a interdependência sistêmica cresce, o nível nacional é permeado e transformado pelo internacional. Em uma economia globalizada como essa, o problema colocado para as autoridades públicas é como construir políticas que coordenem e integrem seus esforços de regulação, com o objetivo de enfrentar a interdependência sistêmica entre seus atores econômicos. (Hirst e Thompson, Globalização em questão. Ed: Vozes, p.26-27).

Ora, e não é de fato assim que acontece? Parece-me que, seja qual for o país em questão, as margens para políticas econômicas e sociais foram substancialmente estreitadas em função de determinações que, embora engendradas em solo nacional, assumem vida própria quando ascendem ao nível internacional. É certo que alguns poucos países situados no centro do sistema econômico, genericamente denominados OCDE, desfrutam de incomparável autonomia política e gozam de poder suficiente para fazerem prevalecer seus interesses nacionais, sobretudo sobre as frágeis economias do Terceiro Mundo. Contudo, teriam eles margem suficiente para manobrar políticas econômicas heterodoxas em relação ao sistema internacional, indo no sentido contrário à torrente de demandas do capital?

Marx afirma que os processos sociais que se dão ao nível superestrutural, em especial, as políticas estatais, são manifestações fenomênicas de determinações mais profundas do social, determinações estas dadas ao nível da produção e da reprodução material. Se assim for, as políticas que os Estados-nação burgueses perseguem têm de estar em consonância com o estádio produtivo do capitalismo, com a totalidade do sistema. País algum é completamente livre para dar suas próprias cartas como bem entenderem no jogo, eximindo-se da observância dos demais jogadores envolvidos. Os Estados Unidos, o jogador com mais cartas e fichas à disposição, não pode ser ingênuo ao ponto de, assoberbado diante de seu poder, dispor da sua condição à revelia. Poderia ele, enquanto coração financeiro do mundo, amordaçar seu capital financeiro, controlando-o para evitar seus frequentes e irresponsáveis excessos? Poderia deixar de investir em regiões, cujo custo-benefício é altamente vantajoso para seu PNB, devido a condenações morais? Penso que não. Ademais, outros jogadores habilidosos começam a acumular trunfos diante da poderosa nação capitalista. Hoje, a China é a maior financiadora da dívida pública norte-americana e nada indica que sua posição de destaque tenderá a decrescer.

Aos países menos afortunados, elos mais fracos da corrente, são reservados ainda menores possibilidades de autonomia político-econômica diante da capital internacional. Capitalistas dependentes que são, não dispõem de meio algum para contestar as determinações advindas do centro do sistema, determinações essas que, mesmo concernentes a interesses nacionais, imanam, antes de tudo, do sistema capitalista como um todo, do qual os países dominantes são seus porta-vozes. Basta lembrarmo-nos das várias negociações infrutíferas da Rodada Doha, na qual os país ditos emergentes, especialmente Brasil e Índia, imploravam pelo fim dos subsídios agrícolas. Se nem países relativamente influentes como estes detêm alguma capacidade decisiva nas determinações do sistema capitalista, imaginem aqueles praticamente excluídos do sistema e dos quais só se ouve falar em discursos vazios e formais que procuraram nos lembrar da iniquidade do mundo para, na oferta seguinte, fazer-nos esquecer novamente. Estes são constantemente atravessados pela lógica capitalista, enxotados de um lado para o outro como cachorros sarnentos sempre que a lógica muda em função do desenvolvimento histórico.

O que eu contesto nesse pequeno ensaio não é a inexistência de agentes nacionais no interior de uma economia global, cujas ações são reais e relativamente autônomas, mas que cada um deles é parte integrante de uma totalidade sistêmica que não pode ser compreendida como um mero agregado e sim como uma realidade sui generis. Desconsiderar os nexos que imbricam as diversas e distintas partes e as conformam em uma unidade é perder de vista a totalidade do capital, é fugir do materialismo histórico dialético. Ainda que algumas poucas partes detenham vantagens enormes em relação à maioria delas, não determinam por si mesmas a lógica a que devem observar nem muito menos os rumos que o processo histórico tomará. Do mesmo modo, isso também não nos autoriza a dizer que o âmbito global assumiu uma estrutura tal que excluiu e subordinou os Estados-nação de forma unilateral, pelo menos no que tange à sua construção consciente, como se estes fossem simples veículos que realizam as vontades tirânicas desse novo ser que, como a água, cobre o globo todo. Ambos existem dentro de uma mesma unidade, o sistema capitalista, e se o todo não pode ser explicado sem as partes que o conforma, tampouco as partes podem ser desvinculadas das suas posições relativas ao todo.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Nossa pequena história

E foi assim a história: tão singela quanto verdadeira. Quem viu, assim como as duas almas que a escreveram com linhas tímidas, jamais poderia prever os rumos que tudo tomaria. Rumos desconhecidos. Somente engolindo muita coragem pela manhã para segui-los bravamente dia afora. Ainda assim, não houve um momento sequer de hesitação, no qual um dos dois pudesse desistir e voltar atrás.


Olharam para eles de modo desconfiado, incrédulos. Poucos compartilharam ou poderiam compartilhar da crença em um amor aparentemente tolo e inocente. As pessoas têm medo de se arriscarem e não querem que outros façam o mesmo. Acusaram-lhes de heresia e pretenderam jogá-los na fogueira da incompreensão. Resistiram, pois sabiam que um grande amor não nasce todo dia. E no final, ambas as vidas haviam sido transformadas completamente e nada mais seria como antes. Veio a primavera e coloriu de múltiplas cores e tons o cinza invernal que secava os seus corações.


Parece pouco coisa, um amor, diante da imensidão do mundo? Talvez sim. O fato é que, para quem ama, o mundo fica pequeno, tão pequeno que poderia ser pego por uma das mãos e dado de presente à outra que, com ela, compartilha os mesmos sonhos.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Pais e filhos numa terra sem amanhã

Expropriado é nosso nome e excluído nossa condição. Não falamos mais dos tempos áureos de outrora, porque somos desenganados agora; não existiram. A crença no belo que nunca vimos já não satisfaz a fome de nossos filhos. Deserdados da terra mãe, pátrio sem filhos, Filhos de Deus sem pátria. Caminhamos impávidos e terrivelmente sóbrios em meio aos campos que, num esforço de abstração, imaginamos floridos. Espetáculos de desenvolvimento velados por séculos de despojamentos. Somos arrastados, ora pra angústia, ora pra esperança inócua. Uma vez travávamos lutas encarniçadas, hoje no máximo afugentamos nossos antigos espíritos. Mas houve um tempo, um tempo em que os limites do possível compreendiam até os rincões donde a vista alcançava. Perderam-se encobertos pela poeira dos tempos.


Que fique claro...


Bem desvairados são aqueles aventurados pelo caminho vil da cobiça. Indignos dos frutos que levam à boca, os quais não saciam sua fome porque come o que não é de comer. Comem a soberba, o poder, a alegria alheia. Não se saciam e tomam da boca de quem não tem da onde tirar o sustento do viver. Pervertem o sentido da felicidade. Enquadram atrás de muros aquilo que ninguém pode ver porque se verem, pode ser que venham comer também.


E os maus aventurados se esbaldam da terra, da água, do ar. Chafurdam em espólios inglórios, em riquezas que suas mãos corruptas não produziram, em belezas ímpares que seus corpos possuíram. E macularam. E gozaram das alegrias alheias.


Nós, filhos de pais bêbados e mães lavadeiras, labutamos diários que, todavia, não lemos porque somos analfabetos. Quem leu tais linhas tortas, proclamando-se arrogantes intelectuais, perdeu-se quando tentou endireita-las, incapaz de compreender a mensagem. Somos de direito. Direito divino do trabalho ripado no solo, da semente regada à suor e lágrimas, dos filhos criados aos berros e coices, da faca afiada quando atravessa o bucho, da vontade inigualável que jorra aos borbotões esperança no viver. Somos criadores do divino e do profano. Fazemos morada ao pé da tristeza. Brincamos sorridentes em face da incerteza posta à frente. Profundo pesar. Somos o ontem com medo do amanhã, o presente orgulhoso do passado, e o porvir que espera esperançoso sem saber do futuro.


É isso que somos: filhos da Terra e pais da História.

sábado, 6 de junho de 2009

Sonho e utopia

O tempo passa à passos largos
No calço, levo botas batidas
De fato, o que trago comigo?
Muitos calos nessas tristes idas


Será mera fantasia?
Como se sonhasse,
Em algum outro lugar,
Nalguma utopia.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Poesia aos amantes

Este coração
é só desesperança e desilusão.
Sofre calado
porque ninguém lhe concede perdão
Se você viesse
e resgatasse-o da solidão,
Então, por ti,
ele bateria em infinda gratidão.

Por medo de represália,
este coração enterra-se no peito
Auto-sepultado,
sem que haja um dia ter amado!
É tão-somente poesia,
assim como Heloísa e Abelardo
seus beijos, meras utopias
que transcendem um sonho irrealizado.

Haveria saída para um tolo apaixonado,
cujo coração entrega-lhe de bom grado,
senão seu incondicional amor ao meu lado?

quarta-feira, 27 de maio de 2009

A servidão errante

Tristeza é não ter aonde ir
Errante, estamos sempre fugindo,
Voltando, regredindo o devir
Passos, lágrimas e uma história infame


Tantas idas e, afinal, quantos regressos?
Eles trazem em seu esquálido seio,
Indeléveis estigmas impressos
E quando pedem atenção, quê lhe dão?


Balaços, tapas, pontapés e prisão
É a sina que tanto lhe rogaram
Sem culpa, abraça-me a sua dor
Enquanto outros, em seu lugar, gozaram.


Não vou e não fico, paro em lugar algum
Haveria então destino para alguém assim?
O sem identidade, de verdade, nada em comum
Meu tempo é pouco e faço pouco desse ínterim


Melhor seria ser um dos excomungados!
Teria motivo enfim para ser julgado,
Condenado. Porém, não passaria ao largo,
Da história de quem mutila o próprio passado


Veja miserável, és tu o futuro chegado!
Saia da miséria da qual és ainda turiferário
Vou contigo, pois sei que, em meu íntimo,
Sigo-te e tu segues comigo o mesmo caminho.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Sérgio (i)Moraes e a orgia pública

Sérgio (i)Moraes, relator do processo de quebra de decoro parlamentar instaurado contra o senhor feudal Edmar Moreira no Conselho de Ética da Câmara dos Deputados, o rei do castelo em Minas Gerais, disse, por ocasião de seu afastamento do cargo de relator, que está se “lixando para a opinião pública. Até porque a opinião pública não acredita no que vocês escrevem e nós nos reelegemos mesmo assim".


Excetuando-se os lapsos de memória que acomete a absoluta maioria da população brasileira, padecente de um estado de coma cerebral, não é verdade candente senão o fato de que a corja que deita e rola sobre espólios públicos tem plena consciência da esquizofrenia social da qual sofre esse país? Qual é a novidade?


Gostaria eu de dizer que uma luta encarniçada por tais espólios fossem responsáveis por fraturar a “casa do povo”, cujo espaço destinado à res pública foi transformado em um bordel, cindindo esses porcos em facções distintas, e cujas lutas decorrentes pudessem evidenciar o estado de putrefação avançado em que se encontra o corpo político brasileiro. Haveria aí – na exasperação das lutas – uma esperança. Mas não posso dizer tal coisa. Não quando a farra é de uma magnitude ridiculamente esbanjadora, de tal ordem que não há falta, apenas excessos. Como se sabe não existem lutas encarniçadas quanto o banquete está posto à mesa. Este é tão farto que não há necessidade de se reservarem os restos aos porcos, pois eles vêm à mesa comer também. Com garfos e facas.


Os senhores deputados, donos de castelos, de aviões transportadores de cocaína através da selva amazônica, de redes de radiotelevisão, de bordeis, de cassinos, da justiça, do Estado, do povo, conluiam entre si, congratulam-se e apóiam-se de modo que dentro da Câmara tornam-se Deuses intocáveis. Cada um cobre as costas do outro e juntos eles saciam sua fome grotesca em meio à orgia pecuniária. O asco e a repulsa quase não me permite respirar.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Algumas reflexões da vida vivida sem saber porquê se vive

Certos dias tudo o que se quer é deitar o corpo sobre alguém, largar-se sem receio ao relento que sopra junto ao vento, trazendo o murmúrio da vida simples que se estende para além do fim do mundo, aonde o tempo é mudo e cabe-se tudo o quanto se quiser colocar nesse pequeno, porém aconchegante espaço. Sentir a textura do sol quando seus dedos delicados tocarem minha face impassível, impávida, sem grandes ambições que venham a desvirtuá-la, é ao mesmo tempo sentir e saber que ainda estou vivo.


Há algo sussurrando ao pé do ouvido, algo que há muito insiste em ser ouvido. Nunca, em feita alguma que eu possa recordar, parei para prestar a atenção devida. E ele continua lá. Ou aqui, por perto. Existe um turbilhão caótico de estímulos que enchem os olhos, tapam os ouvidos e tornam indistintos os sabores ao paladar. O brilho que se sucede em espectros infindos a cada segundo, o barulho agudo e seco do soco quebrando ossos, o gosto acre e amargo que rasga ao meio a timidez já no primeiro trago. Tantos estímulos e nenhum sentimento verdadeiro? Pareço uma concha oca? Aonde foram parar os inúmeros moradores sonhadores que compartilhavam a minha morada?


É triste quando, por um breve instante de lucidez, falo comigo mesmo e não ouço resposta alguma, só o eco propagando no vazio que é a minha vida. No momento de silêncio mais terrível é onde nasce a remissão dos pecados mais detestáveis. Vejo enfim o abismo no qual venho caindo a tempos imemoriáveis. Quando parei de lutar e deixei-me desabar pela encosta escarpada e sem flores que com uma obstinação tola escalava? Já não faz sentido esfacelar as mãos nessas pedras altas. Faltava tão pouco. Agora não falta mais nada. Quando você perder tudo, daquilo por demais amado àquilo de que se odeia visceralmente, enfim estarás livre. Estarás pronto a despencar pelo abismo sombrio, para o qual jamais olhara por medo. E de que é feito tal medo, senão de dor e sofrimento? Esculpido por tapas, pontapés, murros, urros e gritos raivosos nas mentes solitárias de quem não entende a vida como eu. E você se debate, e reza, e implora e chora por uma nova chance que não virá. E você por fim desistirá e irá embora, carregando às costas histórias de batalhas épicas, talvez inglórias, mas das quais se rememorará como maravilhosas vitórias. Edificará um pequeno altar, ornado com rosas murchas, em cujo ápice reluzirá belas lembranças cultuadas como deuses. Ao pé do altar farás uma pequena casa humilde, e se alguém algum dia bater à porta perguntando por você, dirás que é fulano, ou talvez cicrano, mas que não conhece beltrano. E esse será o fim da evanescente lembrança que deixarás em troca do doce sabor da morte.


Mas voltemos ao hoje, ao agora. O dia é lindo. Carregado de esperança pueril no corre-corre das crianças despreocupadas. Seus sonhos e desejos são tão descomplicados que muitas vezes seriam considerados por nós tão-somente nulidades fugazes, bobagens prosaicas, como sair para chupar um sorvete ou pular o muro de uma casa abandonada. E vemo-las rindo e festejando. Ora entremeando-se choros, é verdade, mas dificilmente devido a uma verdadeira tristeza. Não, tal reação não possa de um mecanismo de defesa, algo a que as crianças recorrem quando não vêem satisfeita uma necessidade boba, ou quando se sentem ameaçadas. Essa despreocupação ora me irrita, ora desperta em mim uma inveja, uma vontade de me desprender de toda e qualquer responsabilidade sem sentido.


De que vale tudo isso se a felicidade não passa de momentos efêmeros, fugidios, sobre os quais não se tem controle algum e o máximo que podemos fazer é implorar para que jamais passe? O que é a vida senão um oceano de tristeza no qual nos afogamos diariamente? Lutamos sofregamente para subir à superfície, mas apenas por um breve instante respiramos o ar úmido que acompanha pari passu o espelho de lágrimas intransponível.


De tudo o que eu vivi pouca coisa me traz lembranças agradáveis. Mas ironicamente, quando acontecem, elas se traduzem em momentos tão simples, tão singelos e inoportunos do cotidiano, que sou tomado de assalto por uma sensação de paz e tranquilidade. E parece-me sempre inexplicável como uma lembrança tão insignificante à primeira vista pode ser tão poderosa, fazendo-me pacífico por um momento. Tudo o mais perde a importância e o mundo de agora, de hoje, no qual estou inserido, parece pesado, carregado de um ar irrespirável, imundo e poluído. Em contraste, a textura daquele sol pretérito assemelha-se às nuvens leves de um olimpo individual. Aquele vento pretérito afaga minha pele ao invés de fustigá-la, e o ar é saboroso como uma torta confeccionada pelas mãos maestrinas da avó, exalando um tempero sutil e convidativo.


Por que as sensações produzidas por estímulos objetivos como o vento, o sol, a comida da minha avó, o rio no qual pescava com meu pai, a calçada na qual passava as longas tardes, podem ser muitas vezes recordadas sem rancor, ao passo que lembranças de acontecimentos cujo sujeito era eu são por vezes relembradas com hostilidade? Haveria aí alguma espécie de autopunição? Uma sensação de malogro, de que inutilmente por fim eu falhei? As coisas materiais simples de que somos presas fáceis traduzem-se em conforto, na sensação de satisfação de uma necessidade. É uma paz verdadeiramente mundana, sensual e tangível. De fato, isso denota uma certa incapacidade minha em lidar com outros seres portadores de subjetividade. Outro que possa pensar, falar e agir soberanamente sobre si, pode também ter como ponto de referência a minha pessoa, pode direcionar seus atos para mim. E eu sou um ser tão arisco, arredio e tresmalhado, que à mera menção de contato e comunicação acossa-me pungentes vertigens na mente. Imediatamente soa o alarme do ataque iminente e, no momento seguinte, opera-se a fuga, quase sempre triunfante. O arrependimento ulterior não é condição suficiente para que a cena não se repita. E voltará a se repetir um sem-número de vezes, condenando-me eternamente à solidão.

domingo, 19 de abril de 2009

Sobre os males contemporâneos

São muitos. Prolíferos, circunscritos e concentrados sobremaneira nos indivíduos, a sociedade atual só tende a exacerbar seus efeitos. Compulsões, insociabilidade, angústia, ansiedade, stress, depressão, pânico. Seria impossível lembrar-se de todos, ainda que quisesse, pois provavelmente um novo mal psíquico está sendo descoberto nesse exato momento, agora. Seja como for, não me cabe aqui tratar de cada um deles em separado, menos ainda falar de um ponto de vista mais geral. É-me de direito apenas discutir acerca daquilo sobre o qual tenho conhecimento, no caso, prático: a solidão. Esse sim é o mal que devora minhas entranhas, aflige minha mente e seca minha alma. Não que nenhum outro fantasma não me persiga, ao contrário, mas certamente este é o maior e mais perigoso. Ele está comigo quando acordo e não há ninguém ao meu lado; quando tomo meu café ouvindo música; quando saio para dar cabo das correrias diárias; quando deito a cabeça taciturna no travesseiro confidente; enfim, em cada momento, seja do mais ordinário ou do inesperadamente singular. Não obstante a possibilidade de se encontrar a remição à solidão em um fato extraordinário, usualmente isso não acontece – e, caso aconteça, amiúde dura pouco. Estamos trancafiados em celas individuais, cercadas por poços infindos de frustrações e medos, condenados a uma existência unicelular. O desejo egoísta, ou apenas o medo de se machucar, tornou as relações humanas distantes, conversadas mediante ecos, quando não completamente desconectadas por ouvidos moucos. Cindimos cada vez mais a massa e servimo-la em pequenas porções individuais. Evidentemente não gostamos da má digestão resultante, mas é assim que fazemos há algum tempo. É o nosso tão belicosamente defendido way of life. Quanto a mim, mesmo não querendo, levo isso muito à sério, quase ao pé da letra. Pudera! Porquanto a minha timidez pueril procurou me afastar desde daqueles com quem convivi um razoável tempo de vida, até daqueles com quem simplesmente troquei uma olhadela fugaz. Portanto, não é de ontem minha solidão. Estou vacinado e não recaio mais no sofrimento como era de costume. Agora, ela é minha mulher, companheira para toda a vida e já não sei mais se quero o divórcio. Você acaba se acostumando. À parte isso, tenho em mim uma vontade ingente de um par pra dividir. De mais a mais, a insensatez cotidiana mantém-me ocupado, com a mente focada em objetos inúteis, o que cumpre uma função de suma importância na sociedade contemporânea, qual seja, desviar a atenção das necessidades verdadeiramente humanas e preencher o vazio que a falta delas cava no peito. Então você trabalha, trabalha e, um pouco mais, trabalha, para comprar, comprar e, sempre mais, comprar o quanto pode. É verdade que na escassez monetária recorremos a outros métodos menos sofisticados para sanar a angústia moderna, como a comida em excesso, cujo corolário é a engorda sistemática. Seja como for, o resultado continua tão o mesmo quanto as causas que o produziram. E, no limite, o que rigorosamente nos interessa aqui são as causas, por que sem uma dada causa não há um determinado efeito. Sendo assim, a conclusão óbvia é a urgência em substituir as variáveis da equação. Porém, como se elas já estão dadas por um pano de fundo social infinitamente mais complexo e sobre o qual não há controle individual algum?

terça-feira, 14 de abril de 2009

Dois amantes que se perderam por aí, como tantos outros...

Costumávamos deitar na varanda lá pelas tantas da madrugada, olhávamos para as estrelas e ficávamos a tecer teorias. Dizíamos: “está vendo aquela estrela? Pois bem, na órbita daquela pequena estrela tem um planeta, muito parecido com o nosso e, nesse exato momento, dois amantes estão, assim como nós, olhando para o céu estrelado e, de todas as estrelas possíveis de se ver, estão olhando para cá, para nosso pequeno sistema solar e dizendo: ‘assim como nós, num pequeno planeta daquela estrela tem um casal olhando para nós dois aqui e desejando que sejamos muito felizes’”.

Naquela época nos sentíamos tão fortes juntos que o mundo era pequeno e o universo era passível de ser conquistado. Éramos tentados então a deixar esse mundinho, queríamos voar por aí, transformar-nos em luz. Quase conseguimos. Mas depois, sem mais nem menos o mundo cresceu, cresceu e ficou tão grande que envergou todo seu peso sobre nossos ombros e agora não conseguimos mais olhar para as estrelas. Na verdade, nem lembramos mais delas. Andamos com passos de anões e orgulho de gigantes. Trabalhamos para plantar novas porcarias na terra, das quais não precisamos, e as nossas antigas histórias que crescem insistentemente feito ervas daninhas, como para nos dizer: “estamos aqui ainda, recorde-me, recorde-me!”, nós as arrancamos e dizemos: “não preciso mais de vocês!”.

Hoje, quando por um acidental resvalo, olha para aquela estrela e penso: “será que os dois amantes estão lá ainda, olhando para nós aqui com ar de reprovação por termos falhado? Será que ficam tristes porque abandonamos o sonho de alcançar as estrelas? Será que ainda torcem por nós?”

terça-feira, 7 de abril de 2009

Um dia qualquer no ônibus

Por entre os carros neurastênicos que costuravam as veias asfaltadas do centro da cidade, entrecortava um ônibus suburbano tipicamente prosaico. Dentro dele, um observador e, ao seu entorno, uma vívida realidade social cotidiana se desenrolando, a qual comumente não se dá valor algum.


Ao lado do observador, duas mulheres de idades distintas sentadas juntas conversavam. Pelo cabelo desgrenhado e mal-cuidado, impregnado de preocupações, pelo rosto sem maquiagem e profundamente sulcado, pelas roupas simples cujas peças não combinavam entre si, e pela bagagem acondicionada em sacolas de plástico que ostentavam em impresso um slogan de algum supermercado qualquer, podia-se inferir decerto a origem social daquelas mulheres, de onde vinham e para onde iam – potencialmente.


A julgar pelo diálogo, eram vizinhas de muro, situados nalgum bairro periférico qualquer, aonde se varrem para além das vistas aqueles cuja existência insiste em ser negada, ao mesmo tempo em que, paradoxalmente, são indispensáveis na medida em que constituem a base necessária para a reprodução da vida daqueles cuja existência insistentemente é glorificada.


Aqueles que mais têm, mais apegados se tornam àquilo que lhes possuem, e menos estão dispostos a dar.


A mulher mais jovem contava à senhora de mais idade que lhe acompanhava sobre seus infortúnios:
- é amiga, a situação num tá fácil não. O salarinho magro do marido não tá resolvendo. Só por Deus mesmo pra ter misericórdia de nóis!
- pra mim também não tá fácil não viu, Margarete. Minha única renda continua sendo só a pensão do finado. Depois que eu saí da casa dos Rodrigues não consegui mais emprego de doméstica. Se pá é coisa ruim que lançaram pra cima da minha pessoa.
Após uma breve pausa, como quem engole à seco o fel segregado pelos pensamentos pungentes, elas continuam:
- mas quem tá mal mesmo é minha irmã, sabe dona Maria. Aquele pilantra safado sem-vergonha do meu cunhado continua bebendo até a mãe dele se for preciso! Num tem cristo que dê jeito. Ela me diz que não vê a hora de sair daquele lugar, entende? Pegar as crianças e cair no mundo. Eu até que dou razão. Afinal, quem que güenta isso por muito tempo? Mas a praga diz que se ela fizer isso ele sai de pexera na mão e acaba com a vida dela.


Dona Maria, sem aparentar muito contristada, retruca:
- ah minha filha, no meu tempo num tinha esses tipo de questionamento não, tinha de agüentar mesmo, calada e olha lá! Porque se falasse alguma coisa que “ele” num gostasse era tabefe na oreia na certa!
- pode até ser viu Maria. Talvez as coisas sejam melhores do que antes. Quanto a mim, fui abençoada pela glória do Senhor!
Ouve-se um “amém” intercalado, e ela continua:
- minha menor tá espichando rápido, e, do jeito que é esperta, vai me ajudar bastante, se Deus quiser!
Outro “amém”, pra se ter certeza.
E com um profundo pesar carregado na face jovial,mas ao mesmo tempo resignada, Margarete continua:
- cê sabe né Maria, vou pagar os meus pecados com a mais velha, que nasceu especial.


As duas pequenas sentadas inocentemente no banco da frente permaneciam alheias à conversa tempestuosa das adultas atrás de si. Apenas observavam a paisagem da cidade que transcorria como num filme: tudo tão grande, tão magnético e luminoso, tão diferente de onde moravam.


O ônibus para num semáforo. Ao seu lado emparelham um grupo de motoqueiros, montados em nomes estrangeiros dos mais variados: suzukis, hondas, kawazakis, e por aí em diante. Era um belo dia para desfilarem com suas jaquetas de couro e seus motores portentosos. Zumbindo e rufando, seus motores não significam trabalho, mas sim diversão, e as ruas representavam seu GP. Para quem pode, a vida é bacana e despreocupada.


Nem as mulheres, nem os motoqueiros tomam conhecimento da existência de uns dos outros. E a vida segue seguindo...

sexta-feira, 13 de março de 2009

A história de Jorge

- Caralho, mano! Os verme tão subindo!


A movimentação dos soldados-bandidos sobre a laje das toscas construções fez-se frenética nem bem os rojões de treze tiros espocaram pelo ar. Cada qual, de sobreaviso pelas carreiras de cocaína aspiradas ao longo de toda a noite passada, assumia apressadamente seu posto no campo de batalha ante o alerta geral dado pelos fogueteiros. Soldados e vapores formavam a linha de frente do front aos brados de “atividade, atividade porra!”, ditados pelo gerente da boca. O som metálico das armas sendo engatilhadas, misturado às batidas do rap compunha uma trilha sonora minimalista, sucessora daquelas dos antigos filmes de faroeste. A tensão transpirava pelos poros aguerridos dos esfarrapados soldados e espraiava pelo ar, indo diluir-se no clima de pavor que instantaneamente tomava de assalto a favela. Ouviam-se as janelas e portas sendo fechadas. Aqueles desapercebidos que tiveram a infelicidade de serem pegos de sobressalto, rapidamente se escafediam pelas vielas ou buscavam refúgio nalguma das poucas portas ainda não cerradas pelo medo.


Esse estado de guerra fria perene, que para alguns pode parecer fantasia ou mesmo um eco à distância, faz parte do cotidiano daqueles pobres homens e mulheres condenados à existência miserável dos guetos modernos. Contudo, antes de fazê-los fraquejar, forjou ânimo de aço no bojo dos seus corações. Acostumados como estão a esses constantes dissabores, imprimidos diariamente à ferro e fogo em seus semblantes à guisa de um ferrete, resistem estoicamente às agruras daquela vida como você e eu jamais seriamos capazes de suportar. Com exceção das mães – as quais são muitas –, o clima de pavor logo dá lugar ao de indiferença e trivialidade em face de mais um capítulo dessa novela, a qual a Rede Globo não se atreve a encenar.


Num piscar de olhos, tudo começava e, no piscar seguinte, acabava-se. Era como um lapso na malha do tempo-espaço cotidiano, cuja gravidade que emanava da densidade daquela matéria social paralisava o tempo de tal maneira que a sensação era de infinidade. Mas, segundo nosso sistema de medição de tempo, era tudo muito rápido. A polícia dificilmente se arriscava para dentro do coração da favela, restringindo-se amiúde ao entorno. Ora, aqueles meninos-soldados são bem armados, irascíveis, com ódio na veia e prontos a atirar. Com efeito, quem em sã consciência, com filho e mulher, seria suficientemente insano para invadir aquela ratoeira e trocar tiros à queima-roupa com eles? Haveria de ser muito idealista ou igualmente raivoso. Não, não. É melhor disparar à distância, ainda que os riscos inerentes sejam demasiados onerosos aos civis. Toda a favela é transformada, assim, em uma enorme trincheira urbana, na qual cada lado combatente descarrega sua munição através da “terra de ninguém” – como era chamada a extensão de terra balizada por duas trincheiras na Primeira Guerra Mundial. A diferença é que muitas histórias de vida moram ali.


Da laje do seu barraco, o pequeno Jorge observava a tudo com um arrebatamento íntimo que misturava emoção e ansiedade. Olhos fixados na movimentação constante daquele jogo que opunha homens de fardas contra moleques de andrajos, ele perscrutava e esquadrinhava cada canto desse cenário bélico apinhado de casebres, civis e cachorros vira-latas, aonde se desenrolava a ação. Aquilo era verdadeiramente muito mais empolgante do que os filmes – que ele sabia falsos – de guerra exibidos domingo à tarde na televisão. Jorge tinha esse espírito aguerrido que certos humanos carregam impresso desde o nascimento na personalidade. Alguns acabam consubstanciando-o em 9mm de ferro cintado. Ademais, esse espírito é sempre mais vivo na tenra idade, ainda não dilapidado pelo superego social e ávido por aventuras homéricas. Afinal, quem nunca se divertiu na infância brincando até o esgotamento de polícia e ladrão? Era emocionante traçar planos de fuga engenhosos, prender vagabundos que perturbavam a ordem ou fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Eu, de minha parte, preferi sempre o lado criminal. Contudo, depois de crescermos, ou a brincadeira fica séria ou perdemos a graça e o entusiasmo pela coisa.


O pequeno Jorge, protegido sempre por um santo forte como fora, já dava sinais de que a brincadeira logo se tornaria séria, talvez ainda cedo demais. Não completara nem a casa decimal e já poderia ser flagrado fazendo pequenos “bicos” para a boca vizinha à sua casa, o chamado “avião”. Em troca de alguns trocados, que para ele pareciam uma fortuna, Jorge buscava refrigerante, entregava recados, buscava “peças” entocadas. Mas o melhor pagamento mesmo era ganhar o respeito daqueles bravos homens, cujo calibre faz a lei, e cuja vida desafia diariamente a ideologia apregoada pelos mantenedores do status quo, evidenciando a lógica que a sociedade teima em velar. Ele recebia cafunés na cabeça, agrados de todo tipo, ganhava doces, lanches, ensinavam-no a atirar em latinhas, davam-lhe dinheiro para levar à mãe, e ai de alguém que tirasse onda com a sua cara na escola. Os traficantes da boca apelidaram-no de “psico”, dado a intrepidez com que desempenhava as funções e a vontade indelével de fazer carreira no mundo do crime. Jorge era um guerreiro, e a vida para ele só tinha sentido se você a tomasse pelas mãos e a obrigasse a dar-lhe o que pedia; se necessário for, na ponta de um revólver. Fora assim que aprendera, como um bicho-do-mato ataca quando encurralado contra o sopé de uma árvore. A vida é selva, e ele prometia para si mesmo tornar-se leão. Evidente, portanto, que seu espírito dava mostras promissoras de outro líder paralelo cultivado desde cedo no ventre das inoportunidades concedidas como esmolas àquele povo. E isso é inadmissível para a sociedade auto-proclamada do “bem”. Agora, o mau, ah sim, se pudessem, queriam mais era escaldar o coro de delinqüentes primaveris como Jorge. E, de fato, era isso mesmo que faziam. O rancor de Jorge ainda era diminuto perto de tudo o que a sociedade ainda tinha para lhe ensinar e fazer medrar em seu coração. Seu tempo era pouco, porém faria bom proveito dele. Ele seria o escarro da hipocrisia voltando em dobro, triplo, à cara daqueles porcos.

sábado, 7 de março de 2009

A história de dona Salete

E foi por não ter mais para aonde ir que dona Salete decidiu, novamente, partir. De mais a mais, haveria outra solução? Pensou ela que não e, acostumada como estava à vida de retirante caçadora de parcas oportunidades, arriscou-se a seguir as recomendações do pessoal diretor da empresa – agora “sua” ex-empresa. Pois então, haveria de se tornar uma pequena proprietária, associada de uma cooperativa. Pelo menos, foi isso que haviam lhe dito.


Antes disso, ao longo de quase uma década ela havia destinado todas as suas forças e sonhos àquele emprego. Mãos extremamente hábeis para a costura, Salete não demorou a ocupar uma vaga em uma das centenas de máquinas overlock localizadas no setor de confecção de uma grande multinacional têxtil na grande São Paulo, após dias penosos no pau-de-arara. Sua mãe até tentara dissuadi-la daquela idéia maluca, onde tantos foram e jamais voltaram, mas nem o mais sagrado dos conselhos pôde declinar a sua obstinação. E, para fazermos justiça, foi devido a uma razoável dose de sorte que a migrante consegui se estabelecer relativamente bem no famigerado Sul. Que fique claro, relativamente bem para uma retirante fugida da fome e da seca do sertão nordestino, sequiosa por fazer um destino melhor do que aquele que sua mãe lhe deixara de herança. Ora, ela não conquistara grande êxito material, mas tinha um barraquinho próprio em um extremo periférico da maior cidade brasileira, de modo que isso não poderia, relativamente, ser considerado como uma vitória? Faltava-lhe um sem-número de itens dos mais variados bens de consumo que a televisão (isso ela havia conseguido comprar) lhe oferecia todos os dias, porém, na medida do possível, sentia-se feliz com o pouco que seu suor pôde adquirir.


E agora lá estava ela a ouvir com pesar o discurso retórico do funcionário-chefe, encarregado de passar aos funcionários não tão graduados como ele os resultados da reestruturação do setor produtivo da empresa. Os tempos eram difíceis, dizia ele, e por isso os executivos tiveram que tomar decisões igualmente difíceis. Não faziam aquilo senão com uma tristeza solene, contudo a situação urgia por tais medidas drásticas e elas seriam levadas a efeito pelo bem geral. Segundo o funcionário-chefe, que naquele momento fazia o papel de porta-voz da empresa ou de capitão-do-mato, como queira, a empresa não era mais capaz de manter o seu setor produtivo, o qual havia se tornado demasiado oneroso e, portanto, deveria ser terceirizado como parte da meta de corte de custos. Essa era a tendência geral segundo a qual centenas de empresas vinham procedendo a partir do último quartel do século passado. Além do mais, as ordens vinham de cima, não sendo, portanto, negligenciáveis. Isso porque, na verdade, a empresa em que dona Salete laborou com tanto afinco e fé não era, de fato, uma multinacional, mas sim uma das muitas filiais subcontratadas de uma das seletas corporações transnacionais que oligopolizam o setor. Ela costurava o cós e a barra das calças da afamada marca – as quais ela própria não tinha dinheiro para comprar – que, por sua vez, seriam vendidas mundialmente. Desse modo, quem efetivamente produzia não era a marca propriamente dita, mas empresas sem-nome espalhadas pelo Terceiro Mundo todo, como a de dona Salete. A lógica disso, entretanto, escapava-lhe da compreensão. Como meio de aumentar seu poder sobre o mercado interno, ao mesmo tempo em que barateava o custo produtivo das mercadorias voltadas para a exportação, os CEOs da empresa-mãe decidiram inverter parte do fluxo de investimento externo direto naquela empresa brasileira, ao invés de apenas subcontratá-la. Noutras palavras, a multinacional incorporou a empresa menor que empregava Salete, comprou-a. A estratégia de aumentar a acumulação baseando-se na exploração do trabalho não parava por aí, naturalmente.


É sabido que, nos setores produtivos com menos desenvolvimento tecnológico e, consequentemente, com utilização mais intensiva da mão-de-obra, como é o caso do setor de confecção, as estratégias de aumento do lucro baseiam-se na exploração sem limites do trabalho. E para isso, nada melhor do que a riqueza humana que irrompe do solo de países emergentes, com abundância de mão-de-obra barata, alguma proteção social pública que mitigue ligeiramente a pobreza, e com leis trabalhistas flexíveis e/ou facilmente burláveis. Eis aí a cobiça que nosso imenso território tupiniquim desperta. Claro que não estamos sozinhos, evidentemente, China, Índia, México, e outros desafortunados nos acompanham. Contudo, aqui o retorno é promissor demais, com garantias e risco zero. Pergunte ao FMI, ele irá concordar com essa afirmação. Dirá que somos ótimos devedores porque pagamos em dia e sem protestar acerca dos juros e spreads; que os investidores não correm riscos em face do nosso governo, visceralmente avesso à revoluções e sempre complacente com as demandas do capital internacional – especialmente o financeiro; e que os macacos brasileiros são vigorosos trabalhadores, satisfazem-se com pouco e, o melhor de tudo, são reacionários inatos. Pode perguntar, o risco do Brasil é nulo!


Naquele dia, ao tomar o primeiro ônibus urbano que a levaria novamente para a favela, o cortiço moderno aonde a grande São Paulo varre para debaixo do tapete todas as noites aqueles miseráveis que a sociedade civil insiste em ver só ao longo do dia na forma de trabalhadores, os pensamentos de dona Salete sobre o acontecido eram uma mixórdia desordenada e ininteligível. Suas colegas de trabalho ficaram extasiadas com a possibilidade de ascenderem da posição de empregadas de pouca monta para a de proprietárias – ou co-proprietárias – do próprio negócio: a cooperativa. Mas Salete, cuja vida tinha sido ensinada pela mais arrematada carência e como lição aprendera a subserviência, cultivava certos receios. Afinal, se essa mudança haveria de ser boa, por que o sindicato advertia sobre a depreciação dos direitos trabalhistas, que a cooperativa acabaria por menoscabar? Os diretores da empresa afirmavam que o salário maior que elas receberiam na cooperativa compensaria a falta dos benefícios sociais como o décimo terceiro salário e o fundo de garantia, e tudo o que elas teriam que fazer era se esforçarem ao máximo para produzirem bastante, ganhando cada qual proporcionalmente em razão do montante produzido. Ademais, elas seriam donas da sua própria empresa! Mas toda a incerteza que lhe fustigava a mente deixava dona Salete preocupada e, somando-se a isso os problemas familiares com um dos dois filhos e com o ex-marido, seu coração seguia apertado pelas ruas esburacadas da grande São Paulo.