quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Raízes

Se perguntarem por mim
Diga que eu parti
Que fui me enfiar no mato
Procurar minha raiz
Mas eu volto, hei de voltar
Trazendo as bênçãos de Iemanjá
Porque eu não sou daqui
Eu sou de lá, eu sou de lá

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

O idiota

Ontem eu era um idiota
E o hoje, eu sou o que?
O idiota de amanhã
Entre o idiota de ontem
E o de amanhã
Há o caminho de uma vida toda
Com seus muitos erros e poucos acertos
E o objetivo de terminá-lo
Menos idiota do que quando o comecei
Não me censurem por ser um idiota hoje
Censurem-me por não ser menos idiota amanhã

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Homens que querem ensinar às mulheres como ser feministas

Homens que querem ensinar as mulheres como ser feministas são aborrecedores. Não porque os homens não possam (e não devam) participar da luta, mas simplesmente porque são elas que são as vítimas diretas de sua opressão. Quem sente a opressão na pele tem proeminência na luta. Seria o mesmo que um morador branco da cidade querer ensinar aos indígenas como ser indígenas. Ademais, muitos desses homens mal começaram a entender o significado do machismo, e só porque reproduzem (verbalmente) princípios básicos e assentados do feminismo já não se creem mais machistas. E digo isso com a sinceridade de um homem que já foi um feminista da boca-pra-fora. Tudo o que eu escrevo aqui sobre o machismo não tem a pretensão de ensinar às mulheres e às feministas como lutar contra ele. Trata-se apenas de momentos de meu próprio processo de autoconhecimento e evolução. Não se combate o machismo com frases prontas, mas somente com um esforço infatigável e honesto que desce ao mais fundo de seu próprio ser, onde as raízes do machismo estão fincadas. Autocrítica nunca (eu disse nunca) é demais. Menos hipocrisia e mais humildade! Menos arrogância e mais empatia! Exercitar a alteridade é preciso.

Haddad entre o fogo amigo e inimigo

O clima de animosidade que se instalou entre o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, e a alta-cúpula petista é um bom indicador de como funciona o PT e no que o partido se transformou.

Além de ter que enfrentar a oposição, a grande mídia paulistana e os setores burgueses da cidade, Haddad ainda tem que lidar com o fogo amigo vindo de figuras centrais de seu partido, como Lula e Dilma. Qual a acusação? Não fazer política, ou melhor, colocar a gestão da cidade acima dos interesses políticos, que, para o PT e para os partidos eleitoreiros de modo geral, significam ganhar eleições e cooptar o máximo de aliados possíveis.

Para o PT, implementar um IPTU progressivo ou criar 300 km de corredores exclusivos de ônibus são medidas menos importantes do que eleger o ministro da saúde, Alexandre Padilha, governador do Estado em 2014, ou aproximar possíveis aliados como o ex-demo Kassab ou o presidente da FIESP, Paulo Skaf, pré-candidato pelo PMDB, partido aliado do Planalto, ao governo de São Paulo, ambos inimigos de Haddad.

Podemos questionar o que seria uma boa gestão pública, ou até mesmo o próprio conceito de gestão pública, ou podemos nos perguntar se Haddad está mesmo fazendo tudo o que poderia fazer se (ainda) tivesse uma concepção ideológica mais à esquerda. Mas o ponto aqui é: não foi para melhorar a vida da população paulistana que o PT brigou tanto por este reduto político tucano, antes foi porque a cidade é o principal palanque político do país.

A mesmo coisa vale para a sua ambição no Estado. Não nos iludamos quanto a isso.

domingo, 22 de dezembro de 2013

Presença

Você aí
Eu aqui
E teu cheiro
Em mim
E eu me sinto repleto
De ti
Longe embora tão perto
Porque tão dentro
De mim

sábado, 21 de dezembro de 2013

O machismo e a violência disfarçados de elogio e flerte

Eu acho (tragi)cômico os homens que pensam ser natural se irritar ou agredir, verbal ou fisicamente, outro homem que, por ventura, lhes passe uma cantada, enquanto se arrogam o direito de “elogiar” toda e qualquer mulher que quiserem. Eu pergunto: qual é a diferença? E de fato, diferença existe, mas não no que se refere ao comportamento em ambos os casos, e sim aos sujeitos envolvidos. A posição de poder ocupada por cada um deles é que permite a criação de um discurso que legitima a raiva num caso, e o “elogio” no outro. Mas antes de demolir essa noção estúpida de elogio, pensemos no efeito psicológico que sua prática gera sobre a mulher, e como tais efeitos se constituem num dispositivo de controle sobre ela e sobre seu corpo.

Para pensarmos essa questão, um exemplo concreto é sempre de grande valia. Certo dia, de madrugada, voltava eu sozinho completamente embriagado para casa, quando um carro parou ao meu lado. O motorista perguntou se eu queria uma “chupadinha”. Minha reação foi automática e intempestiva. Por pouco não parto pra cima do abusado. (Deixo claro que isso foi há muito tempo. Hoje não me comportaria assim).

E se a situação fosse diferente? Se eu fosse uma mulher, e o motorista fosse um homem hetero? Nesse caso não seria uma agressão, um desrespeito, seria um elogio, um flerte? Em primeiro lugar, se eu fosse uma mulher não estaria voltando para casa, de madrugada, alcoolizada e sozinha. Em segundo, se estivesse, não teria coragem de enfrentar o agressor, como eu fiz. Se tivesse, quem garante que a história teria acabado aí, sem o homem, um possível estuprador, tornar-se efetivamente um estuprador? Em terceiro lugar, esse fato não engendrou em mim um pavor de sair sozinho de madrugada. Diferentemente da mulher (e exatamente por ser homem), eu continuo me sentindo seguro para voltar de madrugada bêbado e sozinho para casa, certo de que, no máximo, serei assaltado ou, eventualmente, morto, mas nunca estuprado.

Ora, essa situação não é corriqueira na minha vida de homem. Ao contrário, é cotidiana na vida da mulher. E pelo fato de ser cotidiana, e de ser, de um modo ou de outro, legitimada pelo discurso machista, suas consequências são profundas: geram estados psicológicos de insegurança, apreensão e angústia que se consubstanciam em dispositivos de controle que determinam, internamente, onde e quando a mulher pode ou não ir, como se deve comportar e se apresentar, etc. Ou vocês, homens machistas, acreditam seriamente que as mulheres sentem medo e/ou angústia porque são naturalmente medrosas, frágeis, bobas? Garanto que se vocês sofressem a carga de abusos que elas sofrem todos os dias desenvolveriam quadros clínicos de perseguição e paranoia. As mulheres são criaturas estoicas, de uma bravura e tenacidade que eu, na minha condição de homem, não consigo sequer imaginar.

Mas, neste ponto, aparecem aqueles que refutam esses argumentos com a seguinte objeção: certo, concordo que abordar uma mulher dessa forma é desrespeitoso e invasivo, mas não é a isso que me refiro quando falo em elogio. Então o que seria elogio? Um aparentemente inocente “fiu-fiu” ou dizer “gostosa”, “delícia”, “gata”, embora sem acrescentar (o que geralmente acontece) “ai se eu te pego”, “te como todinha”? São termos realmente tão diferentes assim?

Em primeiro lugar, a diferença entre chamar uma mulher desconhecida de linda na rua, e chama-la de gostosa não passa de uma diferença de grau, de intensidade, e não de gênero, ou seja, não são coisas diferentes, mas idênticas só que em intensidades variadas. Assim também como ser mais agressivo, dizendo “te como todinha”, não muda em nada o problema. Trata-se apenas de um caso limite, cuja expressão máxima é consumar a ameaça. Isso porque o que importa aqui verdadeiramente não é a palavra que se usa para “elogiar”, mas o “elogio” em si, ou melhor, o que se acredita tratar-se de um elogio.

Ora, simplesmente não se trata de um elogio. Trata-se do exercício de um poder, o poder do homem sobre a mulher. Simples assim. Toda vez que um homem faz um “elogio” para uma mulher está basicamente afirmando o domínio de todos os homens sobre todas as mulheres. E quando esse elogio fica mais sério, quando é levado às últimas consequências, o homem acredita estar exercendo uma prerrogativa sua, isto é, de que ele tem o direito de subjugar a mulher, ainda que isso implique no uso da violência. Como isso não é feito de forma inteiramente consciente, e como existem barreiras morais para tal violência, toda uma série de argumentos espúrios surge para legitima-la, muitos deles acabam aceitos. Além do mais, eu gostaria de saber onde está a linha tênue que separa o “elogio” da agressão verbal? Essa linha não existe, simplesmente porque elogio e agressão verbal (cantadas de rua) são coisas inteiramente distintas.

Elogios existem? Quero acreditar que sim. E flertes? Também. Mas, seguramente, não é disso que estamos falando aqui. Estamos falando de violência pura e simples. Precisamos redefinir nossas ideias e valores, transformar nossos comportamentos e práticas, e descobrir como elogiar e flertar sem ser machista. Nada impede que um homem tente se aproximar de uma mulher desconhecida numa circunstância qualquer. Mas com respeito e gentileza. E ao primeiro sinal de que não é correspondido, pare. Você não é o último homem do mundo, e a mulher tem o direito sobre o seu corpo, tem liberdade e autonomia sobre sua vontade, ou seja, é um indivíduo com direitos e prerrogativas idênticas às dos homens. De resto, as mulheres não nos olham como pedaços de carne desfilando na rua, como os homens as enxergam. O machismo hiperssexualiza as mulheres, e é por isso que os homens acham que podem flertar com elas onde e quando quiserem, como se elas estivessem lá só pra isso. Por isso, meu caro amigo machista caçador de mulheres, nem sempre sendo gentil e educado não se está a cometer um desrespeito e uma violência à mulher, que tem direito de andar pela rua sem que um monte de galanteadores inoportunos a persigam, ainda que com rosas e não com pedras.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

O que as crianças têm a ensinar para os adultos

Os adultos estão tão seguros de sua superioridade e de seu modo de vida que mal se dignam a olhar para baixo, onde ficam as crianças, quanto mais a se colocar no ponto de vista delas para ver com seus olhos e tentar entender os seus motivos. A noção de que a criança é um adulto em potencial, e que, portanto, sendo ainda pouco desenvolvido, necessita desenvolver-se, é uma espécie de noção de progresso deslocada do gênero sobre o indivíduo. Tal noção de progresso, que supõe o sentido do desenvolvimento indo do simples ao complexo, do inferior ao superior, impede que enxerguemos na criança um ser completo em sua própria especificidade. Daí a justificava de que podemos fazer dela o que quisermos, isto é, que podemos (e devemos) fazer delas a nossa imagem e semelhança, o que implica, necessariamente, transformá-la em adultos. Este é exatamente o papel que acreditamos ter para com a criança.

Essa noção de progresso individual, que começa na infância e alcança o cume na idade adulta, é aceita pelos adultos como autoevidente, tal como a ilusão progressista e perfectível oitocentista também fora; ou seja, na medida em que se trata de um axioma, sua aceitação nos exime de problematizar a noção em questão. Temos até, por exemplo, um sentido pejorativo com o qual empregamos a palavra “infantil”, o qual denotaria algo como um comportamento frívolo e caprichoso que acreditamos ser típico da criança e que, como tal, é inaceitável em adultos. Assim, a linguagem é não apenas uma expressão de nossos preconceitos, como também um meio pelo qual tornamo-los reais, ou seja, a linguagem é um instrumento de coerção cuja finalidade é moldar o comportamento da criança e do adulto segundo os papéis, culturalmente construídos, que se espera de um e de outro.

Paradoxalmente, a infância é um conceito relativamente recente. Um de seus corolários estabelece que toda criança tem direito à infância. Ela não pode, portanto, trabalhar ou fazer outras atividades consideradas de natureza adulta. Deve, isso sim, fazer coisas de criança, notadamente brincar. Progressivamente o tempo da vida destinada à infância foi ampliando-se. Somada à adolescência, um conceito essencialmente moderno, chegou aos 18 anos de vida. Convencionou-se, por conseguinte, um momento de ruptura arbitrário, momento no qual se espera que a criança, num passe de mágica, torne-se adulto. A bem da verdade, existe um conteúdo material dando substância a essa convenção social abstrata: nessa idade ou próxima dela, a criança está para terminar os estudos, ingressar no mercado de trabalho e/ou estudos superiores, deixar a casa dos pais, etc. Esse processo implica em arcar progressivamente com mais e mais responsabilidades e obrigações. E é basicamente nisso que reside toda a nossa ideia de maturidade: responsabilidades e obrigações. Sintomaticamente, quando uma criança está no meio desse processo de transição, geralmente é cobrada em relação ao seu comportamento com críticas do tipo: “você não tem mais idade para agir assim”, “tem que tomar um rumo na vida”, etc.

Obviamente, não estou defendendo aqui que temos que nos eximir de nossas responsabilidades e obrigações. Apenas chamo atenção para a concepção mesquinha e estreita que temos da vida adulta – e, ao mesmo tempo, para o modo aviltante e arrogante com que lidamos com a criança. Tais concepções não me parecem naturais – como, desnecessário dizer, basicamente nada do que diz respeito aos seres humanos enquanto seres sociais o são. Estamos imersos numa cultura que dá valor desmedido à produção e à vida material; logo, ao trabalho. Em semelhante cultura, certamente, não há espaço para “infatilidades”. É preciso se empenhar em atividades monótonas e alienantes, ser parcimonioso, frio e calculista; numa palavra: é preciso abdicar dos prazeres da vida – e quando eu digo prazeres da vida não me refiro a essa ideia deturpada que se faz deles; tais prazeres não se resumem a beber e comer bem, mas se estende a vários aspectos da vida, como a família, as amizades, o ócio criativo, a natureza, as artes, etc. – para dedicar-se única e exclusivamente ao trabalho. Ora, é precisamente nesse ponto que começa a crise na vida de todas as pessoas. A vida, que ia bem até aí, estraga-se da noite para dia. Daí porque dizemos: “Ah, que saudade da infância! Eu era feliz e não sabia”.

A criança não se interessa por resultados, metas, objetividade, cálculo; desgraçadamente (para ela), a criança não nasce como um pequeno indivíduo tipicamente capitalista (da Era capitalista). Ela nasce simplesmente criança, e, como tal, interessa-se pela beleza, pela diversão, pelas pequenas coisas da vida. Antes que o mundo destroce seu espírito, ela tem todo um mundo para descobrir. A criança é por natureza uma filósofa, uma cientista e uma artista. Ela gosta de contemplar – uma faculdade que, por demandar tempo e paciência, caiu em descrédito diante de uma sociedade que cobra resultados ótimos em relação ao melhor custo/benefício possível –; é curiosa, se entretém com as mínimas coisas – aliás, o que vemos na criança como facilidade de distrair-se, a criança vê como interesse legítimo pelas coisas que, aos adultos, são invisíveis –; é criativa, sensível, ama a beleza e as formas. Diante disso, não é de estranhar que a sociedade se encarregue de suprimir todas essas qualidades na criança. Quando ela o consegue, passamos a chama-la de adulto.

E para voltar a essa questão, qual seja, a da passagem da vida infantil para a adulta, o ponto aqui não é defender que tal passagem é uma criação abominável, antinatural, e que deveria ser abolida (embora ao menos a forma como a concebemos deveria, em tese, ser abolida); a questão aqui é: porque precisa existir um ponto de ruptura e separação absolutas entre a criança/infância e o adulto/maturidade? Ou, noutras palavras e melhor dizendo: porque precisamos matar a criança para tornarmo-nos adultos? O que impede o adulto de ser mais parecido com a criança, ou, ao menos, de ouvi-la com sinceridade, de respeitá-la enquanto um ser legítimo, e assim aprender com ela? Será que não teríamos muito a aprender com ela?

Pergunta mais velha do que andar pra trás

Entender não é difícil
Na verdade, é bem fácil:
“Não faças aos outros o que não queres que façam contigo”
Pode algo ser mais simples do que isso?
Princípio categórico, imperativo
Imediatamente evidente
Então por que fazemos o contrário?
Porque é tão complicado
Fazer dessa fraseologia vazia
Uma real filosofia de vida?

Sentimento ruim

Não me venha com essa
De me contar o que você fez
Faz ou deixa de fazer
Não quero saber de você
Não me diga que as coisas são assim mesmo
Com esse ar de superior benevolência
E que, afinal, é bom que assim seja
Já que não era mais pra ser
Nem diga que quer participar da minha vida
Como dois grandes amigos
Porque o tal do sentimento permanece vivo
Na nossa longa história
E porque depois de tanto tempo juntos
É absurda a indiferença
Que precisamos ser maduros
E encarar o fato de frente
Que o que passou, passou
E importa apenas o que restou da gente

Não esfregue sua felicidade
Que pelo visto vai muito bem
Na cara da minha saudade
Não me diga que está bem
Com esse olhar de piedade
Não preciso do seu vintém
Resta-me ainda dignidade
E eu sei mostrar desdém
Com um pouco de vaidade
Sei guardar rancor também
Sai pra lá com essa bondade
Porque por hoje, meu bem
Só tenha uma única vontade
Ver você sofrer também

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Fim

Como dói
Dar-se conta
Da perda
Do fim
Que não tem volta

E falta o ar
Com que respirar
E desaba o chão
Sob os pés
E não mais se vê
É tudo escuridão
Deixa-se de crer
Perde-se a fé
E a razão

Mas como só acaba
Quando termina
A gente continua
Nessa busca
Chamada vida
E, no final
Quem não espera
Encontrar
O que procura?

A Coca-Cola e o marketing

A Coca-Cola, um símbolo literalmente onipresente no mundo e o mais emblemático no que tange ao propalado estilo de vida norte-americano, realiza todos os anos uma caravana natalina pelas cidades do país. Eu, curiosamente, desconhecia essa já “tradicional” caravana da Coca-Cola. Vi-a, com olhos incrédulos e horrorizados, ontem. Se nalgum dia de minha infância já havia presenciado essa cena grotesca, sou grato por não lembrar. O que, aliás, me deixa orgulhoso: em certa medida permaneci fora do raio de alcance de sua deletéria influência ideológica.

Fiquei pensando no enorme poder emocional que campanhas como essa exercem sobre as pessoas – quero dizer, consumidores. Aliás, a Coca-Cola talvez represente o caso mais bem-sucedido de marketing na história do capitalismo. Seu sucesso não se deve (apenas) às altas doses de açúcares, compostos químicos artificiais, praticidade e baixo preço (quatro características altamente viciantes). Muito menos à “visão de mercado” (seja lá o que isso signifique), empreendedorismo, competitividade, e outras bobagens pseudocientíficas que se ensina nas escolas de administração. Se é possível sintetizar a megacorporação Coca-Cola numa única palavra, essa palavra é: marketing.

Marketing sendo a palavra eufemística socialmente aceita para designar “falsa ideia e/ou sentimento vendidos através de uma mercadoria qualquer, ideias e sentimentos que a mercadoria não contém nem pode conter”. Pode ser que a ideia não seja falsa em si. “Viva o que é bom”, “viva positivamente”, “gostoso é viver” (slogans da Coca) podem ser ideias verdadeiras. Mas quando se analisa o contexto e o emissor da mensagem imediatamente compreende-se que não passam de hipocrisia e cinismo, cuja única finalidade é vender. Se o contrário vendesse – tipo, “seja pessimista, a vida é uma merda” –, não tenha dúvida que seria essa a divisa estampada nas garrafas de Coca. Mas, obviamente, isso não vende. Num mundo carente de esperança e alegria, é a promessa do que falta que vende.

E ninguém é tão mestre e versado na arte de semear falsas ideias e ilusões do que a Coca-Cola. Pense nas suas propagandas, lembre todas que você já viu, pense em suas campanhas de responsabilidade social, e você vai entender o que estou tentando dizer. Não é preciso pesquisar. Tal como a verdade platônica, essa compreensão também está dentro de você, impregnada por anos e anos de propaganda ideológica. Em certa medida, o “conhece-te a ti mesmo” do templo de Delfos, é também uma forma de conhecer o capitalismo. Pensemos, por exemplo, no papai Noel, já que o pano de fundo dessa discussão é o natal. A imagem que certamente lhe vem à cabeça, de um velhinho rechonchudo e branquelo, de bochechas róseas e barba encanecida, trajando roupas vermelhas de inverno, é justamente uma peça comercial da Coca-Cola.

Se houvesse sinceridade neste mundo, os marqueteiros, junto com seus empregadores empresários (e figuras políticas), seriam presos por estelionato. Claro que o marketing pode ser usado, igualmente, para vender uma ideia boa. Mas ideias boas não precisam de marketing, elas vendem por si só. O que precisa de marketing são as ideias ruins. Aliás, como você acha que as ideias ruins prevalecem sobre as ideias boas? Marketing!

A ideia falsa que a Coca-Cola vende através de suas campanhas publicitárias é que a sua garrafa contém mais do que compostos químicos potencialmente carcinogênicos: contém otimismo, esperança, felicidade; contém, ainda mais, a própria magia do natal. E, afinal, existe data melhor para empurrar uma mentira deslavada dessas do que o natal? O natal (junto à virada do ano) é o momento em que toda a merda vivida num ano inteiro de trabalho absurdo e insuportável é esquecida; é quando as esperanças são renovadas (artificialmente) para, no ano seguinte, fazermos a mesma coisa que instituições como a Coca-Cola querem que façamos sempre: trabalhar para consumir. Logo, o natal é como uma porta aberta, um momento de baixa imunidade, às ideologias do capitalismo. Nesse mês ficamos ainda mais crédulos.

Quando comecei este texto, tinha em mente abordar o caso do Coca-Cola sob o ponto de vista do problema de saúde pública da qual ela é um fator de peso (literalmente). Mas um assunto puxa o outro: como a Coca-Cola pode se atrever a falar em viver positivamente, com alegria, vendendo o veneno que vende? Daí a necessidade do marketing: não cairia bem colocar uma caveira em seus produtos, embora isso fosse o mais honesto. Ao invés de caveira, otimismo, felicidade, esperança e um papai Noel fofinho!

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Gadgets

Não saio de casa sem celular
Um Smartphone, claro
Não dirijo mais sem GPS
E, na faculdade, levo sempre o notebook
Em suma, nada faço sem meus Gadgets
E nunca deixo de estar conectado
Ah, que saudade da época que Gadgets
Era um relógio da Cássio
E um canivete!

Física política

Queria ser um elétron
Para ocupar dois lugares
Ao mesmo tempo
Sem me importar com limites corporais

Abaixo Newton
E sua mecânica antiquada!
Abaixo a física clássica!
Viva a física quântica
E a anarquia das partículas subatômicas!

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Carinho

Se o amor é uma coisa humana
O carinho é universal
Não há ninguém que não o queria
Nem que, ao recebe-lo, não o entenda
E, afinal, o que é o carinho
Senão uma forma diferente de amor?
É o amor sem teoria, em estado bruto
É o amor que se sente, e não que se diz
O Amor é ideal; o carinho é concreto, material
Do carinho, até as mais terríveis bestas gostam
Quanto mais eu, um pobre ser humano infeliz
Se o amor acabar, que o carinho nunca acabe!
Se o amor faltar, que o carinho nunca nos falte!

Deu a louca no Papa?

Detesto admitir, mas o Francisco I, de nome Bergoglio, me surpreendeu. No começo, achei que suas declarações não passassem de jogo de cena. A Igreja está em crise, e a escolha de um papa latino-americano, pela primeira vez na história, significaria sobretudo uma concessão da Santa Sé para com seu curral de ovelhas mais importante, onde o pentecostalismo que cresce a olhos vistos tem ameaçado significativamente a hegemonia católica.

Por outro lado, lá no velho continente, o Vaticano está às voltas com crises internas que repercutem em escândalos grotescos – e nada santos ; cite-se, em especial, corrupção financeira e pedofilia. Sem dúvida, isso tem maculado a imagem da Igreja Católica – se é que, para quem conhece um pouco de história, se pode macular ainda mais essa vestal imunda. Há ainda um fator adicional, que, vale dizer, talvez não seja mais que uma percepção subjetiva minha, mas que também joga contra ela: o novo consenso que as poucos se forma em torno de temas antes tidos como prerrogativa religiosa, como família e sexualidade. Entre eles, podemos citar o direito ao casamento gay e à liberdade reprodutiva da mulher. Esse novo consenso vai diretamente contra os dogmas do cristianismo. Tal como aconteceu no passado com relação a outros temas, o poder da Igreja vai sendo rebaixado até em seus últimos bastiões. 

Em suma, a Igreja Católica enfrenta uma tempestuosa crise, já sobre sua cabeça há algum tempo, mas bastante agravada depois do pontificado de Bento XVI. Os prelados do alto clero sabem disso. Quem acha que eles não passam de monumentos medievais embalsamados, sem qualquer contado com o mundo contemporâneo, se engana redondamente. Não que eles estejam em sintonia com o sentido desse (novo) mundo. Ao contrário, se opõem a ele. Mas, para ser bem sucedidos, precisam de uma estratégia coerente e eficaz. Eleger pela primeira vez na história um cardeal latino-americano e, ainda por cima, jesuíta seria parte dessa estratégia. A começar pelo nome escolhido, Francisco, em homenagem a São Francisco de Assis, conhecido por ter sido devoto da pobreza e fiel seguidor do estilo de vida e das pregações originais de Cristo. Tido como humilde e simples, frugal e conciliador, Bergoglio era o nome perfeito para levantar o moral dos católicos. 

Desde o início, para mim, era disso que se tratava todo esse espetáculo midiático em torno da eleição do novo sumo-pontífice, escolhido a dedo, de caso pensado. Aquilo me aborrecia tremendamente, e não pude evitar de pegar, desde logo, antipatia pelo novo papa, até porque sou e serei sempre desconfiado quando o assunto é religião, ainda mais de uma religião com um legado vil como o do cristianismo. 

Agora tenho que admitir que essa antipatia está se convertendo em simpatia. O que aparecia para mim como uma tática velhaca e sórdida, agora se parece cada vez mais como uma disposição sincera do novo papa. Tudo começou com seu comportamento antiprotocolar e descerimonioso, sua aversão às pompas e ao luxo típico do alto clero. Tudo bem, disse a mim mesmo, isso não passa de populismo. Depois vieram atos como lavar o pé de detentos durante cerimônia importante. Não bastasse lavá-los, o papa os beijou! E ainda disse que os de cima têm de servir aos de baixo. Os “de cima” devem ter se horrorizado com essa declaração. Insisti comigo mesmo: populismo, papa esperto. 

Contudo, com suas mais recentes declarações, parte do documento fundamental que deve guiar seu papado, ficou muito mais difícil sustentar a tese de populismo. Francisco foi bastante incisivo em sua crítica ao capitalismo: mais do que focar supostos “excessos”, como seria mais plausível, o novo papa ataca o capitalismo em si, como paradigma econômico. Em especial, ele ataca uma noção econômica muito corrente nos EUA, qual seja, o conjunto de medidas que hoje chamamos de neoliberais. Para Francisco, a eficácia dessa política econômica – a sua capacidade de gerar e distribuir riqueza –, simplesmente não podem ser confirmadas pelos fatos, e que é muita ingenuidade esperar que os de cima façam alguma coisa pelos de baixo. No plano interno, Francisco propôs a descentralização da estrutura organizacional da Igreja, tão rigidamente hierárquica nessa instituição quanto num exército. Diante disso, nos EUA, a extrema direita está puta da vida com o novo Papa, e já advoga a necessidade de intervir militarmente no Vaticano para derrubar o papa rebelde... 

É cedo para supor em andamento uma revolução ideológica na Igreja, tanto porque o papa Francisco é apenas um homem – embora na figura de líder máximo da instituição e representante supremo de Deus na Terra –, quanto porque o peso da tradição conservadora sobre os espíritos divergentes é esmagador. Tal suposição seria, ademais, bastante ingênua. Mas é alentador ver as iniciativas do novo papa, e o receio e desdém que elas têm suscitada entre os círculos mais reacionários. Alguns deles já acusam o papado de Bergoglio de marxista. São uns estúpidos, evidentemente. Mas, de nosso lado, seria também uma estupidez brutal ignorarmos essa mudança tangível de direção. Se continuar assim, o papa Francisco sem dúvida encontrará muitas dificuldades pela frente e fará muitos inimigos. É preciso que ele saiba que, se ele estiver disposto a levar a Igreja e o cristianismo do século XIII para o século XXI (e, de quebra, leva-las de volta às suas raízes), não faltará apoio do nosso lado. Se extinguir o cristianismo é impensável, ao menos que façamos dele uma religião melhor. 

(Claro que essa minha impressão pode ser apenas isto, uma impressão, ou pode ser defraudada. O tempo dirá. Fiquemos atentos.)

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Fechando o ciclo

É chegada a hora
Hora tão esperada
De colocar os pés descalços
Nos caminhos da estrada
De enterrá-los, fundo
Na areia cálida da praia
De molhar a cabeça
Nas águas sagradas do mar
É hora de caminhar
De me perder de novo
Para alguém encontrar
Antes de voltar, renovado
Por outro caminho qualquer
Quer ir junto? Levo-te comigo
Vamos conhecer pessoas
Vamos rir e dançar à toa
Ter histórias pra contar
Porque é chegada a hora
A hora de ir embora
Com o coração tranquilo
Para encerrar esse ciclo
E começar outro
De alma lavada

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Considerações de um viajante

Na vida, há infinitas estradas
Tem pessoas que dão voltas e voltas
Em falso, sem chegar a lugar algum
Tem quem vá, certo de si, em linha reta
Acreditando, assim, conquistar o podium
Mas, no final, só conseguem se perder na própria meta
E, coisa estranha, sem deixarem de crer-se no prumo
Fazem cálculos geométricos, ponderam tempo e custo
Andam rápido, mas não olham para os lados
Se alguém fica para trás, abandonam-no, é cada um por si
Diferente desses, há aqueles que giram e giram e giram
E que encontram seu caminho justamente nos círculos
Que outros, os muito seguros, veem como descaminho
Eu pertenço a essa última categoria, a dos perdidos
Que gira, que se extravia porque quer, que sai da trilha
Que prefere seguir sem sentido, sem bússola
Sem mapa, ignorando as placas de aviso
Se existe ponto de chegada, nem todos o alcançam
Porém o certo mesmo é que existe caminho
Qualquer um, porque é preciso caminhar
É correto, portanto, dizer: caminhos, no plural
No infinitivo, porque o que importa é caminhar
Seja qual for o teu, ele jamais está pretraçado, predefinido
É preciso fazê-lo, um pouco sozinho, um pouco acompanhado
Porque o caminho se faz no caminhar, em ato
Não há certo, nem errado; do bem e do mal quem sabe é você
Se errar, ou mudar de ideia, volta, retoma, revoluciona-se
Sem medo, sem culpa; vá com calma, contemple, tateando com o coração
Aprecie a paisagem, porque a vida é uma só, e é breve
Então, divirta-se e aproveite a viagem

A propósito de Mandela

Sua história, complexa e contraditória como todas as histórias, pode e deve ser vista e revista a partir de um prisma objetivo e científico. (Re)encontrar a pessoa de Mandela – quem ela foi –, parte necessariamente da análise desapaixonada do que ela disse e fez – antes, depois e durante. Somente a partir deste ponto de partida concreto pode-se fazer um balanço crítico de quem Mandela realmente foi, seu papel e significado para a emancipação da África e do povo negro.

Nem terrorista, nem revolucionário (coerente), Mandela foi, antes de tudo, um ser humano, que, como tal, nem sempre fez escolhas acertadas. Creio que, enquanto pessoa, enquanto ser humano, seu caráter, a honestidade de suas motivações, a abnegação e seriedade com que levou adiante o fardo pesado da luta contra o apartheid não podem ser questionados. Se hoje o CNA é acusado de trair a causa pela qual se propôs a lutar – que não se restringia ao fim do apartheid, mas se estendia à soberania nacional e à justiça social –, isso não deve ser creditado apenas a Mandela; ou melhor: sua parte de culpa, assim penso eu, deve-se a escolhas equivocadas e não à corrupção de seu caráter.

Mandela nunca traiu a causa negra, o CNA sim. Ele não foi comprado pela elite capitalista branca dominante, nem, tenho certeza, tinha por objetivo fazer surgir uma (pequena) elite capitalista negra enquanto a grande maioria do povo negro continuasse sob o jugo, agora velado, do apartheid. Mas aliar-se a seus algozes a fim de fazer uma transição pacífica não teve por efeito apenas evitar uma guerra civil; pagou também o preço de manter intacta as relações de poder que constituíam os alicerces do apartheid. Mandela optou pela pior opção quando todas as portas para uma profunda reformulação da sociedade sul-africana estavam abertas.

Mas, para além da análise objetiva de quem foi Mandela, temos de compreender como nós o vemos e porque. Aqui entra a questão da memória coletiva e histórica, que não necessariamente se confunde com os fatos. Mandela, como toda figura histórica de grande importância, transformou-se num mito. E esse mito, o Mandela-símbolo, está em disputa. Não é a toa que aqueles que há trinta anos chamavam o líder da resistência negra sul-africana de terrorista hoje tentam, hipocritamente, depura-lo – o Mandela Nobel da paz – em uma figura inofensiva, arrependida e absolvida de seus pecados.

Contra essa imagem de um Mandela santo, que sofreu no calvário e que, como Jesus, foi capaz de perdoar seus algozes, é contra essa imagem que temos de lutar. Mandela foi antes de tudo um revolucionário. Um dos mais importantes de todo o século XX. O que deve ficar para nós não é o Mandela pacifista, aberto ao diálogo e pronto a perdoar seus algozes fascistas. Para nós, fica a lembrança do Mandela antirrascista, antiimperialista e anticapitalista. Por isso, elites ocidentais conservadoras, tirem suas mãos sujas de cima do Mandela!

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Ler um livro é como viver um romance

Ler um livro é envolver-se pessoal e emocionalmente
É uma espécie de namoro, de conúbio
Que, ipso facto, tem seus altos e baixos
Como qualquer outro relacionamento
De início, nos damos de bom grado
Com prazer, descobre-se as páginas
A leitura flui, rápida, apaixonada
O entrecho, misterioso, cativa
O leitmotiv parece especial, único
Os personagens são interessantíssimos
Depois, lá pelo meio, cansa-se
A leitura arrasta-se, quase obrigada
Não há mais tesão, apenas compromisso
Começa a se perceber problemas antes não atinados
Bem da verdade, se os cria, por implicância mesmo
Esforça-se por continuar, força-se a permanecer lendo
Para, abandona, retoma, para novamente
Como se se não pudesse deixar as coisas pela metade
Mal resolvidas, inacabadas
E, entre tapas e beijos, brigas e arroubos de paixão
Chega-se ao ponto final
Este, assim como em toda história de amor
Pode ser traumático ou sereno
E a separação pode carregar mágoa ou afeto
Mas sempre, inevitavelmente, chega-se ao fim
De modo que se está livre para ler novamente
Um outro livro, prenhe de novas aventuras

A bunda

Das redondas e empinadas
Diz-se que são calipígias
Perfeitas carnes de Vênus
Mas é as grandes e gordas
Que o vulgo mais elogia
Desde que tenham tônus
Embora as fofas e macias
Boas de esmagar com as mãos
Estejam também entre as preferidas
Sejam brancas ou negras
Melhor ainda quando morenas
As magras, de delicada silhueta
Também têm seu charme
São como maçãs ou peras
Tenras, dão água na boca
Vontade louca de morder
Ah, desejado pedaço de carne!
És a quintessência da fartura!
Ah, louvada seja a bunda!
E como abunda, como abunda!

Do futuro

A vida não deve ser somente a rudeza
Do pão suado que se tem que ganhar
A vida deve ser o livre gozo da beleza
Que dá a natureza sem nada cobrar

Tenho esperança de que num belo dia
Desses cálidos, iluminados de domingo
Quando tudo fará novo sentido na vida
Seremos capazes de compreender isso

Amaremos por que é feliz saber amar
Nada de egos e ismos tão mesquinhos
Nem da morte atemorizar-nos sozinhos

Nada de angustias fúteis a nos acossar
Nem de sentir-nos assim, só e perdidos
Amaremos apenas, porque é feliz amar

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Lá vai um bobo

"Lá vai um bobo!"
Dizem as más línguas.
Ele sorri a torto e direito,
Cumprimenta a todos,
Fala consigo mesmo,
E - o cúmulo do absurdo -,
Canta e dança na rua!

É um pobre coitado,
Não sabe da maldade do mundo,
Não vê ruindade em nada,
Nem malícia em ninguém.
Unas acham graça,
E dele fazem troça,
Outros se condoem,
Como se se condói de uma criança,
Inocente e desemparada.
Mas quando ele passa,
Todos apontam e dizem:
"Lá vai um bobo!"

Por fim, escarnecem,
Sorriem o sorriso dos altivos,
E ao bobo dizem:
"A mim ninguém engana!
Contra a maledicência de todos,
Eu os maldigo por antecedência!
Estou sempre preparado, precavido;
Ora, se o mundo todo é-me inimigo,
Ando sempre desconfiado,
Pronto a dar o troco."

Mas o bobo nem dá por isso;
Segue pelo mesmo caminho,
A cumprimentar de graça,
A sorrir sem motivo,
A cantar e dançar e sozinho;
Mas um dia todos dirão:
"Lá vai um bobo!
Um bobo de bom coração,
Um bobo bom e feliz."

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Fracasso / Vitória

O fracasso ou a vitória
Uma linha tênue
Uma corda bamba
O fio de uma lâmina
De um lado a glória
Do outro a infâmia
Espada de Dámocles
A colecionar cabeças
E são sempre os inocentes
Os primeiros a perdê-las

domingo, 24 de novembro de 2013

O corpo

O corpo
De cada qual, o quinhão no mundo.
A única coisa que se traz na chegada,
E se deixa na partida.
Do ponto de vista, é o ponto;
Substrato de todo ser.
Ao mesmo tempo que comunica,
Isola, separa - é muro,
Que entre o eu e o mundo se levanta.
O que veem estes olhos,
Que a terra um dia há de comer,
Ninguém nunca poderá ver.
E se alguma vez é dado saber de si,
Dificilmente, do outro,
Se sabe alguma coisa com certeza.
Alguém uma vez disse,
Que cada um sabe a dor e a delícia,
De ser quem se é.
Mas quão triste não é,
Não se fazer entender;
E não conseguir sentir,
Na pele, a dor e a delícia alheia.
Eu queria rasgar este corpo,
Me dissolver no outro,
Sentir com a sua mão,
Ver com os seus olhos,
E beijar com a sua boca.
Ser contigo, ser com todos,
Sem corpo, um só.

Estou aqui pra brincadeira

Daquele que faz as coisas de forma bem feita,
Que leva a sério o que faz,
Diz-se que “não está para brincadeira”.
Ora, nesse sentido,
Não se sabe em que se diferencia
O trabalho do ser humano
Do da máquina,
Quando, na verdade, o que nos caracteriza,
É justamente a poiesis grega,
Lúdica e criativa por natureza.
Criar e fazer é, necessariamente, ter prazer.
Por isso, contra esse saber corrompido, eu digo:
Sim, eu estou pra brincadeira!
Sim, eu vim ao mundo a passeio!

sábado, 23 de novembro de 2013

Clara

Não se avexe, não
Branca mais preta
Mineira d’alma africana
De sangue carioca
E ginga baiana
De pés caiçaras
E coração sertanejo
Embora não foste mãe
Deixaste uma nação inteira órfã
Quando ainda tão cedo
Por arcanos do destino
Partiste deste mundo
Deste Brasil tão mestiço
Que cantaste com teu canto
Que encantaste com teu sorriso branco
Que comoveste com teu pranto
Mas a luz que a teus filhos deixaste
Essa clara claridade
Clara guerreira
Não se apaga jamais
Quando tu cantas
Canta também a esperança
A profissão do povo brasileiro

O mal do século

Vejo o celular
Só uma mensagem
É da operadora
Penso em fazer aquela ligação
Prometida há meses
Quem sabe depois

Checo a caixa de e-mail
Só me chegam cartas automáticas
Geradas por computador
Ofertas de produtos
Oportunidades de quitar aquela dívida
Às vezes até me cumprimentam pelo aniversário

Quanto à caixa de correio, nem me dou ao trabalho
Há tempos que por lá só chegam contas
Boletos, faturas de cartão
Chegam também livros
Mas livros não são pessoas

Procuro então no Facebook
Idem, nenhum contato
Paro para ver as pessoas interagirem
Constato, com horror, que eu virei uma espécie de voyeur
Satisfeito a observar as relações alheias
As pessoas parecem estar felizes
Pejadas de vida e de amor
Cada vez mais emocionalmente próximas

Decido sair
Me escoro no balcão do bar
E fico a olhar em volta
Risadas, gestos, beijos, abraços
Comemoram, juntos
A alegria de estar vivo
Tomo meu pileque
E volto para casa
Quem sabe um filme

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Sobre mídia e mensalões

Não pode haver dúvidas que, não fosse o papel desempenhado pela mídia em armar o circo, não teríamos a ação penal 470 ou, ao menos, não da maneira que se desfecharam os fatos. Nada mudou. Não abrimos uma senda irrevogável em direção a novas searas da prática política, menos corruptas. Essa pode ter sido a razão aparente, mas existem motivações mais profundas – e menos confessáveis – envolvidas, agindo sob a superfície.

Seria uma inocência – para não dizer burrice – sem par acreditar que a ação penal 470 abre um novo momento, mais auspicioso, para o Brasil, seja na prática política, seja na judiciária. O STF que dessa vez condenou líderes importantes do PT é o mesmo que invariavelmente livra empresários corruptos da cadeia e engaveta processos contra agentes públicos do alto escalão. Seria no mínimo estranho que nossos magistrados supremos um dia acordassem com sede de justiça. 

De outro lado, nada mais risível do que o bom-mocismo do PT. De fato, não duvido que tenha havido aí, em sentido muito amplo, uma espécie de golpe. Mas um golpe da direita contra a direita, isto é, de uma direita mais à direita do PT. No jogo político que este aceitou tomar parte, esse tipo de jogada é, se não válido, perfeitamente normal. Quanto à hipocrisia da direita tradicional, ela é, para qualquer um pobremente informado, digna de asco. 

Entretanto, esses atores são, na minha opinião, secundários. O grande protagonista dessa história toda foi a grande mídia – ou melhor, o punhado de famílias que monopolizam os meios de comunicação praticamente desde que eles existem e que determinam o tipo e a qualidade de informação que se veicula no país –, na mais nova demonstração de força que ela exerce sobre os rumos da política. Essa mídia já fez um presidente se matar, fomentou um golpe que levou a uma ditadura de duas décadas, derrubou um outro que ela mesma ajudara a eleger contra um metalúrgico que tinha todas as probabilidades de vencer, e os exemplos se sucedem. 

Mas hoje é diferente. Hoje é o PT que dá as cartas, e ele é generoso e paga muito bem seus aliados por isso. Então a grande mídia é burra ao pretender, infatigavelmente, se desfazer da galinha dos ovos de outro? Não creio. Não se trata apenas de quem paga mais. É óbvio que a grande mídia, assim como qualquer outra organização capitalista, obedece a quem paga mais. Mas para além de interesses pecuniários, ela também esposa ideologias que se expressam num projeto de sociedade e que, portanto, tem também uma dimensão política. E a grande mídia, monopolizando os meios de comunicação, tem em mãos um grande poder para executá-lo. Não apenas tem o poder, mas também a vontade, como deixou muito claro certa feita Roberto Marinho, ao afirmar que sim, que ele usa(va) o poder. 

Não há instituição mais reacionária neste país do que a “nossa” grande mídia, esses malditos Marinhos, Mesquitas, Frias, Civitas, Saads, Abravanels. Por mais que os governistas, nomeadamente o PT, se esforcem em fazer dela uma aliada isso é impossível. O PT é um outsider, e sempre será visto com desconfiança. Ademais, os vínculos que a grande mídia mantém com as elites políticas são, por razões históricas, muito mais orgânicos com seus representantes tradicionais de direita, e, a não ser que PSDB, DEM e PP sejam completamente esmagados, dificilmente o legado de três mandatos petistas, tampouco um possível quarto, poderá mudar isso. 

Por outro lado, o STF foi, antes de mais nada, um joguete dessas forças em conflito. Não que em alguma medida seus membros também não sejam anti-petistas (e, por extensão, anti-esquerdistas, embora haja aí um equívoco de percepção), dado suas origens de classe e o sentimento que normalmente vige no seu ambiente jurídico. Mas, mais importante do que isso, o mensalão botou em jogo interesses pessoais, acicatados pela grande mídia, especialmente no caso do Joaquim Barbosa, que agora está a um passo de ingressar na política com um capital inicial já bastante elevado. 

Que não se pense que eu estou aqui comprando a briga do PT. Estou apenas tentando compreender um fato, que, como todo fato, pode ser iluminado a partir de vários ângulos. Os companheiros do PSTU fizeram já uma justa crítica ao PT, a qual eu compartilho essencialmente. No final das contas, o PT cavou sua própria cova ao aceitar as regras do jogo (não do jogo democrático em si, mas da maneira corrupta com que se jogam suas partidas). A condenação do STF foi justa, isso não se discute, embora por motivos errados. Mais do que a ação correta, são os motivos errados que devem nos interessar principalmente.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

O dia

Amanhã é o dia
Amanhã é o grande dia
Porque todo dia é grande
Para quem que crê
Que toda manhã traz sempre um novo dia
Então, para o novo, prepare-se
Como se amanhã fosse o dia
Como se amanhã o grande dia fosse
Porque todo dia não é mais nem menos: é grande e é novo.

Pelo dia da consciência negra

A necessidade de um dia da consciência negra é clara, é óbvia, assim como de um dia da mulher, do trabalhador, do orgulho gay, etc. A própria resistência que esse simples gesto encontra – na voz daqueles cuja ideia de justiça é a mesma que há no argumento de que se há um dia da consciência negra deve haver também um para a "consciência" (sic) branca – já é um bom indicativo da sua necessidade. Só não vê isso quem está impregnado até a medula de preconceitos, incluindo muitos daqueles que sofrem com eles, ou que antepõem seus interesses imediatos e mesquinhos à luta (que deveria ser) de todos.

A memória histórica enquanto uma narrativa mítica é tão poderosa que ainda hoje acreditamos em democracia racial brasileira só porque não instituímos leis de segregação formais ou porque senhores de engenho brancos estupravam suas mucamas negras. Ainda hoje tem gente que acha que comer uma negra faz dela uma pessoa sem racismo. Todas elas têm algum amigo negro, mas acham que a cota é que é o verdadeiro racismo, e que muitos negros se fazem de vítimas para ganhar um privilégio. Não é difícil encontrar pérolas como essa por aí. Donde, também, a necessidade do dia da consciência negra: colocar em evidência uma causa, debate-la, mostrar quem é quem no debate.

Democracia racial é uma história da carochinha contada pelos vencedores a fim de manter o negro no lugar dele e o branco ainda mais cioso do seu. Tal coisa não existe e nunca existiu, e uma infinidade de estatísticas e estudos o provam. Aliás, as marcas da exclusão estão por todos os lados, tem que ser cego ou cínico para não vê-las. O negro recebe salário inferior ao branco, está sobrerrepresentado nos piores trabalhos e nas piores habitações, tem muito mais chances de morrer assassinado do que um branco, lota as prisões, e por aí vai. É só pesquisar. Do mesmo modo que não existe democracia racial, também não existe igualdade entre os gêneros, nem identidade de interesses entre empregado e patrão, nem liberdade sexual para os que não se encaixam no padrão papai-e-mamãe, para aduzir apenas a algumas formas de preconceito e opressão.

Por certo, em nenhum lugar está escrito que um negro tenha de morar na favela, ou que uma negra tenha que trabalhar como faxineira na casa de uma branca. Aquelas estatísticas são apenas a soma, o resultado e o resumo de uma longa cadeia de relações sociais, de práticas e ideias que, do ponto de vista macrossocial, determinam um lugar desigual a certa parcela da população identificada pela cor negra (ou parda). Mas são nos pequenos e aparentemente inocentes comentários, piadas e opiniões racistas que essa situação se reproduz cotidianamente. E num dia como o da consciência negra esses comportamentos vêm à luz, e pode-se ver claramente o quanto o racismo é mantido debaixo dos tapetes. E, insisto, tudo o que vale para o racismo vale para a homofobia, para a misoginia, para a xenofobia, etc.

Instituir um dia para colocar em pauta essas questões é pouco, mas já é muito; é um começo. E esse muito pouco, já é demais na visão de uns. Um sinal de como, de fato, se trata tão-somente de um começo, e que ainda há muita luta pela frente. Porque se trata, sem dúvida, de uma luta. Esses dias não caem do céu pelas graças dos governantes. Foram-lhes arrancados. O que não impede que se o transforme num engodo, do tipo: “pronto, vocês já têm o seu dia, agora não falemos mais nisso”, tal como aconteceu com o dia do trabalhador, por exemplo, que virou dia do (descanso do) trabalho. Mas sempre haverá os grupos comprometidos com a luta para chamar as pessoas de volta à essência do significado da data.

Não se trata de redimir formalmente um erro passado, sem ligações com o presente – tanto mais porque o que foi feito, foi feito. Nada vai mudar séculos de sangue, suor e lágrimas derramados. Nada pode redimir os que sofreram direta ou indiretamente com esse passado. A maioria das pessoas comuns, desinformadas, mesquinhas e ocupadas demais com seus próprios problemas, acha que é disso que se trata: uma dívida eterna herdada por quem acredita que não tem nada a ver com a história. Mas não é. Se você herda o latifúndio de seu avô grilado de terras públicas ou indígenas você não tem nada com isso? Mas também não é exatamente disso que se trata. Não é a culpa de um passado vil que se visa redimir, mas as injustiças que existem hoje, no presente, cujas raízes remontam àquele passado, sem dúvida, mas que em grande parte mantêm-se agora por si mesmas. Não precisamos olhar para o passado para compreender a necessidade do dia da consciência negra; basta olhar para o presente (e para o lado).

Por fim, não só de miséria econômica, racismo e marginalização vive uma dívida histórica. A luta é também pelo resgate e preservação de uma memória, com a dignidade que ela traz consigo. Às vezes, a dor de ter suas raízes desrespeitadas, esquecidas, negadas, deturpadas, é maior do que todas as dificuldades que se impõem ao negro hoje. É por isso que os familiares das vítimas diretas da ditadura militar, por exemplo, trocariam sem titubear suas pensões pela verdade e pelo respeito à memória dos seus entes queridos. Por isso tudo e por mais um monte de razões, viva o dia da consciência negra!

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Dilema

Eis o dilema de hoje:
Fazer de tudo um pouco, mas não ser bom em nada
Ou especializar-se numa única cousa, fazendo-se bom nela
Ao preço de manter-se cego, ignorante e alienado a tudo o mais?
Aceitar a condição de pequena peça
Desimportante por si mesma, mas indispensável ao todo
Cujo funcionamento se concebe como uma máquina
Ou pretender, ainda que condenado de saída ao fracasso
Tal como os heróis trágicos dos mitos antigos
Abraçar o mundo todo, e tudo que nele existe
Com esses pequenos e tíbios braços de humano?
Difícil dilema, pois se, de um lado, tudo aquilo que chamamos de cultura é necessariamente bom
Quer-se, legitimamente, aproveitar de todo este legado, como é de direito
Embora, de outro lado, se cada um de nós se satisfizer em ser um diletante
Correríamos o risco de botar freio nesse processo, de empacar e não ir além
Em suma, ser tudo é não ser nada, e não ser nada é ser tudo
Como resolver essa dialética?
Critica-se hoje a especialização burra, advoga-se a interdisciplinaridade
Mas, na prática, fazemos tudo ao contrário
Aquela erudição culta, aquele saber enciclopédico
O traço distintivo do tempo das luzes, não existe mais
Um dia matamos Deus, só para nos colocar em seu lugar
Agora matamos a nós mesmos, e, caídos, tornamo-nos fatalistas, niilistas, cínicos
Tal como as peças de uma máquina seriam se tivessem a faculdade de pensar
Eis aí outro dilema fundamental, que se não resolvido, não se resolve o primeiro: como colocar, no lugar dos caídos humanos deificados
Humanos humanizados?

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Tal vida, tal memória

Tu já paraste para pensar
Que tipo de memórias quererás ter
Quando a velhice avizinhar-te?
Não queres que teu melhor amigo
Seja um super-herói de desenho animado, não é?
Ou de vídeo-game, que seja
Nem que as aventuras que tenhas vivido
Tenham se passado em filmes hollywoodianos
Num sábado monótono (para não dizer solitário)
Muito menos que tuas histórias de amor
Tenhas vivido na pele de personagens sofríveis dalguma novela besta
Quando chegar a hora da morte
Que passará em revista pela tua cabeça?
Tu, sentado ao sofá, assistindo à tevê?
Mas eu não lhe digo para que imites a arte
Se é que é possível dar tal qualidade
A esse monte de bobagem televisiva
Que nos empurram diariamente
Não; exorto-te para que faças arte!
Para que vivas a arte!
Para que desatines dias desses!
Para que te percas por aí, sem norte!
Em lugares que nunca estiveste!
Fazendo coisas que nunca imaginaste!
Beijando bocas que nunca beijaste!
Acredite em mim quando lhe digo que é desse tipo de memória
Que quererás ter na hora da morte
Se não for para tê-las
Se for para ruminar essa existência bovina
A vida, de que vale?

Família desfeita

Entre uma tarefa e outra que faço
– Uma roupa que lavo,
Um chão que esfrego,
As galinhas que alimento
Algumas roupas que remendo –
Me pego pensando em você
Lembrando o que foi, e o que haveria de ser
Mas que o destino fez questão de frustrar
Lembra-se da primeira vez em que nos vimos?
Você todo tímido, desenxabido
Faltou-lhe coragem para me tirar pra dançar
Eu percebi, mas também não sabia o que fazer
E não é que depois de muito ensaio
Depois de muitas olhadelas de soslaio
A gente resolveu arriscar uns passos acabrunhados?
Você estava tão embraçado
Que eu perdi as contas de quantas vezes meu pé foi pisado
E eu nem senti, porque não conseguia parar de olhá-lo
Toda boba, admito
Éramos jovens, inocentes e esperançosos
Apaixonar-se era fácil
Mas agora isso
Este teu sumiço
De novo só tem feijão no fogo
E eu, o que devo fazer?
Você andará por onde?
Tinha que se meter na cidade grande?
Tanto pior no estrangeiro!
Lá longe, tão longe que eu não saberia dizer quanto
Lá se vai um ano – um ano inteiro! –
Sem notícias, sem saber teu paradeiro
Terá arrumado uma nova família?
Terá sido preso?
Ou pior, morto?
Onde estará você homem de deus!
As crianças estão crescendo
E a situação piorando
Tenho pensado em deixar o vilarejo
Aqui não há mais nada para nós
Não há mais terra, nem trabalho
Só miséria e sofrimento
Será que você estava certo desde o começo?
Mas eu tenho medo, eu tenho medo
Que será de nós, querido?
Que será da nossa gente
Que dia a dia, inescapavelmente
Perde o pouco que tem?

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Cavalgada

A pélvis gira, elíptica
Em torno de seu próprio eixo
Voluptuosa, sinuosa
Como o balé de um tornado
Puxando, sugando, lançando tudo aos céus
As palmas das mãos apoiadas sobre o peito
As unhas prontas a agarra-lo
Os olhos virados, a cabeça inclinada
Algumas madeixas, úmidas, se apegam à boca
O queixo cai, trêmulo, em êxtase
Pelo ricto dos lábios escorre um fio de saliva
A pélvis freme, sôfrega, convulsiva
Em contrações espasmódicas
Vai para frente, e volta
Sobe e desce, não se decide, rebola
Para, recomeça outra vez
Depois se contrai, se contrai, com força
Aperta, aperta, até não poder mais
Até que enfim solta, repousa
Junto com um gemido
De ai

Ode à mediocridade

Longe de mim querer carregar o fardo dos eminentes,
Dos notáveis, dos super-homens nietzschianos;
Vistos com ciúmes e respeito, misto de inveja e enaltecimento;
A vida inteira chamados a prestar contar sobre seus atos,
Menos pelos outros do que por si mesmos;
Implacáveis, constantemente ocupados com seus legados,
Mas solitários, abandonados à própria grandeza.
Felizes aqueles que mantêm suas expectativas baixas;
De quem não se espera nada além da média;
Que podem dar-se ao luxo de errar sem vergonha ou culpa;
Que não precisam provar a todo o momento a dignidade de sua posição;
Que ao invés do mundo aos seus pés, têm ombros emparelhados ao seu lado;
O que me interessa é ser apenas uma pessoa normal, com seus erros e acertos;
Apenas mais uma entre outras tantas, anônimas na multidão;
Medíocres, mas satisfeitas.

Nunca mais

Quando acordo pela manhã
A sua metade da cama ainda está arrumada
Acostumei-me a dormir só de um lado
Mas seu travesseiro está sempre nos meus braços
Ou entre as pernas, ou sob o peito, comigo abraçado

Quando vou ao banheiro escovar os dentes
Vejo uma única escova que sob a pia jaz solitária
A sua, que com a minha fazia um par, não está mais lá
E eu noto que agora me habituei a fechar o tubo da pasta
Agora que não tem mais importância

Quando sento à mesa para o desjejum
Sirvo somente uma xícara de café, amargo
Por mais que eu me esforce, ele não fica como o seu
Do outro lado da pequena mesa, à minha frente
Sua cadeira permanece vazia, imóvel, silenciosa
Quem sabe se na mesma posição em que você a deixou?

Quando vou sair para trabalhar
Penso em deixar a porta aberta, para o caso de você querer entrar
Mas depois lembro que se você me entregou a chave
Foi para nunca mais voltar
Por via das dúvidas, deixo a chave dentro do vaso de lírio
Ou sob o carpete que diz "bem-vindo"

Quando chego em casa
Depois de um dia de trabalho – inútil, mecânico, absurdo
Tento abrir a porta de supetão, sem a chave
Como se você estivesse lá, mas não, você não está
E ainda que eu tocasse a campainha de nada ia adiantar

Só o seu pequeno jardim na sacada ainda resta
Mas não importa o quanto eu regue as suas plantas
Elas continuam a murchar, a perder o viço
Nunca mais a sua orquídea preferida deu uma só flor sequer

Nunca mais alguém conversou comigo através da porta do banheiro
Nunca mais coloquei o colchão na sala para assistir a um filme
Nunca mais contemplei o por do sol da sacada, fumando um baseado
Nunca mais calcei o seu chinelo porque não conseguia encontrar o meu
Nunca mais...

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Instante

Este tempo
Não o de ontem
Nem o de amanhã
Mas o de hoje
De agora
Deste exato momento
Tem gosto de morte
Tem o ruído do silêncio
Tem o canto do cisne
Só que mudo
Ninguém fala
Tampouco ouve
Nem um sussurro
Nem um único murmúrio
É sepulcral
Como o túmulo
Até o coração para
Em suspenso
No vácuo
É a plenitude
O eterno absoluto
Que acontece se se move?
Que vem depois
Quando o instante
Põe-se em movimento?

Sussuros

Há dor
A-dor-
ah!
A-ma-
nhã

verá?

Depressão

Depressão não é tristeza
É um mal insidioso
Que da gente se apodera
De vagar, aos poucos
Sem dar bandeira
É como uma doença silenciosa
Espalhando-se pelo corpo
As ideias envenenando
Os nervos paralisando
Obscurecendo a mente
Haurindo a energia
Enquanto não se se dá conta
Ela vai tomando corpo
A feição monstruosa
A horrenda face
Do medo e da angústia
O que resta é um corpo inerte
Sem vida, pura apatia
À agonia entregue
De ser prisioneiro de si mesmo

Tumulto

Certos momentos
De extrema felicidade
Ou de fundo sofrimento
Me acomete uma doida vontade
Uma explosão de sentimentos
Que se propaga pelo corpo
Como uma tempestade
Que me invade, em ondeadas
Provocando um tumulto confuso
Nesta alma já atormentada

Tenho vontade de gritar
Aos quatro ventos
Tão alto e tão forte
Que fizesse a terra chacoalhar
Como um abalo sísmico
Que deslocasse seu eixo
Que abrisse as vagas do mar
E no seu doce leito
Eu pudesse descansar

Vontade de correr a eito
Até os músculos estourar
De brincar com o vento
Nas asas de um pássaro
Livre, por aí a voar
E a um só tempo
Em todo lugar estar

Ah, vontade de abrir meu peito
Com a unha dos dedos
E mostrar a todo o mundo:
Vejam, aqui bate um coração!
Que sofre, que tem medo
Que sente sede de paixão
Vejam como ele bate forte, rijo!
Como sangra em borbotão!
Vamos, dê-me sua mão
Está sentindo-o?
Pois eu não

Retirante

Trajando andrajos imundos
Vagando por estradas sem rumo
Uma procissão de miseráveis
Calados, abatidos, macambúzios
Trabalhadores, camponeses, sem-terras
Homens que nada tiveram
E, não se sabe como, perderam tudo
Mulheres lavadeiras de trouxas na cabeça
Crianças de ventre saliente
E mãos nodosas de adulto
Trazem os corpos cobertos de poeira
Que, dir-se-ia, valem-lhes de segunda pele
Sobre a primeira
Prematuramente envelhecida
O pó substitui a roupa quase inexistente
Meu Deus, são famílias inteiras!
Acostumadas àquele sol inclemente
Às agruras daquela terra
Seca, dura, exangue
Que com lágrima e suor é lavrada
Eles caminham, em meio a mandacarus
Umbuzeiros e xiquexiques
Esperançosos de que haverá futuro
Nas ruas agitadas da cidade grande
Tratar-se-á de esperança, de fato
Ou seriam como uma manada
Agindo por puro instinto?
Fugindo da morte que lhe acossa
Afinal, e isso importa?
Se na selva de pedra serão também a caça
De homens-fera sem escrúpulos?
Não, a esperança que sustentam
Não está na ida
Antes está na volta
Crentes de que, um dia,
A seca há de ir embora
E a sua terra outrora sem vida
Haverá de renascer como a aurora
O cacto florescerá
A macaxeira crescerá
O gado engordará
Então o retirante irá voltar
Quando o sertão fizer-se mar

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Filosofia antiga

Não sejas como um caracol
Que quando tocado
Foge entocando-se em sua concha
Não sejas como um tatuzinho
Que quando se sente ameaçado
Em torno de si mesmo se fecha como uma bola
Não sejas como certas espécies de besouros
Que, para desbaratar possíveis predadores
Paralisam-se e fingem-se de mortos
A qualquer um que se acerque
Não sejas como um porco-espinho
Que fere com mil aguilhões
Quem só queria sentir-te o corpo
Dar-te um abraço
Estar por perto
Juntinho
Sejas como um cardume de peixes
Como uma matilha de cães
Uma manada de elefantes
Abelhas numa colmeia
Tenha perto teus semelhantes
Não te escondas
E não tenhas medo
Da solidão

domingo, 10 de novembro de 2013

Memória

Cansei de brigar com você
Desisto, jogo a toalha
Compreendo agora o seu poder
Você me possui, admito
E conforme o tempo passa
Isso fica cada vez mais claro
Você, dona Memória
É senhora do meu destino
Por isso, eu lhe imploro:
Não se vá, fique comigo!
Sem você, eu não sou nada
Sem você, me sinto abandonado
Não me deixe neste presente sozinho
Não me deixe esquecer o passado!
Que parece mais e mais distante
Como a costa se vê do navio
Sumindo na linha do horizonte
Os traços então se confundem
Os conteúdos tornam-se indistintos
E já não mais se sabe o que é o que
Que aconteceu naquele dia fatídico?
Quem dera o primeiro beijo atrevido?
Terá sido eu ou terá sido ela?
É tão fraca a luz que vem da vela
A bruxulear no canto da sala
Ah, senhora Lembrança!
Não me deixe esquecer os sorrisos
Tão lindos que vi por essas andanças
São tantos os rostos queridos
Que até da memória se vão
E já não importa
O quão fundo eu vascoleje a cachola
Eles agora não passam de um borrão
Eu não posso vencê-la, Memória
Mas, por piedade, por compaixão!
Não tire de nós, humanos sofridos
O pouco do pouco que nós temos
No final, tudo o que nos resta é a memória
Perdê-la seria como não ter vivido
E de que vale passar por tudo isso
Se não for para depois contar a história?

sábado, 9 de novembro de 2013

Poesia ao poetinha

Ah, meu poetinha!
Só tu me compreendes
Tu, que morreste de amores
E de amores viveste
Ensina-me como ver alegria
Num mundo triste como este

Agora quem pergunta sou eu:
Que lhe disse a poesia?
Que viu você por trás do véu
Que dos vivos a verdade esconde
Como a noite esconde o dia?
Afinal, do alto deste céu
Que lhe parece a vida?

Ensina-me a arte que dominaste
Com exímia maestria
A de fazer da dor, poesia
De prantear o amor que se ia
Sem num só instante
Perder a fé no outro que viria

É desta qualidade
Tu sabes, poetinha
Que se faz um verdadeiro vate:
Ver na tristeza sua bela face
E dela fazer-se amante
Sem deixar o riso de parte
Não é desta espécie de sabedoria
Da qual é feito o vate?
Então ensina-me, poetinha
Ensina-me a tua arte!

Tu, camarada
Que tantas alegorias viste no mar
Olha pela minha nau a deriva
Que, mesmo sem saber velejar
O desconhecido infinito singra
Atrás de um lar, atrás de paz
Tendo como único guia
As palavras sem par
Do meu poetinha camarada
Vinícius de Moraes

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Soledade

Soledade é o nome da minha esposa
Com quem nunca fui perdidamente apaixonado
Mas junto da qual o acaso levou-me a unir em casmento
Com seus altos e baixos, suas alegrias e tristezas

Mas Soledade é também o nome da minha amante
A quem vez ou outra me entrego loucamente
Em arroubos febricitantes de desejo
Até quando, vendo-os satisfeitos, volto a recusá-la
E novamente sinto que a odeio

Ah, afinal, Soledade é o nome da minha companheira!
Ao lado de quem envelheço
Enfrentando o ramerrão da rotina rotineira
Sempre em sua dedicada companhia
Tendo a certeza de que ela não me abandonará
Até sermos dois velhinhos bobos
Que já foram apaixonados
Que já se odiaram
Mas que nunca se separaram
Porque, no fundo, se gostam
Mais até do que imaginam
Até que o dia da morte leva tudo isso embora
E de toda nossa história
Restam apenas duas covas
Sobre as quais registra-se o seguinte epitáfio:
Juntos em vida
Juntos na morte

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Lágrima

Ó, inelutável lágrima!
Borbota da fronte
Vinda das funduras da alma
Brota como uma fonte
De águas claras e calmas
Rola pelos vales e montes
Do rosto, a água salobra
Carreando a dor para longe
Indo desaguar na boca
Que até a última gota
Do mar consome

Ó, irreprimível lágrima!
Às vezes intempestiva
És como uma avalanche
Que aos borbotões se precipita
Outras, és doce e branda
Como rio de águas mansas
Brincando com os vincos da pele
Qual alegre criança

Ó, inevitável lágrima!
Que nas pálpebras se equilibra
Indecisa se ao abismo se atira
Ou se se recolhe, tímida
Para o âmago de onde saíra

Vai, lágrima
Escorra
Pelo rosto
Se lhe compraz
Deixa, na boca
O salso gosto
Que me é contumaz
Vai, lágrima
Corra
Vence o desgosto
Como só tu é capaz
Lava a alma
Redobra a fé de novo
E meu coração preencha de paz

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Sina de poeta

Ah, se não fossem as palavras!
Em que solidão muda eu padeceria?
Sem meios de exprimi-la,
Não haveria como expiá-la;
E, sem compreendê-la,
Como aceitá-la?
Curioso paradoxo este da solidão,
Que precisa ser comunicada,
Ainda que seja a um papel em branco.
Será um pedido de socorro,
Como uma garrafa lançado ao oceano?
Ou uma forma de ver,
Espécie de espelho da alma,
Aquilo que à felicidade escapa?

Sermão de Bienvenu Myriel (Ou: por onde a falta passou?)

Quem sois vós?
Que se arvora em juiz
Sem deixar de ser parte
Apoiando-se no nome de falsos deuses
Para acusar de erro, de vilania
Para cobrir de infâmia e de opróbrio
Um semelhante a ti
Que sofre, que chora
Que tem medo
Que sente frio e fome
Enquanto você refestela-se
Açambarcando a graça que Deus deu
A todos nós?

Quem sois vós?
Para falar da ignomínia alheia
Enterrado até os pés
Como estás,
Na lama mais fétida
Que preenche o fundo poço
Da alma humana
Capaz, sem pestanejar
De cometer atos
Tão ou mais perversos
Do que teu irmão
A quem acusa de inimigo
Por não compartilhar contigo
De sua suposta humanidade?

Quem sois vós?
Que se crê senhor da razão
E do dono da vontade
Que assoma soberbo
No pedestal da História
Tendo sangue aos teus pés
Ocupado demais em condenar
Para olhar a si mesmo
Comprazendo-se em apontar o dedo inquisidor
Sujo, besuntado de iniquidade
Na fuça dos humilhados
Dos oprimidos e derrotados
E ainda afirmar-se justo?

Será que não vês nele
Naquele que recusa
Naquele que fora
Desde o berço, privado
Vilipendiado,
Tua própria imagem
Falsa e hipócrita
Refletida em seu olhar
De animal acuado?

A felicidade que roubas dos outros
Restitue-se-lhes em humanidade
E concede-lhes a força
E o direito sobre o Futuro
Que eles ainda hão de herdar
(Ou seria tomar das mãos de teus filhos?)
E, então, de cabeça altiva
Caminharão sobre teu cadáver
Despido, esquecido
Sem direito sequer a uma lápide
A uma nota de rodapé
Que eternize seu nome
Senão como de fato fora:
Mau, indigno

Há rosas no jardim

Em torno de ti
Mágoa, que habita meu coração
Eu construo uma cerca branca de saudade
Cerco de mimos e cuidados a sua lembrança
Lavro a terra com a carência de sua presença
Semeio-a com a falta pungente que me fazes
Cultivo com carinho o jardim da sua ausência
E as rubras rosas que dele nascem
Eu chamo de solidão

Antinomias

Vá entender esse mundo maluco!

Onde muito sobra
E tudo falta

Onde há fartura
E a satisfação é escassa

Onde a felicidade é paga
Mas a agrura é dada

Onde a lei impera
Só que a injustiça é a regra

Onde reina a miséria
Em meio a tanta riqueza

Onde a feiura é beleza
E a beleza não é bela

Onde o forte goza
Enquanto o fraco chora

Onde quem tem manda
E quem não tem apanha

Calado, cabisbaixo
Alguém me explica
Porque tudo caminha
De cabeça para baixo?

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

É hora

Bora, que é hora
Que a hora é agora
Vam’bora, fazer a hora
Que ela é todinha nossa
E o que não nos falta é bossa
Pra pintar a cidade de rosa
Ora, então simbora, rapá!
Acorda, não perde a hora
Que nosso bloco vai passá
Em pé, sem demora
Pois o mundo dá volta, camará
Você mais eu, mundo afora
Deixa o outrora pra lá
Que já já a história vai começá
Bora, simbora
Amanhecer numa nova aurora
Canta, ama, brinca, goza
E se quiser, chora
Só não se esquecer vá
Que tudo melhora
Que tudo há de melhorá
Pode acreditá
E só quem viver verá!

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Em tempo

Enquanto o mundo não acabar
Enquanto nós não desistirmos
Enquanto os sonhos não morrerem
Haverá tempo - de sobra -,
E nunca será tarde demais

Anda

Levanta a cabeça
Firma os pés no chão
Inteiriça a espinha
Aquieta o coração
Põe no rosto um sorriso
Crispa a palma das mãos
Mira o horizonte
Respira fundo
E anda
Anda
Anda...

O grito

Parecido com um eco ao contrário,
Vem num crescente, avolumando-se,
Ao invés de estiolar-se no horizonte;
Preenchendo os cânions das entranhas,
Rimbombando pelas paredes da garganta,
Forcejando para sair pela boca cerrada,
Que, quase sempre, lhe fornece resistência.

O grito quer explodir, como um vulcão,
Derramar-se do lado de fora do corpo,
Invadir o mundo como um tsunami,
Arrastando tudo para bem longe.
Quanto mais se represa o grito,
Mais violentamente ele investe contra a barragem,
E mais e mais força acumula para a investida final.

O grito não pode ser contido indefinitivamente,
Ele é como uma dessas forças elementares da natureza;
Podemos tentar prever seus abalos sísmicos,
Minorar suas consequências devastadoras,
Mas jamais assenhorar-se completamente de seu poder.
Ele será sempre a premissa newtoniana do mundo humano;
A garantia de que as coisas permaneçam em movimento,
Mas que mudem de sentido quando necessário,
Mantendo o nosso universo em permanente expansão.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Em pé

Se não der
A gente tenta
De novo
E de novo
E de novo ainda
E quantas vezes
For necessário
Se cair
A gente levanta
Ginga
Samba
Anda
Se se perder
A gente volta
Do começo
E tenta caminhos
Diferentes
E outros
E mais outros
E quantos houver
Só não seremos
Culpados
Por não tentar
Afinal
Quem pode ser
Culpado
Por tentar?

O trabalho do amor

Amor não se ganha,
Antes se conquista
Amor não é de graça,
Porque não é uma dádiva divina
Não desce dos céus
Mas se eleva do chão
É fruto de mui duro trabalho
Como o camponês que se obstina
Na terra que dia-a-dia lavra
Para dela tirar o fruto
A comida, que o alimenta
Tal como o amor
Verdadeiro alimento da alma
O amor pode ser oferecido,
Pode ser dado
(e perdido)
Mas nunca sem esforço
Ele não acontece, assim, ao acaso
Porque o amor é resultado
Muito mais do que começo
É como um diamante bruto
Precisa ser lapidado
Pelas mãos pacientes de um joalheiro,
De um artífice habilidoso
Pelo amor se luta
E vencer não é o mais importante
O importante é tentar
E nunca desanimar
Se você ama
Não desista
Se empenhe
Persista
E, um dia
Há de vir à luz
Uma criança
De nome amor

Em tempos de Esparta

Você é partidário da força como direito
Acha que lá fora vige um estado de natureza
Infunde temor e confunde-o com respeito
Está aqui para ganhar e não para perder
O poder é-lhe a medida da felicidade
Quanto a mim?
Eu sou amante da verdade e da beleza
Interessa-me as artes e a filosofia
A minha parte quero em paz e amor
Sou um cidadão ateniense em tempos de Esparta

domingo, 27 de outubro de 2013

Elogio ao amor romântico

Estão tentando aposentar o amor romântico
O amor é burguês, dizem uns
O amor é improdutivo, dizem outros tantos
“Eu luto, não amo”
“Não há tempo; primeiro a carreira, depois quem sabe”
É o que dizem os jovens de hoje
O amor é fútil, é piegas, é idealista, é opressor, é falso
Amor? Só se for o próprio
Talvez pela humanidade, nunca por um indivíduo
Amor por princípio, não por sentimento
Amor racional, amor interessado
Amor desencantado, pós-moderno...
Mas eu quero acreditar que o amor ainda existe
O amor romântico, sentimental, tolo, puro
Amor digno de pena, trágico e cômico
Amor que rime com dor
Amor à primeira vista
Amor que não pede nada em troca
Amor sem possessividade, sem egoísmo
Amor que não reclama, que aceita
Amor criança, ingênuo
Amor que espera, paciente
Que sofre, sem remorso
Porque para ele não importa o tempo
Tem a eternidade para si
Para o amor dá-se sempre um jeito
Ele basta-se, é fim em si mesmo
Amor solitário, platônico
Amor condenado, mas satisfeito
Amor de bom grado abnegado
Amor que só quer amar
Ainda que não seja amado

Ansiedade

A ansiedade, esse desassossego interior
É como uma luta que se trava consigo mesmo
No mais íntimo do ser
Pela posse do corpo e da mente
Se por fora mostra-se a razão no controle
Por dentro, exércitos de paixões digladiam-se
Dilaceram fragorosamente o espírito
E é possível senti-los, fisicamente
Movimentando-se, batendo-se,
Comendo as entranhas, liquefazendo as tripas
Cá dentro reina o caos, a confusão
Lá fora, a aparente tradução da ordem
Porque o mundo não espera
Espera que a vida siga
E as coisas sejam feitas
Quem ganha a batalha responde pelo estado de saúde mental
Embora a razão esteja em vantagem na maioria das vezes
Há horas que ela nada pode fazer face ao avanço da ansiedade
Ainda que saibamo-la irracional
A ansiedade é uma expectativa que não cessa
Que com nada se satisfaz e a tudo deseja
Mesmo que do quê não tenha exata certeza
É a espera por sabe-se lá o quê
É a angústia do devir
E o atestado da própria impotência
É um não sabe se vai
Ou se fica
Se deixa ir
Ou se luta
É um querer fazer
Aconteça e não acontecer
É o medo do futuro enrijecendo os nervos
Embaçando o pensamento
Esmorecendo a vontade
É parte da triste condição humana
E seu parco poder sobre a ordem do mundo
Sua exígua previdência, sua mísera potência
Sua inconstância e insegurança intrínsecas

sábado, 26 de outubro de 2013

Os olhos

Que segredos antigos, imortais, esotéricos, guardam esses olhos fascinantes e misteriosos, olhos de esfinge?

Que oceanos impenetráveis, selvas luxuriantes e montanhas majestosas escondem, como continentes virgens, intocados pela mão humana, esses olhos felinos?

Olhos de Monalisa, meio animais, meio angelicais, situados além do bem e do mau, acima do céu e do inferno; olhos profanos e divinos.

Olhos que seduzem, que cantam e encantam como o canto da sereia, e fazem os meus facilmente cativos, como navegadores incautos, de sua beleza mítica.

Olhos magnetizantes, hipnóticos, cujo fulgor, belo e mortal como o sol, fascina e enfeitiça os meus como se fossem mariposas presas à lâmpada.

Pobre dos meus olhos, indefesos, totalmente entregues como rês, sem conseguir desviá-los um segundo sequer, como se piscar na presença daqueles olhos fosse um sacrilégio, um pecado mortal.

Esses olhos verdes, entre esmeralda e turquesa, duas preciosidades a procura das quais, como mineradores febris, eu arriscaria tudo, numa cartada de sorte, atrás de sua rara riqueza.

Quem mira esses olhos sabe o perigo que corre, o risco de cair na armadilha de suas águas, claras e plácidas na superfície, porém turbulentas em suas profundezas, e dela nunca mais sair; mas não se pode evitar.

Olhos de Medusa: nem o risco de tornar-se pedra impede o trágico herói, tal qual o gato vitimado por sua inescapável curiosidade, de arriscar-se a olhar esses olhos, porque a morte não é nada se a recompensa é a sua visão.

Agora sei como se sentia o pobre Bentinho, ao mesmo tempo vítima e cúmplice, incapaz de resistir àqueles olhos oblíquos de cigana dissimulada, àqueles olhos de ressaca que parecem prontos a arremeter-se contra a praia numa tarde tempestuosa, para castiga-la, arrasá-la, e por fim tragar seu espólio para dentro do fundo do mar, onde há de ficar por toda a eternidade.

E como se deseja que eles o fizessem! Como, de bom grado, se espera ansiosamente pelo dia em que esses olhos engolir-nos-ão como a escuridão de uma noite sem lua!

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

À quem possa interessar

Neste mar de braços, mãos e lábios
Urdido por palavras desconexas
Que um dia foram promessas
Cheias de pressa em ser feliz
E que hoje jazem esquecidas
Envelhecidas e desbotadas
No fundo de um armário empoeirado
Ou são simplesmente perdidas
Para se reencontrarem tímidas
Como crianças, renascidas, redivivas
Na boca dos apaixonados
No grito dos inconformados
No pulso em riste dos revoltados
É neste mar onde nos afogamos
Que eu mergulho, afundo, vou ao fundo
E, mesmo imerso em palavras, sinto-me mudo
As palavras, se extraviadas pelo meio do caminho,
Encontrar-se-iam no beijo fatal dos extremos?
O último e mortal beijo que daremos
Aliás, sem qualquer arrependimento
Abraços chegam porque têm de chegar
Seja por terra, água ou mar
Nós damos um jeito de os enviar
Um abraço – livre, humano, fraternal
Que teria acontecido com o nosso serviço postal?
Para extraviar tantos abraços por aí?
Quem dera fosse a causa excesso de trabalho!
Aquele abraço que mandei
Dias desses, filho bastardo de noite insone
Cheio de saudade, e que de tantos cuidados cerquei,
Chegou ao destinatário?
Tê-lo-ido encalhar num recife de coral?
Ou caído no abismo que finda o mundo?
Depois da queda, onde teria ido meu abraço parar?
Encontrara, algo bobo, outros braços?
Aos quais pudesse se agarrar?
E que ensinasse-lhe como abraçar de novo?
Pois se alguém o encontrar
Saiba que meu abraço não tem dono
Não é de ninguém e é de todos
É de quem o achar
Como todo abraço,
Ele só precisa de outros braços, abertos
E um peito para chamar de lar

domingo, 13 de outubro de 2013

Todo apoio à Fran: mais uma vítima do nosso machismo de cada dia

As reações suscitadas na rede a propósito do caso da Fran, garota exposta publicamente em vídeo gravado durante uma transa, são muito ilustrativas no que se refere à mentalidade machista dominante. Entre as reações, há quem defenda-a, há quem a condene, mas o interessante mesmo é notar as reações ambíguas, que tentam compartilhar a culpa entre ela e seu algoz.

É tão incrível que alguém tente encontrar alguma espécie de culpa numa pessoa que foi, em todos os sentidos, vitimada por um ato criminoso alheio, que isto só se explica pelo nível e profundidade do sentimento misógino entre nós. Porque o fato de uma mulher ser vítima parece ilógico para muitas pessoas, e que, portanto, alguma culpa ela deve ter na história. Colocada a questão de forma abstrata, ninguém acharia moralmente correto que uma “pessoa” tornasse público imagens íntimas de outra “pessoa” sem o seu consentimento. Mas o fato de ser a vítima-culpada uma mulher, e o culpado-vítima um homem não é mera coincidência.

A lógica por trás dessa tentativa, aparentemente imparcial e razoável, de compartilhar a responsabilidade é a mesma que culpa as mulheres vítimas de assédio e/ou estupro em função de seu comportamento, tido como inadequado. Culpabilizar a vítima é o meio usado para recolocar a mulher no lugar dela. Essa lógica funciona mais ou menos assim: o homem não pode ser culpado por uma ação que ele está predisposto a fazer, de modo que cabe à mulher evitar que ele a faça.

Para que essa lógica funcione é preciso que determinados papeis sociais de gênero sejam bem definidos, de tal sorte que a culpa da mulher é ter faltado com o seu papel. Espera-se que a mulher seja recatada, seletiva em relação aos seus parceiros sexuais, que faça amor e não sexo, que se interesse por um parceiro reprodutivo ao invés de por um parceiro sexual. Quando uma mulher não age desse modo, cai sobre o ela o estigma de puta, de vadia, e, como tal, quando “ela se coloca” em determina situação, cuja posição normalmente identificaríamos com a vítima, pode-se transferir a ela a culpa, como se, ao não observar o comportamento adequado ao seu papel de mulher, ela tivesse possibilitado e jogado sobre si a responsabilidade pela situação. Logo, ela é culpada.

Nossos valores sexuais e de gênero invertem, desse modo, os valores morais mais básicos. O homem, neste caso, não é, evidentemente, considerado uma vítima, no sentido literal do termo, mas também não é considerado o culpado, uma vez que ele estaria apenas fazendo “o que todos os homens fazem”. Ele é apenas mais um garanhão caçador que apanhou outra vítima. A culpa é da vítima que não se resguardou, que não percebeu com quem estava lidando. Alguém aí já viu um vídeo íntimo onde o homem é quem é exposto e humilhado? Só se for um homem homossexual...

O fato de que vídeos como este se tornem virais é expressão da vontade profunda, ainda que inconsciente, de humilhar a mulher, de rebaixá-la, de submetê-la aos nossos desígnios machistas. Quase como um lembrete de que se ela se rebelar haverá consequências. Quer gozar? Não podemos te impedir como faz um clérigo xiita, ou te apedrejar em praça pública, uma vez que somos ocidentais civilizados, mas, cuidado, podemos te expor publicamente. Quer ter o corpo livre para ir e vir onde e quando quiser ou para fazer dele o que bem entender? Também não podemos te impedir, mas podemos te estuprar em alguma rua escura. É assim que criamos novos mecanismos de controle que, sendo sutis como são, não vemos como tal.

sábado, 12 de outubro de 2013

Que se vayan todos!

Que se vayan todos!
Os arrivistas, os gananciosos
Aves de rapina do mundo dos negócios
Pressurosos em caçar e acumular numerário
Incapazes de amar, só raciocinam com seus bolsos
Entregues à sanha de desejos sórdidos
Investem a vida em egocentrismo e competição
E o que lucram em capital, perdem em humanidade
Deixando um saldo de mesquinharia e indignidade
Como apólice banhada em sangue aos que virão

Que se vayan todos!
Os machistas, os homofóbicos
Os racistas, os xenofóbicos e demais tipos preconceituosos
Ressentidos de sua própria pequenez e mediocridade
Medrosos, alimentam pré-conceitos abjetos e mórbidos
Por crerem-se mais importantes, genuínos e dignos
Quando na verdade são o lixo moral que a história deverá descartar
Logo, num futuro próximo

Que se vayan todos!
Os elitistas, os vaidosos
Os soberbos e presunçosos que não passam de tolos
Preocupados demais com seus umbigos fátuos
Não enxergam um palmo além de seus narizes empinados
Imerecidos da posição que ocupam entre seus pares
Em cujas cabeças se apoiam com pés que nunca viram trabalho

Nunca olham para baixo
E por isso não sabem que estão com os dias contados
Vamos nos sacudir com tanta força
Que eles vão desmoronar sobre o chão
Estatelados e pisoteados
E nós gritaremos então:
Que se vayan todos!

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Conselho para uma vida vivida

Aconselha o homem prático,
Que uma hora chega o dia,
De se pensar NA vida
E retruca-lhe o sábio:
Mas pensar porque na vida,
Se pensar é pensar COM a vida,
E PARA a vida?

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Reflexões sobre nossa relação com a natureza

Um bom exemplo que nos permite visualizar a relação entre a sociedade contemporânea (e, por esta, entenda-se: ocidentalocêntrica e capitalista) e a natureza pode ser tirado do modo como a maioria de nós, enquanto indivíduos, lida com a água. De forma mais inconsciente do que consciente, de modo geral não estabelecemos nenhuma conexão entre a água que sai da nossa torneira e a água que corre nos rios, que escorre das geleiras, que cai da chuva. E olha que um dos conhecimentos mais martelados na escola é justamente o ciclo da água, embora talvez o mesmo não seja verdadeiro no tocante às técnicas empregadas pelos seres humanos na sua captação e devolução ao ciclo. Enquanto isso, seguimos destruindo um dos bens mais essenciais à vida e, obviamente, à nossa própria existência.

Não está em causa aqui se o principal culpado é a indústria ou o consumidor, a sociedade ou o indivíduo, até porque esse é um falso problema. As causas são múltiplas. À primeira vista, parece lógico que a indústria, em sentido amplo, consuma e polua infinitamente mais do que os indivíduos tomados em conjunto. Entretanto, não existe produção sem consumidor, e considerando-se que a nossa economia está baseada no excesso e no desperdício, os indivíduos, investidos no papel de consumidor, constituem um pilar tão fundamental nesse sistema quanto a própria indústria em si. Daí também a conclusão lógica de que não é possível transformar fundamentalmente esse sistema a menos que alteremos todos os elementos da equação, o que significa que apenas a responsabilidade pessoal não vai salvar o mundo.

Mas voltando ao nosso exemplo, este me ocorreu enquanto tomava banho e se trata justamente deste ato tão banal e tão importante no que se refere ao consumo de água. A maioria de nós, eu inclusive, não fecha a torneira para se ensaboar (se posso argumentar em minha defesa, às vezes fecho, às vezes não, mas sempre procuro não me demorar no banho). Como se trata de uma ação cotidiana banal, ninguém para pra pensar na quantidade de água que ela consome, ou em quê poderia contribuir para diminuir esse consumo. Se esse tipo de reflexão já passou pela sua cabeça, mas você continua fazendo do mesmo modo que fazia antes, provavelmente a discussão interna que se travou dentro de você acabou com a vitória de algum argumento espúrio usado para justificar a opção de não mudar. Ora, somos seres racionais e éticos, e por mais que uma pessoa esteja cagando para a natureza ela precisa justificar, com o mínimo de consistência lógica, a si mesma essa postura.

É precisamente nessas justificativas que podemos encontrar as representações que expressam as nossas noções de sociedade e de natureza (representada neste caso pelo elemento água), assim como da relação entre essas instâncias. Entre aqueles que pensam ou já pensaram criticamente na maneira como usam a água, uns podem se sentir mal, outros podem não dar a mínima, e outros ainda podem se importar mas não o suficiente para se incomodarem permanentemente com isso. Alguns irão justificar sua reação com base em uma ideologia individualista, seja sob um ponto de vista pessimista/fatalista, conforme o qual um indivíduo sozinho não pode alterar em nada a situação, seja sob um ponto de vista egoísta, conforme o qual ele se arroga no direito de usufruir o prazer de um banho mais demorado do que os outros. Outros irão pautar a sua justificativa em termos mercadológicos, afirmando que quem paga a conta é ele e, se o paga, está-lhe garantido o direito líquido e certo de fazer o que bem entender com a “sua” água.

Dessa breve reflexão, podemos ver como o núcleo em torno do qual giram as representações da relação sociedade/natureza é o indivíduo. Composta por sujeitos individuais portadores de direito, a sociedade se caracteriza assim por uma irresolvível tensão em seu interior: cada direito individual se coloca em antagonismo com todos os demais. Por isso, o individualismo típico da nossa sociedade é, por natureza e definição, egocêntrico. Para se satisfazer, ele tem que eliminar o direito individual alheio. Daí a concorrência que se estabelece e, necessariamente, a desigualdade entre eles.

Essa é uma forma de ver o mundo muito distinta dos povos ditos “primitivos”, cuja relação com a natureza se estabelece sobre bases radicalmente distintas das nossas. Em termos ideológicos, os indivíduos desses povos não compreendem a sua própria existência individual senão como uma função da existência coletiva e da natureza, a qual essa coletividade está organicamente integrada. Nenhum de nós, pessoas urbanas e “civilizadas”, se sentimos responsável pela mãe natureza como eles se sentem, muito menos sentimos que o simples fato de deixar a torneira ligada ou se esquecer debaixo do chuveiro representa uma agressão a ela. Esse senso de responsabilidade e de pertencimento a um todo maior, de fato, não pode surgir dentro de uma sociedade que toma o indivíduo isolado como sujeito e centro do mundo.