quarta-feira, 8 de março de 2017

Recomeço

Ao contrário do que dizem
A vida é suficientemente longa
Tanto tempo já vivido
Tantas histórias sentidas
E estou só começando
Amores acabaram
Amizades se perderam
Mas eu sigo
Só ou acompanhado, eu sigo
E estou apenas começando
Várias escolhas deram num beco
E deveria eu sentir culpa pela grandeza do mundo?
Dou meia volta e sigo
Tanta coisa aprendi
E ainda tenho tudo por aprender
E experimentar e ver e sentir
Como num jogo
Fica cada vez mais divertido
À medida que se domina as regras
A meta é quebrar a banca
Isto é só outro começo
Uma outra partida
Acabou a ficha empreste outra
Vire uma página e a próxima vem em branco
Rasgue uma e terá muitas outras
Estamos apenas começando
A liberdade é recomeço
Arrisque, desperdice
À vontade
Estamos só começando

domingo, 5 de março de 2017

O comum urge

Já tive pressa
Fui impaciente
Quando se é jovem
Nada é suficiente
Já senti receio
De tantas coisas diferentes
Acima de tudo
De não ser capaz
E todos meus temores vieram
Mas suas faces já não me botavam medo
Não se pode ser garoto para sempre
Perder ou ganhar
Que diferença faz
Depois que tudo já passou?
Há milhares de chances
Para se fazer a mesma coisa
Tantas e tantas vezes
Ou, quem sabe, não
As coisas não têm necessidade de ser
Deste ou daquele jeito
As coisas apenas são
Tanta procura única
Tanto sonho vão
E a vida é apenas ordinária
Banal e comum
Embora tão especial e única
Aos olhos de cada um

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Conflitos

Desentendimentos bobos
Coisas sem valor
Me tiraram amigos
E levaram pessoas para nunca mais voltar
Rixas que só têm sentido de momento
Se têm
Mas que meu orgulho
Minha tola vaidade
Impediu de perdoar

Hoje me sinto ridículo
Uma criança mimada
Um velho rabugento
Acumulando mesquinharias
Passeando sozinho no parquinho roto da memória
Cheio de rancores
Chamando por nomes que não estão mais aqui
Teimoso demais para admitir
Que todas essas bobagens
Pelas quais me indispus
Não valem de nada

As pessoas foram-se embora
Me deixaram só com minhas ninharias
E minha cara feia
Ninharias pelas quais não valia brigar
Ninharias que de fato ninguém queria
Mas, de praga, o tempo há de me subtrair
Cada uma delas
E o que me resta
Senão as desculpas decoradas
Palavras por palavras
Que eu nunca tive coragem de dar?

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Equilíbrio

Há momentos de lembrar
E outros de olvidar

Dos exemplos ruins
E dos bons

Há hora para otimismo
E outra para pessimismo

Para ser racional
E passional

É preciso estar sempre transitando
De um lado a outro

Equilíbrio não é estado
Que se chega ao final

É movimento
Que nunca cessa

sábado, 22 de outubro de 2016

Confusão

Ando mui confuso
Tão precários são meus supostos
Pobres supostos, quando muito

Será excesso de informação?
Salutar precaução?
Ou incapacidade de tomar posição?

A confusão tem-me feito em pedaços
Fragmentado, não me reconstruo
Tampouco me acho

Confuso por isto, por aquilo
Confuso por isso tudo
Ponho-me em cima do muro

E sou tão confuso
Que nem mesmo sei se sou eu que confundo
Ou se é o mundo

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Fronteiras

Aonde quer que olhe eu vejo
Fronteiras

Traçadas
Serrilhadas
Pontiagudas e cortantes
Armadas
Bem guardadas
Linhas pontilhadas num mapa
Imaginárias

Seres humanos são pedreiros
Mestres na arte de levantar muros
Suas fronteiras apartam
Segregam e desunem

Fronteiras que dividem o mundo
Mas também as pessoas que nele vivem
Entre justos e injustos
Bons e maus
Verdeiros e falsos
Entre nós e os outros

Nossas fronteiras partem mas não repartem
Partilham mas não compartilham
Fronteira cortando fronteira
E havemos de despedaçar-nos todos um dia

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Seja homem

Desde criança
Me dizem para ser homem
Mas quantas maneiras
De ser homem
Não há!

Tem a maneira fácil
O homem que oprime
Que manda e desmanda
Homem de grande poder
Porém moral pequena
Homem não aceita afronta
Homem faz sua própria vontade
Prevalecer

E tem a maneira difícil
O homem de caráter, íntegro
Que ouve, que respeita
E sabe compreender
Homem bom e justo
Que não é melhor que ninguém
Qual desses homens
Querem que eu seja?

Me pediram para ser homem
Mas não me disseram qual deles
Eu deveria ser
Agora que eu sou o homem que me tornei
Eu posso ver
Que quem me ensinou a ser homem
De verdade
Foi a mulher

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Instrospecção

Escrever como Fernando Pessoa
Falar de mim, jamais dos outros
Conjurar meus anjos e demônios
Desnudar-me em sentimentos a alma
Mergulhar no profundo sem fim do Eu
No mais íntimo do ser
E me descobrir assim
Pela metade e inteiro
Faltando e completo
Um quebra-cabeça que não se encaixa
Enfim, poema sem métrica, verso sem rima
Canto sem harmonia, dança sem ritmo
Ora, tal qual a vida mesmo
Como Pessoa, falar de mim
Não porque interessa
Não porque importa
Mas porque dentro de mim estou
Falar do que fui, do que nunca serei
Mas também falar do que sou
Que sou eu senão a soma de meus sonhos?
Sonhos que me trouxeram até aqui
E aqui me abandonaram
Ou que eu abandonei
Sonhos que me deram força de início
E me fizeram fraco no fim
Sonhos que me deram sentido
Sem sonhos eu não existo
Mas meus sonhos só por mim existem
Nisso não difiro de ninguém
A vida é essa mistura inconsistente
Sonhos, amores, ódios, planos, promessas
Escrevem histórias, destinos e lembranças
No fundo, somos todos muito parecidos
Mas as diferentes misturas desses ingredientes
Fazem cada um de nós seres único