quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Fronteiras

Aonde quer que olhe eu vejo
Fronteiras

Traçadas
Serrilhadas
Pontiagudas e cortantes
Armadas
Bem guardadas
Linhas pontilhadas num mapa
Imaginárias

Seres humanos são pedreiros
Mestres na arte de levantar muros
Suas fronteiras apartam
Segregam e desunem

Fronteiras que dividem o mundo
Mas também as pessoas que nele vivem
Entre justos e injustos
Bons e maus
Verdeiros e falsos
Entre nós e os outros

Nossas fronteiras partem mas não repartem
Partilham mas não compartilham
Fronteira cortando fronteira
E havemos de despedaçar-nos todos um dia

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Seja homem

Desde criança
Me dizem para ser homem
Mas quantas maneiras
De ser homem
Não há!

Tem a maneira fácil
O homem que oprime
Que manda e desmanda
Homem de grande poder
Porém moral pequena
Homem não aceita afronta
Homem faz sua própria vontade
Prevalecer

E tem a maneira difícil
O homem de caráter, íntegro
Que ouve, que respeita
E sabe compreender
Homem bom e justo
Que não é melhor que ninguém
Qual desses homens
Querem que eu seja?

Me pediram para ser homem
Mas não me disseram qual deles
Eu deveria ser
Agora que eu sou o homem que me tornei
Eu posso ver
Que quem me ensinou a ser homem
De verdade
Foi a mulher

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Instrospecção

Escrever como Fernando Pessoa
Falar de mim, jamais dos outros
Conjurar meus anjos e demônios
Desnudar-me em sentimentos a alma
Mergulhar no profundo sem fim do Eu
No mais íntimo do ser
E me descobrir assim
Pela metade e inteiro
Faltando e completo
Um quebra-cabeça que não se encaixa
Enfim, poema sem métrica, verso sem rima
Canto sem harmonia, dança sem ritmo
Ora, tal qual a vida mesmo
Como Pessoa, falar de mim
Não porque interessa
Não porque importa
Mas porque dentro de mim estou
Falar do que fui, do que nunca serei
Mas também falar do que sou
Que sou eu senão a soma de meus sonhos?
Sonhos que me trouxeram até aqui
E aqui me abandonaram
Ou que eu abandonei
Sonhos que me deram força de início
E me fizeram fraco no fim
Sonhos que me deram sentido
Sem sonhos eu não existo
Mas meus sonhos só por mim existem
Nisso não difiro de ninguém
A vida é essa mistura inconsistente
Sonhos, amores, ódios, planos, promessas
Escrevem histórias, destinos e lembranças
No fundo, somos todos muito parecidos
Mas as diferentes misturas desses ingredientes
Fazem cada um de nós seres único

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Tempos de (in)certezas

Hoje eu acordei confuso, cheio de dúvidas
Levantei incerto e levei minhas incertezas junto
As tarefas são muitas; as garantias, nenhuma
Ao meio dia fugi de um grupo de evidências
Que vinha brandindo óbvias verdades pelas ruas
E desviei de uma afirmação que tentou me asseverar
Soltei uma e outra interrogação por aqui e acolá
Nada que eu pudesse garantir com segurança
Expliquei: eram apenas honestas perguntas
Hesitei quando me apontaram um inequívoco fato
Por um instante abalou-se minha convicção de ser cauto
Mas porque sou incerto, a assertiva aceitei
Só que com reserva e cuidado
Tomaram-me por ignorante, burro, idiota
Que não entende o certo, o notório e o ululante
Vacilante, não pude me decidir quanto ao mais apropriado
Se burro, idiota ou ignorante
Tudo é tão duvidoso, indefinido e ambivalente
Que a única premissa que aceito
É manter em mente meus próprios limites
Juntei prudência, tolerância e transigência
Fiz minha trouxinha de dúvidas e continuei
Verdades eu vou deixando pelo caminho
Na bagagem levo só conhecimento

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Preconceito

Eu estou cheio
De pré-conceitos
Que me deixam estúpido
Quase tudo que apreendo
Cai fora dos meus quadros
Quadrados
Cognitivos
E o que eu entendo?
O que aprendo
De verdadeiro
De novo?
Se tudo que sei
Já sabia a princípio

Eu estou cheio
De tanto preconceito
De negar o que me é alheio
De me afastar do que desconheço
De procurar apenas o afeito
De ser sempre o mesmo
O mesmo pensamento
Quadrado
Fechado
Pequeno

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Navega

Não posso prever o futuro
Nem dele ter qualquer vislumbre
Ou garantia
Apenas espero, torço e rezo

Hoje, sou todo felicidade
Amanhã, quem sabe
Tudo pode estar perdido

Amanhã, me alcança a tristeza
Depois, quem garante
O mundo de novo rodopia

A única certeza
É que tudo muda
Nada permanece

Como navegantes numa nau
Não se vê além do horizonte
A tempestade pode estar logo à frente
Atravessá-la é questão de fé
E coragem
Porque sempre haverá outros mares
Para cruzar

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Poesia aos ultramodernos

No mundo de hoje
Tudo é tão
Efêmero
Incerto
Inseguro
Provisório
Que estamos todos
Abandonados
À própria sorte
À própria solidão

Encruzilhada

Deste agora
Departem tantos caminhos
Dá-se um giro
Meia-volta
Cambalhota
Ziguezagues
E para onde se estava indo
Não se vai mais

Então dá-se conta
Tudo que era tão certo
Todas aquelas promessas e planos
Eram lembranças
De um futuro que existiu jamais
Senão como sonhos

Um entre tantos caminhos possíveis
Uma entre tantas escolhas erradas
Para se arrepender depois
De cruzada a encruzilhada