segunda-feira, 23 de setembro de 2013

O livreiro de Rafah

Como sempre faziam todos os dias para irem juntos à escola, Samira e Ahmed encontraram-se com Kamal do lado de fora de seu prédio. Este os esperava impaciente.

– Vocês estão atrasados!

– Não foi nossa culpa, Kamal – respondeu-lhe, Samira. – No caminho havia uma rua interditada que tivemos que contornar. Tinha bombeiros e policiais por todo lado. Parece que um míssil israelense destruiu o antigo cinema.

Ao ouvir essas palavras, os olhos de Kamal injetaram-se de vermelho, um calafrio gelou-lhe a espinha, mas logo foi substituído por uma onda de calor que começou nos pés e foi terminar nas orelhas ruborizadas. Ele fervia de ódio por dentro. E a pressão escapou em vitupérios e anátemas:

– Malditos sejam esses sionistas, filhos da puta! Desgraçados! Eu vou matá-los um por um, eu juro!

Samira e Ahmed já não se assustavam mais com os acessos de ira e as ameaças vãs de Kamal. Conheciam seu temperamento. Sempre quando tomava conhecimento de alguma das muitas e recorrentes injustiças praticadas pelos israelenses contra seu povo, Kamal explodia em fúria cega. Samira não cuidava que um dia ele seria capaz de perder a cabeça de verdade a ponto de botar sua própria vida em risco. Por outro lado, sabia a admiração e respeito que o garoto nutria pelo Hamas e por seu braço armado, as Brigadas Al-Qassam, e tinha medo que um dia ele pudesse juntar-se a elas.

– Vê porque a jihad é o único caminho para a liberdade? Não é possível dialogar com esses criminosos! É preciso expulsá-los, esmagá-los!

Talvez por criação ou por influencia dos grupos mais radicais, Kamal via o mundo através das lentes da religião. Achava que o conflito entre palestinos e israelenses era antes uma guerra santa entre judeus e muçulmanos, cujo desfecho seria a retomada da terra sagrada pelo povo a ela destinado por Deus. Samira não gostava dessas ideias. Mas via em Kamal uma pessoa corajosa e fiel, e amava-o por isso. Enquanto ele discursava, ela tentava demovê-lo de seus planos.

– Você nem tem motivo para sentir tanto ódio, Kamal. Nada aconteceu com você ainda. Se alguém tem motivo aqui para se unir ao Hamas é Ahmed.

Mesmo ao ter seu nome mencionado na discussão, Ahmed não se manifestou. Permaneceu calado, com os olhos tristonhos voltados ao chão, como se não estivesse ali, a cabeça envolta em pensamentos. Era o mais novo dos três. Perdera toda a família durante uma invasão israelense há alguns anos atrás. Numa noite, soldados do exército invadiram sua casa e executaram seus pais, irmãos e irmãs. Não saberia dizer o porquê, nem recorda perfeitamente os acontecimentos daquela noite. Só se lembra de ter sido encontrado debaixo de uma cama e levado para longe de casa. Nunca mais viu nenhum de seus parentes. A família de Samira adotou Ahmed, e desde então ela tem sido sua irmã e protetora.

Diante do argumento de Samira, Kamal silenciou. Voltou os olhos para Ahmed, engoliu seco.

– Vamos à escola – Disse por fim. – Estamos muito atrasados já.

No caminho, Kamal permaneceu em silêncio, pensativo. Tinha uma missão importante para essa tarde, e sabia que Samira não aprovaria. Mas os três eram tão unidos, que se sentiu na obrigação de informá-la.

– Ouvi dizer ontem que explodiram um depósito perto da fronteira com o Egito. Parece que ele estava carregado de armas contrabandeadas. Hoje a tarde vou até lá ver o que encontro.

– O que? Você está louco? – protestou, Samira, enquanto seus olhos enchiam-se de lágrimas. – O que se passa por essa sua cabeça de merda, meu Deus? Você quer é encontrar um jeito de se matar, e não se importa com as pessoas que te amam!

Kamal não respondeu, apenas encarou, impassível, com seus olhos duros os olhos meigos de Samira.

– Eu vou com você – interveio de repente Ahmed.

Os dois voltaram-se para ele, incrédulos. Samira quis protestar, indignada, mas não conseguiu dizer nada. Kamal se sentiu culpado, não queria que ninguém se arriscasse por ele, muito menos seus amigos, mas obviamente respeitava a vontade de Ahmed.

– Então vamos – assentiu Kamal.

Samira, impotente, quis chorar, implorar, gritar, bater-lhes. Não viu, por fim, outra saída senão se juntar à expedição. Combinaram de se encontrar no portão de trás da escola após as aulas, onde Kamal havia amoitado picaretas e pás.

Já passara da hora do almoço quando partiram. Rafah, onde moravam, é uma cidade fronteiriça situada no sul da Faixa de Gaza. Entre ela e o Egito corre uma cerca alta, encimada por arames farpados, e coalhada de soldados armados até os dentes. A fronteira é estritamente controlada pelo governo egípcio, e o acesso entre os respectivos países é restrito. Depois da vitória do Hamas nas eleições, de sua subida ao governo e da expulsão dos moderados do Fatah para a Cisjordânia, o controle e a vigilância endureceu ainda mais devido às pressões de Israel, que considera o partido um grupo terrorista e teme pela segurança de seu país. Segundo o governo israelense, a fronteira em Rafah é a principal porta de entrada das armas que sustentam o Hamas. Cavam-se túneis clandestinos sob ela, e é por isso que a Força Aérea israelense frequentemente realiza bombardeios na região, a fim de destruí-los.

Kamal, Samira e Ahmed chegaram uma hora depois à rua onde ficava o depósito em que supostamente se escondiam as tais armas contrabandeadas. Espalharam-se sobre a montanha de escombros, que se estendia por quase todo o quarteirão, e puseram-se a escarafunchá-la aleatoriamente. De repente Ahmed encontra alguma coisa. Seus olhos, de ordinário macambúzios, tornaram-se curiosos e, por fim, maravilhados quando ele se deu conta que sob os escombros jazia uma pilha de livros.

– Mas... Mas são livros – balbuciou incrédulo, Kamal. – Porque Israel bombardearia um depósito de livros?

E, de repente, tudo fez sentido. A inteligência militar israelense havia se equivocado. Confundira contrabando de livros com contrabando de armas. Não era incomum que, sob o rígido controle fronteiriço, bens de consumo civis fossem barrados na alfândega. Acontecia até mesmo de itens alimentares esbarrarem na burocracia e estragarem esperando autorização para entrar em Gaza. O livreiro de Rafah, por essa razão, resolvera então se arriscar pelos túneis clandestinos, controlados pelo Hamas, o que teria levantado suspeitas de Israel. Afinal, não só armas passavam por ali, mas todo tipo de mercadorias.

Os três amigos passaram então os dias seguintes minerando o antigo depósito e recolhendo os livros como se fossem pedras preciosas. Com eles, montaram uma biblioteca nova na escola, que ficou sob os cuidados de Samira. Kamal esqueceu-se da guerra santa, e pensava agora em fazer faculdade. Segundo ele, existem outras formas de ajudar o seu povo. E Ahmed passava tardes e mais tardes na biblioteca, completamente imerso nas histórias fantásticas de reinos passados e distantes.
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