quarta-feira, 23 de outubro de 2013

À quem possa interessar

Neste mar de braços, mãos e lábios
Urdido por palavras desconexas
Que um dia foram promessas
Cheias de pressa em ser feliz
E que hoje jazem esquecidas
Envelhecidas e desbotadas
No fundo de um armário empoeirado
Ou são simplesmente perdidas
Para se reencontrarem tímidas
Como crianças, renascidas, redivivas
Na boca dos apaixonados
No grito dos inconformados
No pulso em riste dos revoltados
É neste mar onde nos afogamos
Que eu mergulho, afundo, vou ao fundo
E, mesmo imerso em palavras, sinto-me mudo
As palavras, se extraviadas pelo meio do caminho,
Encontrar-se-iam no beijo fatal dos extremos?
O último e mortal beijo que daremos
Aliás, sem qualquer arrependimento
Abraços chegam porque têm de chegar
Seja por terra, água ou mar
Nós damos um jeito de os enviar
Um abraço – livre, humano, fraternal
Que teria acontecido com o nosso serviço postal?
Para extraviar tantos abraços por aí?
Quem dera fosse a causa excesso de trabalho!
Aquele abraço que mandei
Dias desses, filho bastardo de noite insone
Cheio de saudade, e que de tantos cuidados cerquei,
Chegou ao destinatário?
Tê-lo-ido encalhar num recife de coral?
Ou caído no abismo que finda o mundo?
Depois da queda, onde teria ido meu abraço parar?
Encontrara, algo bobo, outros braços?
Aos quais pudesse se agarrar?
E que ensinasse-lhe como abraçar de novo?
Pois se alguém o encontrar
Saiba que meu abraço não tem dono
Não é de ninguém e é de todos
É de quem o achar
Como todo abraço,
Ele só precisa de outros braços, abertos
E um peito para chamar de lar
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