segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Sermão de Bienvenu Myriel (Ou: por onde a falta passou?)

Quem sois vós?
Que se arvora em juiz
Sem deixar de ser parte
Apoiando-se no nome de falsos deuses
Para acusar de erro, de vilania
Para cobrir de infâmia e de opróbrio
Um semelhante a ti
Que sofre, que chora
Que tem medo
Que sente frio e fome
Enquanto você refestela-se
Açambarcando a graça que Deus deu
A todos nós?

Quem sois vós?
Para falar da ignomínia alheia
Enterrado até os pés
Como estás,
Na lama mais fétida
Que preenche o fundo poço
Da alma humana
Capaz, sem pestanejar
De cometer atos
Tão ou mais perversos
Do que teu irmão
A quem acusa de inimigo
Por não compartilhar contigo
De sua suposta humanidade?

Quem sois vós?
Que se crê senhor da razão
E do dono da vontade
Que assoma soberbo
No pedestal da História
Tendo sangue aos teus pés
Ocupado demais em condenar
Para olhar a si mesmo
Comprazendo-se em apontar o dedo inquisidor
Sujo, besuntado de iniquidade
Na fuça dos humilhados
Dos oprimidos e derrotados
E ainda afirmar-se justo?

Será que não vês nele
Naquele que recusa
Naquele que fora
Desde o berço, privado
Vilipendiado,
Tua própria imagem
Falsa e hipócrita
Refletida em seu olhar
De animal acuado?

A felicidade que roubas dos outros
Restitue-se-lhes em humanidade
E concede-lhes a força
E o direito sobre o Futuro
Que eles ainda hão de herdar
(Ou seria tomar das mãos de teus filhos?)
E, então, de cabeça altiva
Caminharão sobre teu cadáver
Despido, esquecido
Sem direito sequer a uma lápide
A uma nota de rodapé
Que eternize seu nome
Senão como de fato fora:
Mau, indigno
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