terça-feira, 19 de novembro de 2013

Dilema

Eis o dilema de hoje:
Fazer de tudo um pouco, mas não ser bom em nada
Ou especializar-se numa única cousa, fazendo-se bom nela
Ao preço de manter-se cego, ignorante e alienado a tudo o mais?
Aceitar a condição de pequena peça
Desimportante por si mesma, mas indispensável ao todo
Cujo funcionamento se concebe como uma máquina
Ou pretender, ainda que condenado de saída ao fracasso
Tal como os heróis trágicos dos mitos antigos
Abraçar o mundo todo, e tudo que nele existe
Com esses pequenos e tíbios braços de humano?
Difícil dilema, pois se, de um lado, tudo aquilo que chamamos de cultura é necessariamente bom
Quer-se, legitimamente, aproveitar de todo este legado, como é de direito
Embora, de outro lado, se cada um de nós se satisfizer em ser um diletante
Correríamos o risco de botar freio nesse processo, de empacar e não ir além
Em suma, ser tudo é não ser nada, e não ser nada é ser tudo
Como resolver essa dialética?
Critica-se hoje a especialização burra, advoga-se a interdisciplinaridade
Mas, na prática, fazemos tudo ao contrário
Aquela erudição culta, aquele saber enciclopédico
O traço distintivo do tempo das luzes, não existe mais
Um dia matamos Deus, só para nos colocar em seu lugar
Agora matamos a nós mesmos, e, caídos, tornamo-nos fatalistas, niilistas, cínicos
Tal como as peças de uma máquina seriam se tivessem a faculdade de pensar
Eis aí outro dilema fundamental, que se não resolvido, não se resolve o primeiro: como colocar, no lugar dos caídos humanos deificados
Humanos humanizados?
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