sábado, 27 de julho de 2013

A cirurgia

“O que é mais ridículo: um corpo feio ou a busca obsessiva por um corpo ideal?”, perguntou-se Carolina, num assomo de lucidez que raramente lhe ocorria. Pode-se ignorar a consciência, mas não é possível suprimi-la. E a lucidez é uma arma que o instinto lança mão quando ameaçado por algum perigo iminente.

Instintivamente, o corpo de Carolina buscava preservar-se da agressão que ela, voluntariamente, lhe faria. Afinal, não havia fundamento racional naquilo. Não havia necessidade médica para submeter-se a uma operação de risco daquele tipo; ao contrário, o risco estava precisamente em submeter-se a ela, sem mencionar o lento e penoso processo pós-operatório de recuperação. Seu médico não lhe desaprovara a decisão; como parte de seu papel de médico, contudo, havia-a colocado a par de todas as consequências possíveis implicadas nessa decisão. Naquele momento, Carolina fizera ouvidos moucos às suas palavras, obsedada como estava em emagrecer. Agora, encolhida ali naquela cama de hospital, à uma hora da cirurgia, ela sentia muito medo, e se perguntava se fizera a escolha certa.

Postado no alto, à sua frente, o relógio se arrastava lenta porém inexoravelmente. Ao seu lado, jaziam flores num vaso; votos de boa-sorte. No entorno, um silêncio de morte e aquele odor característico de hospital ressudando por toda parte. Alguém passou em prantos pelo corredor, enquanto, inconsolável, consolava-lhe um ombro amigo. Carolina sentiu a espinha gelar. O que diabos fazia ela naquele lugar?

Tentou resgatar na memória seus motivos, a fim de justificar a si mesma que não era a toa que submetia-se àquele sacrifício voluntário. Ora, que melhor motivo teria do que o fato de ser gorda? E, além de gorda, era baixinha, atarracada, cujos membros roliços pareciam saídos daqueles espelhos fanfarrões dos parques de diversão. Não era como os de algumas de suas amigas, delgadas e esbeltas, cujos braços pendiam suavemente dos ombros elegantes. Detestava sua bunda, seios e coxas. Da barriga, então, é melhor nem falar.

Desde quando, ainda criança, começou a dar atenção às suas formas, e a compará-las com as de outras mulheres, sobretudo às daquelas que a tevê exibe radiantes, Carolina sentia-se horrivelmente feia, desajeita, nada atraente. Conforme crescia, crescia também essa sensação, ao ponto de não poder sair de casa senão com roupas que disfarçassem os quilos em excesso. Comprar roupas lhe pareceu sempre um pesadelo, não uma diversão. Ficar de biquíni em público, então, nem pensar. Apenas a ideia lhe causava vertigem. A adolescência, fase da insegurança por excelência, fora particularmente angustiante. Carolina precisou de psicólogos e remédios para conseguir levar uma vida minimamente normal. Em partes, conseguiu superar o trauma, mas a obsessão com o próprio corpo calou fundo em sua alma.

E o diabo é que Carolina possuía um lindo rosto. Só que, assentado sobre seu volumoso corpo, como se fosse uma cereja apetitosa sobre um bolo disforme, ninguém parecia notar. Ou melhor, antes perscrutavam seu corpo para somente depois reparar-lhe o rosto. Superada as crises da adolescência e conquistada certa segurança e autoestima, Carolina mostrava-se uma pessoa extrovertida, carismática, traço herdado da infância e nunca completamente abafado. Agora, aos quase trinta anos, quem a conhecia logo se encantava com aquele seu sorriso largo. Mas a impressão inicial, baseada em seu corpo, ficava sempre pairando no ar, inscrita nas expressões faciais traídas dos interlocutores, ou assim Carolina imaginava. Embora se considerasse uma pessoa feliz, sentia como se faltasse alguma coisa para o quadro completar-se, algo de indefinido. E era esse vazio que ela pretendia preencher com a operação de redução de estômago.

Agora restava apenas meia hora. Logo a enfermeira adentraria pela porta para levá-la à sala de cirurgia. Enquanto isso a tensão aumentava, fazendo Carolina transpirar pelas mãos e seu coração palpitar desordenadamente. Virou o rosto de lado, procurando com os olhos os olhos da amiga. Deu com eles ternos e apiedados. Esta imaginava o que se passava pela cabeça de Carolina, e sentia pena dela por isto. Mas uma amiga é uma amiga, e por mais que discordasse da decisão de sua decisão, respeitava-a e, como não havia meios de demove-la, apoia-la era o que lhe restara. Ademais, como ela, que estava casada e feliz, poderia condenar a amiga, que nunca havia namorado na vida, por tomar tal decisão drástica? Uma amiga não substitui um companheiro, e jamais substituiria. Se Carolina achava que este era o meio para alcançar a felicidade, tornando-se mais atrativa aos olhos das pessoas, então que assim seja.

Às dez horas em ponto a enfermeira apareceu, acompanhada pelo médico, um sujeito grisalho de meia idade. Ministrada as últimas informações à paciente, com eles lá se foi Carolina. Sua amiga permaneceu alguns minutos a mais no quarto, arrumando seus pertences e deixando-o à espera de Carolina para quando esta regressasse com o estômago reduzido a um copo de café. Dali em diante, adeus aos prazeres gastronômicos da vida. Sua alimentação teria de ser rigidamente controlada, tanto em termos de quantidade, quanto de qualidade e de horário também. Carolina ficaria refém dele para o resto de seus dias, sendo que, ainda por cima, não havia garantia de que ela não voltaria a engordar. Em tese, este tipo de operação deve ser feito como última opção, e jamais com fitos puramente estéticos. Quando se têm dinheiro para pagar, entretanto, as prioridades se invertem, e não é difícil obter o serviço de médicos renomados. Carolina não era rica, mas também não era pobre, e com alguns sacrifícios financeiros foi-lhe possível juntar o dinheiro necessário.

Em três horas apenas Carolina estava de volta ao quarto. Dera tudo certo. Em três dias sairia do hospital, caso tudo corresse bem. E logo poderia voltar à sua vida normal. Mas nada seria como antes. Não apenas porque fisicamente fora alterada. Nem porque seus hábitos alimentares tivessem de ser drasticamente disciplinados. Antes porque sentia que as mudanças externas refletir-se-iam internamente. Com um corpo esbelto, aquele vazio desapareceria, aquela sensação de falta sumiria. Sentir-se-ia mais confiante e desenvolta. Olhar-se-ia no espelho sem raiva ou medo, mas com satisfação e prazer. Usaria as roupas que quisesse. Acima de tudo, as pessoas a olhariam de outra forma, com outros olhos. Não como antes, quando, ao entrar num ambiente público qualquer, podia sentir os olhares de repulsa a pesar sobre ela como chumbo, fazendo-a inevitavelmente evitar encará-los de frente, restringindo-lhe os movimentos por medo de dar qualquer motivo àqueles olhares inquisidores que pareciam dizer: “gorda asquerosa”, “para de comer, sua gorda”, “deve ser virgem, essa jamanta”. Quem sabe agora tivesse coragem até mesmo para abordar um homem solitário nalguma mesa de bar. Ou quem sabe algum homem solitário a abordasse num bar qualquer. Quem sabe? Carolina, satisfeita, sonhava com a vida feliz que o futuro lhe reservava, agora que entraria no mundo maravilhoso das pessoas magras.
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