segunda-feira, 22 de julho de 2013

Eu cago, tu cagas, nós cagamos: um outro olhar sobre a merda

Cagar é a ação vital mais prosaica que conhecemos, talvez até mais do que a ação de comer. Não é correto que o trivial, as coisas prosaicas da vida, devam ser descuidadas, olvidadas, desvalorizadas. Ora, comer é uma banalidade, algo que cumprimos religiosamente (quem tem, ao menos, condições), e nem por isso descuidamos das nossas refeições, ou comemos de mal gosto, tão-somente para matar a fome. Comer é um prazer, e a gastronomia está aí para nos lembrar que se trata, também, de uma arte. Pois bem, cagar também é um prazer e uma arte. Porque então essa desvalorização da merda? Porque essa negligência toda ou ojeriza em relação ao ato de cagar? É claro que no dia-a-dia a necessidade de alimentar-se é feita sem grande pompa. Não obstante, ao menos uma vez por semana queremos comer bem, preparar aquele almoço caprichado, sair para comer fora, de preferência com os amigos ou a família. Porque o ato de cagar não recebe o mesmo tratamento? Porque não temos o costume de, por exemplo, cagar fora? Eu, pessoalmente, adoro cagar fora. Na casa de amigos, no banheiro da faculdade, do consultório médico. Não existe banheiro melhor para dar uma bela cagada do que o de shopping. Aquele mármore reluzente, aquela temperatura amena, tudo muito asséptico e clean, é um convite para me demorar sobre o vazo. Ainda que eu não esteja com vontade, faço uma forcinha para não desperdiçar a oportunidade.

E o contrário é verdadeiro também: nada mais terrível do que, premido pelo chamado da natureza, ter de cagar num banheiro asqueroso, empoçado de mijo, sem papel higiênico, cuja porta não tranca. Nessas horas, quando não tem outro jeito, o jeito é bancar o malabarista: cagar sem relar as coxas no assento, as calças arreadas porém sem encostá-las no chão, com uma das mãos segurando a camisa enquanto a outra mantém encostada a porta do banheiro. A parte difícil mesmo, o último truque do malabarista, acontece na hora de se limpar, quando se tem de fazer tudo isso e ainda manusear o papel higiênico. E olha que, ainda assim, deve-se agradecer, porque pior do que isso é ter de cagar na rua, especialmente numa hora movimentada do centro da cidade. Antes de deixar chegar a esse ponto, meu amigo, não tenha vergonha: bata de porta em porta implorando pela solidariedade alheia. Mais vale uma cagada tímida num banheiro alheio, do que uma cagada desbragada na calçada. Só quem já passou necessidade, carecendo de uma privada, sabe o valor que ela tem, e por isso não recusaria a privada nem ao seu pior inimigo.

O ponto é que cada lugar, ou seja, cada banheiro e cada privada diferente, dá uma sensação especial. Tem lugar que a gente quer cagar o mais rápido possível e sair dali. Tem outros que a gente quer se demorar, deixar o tempo passar, esquecer o mundo que se desenrola para além da porta do banheiro. Por exemplo, cagar também é um ótimo meio de burlar o trabalho. Mesmo aqueles que costumam cagar ligeiro, aproveitam a deixa para relaxar. Cagar no trabalho é tão bom quanto fazer aquele intervalinho para fumar um cigarro. Para quem não fuma, resta o cocô. O ruim é quando não é possível sair para cagar. Aí é melhor cagar antes de sair de casa mesmo, porque ficar se contorcendo para segurar a merda que luta para vir ao mundo é um sofrimento só. Os peidinhos liberados na encolha durante esta batalha, à semelhança de uma válvula de escape, não são o bastante. E, de qualquer maneira, ninguém gosta de ficar brigando com os próprios intestinos. Ainda que em cada lugar e em cada banheiro a sensação da cagada seja diferente, não resta dúvida de que a melhor de todas consegue-se no conforto e segurança do próprio lar. Quando se trata de privada, o adágio popular segundo o qual a grama do vizinho é sempre mais verde não vale. Nada melhor do que a nossa privada, já amaciada e adaptada anatomicamente.

E porque esse medo da palavra “cagar”? Enquanto eu escrevo, o corretor automático do Office incansavelmente fica a me sugerir que eu substitua a palavra cagar pela defecar. Não, é cagar mesmo! Quem é que defeca neste mundo? Todo mundo caga! Alguém por acaso diz: “me dá licença, vou defecar”? Aliás, a maioria das pessoas não diz, de fato, nem um nem outro, e sim: “vou ao banheiro”. Faz-se muita coisa no banheiro, como banho, sexo, punheta, barba, cílios, maquiagem; entre elas, faz-se cocô também. Qual o problema em ser mais específico? E não vale dizer: “vou ao banheiro fazer o número dois”, exceto se você tiver até 12 anos no máximo. Tirando a sinceridade cômica que vige entre amigos íntimos, só os mais audazes e subversivos dizem sem rebuços: “peraí que preciso dar uma cagada”; ou contam desenxabidamente sobre suas histórias fecais para qualquer um. 

Percebe-se que existem mil maneiras de referir-se ao ato. Cagar, defecar, obrar. Podemos referir a ele, também, por metáforas: cortar o rabo do macaco, chapiscar o azulejo, passar um fax, ligar a máquina de churros, etc. E essas várias maneiras não são casuais, tampouco neutras; remetem a ideias construídas socialmente a respeito do significado e da natureza da ação de cagar. Não à toa, associamos essa ação a coisas ruins, desagradáveis, sujas, enquanto a ação de comer, que não existiria sem a ação de cagar e vice-versa, associamos a coisas boas, limpas, saudáveis. Como pode duas ações que só existem em relação entre si, jamais separadas, serem valorizadas de forma antagônica, como se uma fosse a antípoda da outra. Comer remete a saúde, cagar remete a doença. Será que não percebemos a contradição? Cagar é uma condição de saúde tão importante e necessária quanto comer. Quem já ficou semanas sem conseguir cagar (na linguagem popular, “ficou ressacado”) que o diga. Não é o meu caso, que cago muito bem obrigado. Mas parte expressiva da população, submetida a uma dieta rica em gordura e pobre em fibras, sofre diariamente com a dificuldade de cagar. Neste caso a culpa pela saúde ruim é do comer e não do cagar. E é a coitada da merda que leva a fama de ser imunda.

E existem mil maneiras de referir-se não apenas ao ato em si, mas também a algo através dele. Quem diz “tô cagando e andando para isso”, quer dizer que está pouco se importando com determinada coisa. Para transmitir um sentimento de medo podemos dizer: “quase me caguei todo”. Se você quer ofender uma pessoa, chame-a de merda ou bosta. E se você quer que ela se foda, sem, contudo, ser tão agressivo, pode dizer: “vai cagar”. E não esqueçamos que muitos discursos preconceituosos são muitas vezes construídos com base na ação de cagar, por exemplo, associando a cor da pele dos negros ao tom da merda. Quando alguém aludir ao ato de cagar através de expressões tais como “vou botar o Pelé para nadar”, “vou inscrever o Robinho na natação”, repudie-a taxativamente, e esclareça-a respeito do conteúdo racista de sua declaração. Podemos e devemos nos divertir com nossos excrementos sem sermos preconceituosos com isso. No mundo queremos, sem preconceito de qualquer espécie, não há espaço para fezes e ignorância ao mesmo tempo, ademais porque uma merda é precisamente a ignorância.

Ao parolar tão tranquila e naturalmente sobre o ato de cagar, pode parecer que eu mantenha com ele uma relação menos pudica do que a maioria das pessoas, mas não. Eu também tenho meus pudores, claro. Fomos criados para ser assim, para ter nojo, não apenas da merda, mas também de toda excreção corporal. Quando cago em lugares públicos, como no banheiro de um shopping, para retomar este exemplo, eu tento controlar ao máximo meu esfíncter para emitir menos barulho possível. Não me sinto confortável sabendo que as pessoas estão ouvindo a merda que cai do meu cu, especialmente quando a merda vem acompanhada de flatulência trovejante. Às vezes não tem jeito, definitivamente. A bosta vem com tal furor e intempestividade, como um tsunami, que arrasa tudo em seu caminho, fazendo um estrondo característico quando vem à luz. A pestilência espalha-se imediatamente e toma de assalto todo o ambiente. Fico imaginando o que passa pela cabeça das pessoas ao redor que têm a oportunidade de presenciar esse fenômeno da natureza. Já aconteceu de eu rir abertamente numa situação dessas, sem poder, naturalmente, explicar-me a elas. Como não rir de algo tão cômico? Aliás, cagar e peidar são uma espécie de piada fisiológica que o nosso corpo nos conta. Deixemos, portanto, de torcer o nariz, e botemos de parte nosso aversão pela merda, sobretudo em relação a da juventude, uma vez que sua repressão é uma das causas principais da sisudez adulta.

No entanto, se esse tipo de cagada é ruim de fazer em público, ele é talvez o melhor de fazer na privacidade total. Só a cagada-tsunami fornece alívio imediato e dá aquela inigualável sensação de bem-estar. Às vezes chega-se mesmo a emitir involuntariamente um gemido de prazer. Talvez por isso também nos referimos ao ato de cagar como o ato de “se aliviar”. Considere, por exemplo, a raiz etimológica da palavra “enfezado”. Ela vem de fezes, e significa, literalmente, “pessoa cheia de fezes”. Por óbvio, uma pessoa prenhe de fezes é uma pessoa irritada, daí a derivação do verbo “enfezar” como “zangar-se”. Portanto, cagar é um prazer. Mas nem sempre. É irritante e frustrante quando se caga à prestação, bolinha por bolinha, como uma cabrito, ou quando a merda sai maior que a encomenda exigindo demais das pregas do cu. Isso para não mencionar a diarreia, ou outras manifestações anómalas da cagada. De meia em meia hora toca acudir ao banheiro, com aquela terrível sensação de que qualquer peidinho mal liberado pode redundar em tragédia (e quem já não foi vítima de uma?). Por isso, o ideal é que a merda esteja no meio-termo, equilibrada, nem mole nem dura demais, nem grande nem pequena – se bem quem conheço mais de uma pessoa que contam vantagem de cagadas de magnitudes supostamente colossais. Assim como as histórias de pescador, as de bostas épicas também são lendárias. Um ou outro registra a obra em vídeo ou em foto para provar, para o Guinness se preciso for, que não se trata de lorota de pescador, quer dizer, de cagador.

Desculpe-me se lhe parece intimidade demasiada escrever uma crônica sobre o ato de cagar. Mas esse é também um texto político. Faço aqui uma apologia à boa cagada; tento resgatá-lo da infâmia fisiológica à qual foi relegada pelo homem moderno. Se você se ofende com essas palavras é porque é presa, justamente, dessa moral que reprime a merda, que resseca os intestinos e que faz do cu um pecador. Daí a necessidade de um libelo pela liberdade de cagar! De um manifesto contra o recalque fecal! Em todos os sentidos, essa crônica é um laxante em palavras. Chega de se envergonhar ao sentir prazer cagando! Chega de tergiversar sobre o assunto nas conversas de família! Chega de mentir e esconder as trágicas e/ou cômicas memórias de cagadas insólitas! Afinal, todo mundo caga, não caga? Eu, você, minha avó, o Papa, a princesa Kate Middleton. E cagam tão fedido quanto! Cagar é o ato socialista por excelência, a expressão literal do princípio de igualdade que ensejou as duas maiores revoluções que esse mundo já presenciou, e que consta na Carta dos Direitos do Homem e do Cidadão: na hora de cagar, todo mundo é igual, ricos ou pobres, celebridades ou anônimos.

Dito isso, deve-se observar, por outro lado, que, se a cagada é, em si, uma necessidade universal, tal qual a bosta feder, as circunstâncias em que o ato acontece são diversas, e inúmeras são as variáveis que influenciam sobre elas e sobre o resultado final, ou seja, a merda. As variáveis mais importantes são sociais e culturais. Entre as sociais, sabe-se que o rico caga num verdadeiro trono acolchoado, limpa-se com papel mais macio que veludo (não fosse algo embaraçoso, ele pagaria uma doméstica para fazer o serviço por ele), e tem à disposição perfumadores de ambiente para que não venha a ter o desprazer de inalar o odor de sua própria criação. Já o pobre está condenado a cagar em banheiros mal iluminados, com privadas nodoadas e rústicas, cuja caixa-de-descarga muitas vezes não dá conta do serviço, obrigando-o a recorrer ao trabalho extra de buscar água no balde para arrematá-lo. E não esqueçamos do tipo de papel barato, que mais parece uma lixa de parede, com que o pobre é obrigado a limpar a bunda, quando não lhe resta apenas o jornal puro e simples. Para o pobre, essa já é, seja dito de passagem, uma condição razoável, porque há miseráveis que só Deus sabe como cagam (até porque não comem nada para ter o que cagar depois). No sertão nordestino, por exemplo, o banheiro é o arbusto, não tendo o sertanejo uma folha de bananeira sequer à disposição para limpar a bunda. E aqueles banheiros antigos das casas de fazenda, que ficavam separados da sede? Imagina quão aborrecedor não deveria ser acordar no meio da noite para cagar! E isso me faz lembrar as privadas de cadeia, que os detentos chamam de “boi”. Não há separação nenhuma entre elas e as celas. Coitados dos presos recém-chegados que, à mingua de conceito com o resto da bandidagem, tem de dormir no pior canto da cela, ou seja, ao lado do boi.

Cagar dá pano pra manga. Poderia discorrer eternamente sobre o assunto. Faltou falar, por exemplo, dos tipos de cagadores. Tem aqueles que negligenciam o ato, ou têm de cagar várias vezes ao dia, de modo que mantêm com ele uma relação quase protocolar, formal. Tem aqueles tipos intelectuais – categoria na qual eu me enquadro – que não conseguem sentar-se à privada sem um texto em mãos, e, na falta de um, são capazes de ler o rótulo de xampus e pastas de dentes. Tem aqueles que só cagam de manhã, e aqueles que não podem sentir o cheirinho de café sem uma privada por perto porque a vontade bate forte. Tem casais que cagam juntos, outros ainda não chegaram a tal nível de intimidade. Pois é, cagar dá pano pra manga. Tanto, que, ao invés de dizer “cagar dá pano pra manga”, poderíamos dizer – se mantivéssemos uma relação mais natural e menos recalcada com as nossas fezes – “cagar dá bosta pro cu”. E aqui entra em cena o cu, mas aí já é outra história. Fica pra próxima crônica.
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