segunda-feira, 22 de julho de 2013

Canção do (auto)exílio

Escrevo porque?
Para desaparecer
Desapare-
Ser
Pare
Desapareça
Não seja
E o que mais eu poderia querer?
Escrevo e sumo
Me anulo
Restam as palavras
Sem rumo
Resta um olhar
Imortalizado
Sobre o mundo
Quem escreve
Desaparece
Quem escreve
Se despede
De tudo
Escreve
Sobre-
Tudo
De si

Escrever é transcendência
Para além do concreto
Da vivência
Da vida, do azo cotidiano
É reminiscência
De um outro passado
Não o meu, não vivido
Mas inventado
Que quisera houvesse sido
E que importa?
É sonhar acordado
Pois está além do possível
É aquilo que não fui
Nem hei de ser
E assim me satisfaço mui

É solidão consentida
Que se escolhe, voluntariamente
Consciente, auto-impingida
Sai de cena o homem
Para entrar o artista
É na solidão que se sente
O comungar-se com a vida
É estando ausente
Rasurando linha por linha
Que me sinto presente
Que sinto de vocês a companhia
Sem mediação, interiormente
Como se não existisse espaço
Aqui, ali, embaixo ou em cima
Nem tempo
Passado, futuro ou presente
Só a gente, nós todos
Vagando no vácuo
Descarnados, sem corpo
E, a atravessar-nos, essa energia boa
Religando tudo de novo
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