domingo, 9 de fevereiro de 2014

Primeiro amor

Se lembra quando a gente
Chegou um dia a acreditar
Que tudo era pra sempre
Sem saber que o pra sempre
Sempre acaba?

Eu te levava de bike à escola
Transávamos bêbados na rua
Na cama da sua mãe
Ou íamos de taxi ao motel
Não tínhamos um pingo de vergonha

Dois sem-vergonhas, é isso que éramos
Mas não pelas razões que o leitor possa estar pensando
Éramos sem-vergonhas porque não tínhamos vergonha de amar
Nem de ser feliz
Mas, mais importante, não tínhamos vergonha de sermos bobos

Ríamos dos quadros na galeria de arte
E, sobretudo, do ar de bobo das pessoas
Falávamos alto no cinema
Brincávamos de guerra de comida na praça de alimentação do shopping
Pedíamos sorvetes diferentes para repartir os sabores
Eu dava tapa na sua bunda no meio de todo mundo
Você detestava, vinha me batendo
E eu saía correndo, dando risada
Te levava de cavalinho
Dava colo no banco da praça

Tudo era diversão
Tudo era brincadeira
Impressão minha ou o tempo encurtou depois daquela época?
Tínhamos tempo para qualquer bobagem
Mas se viessem com papo sério
Bá! Pra isso não tínhamos tempo
Se bem que pensávamos em casamento
E filhos, uma penca deles

Ficávamos horas e horas contando estrelas na madrugada
Deitados no gramado do lago
Eu estava sempre cismando planos mirabolantes para lhe fazer uma surpresa
Desde fazer-lhe geleia de jabuticaba da jabuticabeira de casa
Até escrever uma poesia na carteira em que você se sentava na faculdade
Ou pedir para tocar a nossa música na rádio
Não passava em frente a um jardim sem pensar em como roubar uma flor pra ti
Por você eu até limpava a banheira da república
E enfeitava-a de pétalas, velas, incenso e sais de banho

Por que todo amor não pode ser assim?
Por que com o tempo a graça se perde e a vontade também?
A verdade é que não existe primeiro amor
Todo amor verdadeiro
É como se fosse o primeiro
É único, e é recomeço
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