O mundo é um livro de crônicas
Recheado de lindas histórias
Iguais as que a minha avó
Contava-me na cozinha
Enquanto fazia pão de ló
É um livro sem-fim a vida
Que cada um escreve um capítulo
A opus magnum da humanidade
É esta literatura coletiva
Que à vista de todos se abre
Sangue e suor são suas tintas
E o cotidiano as páginas
Peço apenas sabedoria e humildade
Para saber ler-lhe as linhas
E uma epígrafe legar à posteridade
sábado, 27 de julho de 2013
sexta-feira, 26 de julho de 2013
O segredo da vida
Andar em todos os lugares
Sem fincar raiz em nenhum deles
Amar a todos as pessoas
Sem ter de escolher uma apenas
Ser a pessoa que se é
E ser todas elas ao mesmo tempo
Ver com todos os olhos
E não somente com o seu próprio
Ter os pés firmes no solo
Sem tirar a cabeça das nuvens
Ser um ser finito
Enquanto se é um só com o universo
Sem fincar raiz em nenhum deles
Amar a todos as pessoas
Sem ter de escolher uma apenas
Ser a pessoa que se é
E ser todas elas ao mesmo tempo
Ver com todos os olhos
E não somente com o seu próprio
Ter os pés firmes no solo
Sem tirar a cabeça das nuvens
Ser um ser finito
Enquanto se é um só com o universo
quinta-feira, 25 de julho de 2013
O vício da poesia
Escrever poesia virou um vício.
Tudo é motivo, não consigo pensar em mais nada.
E mesmo quando penso em outras coisas a poesia não deixa de pensar meus pensamentos.
Permanece como pano de fundo, poetificando tudo, e em minha mente a ciência e a política de repente se veem relegadas a um quarto escuro.
Não respeita o momento, nem pede permissão para assomar à ribalta do palco da peça que se desenrola em meu teatro mental.
Então deixo de fazer o que estou fazendo e penso: isto daria uma bela poesia!
E paro tudo para pari-la.
Bem no momento – neste momento exato! – em que o inesperado mais esperado em décadas de repente deixa de se fazer esperar para tornar possível a possibilidade de se ver realizado.
No momento em que, ainda sem jeito, saem as massas às ruas para entrar na história.
Em que a palavra de ordem é política, e é ela que dá o tom da crítica.
Bem neste momento eu largo tudo, deixo o concreto mundo, para me refugiar nas searas líricas da poesia.
Bem neste momento, sou só sentimento, sem tempo para racionalizar, quem dirá participar.
Agora que se exige a prática, sou só teoria.
Que se impõem a realidade, sou só fantasia.
Sou só abstrato.
E, qual não é o espanto, quando constato que, isto aqui, que era pra ser um desabafo, virou também poesia.
De fato, a continuar assim, eu próprio tornar-me-ei verso em prosa.
Tudo é motivo, não consigo pensar em mais nada.
E mesmo quando penso em outras coisas a poesia não deixa de pensar meus pensamentos.
Permanece como pano de fundo, poetificando tudo, e em minha mente a ciência e a política de repente se veem relegadas a um quarto escuro.
Não respeita o momento, nem pede permissão para assomar à ribalta do palco da peça que se desenrola em meu teatro mental.
Então deixo de fazer o que estou fazendo e penso: isto daria uma bela poesia!
E paro tudo para pari-la.
Bem no momento – neste momento exato! – em que o inesperado mais esperado em décadas de repente deixa de se fazer esperar para tornar possível a possibilidade de se ver realizado.
No momento em que, ainda sem jeito, saem as massas às ruas para entrar na história.
Em que a palavra de ordem é política, e é ela que dá o tom da crítica.
Bem neste momento eu largo tudo, deixo o concreto mundo, para me refugiar nas searas líricas da poesia.
Bem neste momento, sou só sentimento, sem tempo para racionalizar, quem dirá participar.
Agora que se exige a prática, sou só teoria.
Que se impõem a realidade, sou só fantasia.
Sou só abstrato.
E, qual não é o espanto, quando constato que, isto aqui, que era pra ser um desabafo, virou também poesia.
De fato, a continuar assim, eu próprio tornar-me-ei verso em prosa.
Minha ambição
Minha maior ambição
É nada ambicionar
Senão as coisas do coração
As quais não se pode comprar
Meus sonhos não estão à venda
Não se adquirem no mercado
O que eu tenho não foi comprado
E não se expressa em moedas
Antes está em mim, incorporado
Não está em coisas materiais
Objetivado em mercadorias
Não me interessa bens venais
O que me interessa é saber,
Conhecer; é sabedoria
Que fique claro: ter não é ser
O que me interessa é amar
E ser amado
E isto justifica a minha pressa
Que não é a mesma desta corrida de ratos
A vida é uma só, e é esta
Há de se bebê-la num trago
De fazer dela uma festa
E, ao apagar das luzes,
Dela estar inteiramente embriagado
Sabe o que é estar livre da ambição?
Não ambiciono carros
Sejam novos, sejam importados
O meu, velhinho, serve-me mui bem, obrigado
As vitrines não me despertam atenção
Em verdade, acho-as de extremo mal gosto
Teu tênis novo não me cobiça
Cupidez é um pecado sem perdão
Ostentação, então, me causa ojeriza
Tudo o que me interessa são bons amigos
Que com eles divido tristezas e alegrias
Digo de novo: é amar e ser amado
Tudo isso acompanhado, claro,
De bons livros
Livros, de preferência, usados
É nada ambicionar
Senão as coisas do coração
As quais não se pode comprar
Meus sonhos não estão à venda
Não se adquirem no mercado
O que eu tenho não foi comprado
E não se expressa em moedas
Antes está em mim, incorporado
Não está em coisas materiais
Objetivado em mercadorias
Não me interessa bens venais
O que me interessa é saber,
Conhecer; é sabedoria
Que fique claro: ter não é ser
O que me interessa é amar
E ser amado
E isto justifica a minha pressa
Que não é a mesma desta corrida de ratos
A vida é uma só, e é esta
Há de se bebê-la num trago
De fazer dela uma festa
E, ao apagar das luzes,
Dela estar inteiramente embriagado
Sabe o que é estar livre da ambição?
Não ambiciono carros
Sejam novos, sejam importados
O meu, velhinho, serve-me mui bem, obrigado
As vitrines não me despertam atenção
Em verdade, acho-as de extremo mal gosto
Teu tênis novo não me cobiça
Cupidez é um pecado sem perdão
Ostentação, então, me causa ojeriza
Tudo o que me interessa são bons amigos
Que com eles divido tristezas e alegrias
Digo de novo: é amar e ser amado
Tudo isso acompanhado, claro,
De bons livros
Livros, de preferência, usados
quarta-feira, 24 de julho de 2013
Carência
Sou um cara carente
Necessito de gente
Mas digo que não
E me chamam turrão
Só que é tudo mentira
Se encontro companhia
Sou tão-tão grudento
Que nem eu me aguento
E me dizem:
Deixa disso, homem!
Carência é coisa de criança
Teu afetivo é muito infantil
Não tiveste infância?
Onde é que já se viu?
Um varão sentir-se carente
Ainda fosse mulher
Vá lá, entende-se
Agora, um homem padecer
De um coração doente?
Adultos não sentem carência
No máximo, solidão
Muito menos um homem, sinceramente
Ora, tenha decência
Você com sua carência que se aguente!
Não há tempo para comoção
Nem espaço para compaixão
Ternura, piedade ou meiguice
Tudo isto é frescura, é tolice
Não cabe entre gente grande
É preciso ser forte, petulante
Se você uma lágrima derruba
Esmagam-te como a uma uva
Não te esqueças, garoto, o mundo é duro
Sabes quando um adulto torna-se adulto?
Quando deixa de sentir-se carente
Para se crer forte e autossuficiente
E eu respondo:
Não, muito obrigado
Adultos são tristes e solitários
Prefiro ter com as crianças
Que, se não lhe dão atenção
Inventam amigos imaginários
Fantasiam mundos de sonhos
Deixam-se levar pela imaginação
E da vida fazem um conto
Coisas que todo adulto já fez
– como eu era bobo! –
Mas que não fazem mais
E quando olham para trás
É para zombar com ironia
Esquecendo-se que um dia
Foram crianças também
Talvez se deixassem de desdém
E guardassem um pouco
Da alegria de ser criança
Ninguém precisaria morrer
Na arrelia, por falta de esperança
Necessito de gente
Mas digo que não
E me chamam turrão
Só que é tudo mentira
Se encontro companhia
Sou tão-tão grudento
Que nem eu me aguento
E me dizem:
Deixa disso, homem!
Carência é coisa de criança
Teu afetivo é muito infantil
Não tiveste infância?
Onde é que já se viu?
Um varão sentir-se carente
Ainda fosse mulher
Vá lá, entende-se
Agora, um homem padecer
De um coração doente?
Adultos não sentem carência
No máximo, solidão
Muito menos um homem, sinceramente
Ora, tenha decência
Você com sua carência que se aguente!
Não há tempo para comoção
Nem espaço para compaixão
Ternura, piedade ou meiguice
Tudo isto é frescura, é tolice
Não cabe entre gente grande
É preciso ser forte, petulante
Se você uma lágrima derruba
Esmagam-te como a uma uva
Não te esqueças, garoto, o mundo é duro
Sabes quando um adulto torna-se adulto?
Quando deixa de sentir-se carente
Para se crer forte e autossuficiente
E eu respondo:
Não, muito obrigado
Adultos são tristes e solitários
Prefiro ter com as crianças
Que, se não lhe dão atenção
Inventam amigos imaginários
Fantasiam mundos de sonhos
Deixam-se levar pela imaginação
E da vida fazem um conto
Coisas que todo adulto já fez
– como eu era bobo! –
Mas que não fazem mais
E quando olham para trás
É para zombar com ironia
Esquecendo-se que um dia
Foram crianças também
Talvez se deixassem de desdém
E guardassem um pouco
Da alegria de ser criança
Ninguém precisaria morrer
Na arrelia, por falta de esperança
segunda-feira, 22 de julho de 2013
Eu cago, tu cagas, nós cagamos: um outro olhar sobre a merda
Cagar é a ação vital mais prosaica que conhecemos, talvez até mais do que a ação de comer. Não é correto que o trivial, as coisas prosaicas da vida, devam ser descuidadas, olvidadas, desvalorizadas. Ora, comer é uma banalidade, algo que cumprimos religiosamente (quem tem, ao menos, condições), e nem por isso descuidamos das nossas refeições, ou comemos de mal gosto, tão-somente para matar a fome. Comer é um prazer, e a gastronomia está aí para nos lembrar que se trata, também, de uma arte. Pois bem, cagar também é um prazer e uma arte. Porque então essa desvalorização da merda? Porque essa negligência toda ou ojeriza em relação ao ato de cagar? É claro que no dia-a-dia a necessidade de alimentar-se é feita sem grande pompa. Não obstante, ao menos uma vez por semana queremos comer bem, preparar aquele almoço caprichado, sair para comer fora, de preferência com os amigos ou a família. Porque o ato de cagar não recebe o mesmo tratamento? Porque não temos o costume de, por exemplo, cagar fora? Eu, pessoalmente, adoro cagar fora. Na casa de amigos, no banheiro da faculdade, do consultório médico. Não existe banheiro melhor para dar uma bela cagada do que o de shopping. Aquele mármore reluzente, aquela temperatura amena, tudo muito asséptico e clean, é um convite para me demorar sobre o vazo. Ainda que eu não esteja com vontade, faço uma forcinha para não desperdiçar a oportunidade.
E o contrário é verdadeiro também: nada mais terrível do que, premido pelo chamado da natureza, ter de cagar num banheiro asqueroso, empoçado de mijo, sem papel higiênico, cuja porta não tranca. Nessas horas, quando não tem outro jeito, o jeito é bancar o malabarista: cagar sem relar as coxas no assento, as calças arreadas porém sem encostá-las no chão, com uma das mãos segurando a camisa enquanto a outra mantém encostada a porta do banheiro. A parte difícil mesmo, o último truque do malabarista, acontece na hora de se limpar, quando se tem de fazer tudo isso e ainda manusear o papel higiênico. E olha que, ainda assim, deve-se agradecer, porque pior do que isso é ter de cagar na rua, especialmente numa hora movimentada do centro da cidade. Antes de deixar chegar a esse ponto, meu amigo, não tenha vergonha: bata de porta em porta implorando pela solidariedade alheia. Mais vale uma cagada tímida num banheiro alheio, do que uma cagada desbragada na calçada. Só quem já passou necessidade, carecendo de uma privada, sabe o valor que ela tem, e por isso não recusaria a privada nem ao seu pior inimigo.
O ponto é que cada lugar, ou seja, cada banheiro e cada privada diferente, dá uma sensação especial. Tem lugar que a gente quer cagar o mais rápido possível e sair dali. Tem outros que a gente quer se demorar, deixar o tempo passar, esquecer o mundo que se desenrola para além da porta do banheiro. Por exemplo, cagar também é um ótimo meio de burlar o trabalho. Mesmo aqueles que costumam cagar ligeiro, aproveitam a deixa para relaxar. Cagar no trabalho é tão bom quanto fazer aquele intervalinho para fumar um cigarro. Para quem não fuma, resta o cocô. O ruim é quando não é possível sair para cagar. Aí é melhor cagar antes de sair de casa mesmo, porque ficar se contorcendo para segurar a merda que luta para vir ao mundo é um sofrimento só. Os peidinhos liberados na encolha durante esta batalha, à semelhança de uma válvula de escape, não são o bastante. E, de qualquer maneira, ninguém gosta de ficar brigando com os próprios intestinos. Ainda que em cada lugar e em cada banheiro a sensação da cagada seja diferente, não resta dúvida de que a melhor de todas consegue-se no conforto e segurança do próprio lar. Quando se trata de privada, o adágio popular segundo o qual a grama do vizinho é sempre mais verde não vale. Nada melhor do que a nossa privada, já amaciada e adaptada anatomicamente.
E porque esse medo da palavra “cagar”? Enquanto eu escrevo, o corretor automático do Office incansavelmente fica a me sugerir que eu substitua a palavra cagar pela defecar. Não, é cagar mesmo! Quem é que defeca neste mundo? Todo mundo caga! Alguém por acaso diz: “me dá licença, vou defecar”? Aliás, a maioria das pessoas não diz, de fato, nem um nem outro, e sim: “vou ao banheiro”. Faz-se muita coisa no banheiro, como banho, sexo, punheta, barba, cílios, maquiagem; entre elas, faz-se cocô também. Qual o problema em ser mais específico? E não vale dizer: “vou ao banheiro fazer o número dois”, exceto se você tiver até 12 anos no máximo. Tirando a sinceridade cômica que vige entre amigos íntimos, só os mais audazes e subversivos dizem sem rebuços: “peraí que preciso dar uma cagada”; ou contam desenxabidamente sobre suas histórias fecais para qualquer um.
Percebe-se que existem mil maneiras de referir-se ao ato. Cagar, defecar, obrar. Podemos referir a ele, também, por metáforas: cortar o rabo do macaco, chapiscar o azulejo, passar um fax, ligar a máquina de churros, etc. E essas várias maneiras não são casuais, tampouco neutras; remetem a ideias construídas socialmente a respeito do significado e da natureza da ação de cagar. Não à toa, associamos essa ação a coisas ruins, desagradáveis, sujas, enquanto a ação de comer, que não existiria sem a ação de cagar e vice-versa, associamos a coisas boas, limpas, saudáveis. Como pode duas ações que só existem em relação entre si, jamais separadas, serem valorizadas de forma antagônica, como se uma fosse a antípoda da outra. Comer remete a saúde, cagar remete a doença. Será que não percebemos a contradição? Cagar é uma condição de saúde tão importante e necessária quanto comer. Quem já ficou semanas sem conseguir cagar (na linguagem popular, “ficou ressacado”) que o diga. Não é o meu caso, que cago muito bem obrigado. Mas parte expressiva da população, submetida a uma dieta rica em gordura e pobre em fibras, sofre diariamente com a dificuldade de cagar. Neste caso a culpa pela saúde ruim é do comer e não do cagar. E é a coitada da merda que leva a fama de ser imunda.
E existem mil maneiras de referir-se não apenas ao ato em si, mas também a algo através dele. Quem diz “tô cagando e andando para isso”, quer dizer que está pouco se importando com determinada coisa. Para transmitir um sentimento de medo podemos dizer: “quase me caguei todo”. Se você quer ofender uma pessoa, chame-a de merda ou bosta. E se você quer que ela se foda, sem, contudo, ser tão agressivo, pode dizer: “vai cagar”. E não esqueçamos que muitos discursos preconceituosos são muitas vezes construídos com base na ação de cagar, por exemplo, associando a cor da pele dos negros ao tom da merda. Quando alguém aludir ao ato de cagar através de expressões tais como “vou botar o Pelé para nadar”, “vou inscrever o Robinho na natação”, repudie-a taxativamente, e esclareça-a respeito do conteúdo racista de sua declaração. Podemos e devemos nos divertir com nossos excrementos sem sermos preconceituosos com isso. No mundo queremos, sem preconceito de qualquer espécie, não há espaço para fezes e ignorância ao mesmo tempo, ademais porque uma merda é precisamente a ignorância.
Ao parolar tão tranquila e naturalmente sobre o ato de cagar, pode parecer que eu mantenha com ele uma relação menos pudica do que a maioria das pessoas, mas não. Eu também tenho meus pudores, claro. Fomos criados para ser assim, para ter nojo, não apenas da merda, mas também de toda excreção corporal. Quando cago em lugares públicos, como no banheiro de um shopping, para retomar este exemplo, eu tento controlar ao máximo meu esfíncter para emitir menos barulho possível. Não me sinto confortável sabendo que as pessoas estão ouvindo a merda que cai do meu cu, especialmente quando a merda vem acompanhada de flatulência trovejante. Às vezes não tem jeito, definitivamente. A bosta vem com tal furor e intempestividade, como um tsunami, que arrasa tudo em seu caminho, fazendo um estrondo característico quando vem à luz. A pestilência espalha-se imediatamente e toma de assalto todo o ambiente. Fico imaginando o que passa pela cabeça das pessoas ao redor que têm a oportunidade de presenciar esse fenômeno da natureza. Já aconteceu de eu rir abertamente numa situação dessas, sem poder, naturalmente, explicar-me a elas. Como não rir de algo tão cômico? Aliás, cagar e peidar são uma espécie de piada fisiológica que o nosso corpo nos conta. Deixemos, portanto, de torcer o nariz, e botemos de parte nosso aversão pela merda, sobretudo em relação a da juventude, uma vez que sua repressão é uma das causas principais da sisudez adulta.
No entanto, se esse tipo de cagada é ruim de fazer em público, ele é talvez o melhor de fazer na privacidade total. Só a cagada-tsunami fornece alívio imediato e dá aquela inigualável sensação de bem-estar. Às vezes chega-se mesmo a emitir involuntariamente um gemido de prazer. Talvez por isso também nos referimos ao ato de cagar como o ato de “se aliviar”. Considere, por exemplo, a raiz etimológica da palavra “enfezado”. Ela vem de fezes, e significa, literalmente, “pessoa cheia de fezes”. Por óbvio, uma pessoa prenhe de fezes é uma pessoa irritada, daí a derivação do verbo “enfezar” como “zangar-se”. Portanto, cagar é um prazer. Mas nem sempre. É irritante e frustrante quando se caga à prestação, bolinha por bolinha, como uma cabrito, ou quando a merda sai maior que a encomenda exigindo demais das pregas do cu. Isso para não mencionar a diarreia, ou outras manifestações anómalas da cagada. De meia em meia hora toca acudir ao banheiro, com aquela terrível sensação de que qualquer peidinho mal liberado pode redundar em tragédia (e quem já não foi vítima de uma?). Por isso, o ideal é que a merda esteja no meio-termo, equilibrada, nem mole nem dura demais, nem grande nem pequena – se bem quem conheço mais de uma pessoa que contam vantagem de cagadas de magnitudes supostamente colossais. Assim como as histórias de pescador, as de bostas épicas também são lendárias. Um ou outro registra a obra em vídeo ou em foto para provar, para o Guinness se preciso for, que não se trata de lorota de pescador, quer dizer, de cagador.
Desculpe-me se lhe parece intimidade demasiada escrever uma crônica sobre o ato de cagar. Mas esse é também um texto político. Faço aqui uma apologia à boa cagada; tento resgatá-lo da infâmia fisiológica à qual foi relegada pelo homem moderno. Se você se ofende com essas palavras é porque é presa, justamente, dessa moral que reprime a merda, que resseca os intestinos e que faz do cu um pecador. Daí a necessidade de um libelo pela liberdade de cagar! De um manifesto contra o recalque fecal! Em todos os sentidos, essa crônica é um laxante em palavras. Chega de se envergonhar ao sentir prazer cagando! Chega de tergiversar sobre o assunto nas conversas de família! Chega de mentir e esconder as trágicas e/ou cômicas memórias de cagadas insólitas! Afinal, todo mundo caga, não caga? Eu, você, minha avó, o Papa, a princesa Kate Middleton. E cagam tão fedido quanto! Cagar é o ato socialista por excelência, a expressão literal do princípio de igualdade que ensejou as duas maiores revoluções que esse mundo já presenciou, e que consta na Carta dos Direitos do Homem e do Cidadão: na hora de cagar, todo mundo é igual, ricos ou pobres, celebridades ou anônimos.
Dito isso, deve-se observar, por outro lado, que, se a cagada é, em si, uma necessidade universal, tal qual a bosta feder, as circunstâncias em que o ato acontece são diversas, e inúmeras são as variáveis que influenciam sobre elas e sobre o resultado final, ou seja, a merda. As variáveis mais importantes são sociais e culturais. Entre as sociais, sabe-se que o rico caga num verdadeiro trono acolchoado, limpa-se com papel mais macio que veludo (não fosse algo embaraçoso, ele pagaria uma doméstica para fazer o serviço por ele), e tem à disposição perfumadores de ambiente para que não venha a ter o desprazer de inalar o odor de sua própria criação. Já o pobre está condenado a cagar em banheiros mal iluminados, com privadas nodoadas e rústicas, cuja caixa-de-descarga muitas vezes não dá conta do serviço, obrigando-o a recorrer ao trabalho extra de buscar água no balde para arrematá-lo. E não esqueçamos do tipo de papel barato, que mais parece uma lixa de parede, com que o pobre é obrigado a limpar a bunda, quando não lhe resta apenas o jornal puro e simples. Para o pobre, essa já é, seja dito de passagem, uma condição razoável, porque há miseráveis que só Deus sabe como cagam (até porque não comem nada para ter o que cagar depois). No sertão nordestino, por exemplo, o banheiro é o arbusto, não tendo o sertanejo uma folha de bananeira sequer à disposição para limpar a bunda. E aqueles banheiros antigos das casas de fazenda, que ficavam separados da sede? Imagina quão aborrecedor não deveria ser acordar no meio da noite para cagar! E isso me faz lembrar as privadas de cadeia, que os detentos chamam de “boi”. Não há separação nenhuma entre elas e as celas. Coitados dos presos recém-chegados que, à mingua de conceito com o resto da bandidagem, tem de dormir no pior canto da cela, ou seja, ao lado do boi.
Cagar dá pano pra manga. Poderia discorrer eternamente sobre o assunto. Faltou falar, por exemplo, dos tipos de cagadores. Tem aqueles que negligenciam o ato, ou têm de cagar várias vezes ao dia, de modo que mantêm com ele uma relação quase protocolar, formal. Tem aqueles tipos intelectuais – categoria na qual eu me enquadro – que não conseguem sentar-se à privada sem um texto em mãos, e, na falta de um, são capazes de ler o rótulo de xampus e pastas de dentes. Tem aqueles que só cagam de manhã, e aqueles que não podem sentir o cheirinho de café sem uma privada por perto porque a vontade bate forte. Tem casais que cagam juntos, outros ainda não chegaram a tal nível de intimidade. Pois é, cagar dá pano pra manga. Tanto, que, ao invés de dizer “cagar dá pano pra manga”, poderíamos dizer – se mantivéssemos uma relação mais natural e menos recalcada com as nossas fezes – “cagar dá bosta pro cu”. E aqui entra em cena o cu, mas aí já é outra história. Fica pra próxima crônica.
Canção do (auto)exílio
Escrevo porque?
Para desaparecer
Desapare-
Ser
Pare
Desapareça
Não seja
E o que mais eu poderia querer?
Escrevo e sumo
Me anulo
Restam as palavras
Sem rumo
Resta um olhar
Imortalizado
Sobre o mundo
Quem escreve
Desaparece
Quem escreve
Se despede
De tudo
Escreve
Sobre-
Tudo
De si
Escrever é transcendência
Para além do concreto
Da vivência
Da vida, do azo cotidiano
É reminiscência
De um outro passado
Não o meu, não vivido
Mas inventado
Que quisera houvesse sido
E que importa?
É sonhar acordado
Pois está além do possível
É aquilo que não fui
Nem hei de ser
E assim me satisfaço mui
É solidão consentida
Que se escolhe, voluntariamente
Consciente, auto-impingida
Sai de cena o homem
Para entrar o artista
É na solidão que se sente
O comungar-se com a vida
É estando ausente
Rasurando linha por linha
Que me sinto presente
Que sinto de vocês a companhia
Sem mediação, interiormente
Como se não existisse espaço
Aqui, ali, embaixo ou em cima
Nem tempo
Passado, futuro ou presente
Só a gente, nós todos
Vagando no vácuo
Descarnados, sem corpo
E, a atravessar-nos, essa energia boa
Religando tudo de novo
Para desaparecer
Desapare-
Ser
Pare
Desapareça
Não seja
E o que mais eu poderia querer?
Escrevo e sumo
Me anulo
Restam as palavras
Sem rumo
Resta um olhar
Imortalizado
Sobre o mundo
Quem escreve
Desaparece
Quem escreve
Se despede
De tudo
Escreve
Sobre-
Tudo
De si
Escrever é transcendência
Para além do concreto
Da vivência
Da vida, do azo cotidiano
É reminiscência
De um outro passado
Não o meu, não vivido
Mas inventado
Que quisera houvesse sido
E que importa?
É sonhar acordado
Pois está além do possível
É aquilo que não fui
Nem hei de ser
E assim me satisfaço mui
É solidão consentida
Que se escolhe, voluntariamente
Consciente, auto-impingida
Sai de cena o homem
Para entrar o artista
É na solidão que se sente
O comungar-se com a vida
É estando ausente
Rasurando linha por linha
Que me sinto presente
Que sinto de vocês a companhia
Sem mediação, interiormente
Como se não existisse espaço
Aqui, ali, embaixo ou em cima
Nem tempo
Passado, futuro ou presente
Só a gente, nós todos
Vagando no vácuo
Descarnados, sem corpo
E, a atravessar-nos, essa energia boa
Religando tudo de novo
sábado, 20 de julho de 2013
A aldeia
A nossa aldeia fica numa região de magnífica beleza natural – que vocês chamariam de região remota do território brasileiro. Cortada por rios que nos abrem caminhos e nos fornecem alimento – que vocês costumam comparar a estradas e/ou geradores de energia. Cercada por rica e preciosa fauna e flora – e que vocês veem como simples ativos econômicos. Alguns de vocês dizem que a civilização ainda não chegou por estas bandas, e que é preciso ou impedir a sua eventual chegada, ou nos integrar harmoniosamente a ela. Outros dizem que ela chegou, fazendo de nós tão capitalistas quanto o resto do Brasil e que, por isso, não podemos ser tratados diferentemente dos demais brasileiros conforme um estatuto especial. Compreendo que o termo “civilização”, o qual vocês usam para referirem-se a si mesmos, é bastante etnocêntrico. Ora, também somos uma civilização. O problema é que a vossa civilização não consegue conviver com a nossa. Diferentemente do que dizem muitos de vocês, a (sua) civilização chegou sim até estas bandas, assim como chegou a cada rincão deste mundo, mas, tal como Jano, ela tem duas faces, e a nós mostrou apenas a face mais perversa. Sua chegada, entretanto, não anulou a nossa civilização, embora tenha corrompido-a completamente. Os mais velhos quase não se reconhecem mais nos mais novos. A tradição foi, hora pra outra, destruída. Eu pertenço a essa nova geração, e discordo em muita coisa do que pensam os antigos. Queremos ser tratados como todo brasileiro da cidade grande, e ter garantidos os mesmos direitos; queremos ter assistência médica, acesso à educação, condições de vida descentes para sustentar nossos filhos; não queremos nada mais do que a lei garante e a cidade oferece. Eu, pessoalmente, sonho em fazer faculdade, quero me formar em medicina. Contudo – e neste sentido faço coro com os mais velhos –, apenas não queremos ter de abrir mão da nossa cultura; não queremos que isso signifique o fim das nossas tradições, dos nossos ritos, costumes e crenças. Vocês estão errados quando dizem que somos atrasados, quando afirmam que, para nos integrar, para nos tornarmos um de vocês, temos de abrir mão de tudo aquilo que faz sermos o que somos.
Nossa aldeia já passou por muita coisa, já teve muitos inimigos e já enfrentou muitas guerras. Mas vocês são de longe o inimigo mais temível. E temo que não podemos ganhar. Já nem é possível mais recordar o tempo em que tínhamos por inimigo apenas a tribo do litoral. Isso foi há muitas e muitas luas atrás, antes de vocês de chegarem. Quando vocês apareceram, vieram doenças, guerras, fome, escravidão; sem mencionar o genocídio cultural empunhado na ponta da cruz. Mas isso também foi há muito tempo; antes mesmo de nascerem os anciãos da nossa aldeia. Relativamente, tivemos sorte. Enquanto milhões dos nossos irmãos desapareceram da face da Terra, mortos ou absorvidos por vocês, permanecemos aqui, preservando na medida do possível o nosso modo de vida. Agora chegou a nossa vez. É hoje que enfrentamos a maior ameaça, que travamos nossa maior guerra. Primeiro foi a colonização, nos anos 70, que trouxe grileiros e latifundiárias para cá. Junto com eles vieram o gado e as madeireiras. Depois foi a soja. À medida que roubavam nossas terras, nossa terra sagrada, ancestral, íamos sendo cada vez mais empurrados para pequenos espaços que vocês chamam de reservas – reservas, como se fôssemos animais em extinção (aliás, a palavra “animal” não tem para vocês o mesmo significado que tem para nós). Pois bem, essas “reservas” não são suficientes para sustentar nosso modo de vida. Quase não caçamos mais, e nossas roças mal dão para a subsistência. Vivíamos muito bem até isso tudo acontecer; vivíamos na fartura, mas agora vocês olham para nós e dizem que somos indolentes, que nosso modo de vida é pobre e precário. Não costumava ser assim. Agora dependemos da ajuda do governo para sobreviver. E nem preciso dizer-lhes que o vosso governo pouco ou nada olha por nós.
Infelizmente, isso não é tudo. A mais nova ameaça vem de construtoras, empreiteiras, grupos de investidores, que lograram um bom negócio levantando hidroelétricas no meio da floresta amazônica, entupindo suas veias e derramando seu sangue na forma de lagos tão grandes quanto pequenos oceanos. Vão levantar uma próxima daqui, e nossa terra será inundada, restando apenas um exíguo espaço para onde transladaríamos a aldeia, que, segundo o consórcio construtor, seria de alvenaria, teria água encanada e luz instalada. No começo, todos ficamos empolgados com a boa-nova. Achávamos que a tal da civilização de vocês havia chegado trazendo, enfim, outra cousa que não a humilhação, a dor e o sofrimento. Disseram-nos que construiriam escolas para nossos filhos, hospitais para nossas famílias. Prometeram mundos e fundos, e a maioria do meu povo, exceto os mais velhos, que sabiamente permaneceram céticos, foi arrastada pela mesma doença da qual sofrem vocês: a ganância. E não me refiro ao sonho de uma vida melhor, mais digna. Não preciso lembrar-lhes a situação precária em que vocês nos deixaram. Refiro-me à ganância pura e crua pelo dinheiro e por luxo. Porque se a água, a luz, as escolas e hospitais só ficaram no papel, o consórcio nem pestaneja quando se trata de nos comprar com bugigangas que vão desde pick-ups a celulares e notebooks. Como o governo não fiscaliza o consórcio para que ele cumpra as contrapartidas sociais em compensação aos impactos decorrentes da obra, ele negocia diretamente conosco porque é muito mais barato nos dar bens de consumo do que construir e manter uma infraestrutura para que nos sustentemos sozinhos. Mas como todo bem de consumo acaba, uma hora tudo isso acabará e nos veremos sem nada novamente, numa condição ainda pior do que nos encontrávamos. Seria esta uma versão contemporânea da burla com que os vossos antepassados lograram os nossos?
De qualquer forma, ela tem funcionado. As mercadorias e o dinheiro que invadiram a aldeia têm divido as famílias, ensejado querelas e disputas, fomentado a discórdia. Nem em meus piores pesadelos imaginaria um modo tão fácil de nos corromper. Ninguém trabalha mais, vivemos dos presentes. Nosso único trabalho é ir à cidade cobrar do consórcio mais e mais presentes. O cacique, responsável por esse trabalho, está enriquecendo, e todos estão desconfiados. Circulo pela aldeia e vejo tevês sintonizadas em programas que exibem, como uma vitrine virtual, imagens da opulência em que vocês vivem, da alegria e festa que é a vida de vocês. Na cidade grande tem bares, restaurantes, cinemas, shoppings, condomínios, clubes. Fico imaginando se todos vocês vivem assim mesmo. Não importa, isso tudo seduz o meu povo. A nossa aldeia está, de fato, diminuindo, e ninguém sabe se se extinguirá um dia. Os jovens estão todos a abandonando e indo para a cidade para fazer a vida, como vocês dizem; sonhando com glamour e conforto. Assistem à tevê, vêem a caminhonete 4X4 turbo que nosso cacique dirige, os computadores, etc., e cuidam que, se isto é só um pequeno gostinho do que a civilização de vocês pode oferecer, seria burrice continuar ali, naquele fim de mundo, vivendo uma vida atrasada. Quando chega notícia de algum jovem índio lá na capital, elas não são muito animadoras. Mas como está a maioria empregada, ganhando um salário mínimo, dizem que não querem voltar, que é melhor assim, e o ciclo de ilusão recomeça. Ironicamente, muitos dos que saíram da aldeia por causa da barragem agora trabalham nela, ajudando a construí-la. Os que ficam se entregam à bebida ou à vagabundagem. Quase ninguém mais liga para os rituais, para os costumes e práticas, como se eles tivessem se tornado, dum dia para o outro, bobagem, tolice de índio. Os mais velhos estão desolados.
Olho para esses jovens que agora escutam músicas estranhas, pintam o cabelo e o cortam a la Neymar; que usam roupas diferentes, coloridas e com palavras estranhas, e me pergunto como tudo isso aconteceu. Foi tudo tão rápido, nós nem vimos acontecer. Existe esperança, no entanto. Ficamos sabendo que existem outras aldeias na mesma situação, e elas estão se organizando para lutar contra isso tudo. Pessoas do mundo de vocês também estão conosco, organizando-se e ajudando-nos a se organizar em coletivos e movimentos sociais. Um dia até paramos as obras da usina, e vamos parar novamente. Quantas vezes for necessário. Já até declaramos guerra ao governo federal, fizemos documentários, realizamos congressos, fomos ao exterior denunciar o que acontece aqui. Agora sabemos que é possível fazer diferente, é possível mudar o sentido das coisas. Não desistiremos; resistiremos. Ou nos tratam com dignidade e respeito, ou podem enterrar-nos aqui mesmo.
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