terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Faz um diário

Meu corpo é papel,
Que já foi muito escrito,
Rasurado e amassado;
Suas linhas o tempo borrou,
Mas sempre resta,
Nalgum canto,
Um pedacinho em branco,
Pra escrever uma história nova.

Minha pele fina folha,
Pede tinta nova;
Usa tua caneta,
Grafa cá tua letra,
Faz dela um diário,
Pras tuas queixas;
Enfeita-a com mimos;
Põe nela tua carência,
E teus defeitos.

Esconda-a na gaveta,
Junto aos teus mais queridos segredos,
Com o zelo de uma criança boba,
E só tire-a de lá num dia de outono,
Quando a chuva bater na janela.
Na minha pele encontrará teu nome,
Feito tatuagem.

Abaixo a poesia lírica!

Abaixo a poesia lírica!
Um pouco mais de carne,
Poeta, um pouco mais de vida em tua lira!
Chega de evasão egótica!
Em outras veias também corre sangue,
Poeta; se saísse de teu refúgio anímico o saberia.
Tuas dores não são mais dignas que as minhas;
Teus amores não são mais intensos que os meus.
Chega de autocomplacência ou autopiedade em tuas poesias.
E ainda que auto-ironia impinja-te, és um tolo, poeta.
Deixa o romantismo no passado,
Põe de parte tua obsessão com a morte;
A vida não pede senão que a viva, em festa.
Há todo um mundo para além do teu impressionismo oco,
Mundo que de histórias fervilha,
De gente que chora, que sofre,
Que ama, que odeia, que goza e que ri.
Se quer fazer poesia de verdade,
Se quer saber a verdade da poesia,
Poeta, desvia o olhar de si e olha
Em volta; olha pra essa gente
E me diz, se não fazem poesia sem o saber
Pelo simples fato de estarem vivos?
Inspira-te nessa gente, poeta,
E verás que, antes de aprender a escrever,
É preciso aprender a viver.

Sobrei

Eu sobrei
De tão cheio
Transbordei
Pelo peito
Vazei
Por todos os poros
Extravasei
Até o pescoço
E emborquei
Eu todo
Na sua boca
Pra quem andava
Vazio e meio
Ando agora tão inteiro
Que até sobra
Quem quer pedaço?

domingo, 19 de janeiro de 2014

Espinhos

As pessoas têm espinhos
Que quando jovens
São ainda pequenos e macios
Mas elas crescem e endurecem
E assim também os seus espinhos

Para não se machucarem
Quando estão juntas
Mantêm entre si distância segura
E as armas sempre em guarda
Embora desejem, lá no íntimo
Companhia e ternura

Acima dos espinhos
Exibem formosas rosas
E ninguém há aos ouvidos
Que lhes diga quão únicas e belas são
A vida é dura com as pessoas
Se por um lado lhes dá um coração
Por outro com espinhos o coroa

A culpa é deste vazio
Deste vazio existencial
Que me come as entranhas
Quanto mais pessoas eu lá dentro eu jogo
Mais sozinho aqui fora eu me sinto

A primeira vez

Já faz tempo agora
E a memória engana
A história que me contas
Será a mesma que trago na lembrança?
Lembro que a gana era muita
E ardia, ardia como chama
A lua ia alta, cheia
Ou ela sorria?
Um sorriso largo e satisfeito
Você mentiu pra estar comigo
O vinho, o vinho tinha outro gosto
Na sua boca rubra
Acho que era o gosto do proibido
Do desejo
Só nosso, nosso doce segredo
Bastava um toque
Um dedo, na nuca
Por entre a virilha, nas dobras da bunda
E eriçavam-se os pelos
Subia o arrepio do cóccix até os cabelos
Enlanguescia as pernas e contorcia a cintura
Esquecemos a timidez, a inocência, o recato
Éramos dois devassos, impudicos, depravados
Diabo, íamos para o inferno, mas íamos felizes!
Ao mesmo tempo, era tudo tão sublime
Para não sair voando, nos agarrávamos à existência segurando pinto, boceta, mamilos, saco e grelho
Minha vida se alimentava do teu gozo
Minha vida se ligava à sua pele suada
E, para salvá-la, eu precisava ir mais fundo
Precisava mergulhar na tua alma
Até encontrar a fonte que corre em teu útero
E você me puxava, me dizia vem, me dizia “sou tua”
Só pra depois me empurrar, e me bater com cara de safada
Era uma trepada, das boas, e era brincadeira, farra
Éramos duas crianças levadas a descobrir o mundo
O mundo escondido no gemido surdo que antecede um orgasmo

sábado, 18 de janeiro de 2014

Sonho de menino

Ainda na tenra infância,
Quando não passava eu de menino,
Já sonhava com a estrada,
Que pra longe levava,
Pra outras searas, sem destino,
Este pequeno peregrino.

Na minha inocência, pensava
Como seria bom ser um mendigo viandante,
Que em qualquer lugar se arranjava,
Era essa a minha definição de liberdade.

Assim eu sonhava, cabeça nas nuvens
E os pés, feito asas, na estrada,
Com o sol a queimar as costas
Da praia; o cimo dos morros e montes
Das serras; o infindo mar vindo em vagas
E indo, sumindo para além do horizonte,
Com o céu imiscuindo-se,
Naquele ponto, que não se sabe onde,
Começa um e termina o outro;
Ou seria começa outro e termina um?

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Perguntas e respostas

Este mundo não é para entender
E não devemos toma-lo tão a sério
Onde está a graça senão no mistério?
O céu azul é azul por quê?
Quem veio primeiro, o ovo ou a galinha?
Ou seria a cloaca?
Quantos grãos de areia há numa praia?
Por que de dia tem sol e de noite tem lua?
Se há uma resposta, ótimo
Se não, ora, ótimo também
Afinal, respostas são muitas
Encontre uma que lhe satisfaça
Porque o mundo é para se viver
Sem hesitação, sem pejo
O céu é azul porque assim ele é belo
O ovo e a galinha são saborosos, bons de comer
A praia é linda, e a areia sedosa, macia
O sol aquece e ilumina
A lua é mágica e verte poesia
Muito entendimento sem contemplação
Sem experimentação
Não faz bem para o coração
Mas tampouco fâ-lo à razão

Casamento

Tua presença é a minha ausência
Dias a fio de solidão acompanhada
Mas não diria compartilhada
Tua mudez casa com a minha indiferença
E a gente vive a vida assim, levando-a
Arrastada, quase que de forma obrigada
Para parafrasear Manuel Bandeira
Uma vida inteira que poderia ter sido
E não foi – Ah! Não era isso que eu planejara...
Mas casamento não é doença
A família não se nos impõem como preceito divino
São apenas roupas velhas, gastas
Roupas que não nos servem mais
Se não nos é mais possível usá-las
Que andemos então pelados!