sexta-feira, 13 de junho de 2008

A linha 106

Peguei a linha 106. Tudo nela era deprimentemente melancólico. As cadeiras, os passageiros, as fotografias citadinas que se sucediam, apressadamente, uma após a outra pela janela. O ônibus todo estava abarrotado de toda sorte de sentimentos, os quais, quando misturados, consubstanciavam numa única expressão: desamparo.

Sempre tomava a linha 106. Também fazia parte daquele mundo, no entanto, ao invés de pensar em minha própria tristeza, procurava reparar nas alheias, que, para mim, eram sempre mais interessantes que minha própria. Sentava-me na última cadeira do fundo do ônibus, quando esta estava desocupada, e postava-me a fazer daquele cotidiano insuportável um filme, belo e triste.


Conforme as pessoas iam entrando, acomodavam-se sem lógica aparente. Eram frios. Seus rostos lânguidos. Inexpressivos. Fitavam a imensidão de seus pensamentos derrotados postos as suas frentes como capítulos de um filme, cujo termo seria sempre o mesmo. Mesmo assim, eram esperançosos, pois do contrário não estariam ali se sujeitando as agruras da vida cotidiana. Ou talvez sim. As motivações de viver das pessoas comuns são por demais complexas, e eu, em meu lugar, nunca conseguiria compreender semelhante fé no futuro. Gostava de observá-las.


Aquela linha de transporte representava uma ligação entre órgãos corpóreos. Era parte de um sistema sangüíneo que ora fazia papel de artéria, quando bombeava o rico sangue humano das partes periféricas do corpo, levando-o para trabalhar e sustentar a parte central, mais vital e de funções mais “nobres”; ora fazia papel de veia, cuspindo o sangue usado e pobre novamente às regiões da periferia, afim de que estes pudessem se restabelecer com o pouco arroz e feijão de que dispunham. No outro dia, recomeçava o ciclo novamente.


E assim era. Eu, um simples escritor vagabundo, trazia comigo apenas lente e material fotográfico, buscando registrar cada flash de luz que emanava daquela vida. Não tinha que trabalhar – pelo menos não no sentido mercadológico da palavra - o que me dava a possibilidade de analisar de cima os fenômenos sociais que irradiavam daquele pequeno recorte urbano. Anotava cada detalhe em meu pensamento para depois os transcrever em palavras.

O ônibus rasgava veloz as ruas da cidade, recortando as quadras e redesenhando o mesmo polígono infinitas vezes ao dia.
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