sexta-feira, 24 de abril de 2015

Memórias de um esquerdo-macho

Quando me confrontaram
Com as minhas atitudes machistas
Dizendo que eu silenciava as companheiras
E que amiúde as assediava
Lembrei a todas que eu era comunista
Que a minha filha tinha nome de comunista famosa
Que eu era apenas engraçado e piadista
Que afinal eu era de esquerda
(E isso já não valia como um atestado de pessoa honesta e íntegra?)
Minhas credenciais pouco valeram
Então ataquei minhas acusadoras
Chamei-as de moralistas
De pequeno-burguesas
Disse que estavam dividindo e enfraquecendo o movimento
Pensei em chama-las de “mal-comidas”
Mas talvez soasse por demais reaça
E eu irmanar-me-ia com os machos lá do outro lado
Com os quais eu jurava nada ter em comum
Então exortei com fanfarronice a classe a se unir
Em torno de pautas mais centrais e importantes
Disse que a classe não tem gênero
Que o inimigo é a burguesia
Que a revolução se encarregará de acabar com o que restar de relações opressoras
(Isso não será uma alegria, companheiras?)
Minha fala foi ovacionada
E plenamente aceita pelos meus camaradas
Curiosamente, com especial entusiasmo do gênero masculino
Enquanto muitas companheiras quedavam visivelmente contrariadas
Céticas, com a impressão de já terem ouvido tais promessas
Antes, em outras assembleias
Em outras revoluções
Em meu íntimo, completei o discurso, triunfante:
E até lá deixem de histeria
Fiquem caladas
Que quem define as pautas
Que quem no movimento dá as cartas
Que quem diz o que é ser de esquerda
E até quem dá aval às feministas
Somos nós, os machistas
Os machistas de esquerda
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