quinta-feira, 25 de abril de 2013

Se eu morasse sozinho

Se eu morasse sozinho,
Pouco ficaria em casa.
Servir-me-ia ela apenas de abrigo,
De refúgio da rotina que esfalfa.

Preferiria a rua ao doméstico asilo,
Com sua barafunda agitada,
Onde todos se encontram,
Mas ninguém se abraça;

Preferiria a via pública,
Seus bares, metrôs e praças,
Seus túneis, vielas e calçadas,
À solidão da minha morada,
Pejada pelo silêncio pudico,
Que o quarto propaga,
E que reboa da cozinha à sala.

Esse silêncio lôbrego,
Ressumando a velhice,
Definitivamente não me agrada.

Melhor seria ser um pândego
Amante da lua e dos prostíbulos,
Das camas alheias e da casa de amigos,
Da macarronada da avó aos domingos;
A convalescer só na cama,
Sem ter para quem fazer manha;
A tomar café pela manhã,
Sem debater assuntos vários,
Antes de sair à luta com afã;
A chegar em casa após o trabalho,
E encontrar a louça suja,
Rançosa e imunda, acumulada
Ao longo da comprida semana;
E encontrar os móveis em desalinho,
Como os pensamentos de um doidivana.

Por que deixar tudo bonitinho?
Por que me preocuparia, afinal,
Se eu morasse sozinho?
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