sexta-feira, 5 de abril de 2013

O futuro do passado

Para onde nos leva o presente?
Como deu aqui o passado?
Onde foi parar
O sonho da minha gente?
Tínhamos o mundo
Inteiramente conquistado
Em nosso ventre
Uma visão do futuro?
Pessimista
O mundo será ainda mais capitalista
Cada vez mais abarrotado
Como um barco
A emborcar no negro mar do espaço
Lá como cá
Reina a miséria
Fria como a lâmina
Calculista como o lucro
Ninguém se amará
Vínculos?
Só com juros
Não haverá verde, nem azul
Apenas o cinza das chaminés
Essas modernas torres de babel
Definitivas como a morte
Enlutando o lúgubre anil do céu
Baforando fuligem
Fazendo eterno o inverno
A cobrir a paisagem cor-de-ferrugem
A uniformização, a padronização
Causam vertigem
É um mecanismo em funcionamento
Em seu maçante ramerrão
Ressonando lamentos
Não é finalidade
É mero instrumento
Sem vida, sem beleza
Feito de aço e cimento
Moendo sonhos, ilusões
E pensamentos
“Eu vejo o futuro repetir o passado”
Já não vivemos esse tempo?
Havia tanta expectativa
Entre os de baixo
Em cujas gargantas os de cima
Pisavam
Dessas gargantas
Saía um grito de altiva euforia
O grito de um fulgurante alvorecer
Quando este se avizinha
Mas não
Eis que o grito esmaeceu
E a euforia cedeu lugar
Ao tédio
E então, novamente
Frustração e descrença vieram
A substituir o resplandecente
Novo dia
Vejo uma massa excitada e ansiosa
Pronta para incendiar
A própria cama
Oceano de cabeças planas
Chatas e insanas
A alegria e a aventura de participar
De um grande organismo
Coletivo
Estará vivo esse organismo?
Agora, pensando bem
Alarmado eu me pergunto
De onde vem tamanho pessimismo?
Não será o futuro sempre
Uma singular inovação?
Não estaria eu
Com o ceticismo em mente
A incentivar a reação?
Não deveria eu
Com fé e de bom grado
Rejubilar-me
E abrir este cansado coração
À perspectiva da revolução?
Fazer do inverno
Primavera
Quimera
Em fato líquido e certo
Não é questão de boa gramática
Nem exercício de futurologia
É questão de ideologia
Cuja resposta dá-se na prática
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