sábado, 7 de março de 2009

A história de dona Salete

E foi por não ter mais para aonde ir que dona Salete decidiu, novamente, partir. De mais a mais, haveria outra solução? Pensou ela que não e, acostumada como estava à vida de retirante caçadora de parcas oportunidades, arriscou-se a seguir as recomendações do pessoal diretor da empresa – agora “sua” ex-empresa. Pois então, haveria de se tornar uma pequena proprietária, associada de uma cooperativa. Pelo menos, foi isso que haviam lhe dito.


Antes disso, ao longo de quase uma década ela havia destinado todas as suas forças e sonhos àquele emprego. Mãos extremamente hábeis para a costura, Salete não demorou a ocupar uma vaga em uma das centenas de máquinas overlock localizadas no setor de confecção de uma grande multinacional têxtil na grande São Paulo, após dias penosos no pau-de-arara. Sua mãe até tentara dissuadi-la daquela idéia maluca, onde tantos foram e jamais voltaram, mas nem o mais sagrado dos conselhos pôde declinar a sua obstinação. E, para fazermos justiça, foi devido a uma razoável dose de sorte que a migrante consegui se estabelecer relativamente bem no famigerado Sul. Que fique claro, relativamente bem para uma retirante fugida da fome e da seca do sertão nordestino, sequiosa por fazer um destino melhor do que aquele que sua mãe lhe deixara de herança. Ora, ela não conquistara grande êxito material, mas tinha um barraquinho próprio em um extremo periférico da maior cidade brasileira, de modo que isso não poderia, relativamente, ser considerado como uma vitória? Faltava-lhe um sem-número de itens dos mais variados bens de consumo que a televisão (isso ela havia conseguido comprar) lhe oferecia todos os dias, porém, na medida do possível, sentia-se feliz com o pouco que seu suor pôde adquirir.


E agora lá estava ela a ouvir com pesar o discurso retórico do funcionário-chefe, encarregado de passar aos funcionários não tão graduados como ele os resultados da reestruturação do setor produtivo da empresa. Os tempos eram difíceis, dizia ele, e por isso os executivos tiveram que tomar decisões igualmente difíceis. Não faziam aquilo senão com uma tristeza solene, contudo a situação urgia por tais medidas drásticas e elas seriam levadas a efeito pelo bem geral. Segundo o funcionário-chefe, que naquele momento fazia o papel de porta-voz da empresa ou de capitão-do-mato, como queira, a empresa não era mais capaz de manter o seu setor produtivo, o qual havia se tornado demasiado oneroso e, portanto, deveria ser terceirizado como parte da meta de corte de custos. Essa era a tendência geral segundo a qual centenas de empresas vinham procedendo a partir do último quartel do século passado. Além do mais, as ordens vinham de cima, não sendo, portanto, negligenciáveis. Isso porque, na verdade, a empresa em que dona Salete laborou com tanto afinco e fé não era, de fato, uma multinacional, mas sim uma das muitas filiais subcontratadas de uma das seletas corporações transnacionais que oligopolizam o setor. Ela costurava o cós e a barra das calças da afamada marca – as quais ela própria não tinha dinheiro para comprar – que, por sua vez, seriam vendidas mundialmente. Desse modo, quem efetivamente produzia não era a marca propriamente dita, mas empresas sem-nome espalhadas pelo Terceiro Mundo todo, como a de dona Salete. A lógica disso, entretanto, escapava-lhe da compreensão. Como meio de aumentar seu poder sobre o mercado interno, ao mesmo tempo em que barateava o custo produtivo das mercadorias voltadas para a exportação, os CEOs da empresa-mãe decidiram inverter parte do fluxo de investimento externo direto naquela empresa brasileira, ao invés de apenas subcontratá-la. Noutras palavras, a multinacional incorporou a empresa menor que empregava Salete, comprou-a. A estratégia de aumentar a acumulação baseando-se na exploração do trabalho não parava por aí, naturalmente.


É sabido que, nos setores produtivos com menos desenvolvimento tecnológico e, consequentemente, com utilização mais intensiva da mão-de-obra, como é o caso do setor de confecção, as estratégias de aumento do lucro baseiam-se na exploração sem limites do trabalho. E para isso, nada melhor do que a riqueza humana que irrompe do solo de países emergentes, com abundância de mão-de-obra barata, alguma proteção social pública que mitigue ligeiramente a pobreza, e com leis trabalhistas flexíveis e/ou facilmente burláveis. Eis aí a cobiça que nosso imenso território tupiniquim desperta. Claro que não estamos sozinhos, evidentemente, China, Índia, México, e outros desafortunados nos acompanham. Contudo, aqui o retorno é promissor demais, com garantias e risco zero. Pergunte ao FMI, ele irá concordar com essa afirmação. Dirá que somos ótimos devedores porque pagamos em dia e sem protestar acerca dos juros e spreads; que os investidores não correm riscos em face do nosso governo, visceralmente avesso à revoluções e sempre complacente com as demandas do capital internacional – especialmente o financeiro; e que os macacos brasileiros são vigorosos trabalhadores, satisfazem-se com pouco e, o melhor de tudo, são reacionários inatos. Pode perguntar, o risco do Brasil é nulo!


Naquele dia, ao tomar o primeiro ônibus urbano que a levaria novamente para a favela, o cortiço moderno aonde a grande São Paulo varre para debaixo do tapete todas as noites aqueles miseráveis que a sociedade civil insiste em ver só ao longo do dia na forma de trabalhadores, os pensamentos de dona Salete sobre o acontecido eram uma mixórdia desordenada e ininteligível. Suas colegas de trabalho ficaram extasiadas com a possibilidade de ascenderem da posição de empregadas de pouca monta para a de proprietárias – ou co-proprietárias – do próprio negócio: a cooperativa. Mas Salete, cuja vida tinha sido ensinada pela mais arrematada carência e como lição aprendera a subserviência, cultivava certos receios. Afinal, se essa mudança haveria de ser boa, por que o sindicato advertia sobre a depreciação dos direitos trabalhistas, que a cooperativa acabaria por menoscabar? Os diretores da empresa afirmavam que o salário maior que elas receberiam na cooperativa compensaria a falta dos benefícios sociais como o décimo terceiro salário e o fundo de garantia, e tudo o que elas teriam que fazer era se esforçarem ao máximo para produzirem bastante, ganhando cada qual proporcionalmente em razão do montante produzido. Ademais, elas seriam donas da sua própria empresa! Mas toda a incerteza que lhe fustigava a mente deixava dona Salete preocupada e, somando-se a isso os problemas familiares com um dos dois filhos e com o ex-marido, seu coração seguia apertado pelas ruas esburacadas da grande São Paulo.
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