terça-feira, 9 de abril de 2013

Viagem pela América latina

Ah, como devia ter sido bela!
A aquarela latina
Antes que a tocassem
Com sua exuberante nativa floresta
Com sua fauna e flora selvagem
Ah, América latina de outrora,
Como devias ter sido divina!

Diante de tamanha maravilha
Imagino qual teria sido a surpresa
Dos europeus que por ventura passassem
Por aquelas costas de água cristalina
Saídos da tétrica e invernal Europa
E confrontados à tépida, luxuriante,
E inebriante América Latina

Vejo-me de repente transportado
A um lugar de mesmo tema
Só que em tudo modernizado
Saio do bucólico passado
Direto ao trágico presente
Debaixo de coqueiros,
Me vejo de repente
Tomando margaritas
Em algum quiosque na Costa Rica

Aqui cheguei de avião, mediante agente
Sem riscos ou perigos de qualquer tipo
Sem piratas, tempestades ou monstros marítimos
Sem especiarias pelas quais me teria perdido
A caminho das Índias.
Nas praias vizinhas há multidões a perder de vista
E já que sou podre de rico,
Nesta praia há exclusividades só minhas
Como a dança tribal paga no cartão à vista

Em que transformamos a terra-mãe indígena?
Com que ignomínia nós a violamos!
E que tempo é esse onde hoje nos encontramos?
Sem lírica, resta toda sorte de mesquinharia
Como fazer da visita ao paraíso
Uma fretada turnê turística

Re-parte-ilha

Partilha, com alguém
Compartilha, um vintém
Comparte, uma parte, do que tens
Parte, os teus bens
Reparte a parte
Que lhe convém
Convida, que outro vem
Com vida, comer também
Divida, com outrem
A vida que tens
Repartilha e multiplica
O bem

domingo, 7 de abril de 2013

Monólogo

Certa feita,
Numa diatribe em que me meti:

Tinha a cabeça redonda mais
Quadrada que já conheci
As ideias e os ideais,
Que são fluidas porém tenazes,
Como uma onda,
Nela não conseguiam invadir.

Batiam-se, com a fúria de sete mares,
Sem que aquela cabeça sabichona
Concordasse se abrir.

Permanecia fechada,
Assim como a boca emoldurada,
Junto ao empinado nariz,
Naquela deslavada
Cabeça quadrada

Um pensamento me leva a sorrir:
“Ah! se eu pudesse abri-la a machadas!”
E segue o monólogo sem fim

Um recorte da História visto através da minha imaginação

Verga a espinha,
Eriça a crina,
Refunga pela narina,
Empina toda a cavalaria.

Encima da colina,
A espada desembainha,
O cavalo relincha,
A tropa grita.

A corneta produzia,
Toques sem melodia.
É a guerra que se avizinha.

O primeiro tiro assovia.
Uma desapercebida cotovia,
Que com nada daquilo tinha,
É feita a primeira vítima.

O bacamarte cuspia,
O canhão explodia,
E a verdejante pradaria
Em chamas se consumia

Funde-se em agonia,
A massa ensandecida.
Estrepitosa, combativa,
De glória se cobria.

O velho mundo se batia
E a História se escrevia
Usando sangue como tinta

sexta-feira, 5 de abril de 2013

O futuro do passado

Para onde nos leva o presente?
Como deu aqui o passado?
Onde foi parar
O sonho da minha gente?
Tínhamos o mundo
Inteiramente conquistado
Em nosso ventre
Uma visão do futuro?
Pessimista
O mundo será ainda mais capitalista
Cada vez mais abarrotado
Como um barco
A emborcar no negro mar do espaço
Lá como cá
Reina a miséria
Fria como a lâmina
Calculista como o lucro
Ninguém se amará
Vínculos?
Só com juros
Não haverá verde, nem azul
Apenas o cinza das chaminés
Essas modernas torres de babel
Definitivas como a morte
Enlutando o lúgubre anil do céu
Baforando fuligem
Fazendo eterno o inverno
A cobrir a paisagem cor-de-ferrugem
A uniformização, a padronização
Causam vertigem
É um mecanismo em funcionamento
Em seu maçante ramerrão
Ressonando lamentos
Não é finalidade
É mero instrumento
Sem vida, sem beleza
Feito de aço e cimento
Moendo sonhos, ilusões
E pensamentos
“Eu vejo o futuro repetir o passado”
Já não vivemos esse tempo?
Havia tanta expectativa
Entre os de baixo
Em cujas gargantas os de cima
Pisavam
Dessas gargantas
Saía um grito de altiva euforia
O grito de um fulgurante alvorecer
Quando este se avizinha
Mas não
Eis que o grito esmaeceu
E a euforia cedeu lugar
Ao tédio
E então, novamente
Frustração e descrença vieram
A substituir o resplandecente
Novo dia
Vejo uma massa excitada e ansiosa
Pronta para incendiar
A própria cama
Oceano de cabeças planas
Chatas e insanas
A alegria e a aventura de participar
De um grande organismo
Coletivo
Estará vivo esse organismo?
Agora, pensando bem
Alarmado eu me pergunto
De onde vem tamanho pessimismo?
Não será o futuro sempre
Uma singular inovação?
Não estaria eu
Com o ceticismo em mente
A incentivar a reação?
Não deveria eu
Com fé e de bom grado
Rejubilar-me
E abrir este cansado coração
À perspectiva da revolução?
Fazer do inverno
Primavera
Quimera
Em fato líquido e certo
Não é questão de boa gramática
Nem exercício de futurologia
É questão de ideologia
Cuja resposta dá-se na prática

terça-feira, 2 de abril de 2013

Certa idade

Voltar bem longe no tempo
Ou a algum distante lugar
Aqui existo e não me tenho
Sou como um rio sem mar

Algo caiu no esquecimento
Talvez havia alguém a amar
Bem quem não me lembro
Está ficando difícil recordar

O tempo passa e não volta
A vida é curta como aurora
E vivemos sempre o agora
Não sei mais o que penso
Da vida nunca me queixo
A vida é rio e eu me deixo

Levar...

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Extremos

Reduzir-se
             Para vicejar
Embotar-se
             Para clarear
Suprimir-se
             Para firmar
Acabar-se
             Para existir
Toldar-se
             Para estar
Minimizar-se
             Para crescer
Obnubilar-se
             Para lembrar
Evanescer-se
             Para ser
Apagar-se
             Para iluminar
Perder-se
             Para encontrar

quarta-feira, 27 de março de 2013

Poesia da transcendência

Sede de tudo
Fome do mundo

Necessário atingir o fundo
Da alma
Esse abismo abrupto

Necessário derribar o muro
Do céu
Esse azul profundo

De pulo em pulo
Alcançaremos o Absoluto