quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Nada de novo no front


Pense em uma família. Decerto a clássica pintura que nos vêem à cabeça é aquela tão tradicional quanto inexpressiva, insossa, enjoativa: mamãe, papai, filhinho(a).

Logo pela manhã mamãe acorda o papai com um beijo mecânico e um sacolejo abnegado. Ele abre os olhos. Deseja morrer. Ela idem. Numa ânsia de desencanto ao olhar a face do marido que deixa transparecer sua desestima por ela, sente vontade de vomitar o café extremamente forte, ingerido minutos antes, no rosto dele. O sentimento de agressão perpassa os dois corações quando, por um breve e acidental resvalo, seus olhares se cruzam. Portanto não se olham. E isso é quase que tacitamente acordado entre eles, pode-se dizer.

Na verdade, esse pequeno ínterim nada tem de anormal. De fato, marido e mulher, ao enjeitarem-se mutuamente, nada mais fazem além de consumar seu cotidiano de casal. É mais outro dia normal.

- Levanta, bem (traste)!
- Porra, mas que horas são mulher? Já lhe disse para não me acordar antes da merda das sete horas!
- São sete horas...

“Essa porcaria de despertador deve ter sido feito numa freqüência sonora audível apenas pelos ouvidos femininos”.

Tal foi o pensamento da mulher, mesmo antes de abrir os olhos. Indagava-se todos os dias acerca dessa questão mesmo sem nunca chegar a uma resposta concreta. Era inútil: a problemática do “rádio-relógio despertador que só podia ser ouvido pelas mulheres” era impassível de uma resolução e ponto final. De fato esta era a única tese que lhe ocorria, uma vez que ela e o marido dividiam o mesmo quarto e a mesma cama, de modo que o despertador podia evidentemente ser ouvido pelos dois quando apitava pela manhã e, a despeito disso, apenas ela levantava. É verdade que esse maldito aparelho estava em cima do criado-mudo situado do seu lado da cama, entretanto por mera força do hábito, já que isso facilitava para ela desligá-lo. Com efeito, o marido certamente ouvia a azáfama fragorosa com que o despertador tentava lhe botar de pé. Isso para ele era tão odioso, quanto se imaginar fazendo sexo com aquela mulher prostrada ao seu lado logo pela manhã. Por isso, preferia manter os olhos cerrados e tentar dormir alguns minutos a mais. O ato sexual vinha cinicamente à mente de ambos apenas como subproduto de resquícios hormonais que certas feitas lhe ocorriam. E isto não passava de uma ou duas vezes por semana no máximo.

“Não, não. Esse desgraçado também ouve o barulho, mas ignora-o” pensou a mulher, finalmente concluindo sua tese, “aproveita para dormir um pouco mais enquanto preparo seu café, ajeito-lhe a roupa do trabalho de maneira a ficar fácil à vista e pego seu jornal na caixa de correio”.

Tal era a perícia com que desempenhava a função, ela desligou a aparelho sem olhar diretamente para ele, apenas usando levemente o tato. Levantou-se, calçou as sandálias e desceu para fazer as obrigações que o destino lhe reservara.

“Grande merda” pensou.

“Merda de emprego, merda de mulher, merda de filho, e merda de cachorro que ficou latindo a noite toda e não me deixou pregar os olhos”.

Tal foi o primeiro pensamento que lhe passou pela cabeça que decidiu não pensar em mais nada até chegar ao trabalho, isso porque poderia lhe ocorrer coisas piores e, como ultimamente dava-se a se entregar impetuosamente aos primeiros desvarios de cólera, achava melhor furtar-se a maiores celeumas. Pôs a roupa numa fleuma típica das manhãs de segundas-feiras. Com os pensamentos ainda pachorrentos e se reorganizando em sua mente, abalançou-se para o café-da-manhã.

Enfim, estavam todos à mesa do café. Ah! sim, havia o menino, filho do casal. Mas este não convém se deter por muito tempo, porquanto ainda era novo demais para entender as angústias de um casal em crise. Sentia lá no fundo do seu coraçãozinho apertado que algo estava errado, e que, em última instância, era ele o culpado. De certa forma, mesmo sem ter a real concepção da situação, vislumbrava o fardo que carregava por ser o único elo que mantinha os pais sobre o mesmo teto, atados a uma coleira curta e condenados a cheirarem seus respectivos ânus eternamente. O pequeno tomaria a exata consciência disso quando se tornasse grande o bastante para perceber efetivamente que seus pais aturaram-se mutuamente, todo aquele tempo, unicamente por sua causa. E isso era um fardo demasiado dolorido para um garoto de a sua idade carregar. Por hora, tentava simplesmente não pensar nisso.

TO BE CONTINUED...
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