quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Meu telefone nunca toca

Meu telefone que nunca toca,
E hoje outra vez não tocará.
Espero... esperançoso de que lembrarão,
Mas não, não hão de lembrar.

“Feliz aniversário” alguém me disse,
Mas que maluquice! Será isso mesmo q’eu ouviste?
Talvez sejam apenas lembranças de minha meninice...

E esse telefone que não toca, meu Deus?
E porque haveria se era isso que você queria!

Eu tentei. Sinceramente, juro que tentei,
Mas, nesse mundo, ninguém nunca quis me ver.
De todos que convivi jamais algum rejeitei,
E assim mesmo, de verdade, quem pude ter?

Se alguém puder me ouvir, me toque!
Qualquer palavra pode ser que me comove.
Por favor, me recorde, me recorde...

E esse telefone que não toca?
... quer deixar recado?
Não, eu espero...

Na sala, um sofá, a TV que nunca liga, o telefone que nunca toca e o silêncio perene. Para além da janela, lá fora, existe barulho, vida, pessoas. Orgia de palavras buzinadas. Um completo desperdício. Não entendem a sorte que os contempla com toda a ordem de sons humanos e, por essa razão, não sabem ouvir. Tolos que não dão o devido valor. São como ilhas cheias de vida que não se comunicam entre si, cada qual com a sua beleza e verdade transcendentais. Aquele alvoroço todo lá fora e aqui o silêncio mortal...

A noite estende-se rumorosa, mas não para mim. Parece tudo tão quieto que até posso ouvir as batucadas solitárias martelando meu peito. Eis que de repente o inesperado acontece: o telefone toca!

Será que dessa vez eu atendo?
Acho melhor não...
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