sexta-feira, 12 de julho de 2013

Sentimentos

Trago todos juntos
A sós comigo mesmo
Quero tudo do mundo
Mais eu ao mesmo tempo
Me sinto cheio, imenso
Porque, sem ter, te tenho
Porque eu amo, sem medo
Porque se vive vivendo
E amar não tem cabimento
Que será isso que anseio?
Busco o que não tem preço
Quero o que não tem jeito
Está num abraço, num beijo
Está num toque, num cheiro
Que sejamos felizes, eis o que desejo
Não pela metade, mas por inteiro
O que nos guarda o próximo momento?
Não há espaço para ressentimento
Nem temos tempo para arrependimento
Mas se às vezes canto tristes lamentos
Saiba que são lamentos de agradecimento
A vocês todos, meus mais puros sentimentos

terça-feira, 9 de julho de 2013

Nacionalismo

Instalem câmeras
Contratem vigias
Botem trancas
Escondam as famílias
É a horda de bárbaros
Que se avizinha
Preservem as tradições
Metam cadeados
Entre as pernas das gurias
Protejam as instituições
Cuidem de seus filhas
Nossos valores mais caros
Estão sendo ameaçados
Pela selvageria
De pretos, amarelos e pardos
Resguardem nosso estilo de vida
Ponham-nos encarcerados
Tragam a artilharia
Deportem-nos em barcos
Impeçam a travessia
Desses povos incivilizados
Vindos da periferia
Vindos de todos os lados
Avante, pátria querida
De punhos cerrados
De braços dados
Nós somos maioria
Eles minoria
Deus está do nosso lado
Louvada seja a nação
Cumpramos, então, a profecia
Em nome dos antepassados
Somos nós os escolhidos!

'Tamo junto

Quanto mais sozinho
Mais acompanhado
Meu copo não está vazio
Está cheio, abarrotado
Transborda por todos os lados
Quem bebe comigo, sabe
Só porque você não vê
O horizonte infindo
Que aos meus olhos se abre
Não significa que, sozinho
Falte-me a sua amizade
Você segue comigo
Na forma da humanidade
Então, eu faço um brinde
Ao tortuoso descaminho
Que trilham os coraçãos nascidos
No berço da saudade

domingo, 7 de julho de 2013

Domingo

Domingo é dia de ressaca
De ficar em casa
De bobeira
Sem fazer nada
Numa total pasmaceira
Com a boca cerrada
Sem emitir palavra
A mente embotada
Ouvindo besteira
Que vem da tevê ligada
O dia todo, a tarde inteira
Na estante da sala

Domingo é dia de descanso do gado
Que trabalha a semana toda qual condenado
Em troca dum mísero salário
Domingo é o dia do proletário
Onde patrão não mete os dentes
É dia que se tem pra gente
Mas que, necessário for
Se troca, se aluga ou se vende
Afinal, para o trabalhador
Sábado, domingo ou segunda
O dia é indiferente
Todo dia é dia de luta
E a semana sempre recomeça novamente

Se você viajou
O Domingo é a volta
Se você ficou
É o crepúsculo da bossa
E a véspera da fossa
Não existe domingo
Se você é da roça
Lá todo dia é de ofício
Sábado ou segunda
Pouco importa
É dia de sacrifício
Na lavra da terra bruta

Domingo é dia de ficar só
Pra quem é sozinho na vida
Pra quem vive no xilindró
É dia de aguardar visita
Se você é livre e tem família
É dia de almoço na casa da vó
Dê valor se você ainda tem uma
Se você já perdeu a sua
O domingo fica triste de dar dó

Um domingo qualquer

É domingo
Faço macarrão
Tomo vinho
Veja só, na taça!
Escuto Beatles
No vinil da sala
Tudo muito bom
Tudo muito massa
Só que não
Tô sozinho
E sozinho não tem graça

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Conjugando o amor

Eu me obrigo a acreditar
Que o amor existe e está vivo
Não apenas como substantivo,
Coisa concreta, com causa e efeito
Mas como o verbo amar
Não como objeto, passivo
Nem somente como sujeito
Com nome próprio e adjetivo
Amor é a ação de amar
Não precisa de complemento
É verbo intransitivo
Tem em si sentido completo
Que só existe em ato coletivo
Pois o amor, tal como o verbo,
Deve ser conjugado
E não pode ser flexionado
Senão com todos nós unidos
Eu, tu, elx, nós...

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Do cansaço

Eu faço de tudo
Mas nada dá certo
E me sinto um estúpido
Pois tudo eu desconserto

Vou fazendo de tudo
Isso quando eu faço
E me sinto absurdo
Por tudo fazer errado

Por fazer, resta tudo
E todo o resto é vão
Comigo ficam putos
Por nada fazer de bom

Fazer de tudo
É tudo quanto eu faço
Tento emendar, contudo
As merdas que fiz no passado

Fazendo de tudo
Nesta longa viagem
E deixo todos furibundos
Tamanha minha inabilidade

Há muito por fazer, muito
E me dá profundo cansaço
Ter de fazer de novo tudo
Já que sempre farei errado

Faço de novo tudo
De praxe, equivocado
Tento concertar neste mundo
Porque não há nada doutro lado

Do começo, de novo tudo
A persistência é o segredo
Talvez o erro seja fecundo
Pois é dele que vem o acerto

sábado, 8 de junho de 2013

Memórias do trapiche

Ao trapiche minha história está ligada
Velho trapiche

Que com as águas do mar bailava
Ah, se você o visse!

Como era belo o por do sol e a alvorada
Sentado no trapiche

Via-se o horizonte de água azul-esverdeada
E quando a noite caísse

Era a luz da lua que o véu rebrilhava
Dos tempos de meninice
Restou a imagem que a memória guarda
Que muita viva persiste

* * *

Cresci junto ao trapiche e às águas
Jungidos desde tempos ancestrais
Era o trampolim da molecada
Dedicada a aprimorar saltos mortais
Brincadeira que lavava a alma
Banhada no mar de águas vestais
Vivíamos mais no trapiche que em casa
Mergulhados em meio aos corais

Dele, ainda nas escuras madrugadas
Meu pai saia com a turma para pescar
Quando ele ao meio dia regressava
Encontrava-o de sorriso farto, sem pesar
E depois de um longo abraço apertado
Ajudava-os com o trabalho de descarregar
Era um mundaréu de peixe pra todo lado
E íamos todos satisfeitos para casa almoçar

* * *
Quantas gurias sem frescura não amei,
Misto de sexo e brincadeira
Encima daquele trapiche?

Ali, onde rangidos de madeira
Misturavam-se a gemidos de desejo
Sob a luz alva da lua cheia
A gente trocava carícias e beijos
E o trapiche virava a alcoviteira
Desses amores feitos sem jeito

[ainda por terminar]