domingo, 22 de julho de 2012

Ao sertanejo

Tem o semblante pesaroso e a tez vincada.
A camisa, mal-ajambrada, é um andrajo.
Leva rota uma douta figura de eleições passadas.
Na terra batida, hirta e seca, não nasce nada.
Capina a pedra dura, lavra o mísero e ocre chão.
Contra a enxada, a carne viva que a madeira lanha.
Na cabeça inerte, sonhos vem e vão, vãos.
De carapinha esgarçada, a mulher labuta na casa de taipa.
Revezando-se entre a panela e os filhos.
Tosse o dia todo, a pobre, está tísica.
Tem filhos, que não leem, não escrevem e não brincam.
Trabalham, desde cedo, sem tempo para ser criança.
Logo que andam, vão parar na diária lida.
O sol inclemente, pouco a pouco o rosto sulca.
Crepita o chão, tisna a pele, crispa a vida.
O casebre guarda um único solitário cômodo.
No traçado de graveto e argila, alegria pouca é muita.
Natal, páscoa, independência, é tudo o mesmo dia.
O açude secou, a macilenta vaca morreu.
A macaxeira não cresceu, e o próprio deus deu adeus.
A vida é curta, a morte é certa, e a lágrima é pouca.
Na cova rasa, um corpo parco, e na mesa menos uma boca.
Deixa sete filhos, a esposa, uma cabra e um cachorro.
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