terça-feira, 14 de outubro de 2008

O nascimento do amor

Pressupõe-se que houve um tempo, onde a ponta do começo de tudo nascia em seu seio e de lá se desenrolava para o infinito. É de onde provém a essência de tudo. De lá, tudo imana e para lá tudo converge. Por causa de sua natureza, é o tempo fora do tempo, de modo que não pode ser localizado segundo nosso sistema vulgar de classificação e medição do mesmo. Partimos, então, da premissa que ele existe, existiu e virá ainda a existir.


Certa feita, o universo estava entediado e, criança espevitada e astuta como era, resolveu achar algo com que pudesse entreter-se para passar o tempo. Olhou ao redor e reparou que tudo que havia de bom e de ruim vagava na imensidão negra do infinito, pulverizados em incontáveis partículas, quase como gotículas de água que, quando postas perto umas das outras, formam vapor d’água. Elas vagavam flutuantes pelo véu da noite eterna.


O universo teve a idéia então de juntar todas aquelas partículas num pequeno ponto. Fez força e mais força até que conseguiu coligá-las num único nó. Mas ele viu que um número impar era no mínimo tedioso e decidiu dar-lhe um par. Uma vez que tudo que existia no infinito estava naquele pequeno espaço, teve que cindi-lo em dois para que se formasse um par.


Achou graça vê-los assim tão juntos e tão separados ao mesmo tempo. E como se sabe, o universo se assemelha a uma criança solitária, com muita vontade de brincar e sem ninguém por perto para reprimi-la. Achou, enfim, que poderia fazer um joguinho com aquelas duas metades e, num único lance, lançou cada uma para lados opostos do infinito. Segundo a “lei da atração dos opostos que são a mesma coisa” (obviamente, uma lei que o próprio universo havia promulgado), esses dois pontos haveriam de se reencontrarem de alguma forma, e nessa busca entre eles que residia toda a razão da brincadeira.


Contudo, tem coisas que nem mesmo o universo consegue prever e, assim que as duas partes da totalidade foram separadas, elas começaram a chorar de saudades. Aos poucos, suas lágrimas espalharam-se por todo o infinito. Quando o universo se dera conta disso já era tarde: os dois haviam secado e, por fim, sumiram.


Ele ficou muito triste porque pensou que tinha perdido todas as coisas de bom e de ruim que existia vagando pelo infinito. Ora, o universo era uma criança cândida e inocente, que vivia sozinha e não tinha com quem conversar. Portanto, ele não era mau, era apenas carente. Sentiu-se culpado pelo o que acontecera.


Mas o universo não esperava o que estava para acontecer. As lágrimas se espalharam por todo o infinito e acabaram regando sementes que não conseguiam germinar. Uma dessas sementes foi a que deu origem aos seres humanos. É por essa razão que os homens e as mulheres desse mundo sentem-se incompletos, como se lhes faltassem uma metade. E passam toda a vida procurando a parte que lhes falta. Como cada parte só possui uma única correspondente, exatamente como um quebra-cabeça, eles experimentam peça por peça, ao longo de toda vida, esperançosos em preencher o vazio. Sofrem por isso, porque em sua maioria são mal-sucedidos. Mas aqueles raros abençoados que se encontram e se preenchem num único todo, enfim sentem que podem deixar esse mundo. E quando os dois morrem, seus sentimentos de felicidade espalham-se por todo o infinito levando esperança àquelas metades que ainda não se encontraram.
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