sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Ode à tristeza de uma pedra

Sou a tristeza em pessoa. As vezes parece que vou desfalecer. Todas as nossas lembranças ficam ressurgindo diante dos meus olhos. Até as lembranças mais dolorosas parecem felizes agora. É excruciante a dor de se ver quem se ama partir. Chega mesmo a tornar-se um flagelo físico. Pode-se sentir o coração inundado por concreto parar de bater aos poucos, sufocado contra o peito. A gente se deixa levar pelo sofrimento. Parece que nada mais importa; e, de fato, nesse momento nada mais importa, tanto é que a morte seria bem-vinda. Quando um ser parte o outro parte também. Eram apenas uma alma, agora são duas, de novo. Tanta luta, tanta força e coragem empreendida num amor, para dissolver tudo em segundos. Isso nos faz pensar na efemeridade das ações humanas. Tudo se vai. Deveríamos ir com elas, deixando-nos naufragar de bom grado juntamente com a nau que capitaneamos durante tanto tempo? Se pudéssemos ter alguma garantia, de qualquer coisa, viveríamos menos assolados pelo medo. Mas nada é firme o bastante para acreditarmos em sua perdurabilidade. Acaso não seria melhor tornarmo-nos fluidos como as coisas da vida e do mundo? Fluiríamos por aí, inertes à ação do tempo. Mas, não. Quedamos como rochas inamovíveis, tenaz o bastante para suportar o castigo infatigável das ondas, sem poder defender-se porém. Aos poucos a rocha é talhada. Mas de tal sorte tão lentamente, que precisaríamos viver um milhão de anos para aprender alguma coisa com o mar revolto. Essa é justamente uma simples verdade: mudamos e transmudamos a vida toda, contudo sem aprender coisa alguma. A morte vem nos buscar do jeito que fomos entregues à vida: sem nenhuma maturidade, sem nenhuma virtude, nem grandeza, nem beleza. Vida amargurada, cumulada de frustrações, camada sobre camada como o leito de um rio assoreado. Toda aquela vitalidade caudalosa da juventude acaba rasa na velhice, até que, enfim, seca. O que sobra é resignação. Será essa a tão falada maturidade, o realismo na maneira com que os mais velhos enfrentam a vida? Sem autocomplacência, isso ostenta em verdade o puro e simples conformismo. O conformismo de uma rocha, impávida, incapaz de amoldar-se ao movimento fluido das águas. Sem esse sentimento a vida seria mais venturosa. Mas isso tudo são lamentos, lamúrias tolas e infantis, e eu me desprezo por elas. Rigidez e dureza são qualidades necessárias a um caráter vil posto num mundo vil. Sejamos então como rochas, sem amor, somente tristeza dissimulada. Quem ri entre os outros chora pra si sozinho, maldizendo suas tristezas ao travesseiro amigo.